Em meados de 1973, Lili havia finalmente retornado à convivência cotidiana com sua família. Após a decisão da mãe, mudaram para a cidade. Meu irmão do meio havia feito sete anos, e estava na hora dele também ir para escola. Meu pai ficou no campo, lá era sua querência e seu lugar da lida campeira, da plantação de melancia e de milho. Assim passamos a ter uma vida alternada entre a cidade e os fins de semana na nossa morada em frente à fazenda
Na cidade nos sentíamos acolhidos, tínhamos tios e primos que moravam por perto. Com a mudança da tia Cisa para a capital, meu pai negociou a compra do chalé com o proprietário. A tia Jane ainda seguiu morando conosco por mais um bom tempo, trabalhava na escola estadual onde eu comecei minha jornada nos anos finais do primeiro grau, dois anos depois de nos instalarmos na rua principal da cidade. O chalé simples de portas e janelas verdes combinando com tom de amarelo claro das paredes parecia uma bandeira brasileira já bem gasta pelo tempo. Até aquele momento, ele vinha sendo habitado pelas minhas tias solteiras que trabalhavam na cidade.
O chalé era muito simples, com dois quartos, uma sala de estar, uma outra sala que servia de escritório para tia Jane, onde fazíamos nossas tarefas da escola, uma cozinha e um banheiro bem precário. Em frente ao banheiro uma peça que minha mãe usava como um depósito. Tínhamos luz e também uma televisão pequena preto e branco, geladeira elétrica e fogão à gás: muita modernidade e novidade na nossa vida urbana. A coisa mais bonita do chalé era o piso: tábuas largas de madeira, enceradas e lustradas quase todos dias. Minha mãe deslizava sobre elas usando pedaços de pelego sob os pés, era como se estivesse treinando passos de uma dança que só ela domimava.
O terreno da casa avançava até uma pequena plantação de cana de açúcar, que servia de alimento para as vacas de leite do seu Noé. Durante o dia, ficavam em um potreiro que se estendia até a rua detrás. Por ali ainda dava para cruzar uma cerca lateral, que limitava com pátio da casa do Tio Ruco, cortávamos o caminho para chegar a casa dele. Do lado direito, vizinhávamos com a dona Dinorá. Ela costurava e fazia minha saias, calças e blusas quando iniciei a vida escolar, no colégio estadual, que ainda chamávamos de ginásio. Na nova escola, a gente deixava de usar o avental branco com as letras iniciais do nome bordadas no bolso , uniforme que usávamos durante quatro anos no Grupo Escolar.
A sala que servia de escritório, tinha uma mesa no centro onde a tia Jane preparava as aulas de português, literatura e francês. De vez em quando eu ajudava a recortar as figuras para as aulas de francês. Ela fazia painéis para fixar ao lado quadro negro, figuras com os nomes em francês eram agrupadas por temas: frutas, roupas, objetos da escola, entre outros. Morar com ela me abriu para o mundo da palavra e da leitura, passei a ler todos livros de literatura disponíveis. Ela só não me permitiu ler o Crime do Padre Amaro, mantido na parte fechada à chave da estante. Passei anos rondando o livro, as proibições nunca combinavam com Lili.
A rotina ia se ajustando aos poucos. Eu dividia o quarto com a tia Jane, e meus irmãos com minha mãe. Começamos a nos encantar com filmes e os desenhos animados na TV. Minha mãe agora tinha mais tempo para seus bordados, as novelas voltaram para sua vida e plantou algumas dálias no corredor ao lado da casa, na divisa com o terreno da dona Dinorá. Deixou a recorrida das galinhas no final da tarde e a rotina de alimentar os tantos bichos domésticos no encargo do meu pai. Mas toda sexta-feira à tarde tomava um ônibus cheia de sacolas e voltava para nossa casa no campo. Dividia seus afazeres domésticos entre duas vidas e duas casas.
A cidade foi nos trazendo novos hábitos e descobertas. Meu irmão do meio passou a achar o pão da minha mãe sem sabor, bom mesmo eram os pães da padaria do seu Darci e da dona Marisa: grandes baguetes de pão d'agua, o pão cabrito, com suas duas partes sobrepostas, de massa macia e amanteigada e ainda o pão doce sovado e brilhoso com pequenos cortes que lhe davam um ar de sofisticação. Os pães eram embalados com finas folhas de papel branco, dona Marisa as torcia nas pontas levemente para assim amarrar a embalagem. Não haviam sacos nem sacolas plásticas.
O produto preferido e mais famoso da Padaria São Vicente eram os biscoitinhos mignon, tal como nome refere, pequenos biscoitinhos crocantes de massa salgada, que inclusive levávamos em porções para a merenda na escola. Já o famoso biscoitão, a versão exagerada do tal biscoitinho, meu pai costumava comprar um saco grande para os dias de campereada, servia como acompanhamento do churrasco. Duravam dias se bem acondicionados.
Como mais velha, passei a ser a mandalete da casa, ou seja, fazia as compras eventuais no armazém Encantado do seu Adão. Depois passamos a ter cardeneta mensal para as compras no armazém do seu Darci Fragoso, pai das minhas duas novas amigas, Jeane e Jussimara, vindas do Cavajuretã, e agora nossas colegas no ginásio. No mercadinho, comprávamos café, açúcar, farinha, lâmpadas até linhas e tecidos para costura. O verdadeiro armazém de secos & molhados.
Lili se comunicava bem com todos, já dominava os trajetos da cidade e passou a colaborar com a compra diária do pão para as vizinhas, religiosamente no meio da tarde. Em casa comprávamos pão da padaria depois que já não tínhamos o feito pela minha mãe. Eu vinha da padaria distrinuindo as encomendas, o nosso pão dágua vinha acomodado debaixo do braço, já com bico rasgado, não me continha em tirar um naco e saborear o pão quentinho. Rasgar pão já era meu hábito, fazia o mesmo com os fabricados pela minha mãe, o que ela detestava. Aquela tarefa de comprar e entregar pão era prazerosa, eu conhecia as pessoas, seus jeitos, seus olhares, suas expectativas. O campo me deu o ponto de observação sobre a natureza, e eu ia alargando-o em relação às pessoas na nova vida urbana.
Nesta mesma época, meu vô Joãozinho havia se mudado para a cidade. Comprou uma chácara quase dentro do perímetro urbano. Desgostoso com o suicídio da filha Cristina e com dinheiro de uma safra excepcional de arroz, comprou uma chácara e ali se instalou. Passou um lomgo tempo arrumando o lugar. Construiu um bom chalé para a vinda definitiva da vó Xiruca e dos filhos mais jovens que seguiam morando com a família, vieram todos na cidade. Lili via nos seus olhos a tristeza que lhe abatia, andava de olhar baixo. Os olhos verdes azulados tão vibrantes se tornaram opacos e vagos. Colocava as horas do dia no cuidado com a horta, e o que produzia, vendia para ajudar nas despesas. Algumas vacas de leite no grande terreno, que depois também ajudaram minha vó no sustento da família com a venda de leite, quando ele faleceu.
Eu atravessava pelo terreno dos fundos da nossa casa até chegar à rua detrás. Andava mais uns metros e entrava por um campinho ao lado da antiga residência do doutor D`Avila. Eu sabia que ia dar nos fundos da nova chácara do vô Joãozinho. Fazia isso fugida da minha mãe, porque eu tinha uns onze anos e me metia por meio de terrenos desconhecidos, sem medo. A ingenuidade de Lili era acreditar que campo e cidade tinham a mesma segurança, uma liberdade de se mover sem temor, movida apenas pelo desejo de desvendar lugares desconhecidos.
Meu avô só resmungava me olhando espantado: o que tá fazendo aí guria? Eu dava uma resposta qualquer e ia vasculhar a horta e as peças já se desmanchando da casa velha. Ele era calado e eu, curiosa demais. Bombardeava-o de perguntas. Ele respondia monossilábico mascando um palheiro. Misturava algumas palavras em alemão bem baixinho, quase um sussurro. O alemão vinha nele nas horas mais profundas, sua língua materna era o refúgio das suas emoções. Estávamos todos nos deslocando, aprendendo administrar um novo modo de levar a vida. No entanto, Lili sentia que ele seguia deslocado, mergulhado no silêncio de uma tristeza sem fim.
Lili estava bem adaptada às rotinas da vida na cidade. Saia na frente quando ia à escola com o irmão do meio, guiando-o, mas nunca junto dele, afinal era ela quem ali sabia das coisas da cidade. Meus irmãos estavam divididos entre o novo que a cidade apresentava e a saudade da casa lá fora, sentiam falta da largueza do campo. O menor chorava de saudade do meu pai, era acostumado dormir junto com ele antes de ser colocado na sua cama no nosso quarto. Uma vez por semana, pelo menos, meu pai vinha de fora na charrete amarela, acomodava o veículo na entrada lateral, descarregava alguns mantimentos: ovos, frutas, batata, mandioca, moranga. Almoçava conosco, enquanto o Tarugo descansava, bebia uma água e esperava meu pai dar a ordem de retorno. Nestas vindas, seguidamente, levava meu irmão menor de volta para o campo. Cerca de um ano depois, ele entrou no jardim de infância e começou a fazer amigos. A cidade foi ficando aprazível para todos, mas sem diminuir sentimento que nos fazia pertencer ao campo: o apego telúrico.