segunda-feira, 19 de julho de 2021

Sapato vermelho de verniz

Por muito tempo Lili foi a única neta dos avós paternos, era absoluta no seu reinado. Meu pai se casou jovem e como era um dos filhos mais velhos, as tantas tias e tios que eu tinha foram casando e tendo filhos quando eu já estava com mais de dez anos. Assim, eu e meus irmãos gozamos felizes da temporada de primeiros netos do vô Joãozinho e da vó Xiruca. Todo ano havia um casamento e uma festa na família, algumas eram na casa da chácara, outras eram nas famílias dos noivos e noivas. Nestas bodas familiares sempre havia uma quantidade de comidas deliciosas, cheiros bons, fartura de assados e sem faltar obviamente os maravilhosos doces feitos pelas mulheres habilidosas da família: ambrosias, pudins, tortas, doces de figo e abóbora em calda, entre outros. 

Cada casamento em que a festa era na chácara, tudo era preparado de véspera. As carnes do churrasco, as de porco para o assado e as de galinha para o risoto. Cedo da manhã eram colocadas no forno de barro e, nos panelões sobre o fogão à lenha, além das batatas e mandiocas, preparava-se também o caldo para o risoto. As saladas eram uma abundância de verdes colhidos na horta, verduras e legumes variados, que haviam sido cuidadosamente plantados e cuidados pelo meu avô. A horta da chácara parecia um lugar sagrado onde ele, no seu jeito calado e severo limpava, regava e cuidava dos canteiros bem perfilados e repletos de mudas, enquanto tragava seu cigarro de palha. 

Nestas ocasiões festivas, sentia-se logo na chegada ao pátio, o cheiro da fumaça de um fogo armado no chão e sobre ele um caldeirão de ferro de onde vinha aquele aroma de temperos e carne: era o cheiro do caldo do risoto inigualável que minhas tias faziam. Lá estavam elas, de avental e lenço no cabelo, mexendo aquele caldeirão com uma pá de madeira  para cozinhar por igual todo aquele arroz. Elas se divertiam nesta tarefa, riam de tudo, o tempero desse risoto vinha misturado com alegria e prazer, o que dava o toque final naquele momento festivo que envolvia toda a família no preparo das comidas da festa, na arrumação da casa e das mesas para o almoço debaixo das árvores, enfeitadas com vasos de flores do jardim da minha vó. 

O primeiro casamento que Lili assistiu, gerou muita expectativa, pois aos seis anos a ideia do que era uma cerimônia de casamento povoava o mundo da Lili. E foi justo o casamento do tio Ruco que fez explodir nela uma quantidade de emoções e sentimentos, ainda desconhecidos no mundo de uma menina que vivia no campo. Madrugamos na fazenda com o rebuliço e arrumação das mulheres, com os rolos no cabelo para ajeitar o penteado, as roupas bem passadas e a maquiagem adequada para aquele momento. Vó Cinda como sempre muito nervosa com compromissos de tal grandeza, em especial, porque era seu filho mais jovem, apegado à casa, à ela e à vida da fazenda, que estava se casando. Lili sentia toda uma emoção nova, era seu dia de vestido de festa: vestido branco de tecido leve, na altura do ombro uma transparência que dava-lhe delicadeza, muito apropriado para o calor escaldante do mês de fevereiro, era pura harmonia com as delicadas sandálias brancas que eu calçava. 

Neste dia, coube ao tio Cláudio levar todas as crianças na Kombi bicolor, a excitação da criançada era notada pelas muitas conversas e burburinhos na curta viagem até igreja matriz da cidade. A noiva vestida com muita elegância e beleza, chamava atenção para seu véu, adornado com fios delicadamente torcidos que desciam do alto da cabeça, era diferente e moderno, moldava seu rosto de traços marcantes e bonitos. Eu a admirava com encantamento, embora já tivesse me dado conta que não seria eu a aia do casamento do meu tio Ruco. Descobri que era muita honra ser escolhida para papel de aia de casamento, mas logo baixei a cabeça para que não vissem meus olhos quase explodindo em lágrimas e para esconder minha breve vergonha pelo ciúme que senti da menina que cumpriria este papel. Na hora da fotografia com os noivos e sobrinhos me postei frente à noiva para reivindicar o lugar de aia, ainda que por um instante.

Realizei o sonho de ser aia na cerimônia de casamento da tia Janina, primeira tia que se casou depois do meu pai. Era inverno e chegamos cedo na capela onde se realizaria a celebração, em uma pequena igreja localizada no interior de Jaguari. Como tudo naqueles anos setenta, as cores da igreja eram naquele azul turquesa igual aos armários da cozinha da casa da fazenda. Decorada com flores do jardim da chácara da família do noivo, a beleza simples daquela igreja combinava com a simplicidade das bodas realizadas no campo. Lili vestiu-se com roupas mais simples e claro mais quentes, o dia estava muito frio. Minha mãe comprou um lindo sapato de verniz vermelho, bem sobre o pé haviam pequenas flores feitas com furinhos no próprio couro, a cor do sapato combinava com vestido de lã xadrez escocês vermelho e azul-marinho, e completava essa combinação, as meias brancas de renda. O sapato vermelho de verniz me deslumbrava, era a coisa mais bonita que eu tinha naquela idade.

Enfim havia chegado meu dia de estreia como aia, me comportei e cumpri bem minha honrada tarefa. Como na casa dos meus avós paternos, na festa do casamento havia abundância de comidas e doces e se estendeu até o meio da tarde, quando sol já ia se indo e o frio voltava com força. Nas brincadeiras com as crianças, Lili fez um pequeno risco no seu sapato vermelho de verniz, ficou chorosa. Mas outras festas haveriam de acontecer, só não sabia se novamente como aia de casamento. Um dia, veio um convite para outro casamento, minha mãe e eu retiramos o famoso sapato de festa para lustrar o tal risco que eu havia feito naquele dia. Descobri, então, que ele já não me servia. Corriam lágrimas pelo meu rostro pela falta de oportunidade de uma menina do campo de usar seu sapato de festa mais vezes, usá-lo foi daquelas coisas raras da vida. Só foi um dia de aia e um dia só com meu lindo sapato vermelho verniz.   

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Chá de cidreira

Meu tio Ruco era o penúltimo dos oito filhos da vó Cinda e do vô Alberto. Ouvia várias vezes a história de que meu avô sentiu muito a falta dele quando meu tio teve de sair da fazenda para estudar, foi viver em uma pensão em Jaguari. Era um guri manso, sensível e um tanto distraído. Foi difícil para ele sair do aconchego da família ainda tão menino. Dizem que chorava muito de saudade e pela distância do campo. 

Lili recordava dele como a imagem de um tio adulto, de sorriso manso e amoroso. Todas as tardes, quando ele estava na casa da fazenda, tinha a hora do chá com biscoitos ou bolachas. O cheiro do chá de cidreira invadia a cozinha no meio da tarde. Ele sentava na lateral da mesa, naqueles bancos azul-turquesa igual a cor do armário da cozinha onde eram guardadas as latas com as famosas roscas de nata feitas pela minha avó e minha mãe. Colocava uma das latas sobre a mesa e arrumava um espaço para me colocar sentada bem ao lado dele e, enquanto colocava um boa porção de açúcar no chá, para logo sorvê-lo vagarosamente, ia me fornecendo pequenos pedaços de bolachas. Era um ritual de amorosidade que era tal qual a doçura daquele tio. Dele recebi o apelido de Lili, dizia que combinava comigo por eu ser tão pequena, de cabelos loiros e encaracolados nas pontas e com bochechas sempre rosadas: uma pequena Lili.

O laço que nos aproximava foi sendo bem amarrado pelos colos que eu recebia seguidamente. Ele me carregava pelo pátio, me trazia balas, tocava com a mão sobre a minha cabeça cada vez que eu passava por ele. Tudo que lembro dele é coberto de gestos de afeto, era aquele sorriso tímido que misturava um certo jeito reservado com timidez e mansidão. O tempo para ele parecia mais devagar. Era diferente do meu tio mais velho, que era agitado e cheio de rompantes. E também bem longe da inquietude e pressa características das minhas tias. Era o oposto, em muito se afinava com meu pai, foi por esta razão que depositei confiança em toda minha amorosidade por ele. Minha mãe, com quem ele era muito apegado, percebeu este laço que construímos e delegou a ele me levar para estudar. Então fui morar  na cidade com ele, minha tia Tânea e um bebê que estava por chegar.

Entrar na escola foi um divisor de águas, me jogou da vida no campo para a vida na cidade, aprendi novas rotinas por causa do colégio: assistir às aulas, fazer os temas, cuidar do uniforme e estudar bastante. Nesses desafios lembro, ainda que vagamente, dele me acompanhar no horário de fazer os temas, me auxiliava com as contas de matemática. Se minha mãe ou meu pai não vinham me buscar na sexta-feira, ele me levava de ônibus no sábado, dia que ele se dedicava a cuidar das ovelhas da fazenda junto com meu pai. Ele parecia combinar perfeitamente com aquele rebanho de ovelhas, elas eram pacatas e ele cuidava delas no mesmo ritmo. Raramente se via ele irritado ou bravo, ficava ainda mais calado quando não gostava de alguma coisa, muita das vezes preferia se recolher. 

Meu tio Ruco comprou um fusca, o carro possibilitava que ele em alguns dias da semana fosse à fazenda, em geral no final da tarde, para curar as ovelhas, revisar o rebanho com meu pai, dar uma olhada na minha vó e tomar um mate com eles. O fusca era de um cor muito difícil de definir, nem marrom, nem amarelo, um cor que costumávamos identificar como de "burro quando foge". 

Fusca era o carro do momento, quem podia comprar um carro preferia o fusca e a cidade foi sendo invadida por fuscas de várias cores: o fusca vermelho do Seu Adalberto Cony, escolhido a dedo por causa do time favorito, era um colorado fanático;  o fusca azul claro do professor Eugênio, nosso professor de inglês da oitava série, um italiano grande, com um tom muito exigente, imponente quando lia os textos em inglês. Qualquer pergunta desconcertante que fazíamos subia um rubor intenso no seu rostro e pescoço, por causa disso, a gurizada o apelidou de peru. Ele estacionava o fusca bem em frente à escada da entrada da escola, saia sempre muito apressado, ou para dar aula na Escola da Coqueiros, bem ao lado da igreja luterana, ou para retornar para Jaguari onde morava; o fusca branco da professora Lina, nossa simpática e amorosa professora de artes, no caso dela, o fusca ficava estacionado do outro lado da rua, em frente da casa do Vito, meu colega desde a primeira série, e do pequeno estúdio de fotografia do Seu Olívio; o fusca verde do padre Cargin, estava sempre estacionado na rua lateral da escola, bem na descida, para facilitar o arranque. Ali o fusca dele era alvo das traquinagens dos guris, esvaziavam os pneus do fusca do pobre do padre, sem contar o boato que se espalhava pela cidade de que o fusca estacionado ali, era mesmo um disfarce, porque na verdade o padre descia em direção à casa da tia Ney, a famosa casa de prostituição da cidade, localizada logo mais abaixo na rua, lá onde iniciava a estrada de chão batido. No fusca verde, o padre Cargnin fazia suas viagens de exploração paleontológica e arqueológica, vivia subindo nos cerros do Loreto realizando suas escavações em busca de fósseis e vestígios arqueológicos. E, claro, não se pode esquecer do fusca mais famoso da cidade, a fama era mais pelo motorista do que pelo carro, o fusca branco do seu Carlito Gabriel, vizinho do meu vô Joãozinho. Cada passagem do Seu Carlito pela cidade era uma aventura na certa. Nas esquinas, ele apertava com força a buzina apressando quem pudesse cruzar o caminho, carro ou pessoa, colocava a cabeça para fora da janela e gritava: "pobre, sai do caminho", este era um dos xingamentos para quem parava o carro na frente do seu fusca e atrapalhava ele de seguir caminho. No fusca cabia de tudo: melancias, sacos de sementes, seu rádio, cuia e térmica de chimarrão. 

No fusca do tio Ruco, Lili fez visitas ao interior do município. Era época de eleição, eu não entendia muito bem como ele podia ser candidato a vereador, calado como era e com certeza sem talento e preparo para discursos e promessas, mas era com certeza gente boa, estava estampado na cara nele. Eu me divertia com essas viagens, valia uma visita na fazenda do seu Antero e de dona Madalena Xavier para comer doces em calda e as famosas rapadurinhas de leite, além é claro de brincar com as meninas. Tempos depois, a filha mais nova, a Cristina, foi minha colega na quinta série. Dona Madalena teve uma loja na cidade, lá minha vó comprou o último presente de aniversário que ela me deu. Eu escolhi na vitrine da loja uma pulseira de prata, feita com argolas minúsculas, que se encaixavam como uma mola, minha primeira pulseira. Tio Ruco sempre fazia uma parada na fazenda, na ida ou na volta, quando fazia viagens rápidas a Jaguari. Mal ele apontava na porteira, eu corria para o tanque no pátio da parreira, lavava os pés, colocava um chinelinho de borracha, ajeitava o cabelo e pulava para dentro do fusca. Eu me fazia de companhia para ele, nem saia de dentro do carro, estava ali só pelo passeio e por aquele momento silencioso, só sentindo o vento morno entrando pela janela. 

Meu tio Ruco morreu jovem, justo em um acidente com aquele fusca de cor estranha. Todas as lembranças que tenho dele, centram-se em um sorriso manso, nas falas espirituosas e nas conclusões certeiras sobre certos assuntos, sempre depois de um longo tempo de escuta e observação. Ele foi breve nesta vida, uma brisa calma e calorosa que passou por nós. Todo chá de cidreira que tomo, vem junto uma calma no meu coração e lembro do seu sorriso tímido e doce.

sábado, 5 de junho de 2021

As matriarcas.

Lili conheceu as bisavós através dos relatos da família. Por muito tempo, as memórias trazidas nas falas da mãe e das tias maternas e paternas despertaram na Lili uma inexplicável curiosidade a respeito do trajeto de vida das suas bisavós. Lembranças que iam costurando uma narrativa cheia de dores, trabalho, resignação, detalhes oferecidos pelo testemunho das suas avós que as conheceram. Lili foi assim criando histórias de vida de outros tempos, tomada por uma espécie de encanto pelo passado das bisavós, tão cheio de lapsos, imprecisões e imagens que iam se reconstruindo pelas vozes das mulheres da família. 

Minhas duas avós perderam suas mães ainda meninas e muito pouco se comentava sobre elas nas conversas familiares. Por outro lado, duas matriarcas na figura das minhas bisavós  Carolina e Lídia, mães de seus maridos, se apresentavam com força e vitalidade nos relatos que eu escutava nas tardes de conversas junto à maquina de costura ou, à noite, logo depois do jantar na casa da vó Cinda. Na casa da vó Xiruca, as conversas foram movidas pelo meu desejo de conhecer vó Carolina, pois gostava do seu nome e fui descobrir sobre sua vida só na minha adolescência. Eu costumava visitar seguidamente a Vó Xiruca depois que ela foi morar na cidade, em uma antiga chácara que meu avô comprou nos anos 70.A casa era um chalé, que de tempos em tempos, a pintura variava entre a cor azul, outras vezes, a verde, e tinha como sempre um jardim e horta muito caprichados. Meu desejo de conhecer mais sobre família me fazia bombardeá-la de perguntas, que ela respondida no tempo dela, era um aprendizado de paciência ouvi-la. Eu sempre notava que em cada conversa com minhas avós, as recordações se tornavam muito vivas, pareciam movidas pela intensidade das saudades e da admiração que elas tinham por minhas bisavós. Absorvidas nestas estórias, Lili tentava montar o quebra-cabeça familiar se perguntando de onde elas tinham vindo? Como chegaram até ali? viviam no interior do município e como que, por obra do destino, tornaram-se vizinhas rurais? 

Vó Carolina era uma imigrante vinda da região do vasto território austro-húngaro, filha mais velha de Estefan e Anna Cristina. Com cerca de seis anos fez a longa travessia rumo a América e, além dos pais, veio também acompanhada do irmão mais novo, e várias outras famílias com crianças como ela. Montaram seu barraco em terras destinadas aos imigrantes no interior do Uruguai, na região do Rio Negro. Nesta localidade iniciaram uma nova vida, nasceram mais três dos seus irmãos e também ali conheceu a família do meu avô Antônio. Chegaram a essas terras por volta de 1890, e pelo que dizem alguns registros, oriundos da Bucovina, uma região de fronteira entre a Ucrânia e a Romênia. Anos mais tarde, na virada do século, algumas famílias desses imigrantes tomaram o rumo em direção ao Brasil e ocuparam terras devolutas na zona rural de São Vicente. Foi assim que as famílias do meu bisavô Antônio e minha bisavó Carolina chegaram nos campos onde se estabeleceram e sobreviveram da agricultura e de alguns afazeres e técnicas que dominavam, conhecimento que traziam das experiências e dos aprendizados de vida das suas famílias na Europa Oriental. Casaram-se jovens, minha bisavó Carolina se dedicava aos afazeres domésticos, dizem que com grande capricho e meu bisavô Antônio à carpintaria. Passaram dificuldades para se estabelecerem e criarem uns quantos filhos, que à medida que se tornavam adultos saiam para trabalhar em outros lugares. Minha bisavó Carolina resistia bravamente às dores nas articulações e às consequências de uma doença que a paralisava. Com a perda da mobilidade e avanço da enfermidade de que tanto padecia, meus avós João e Xiruca, com poucos anos de casados, mudaram-se do Umbú para a chácara dos meus bisavós, especialmente, para cuidar da vó Carolina. Ela morreu uns quatro anos depois e ele nunca mais foi o mesmo, se entregou para bebida e vivia na oficina de carpintaria na sua solidão.

Lili lembra que na chácara onde nasceu seu pai, havia um galpão rústico de madeira, sem pintura, com uma varanda onde tinham empilhadas lenhas, madeiras, ferramentas penduradas nas tábuas das paredes e, pelos cantos, os tornos nos quais o bisavô Antônio trabalhou para sustentar a família. Era homem da arte da madeira, então meu avô Joãozinho se dedicou ao cultivo do arroz nas terras da família. As dores e os ensinamentos da bisavó Carolina ficaram na memória da minha avó, sua nora, que se dedicou tanto a cuidá-la, na época em que já tinha de dar conta de quatro filhos pequenos. Com ela, vó Xiruca aprendeu a fazer uma comida que conheceram como "galush", uma trouxinha feita com folha de couve cozida, recheada com arroz feito junto com várias carnes, bem temperado. Contava a vó que este prato se comia nas festas de casamento das famílias desses imigrantes.  

Minha outra bisavó, que conheci como Vozinha, era uma descendente de portugueses, ou talvez de espanhóis, e viveu muito. Morreu com 98 anos depois de fraturar uma perna, ainda que tenha durado um bom tempo pelo cuidado incansável da minha vó Cinda, da minha mãe e das minhas tias. Dela quase nada se conhecia de onde teria vindo, o passado de sua família até antes de casar como meu bisavô Alfredo. Conhecíamos a Tia Idalina, sua irmã que morava na fazenda e Bentoca, seu irmão mais novo, moço de olhos muito claros, diferente dela que tinha feições mais amorenadas e um ar de seriedade constante, era o que as fotos diziam a Lili quando mirava os retratos da bisa Lídia na parede da sala. Deu a um dos seus filhos o nome do seu pai, Bento, mas parece não ter tido coragem de dar o nome de sua mãe a uma das suas três filhas, Sinforosa. Lili girava entorno da mesma pergunta: de onde teria vindo ela? O que sabíamos  era o que nos contavam a partir daquela famosa caixa dourada, com a fotografia de duas mulheres, encaixada em um fundo de veludo. Era um retrato antigo, provavelmente, de meados do Século XIX e a caixa era guardada e, muito bem escondida, no guarda-roupa da vó Cinda, pois ela a cuidava como uma prova do passado da família. As mulheres do retrato eram a mãe e a avó da bisa Lídia: a quarta e quinta geração antes de mim. 

A bisa Lídia tinha uma vida confortável, uma casa na fazenda com empregados para as tarefas do pátio, do campo e da lavoura. Entre as estórias contadas é que Sinhá Maria, que cuidava dos afazeres domésticos, era filha de escrava. Era uma mulher de poucos sorrisos, mas de bom coração, sobretudo, com os netos, os protegia das represálias do meu avô e dos chinelos da minha vó Cinda. Maior prova desse amor foi ter criado os netos quando sua nora adoeceu gravemente por uma depressão profunda após o parto do filho mais novo e, especialmente, quando acolheu os filhos da tia Santinha, falecida aos 39 anos. Quando suas netas ficaram adolescentes e a escola em São Vicente se estendeu até depois do 4º ano, foi morar uma temporada na cidade para que elas pudessem seguir estudando. A casa da fazenda sempre estava repleta de visitas, e minha vó Cinda cuidava de garantir o bem servir e o bem hospedar os parentes da vozinha. As caixas guardadas nos gavetões dos roupeiros e nos baús dão prova de que ela tinha parentes próximos em outras paragens, pois ela recebia fotos, postais e cartas de primos e sobrinhos de muito longe. O retrato da caixa dourada parece ter sido feito em um estúdio em Pelotas, a existência dele me provocava milhares de hipóteses de que ela teria vindo dessas bandas do Sul. Seu lugar de origem eram peças soltas que Lili buscava encaixar, recompondo estórias pelas vozes das mulheres da família. Como ela, aprendi o gosto por uma varrida de pátio, passou esta prática para minha mãe e por sua vez, a recebi como uma herança simbólica da sua existência no meu passado. 

Minhas avós foram responsáveis por construírem uma narrativa sobre a personalidade dessas mulheres. suas sogras. A dúvida que ficou lá atrás, muito antes de eu ser a bisneta delas, é se um dia elas chegaram a se conhecer. Chegaram naquelas terras quase na mesma época, vindas de tão longe, formaram suas famílias, uma com ares de quem usufruía de certos confortos, a outra sofrida desde pequena fugindo de conflitos e guerras, para ter uma vida mais digna. E ambas viveram toda uma vida separadas apenas pelo arroio da Divisa e do Salso. 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Os segredos dos baús

Em cada quarto da casa da fazenda havia um baú onde se guardavam normalmente cobertores, colchas pesadas e mantas. Embora alguns desses baús fossem, na verdade, antigas malas de madeira arrematadas com faixas de couro e tampas com dobradiças, conhecíamos como baús. Na reforma da casa essas malas-baús foram restauradas, forradas com papéis de estampas delicadas, ou com papel contact imitando cor de madeira. Eles foram pintados e renovados para que se pudesse guardar dentro deles as roupas de cama, sobretudo, as cobertas de uso da família. Em umas das suas férias de verão, Lili e os primos acompanharam e auxiliaram tia Nira e tia Jane no dedicado trabalho de restauro dos móveis da casa, etapa final da grande reforma da casa no final dos anos 60.

No quarto da vó Cinda, o baú tinha outra finalidade: era lugar de guardar as memórias da família, lá ficavam o álbum marrom de couro com suas folhas duras de cor cinza escuro, iguais as de um cartão, separadas por um fino papel de seda que protegiam as fotos preto e branco, dispostas e fixadas por elegantes cantoneiras escuras. Na parte da frente do álbum, havia um espaço destinado para um retrato, e a honra coube ao meu tio Ruco, uma foto dele jovem e lindo, posando de terno escuro e gravata borboleta. Um álbum de fotografia era uma relíquia familiar, talvez por isso fosse muito bem guardado dentro um caixa no interior do móvel. No baú ainda eram guardadas caixas de camisa com documentos, com cartas dos parentes, lembranças de festas e santinhos com convites de missa de sétimo dia, além dessas caixas, haviam outras com amostras de crochê e também uma cheia de folhas com modelos de desenhos para bordar, os chamados riscos de bordado. 

Durante o período de internato no Colégio de Irmãs de Jaguari, minha mãe e minhas tias aprenderam, ainda meninas, a bordar toalhas e lençóis com maestria. Os riscos de bordado formavam álbuns repletos de desenhos de buquês de rosas, cravos, papoulas; guirlandas ornamentadas com profusão de flores e arabescos e cornucópias explodindo flores do campo. Esses álbuns de riscados à lápis sobre papel de seda proporcionavam um exercício de desenho para Lili, que os copiava colocando sobre eles outro papel de seda, e assim movimentada agilmente as mãos refinando sua motricidade, fascinada pela beleza dos traçados riscos e das composições desenhadas para os bordados. O baú do quarto da vó Cinda era aberto seguidamente para se buscar essas amostras de crochê, os tais riscos de bordados, ou por ocasião de uma visita, ou então por simples curiosidade, em que olhávamos o álbum para o reconhecimento de algum parente. Ali ficavam presas muitas lembranças do passado, receitas das artes manuais da vó e das mulheres da família, e claro, segredos escondidos, perdidos em meio daquelas cartas, fotos e objetos, no enorme quebra-cabeça a partir do qual se podia armar a história familiar.    

Mas baú de verdade, era o do antigo quarto dos meus avós que foi usado pela vó Cinda até o início da sua viuvez. Daí pra frente, passou a ser quarto das filhas casadas quando vinham visitá-la. Era o quarto do meio, ficava entre a sala de estar e grande sala de jantar. Tinha uma janela grande que dava para o jardim, de onde se podia ver os reflexos do primeiro facho de luz do sol nascente, batendo lentamente sobre o tronco do velho pé de camélia. O quarto mais requintado da casa tinha móveis de madeira finamente decorados, com detalhes em baixo relevo, contornos feitos com riscos leves de uma decoração com ares neoclássico. A penteadeira ficava em um dos lados da cama, com seu espelho de cristal, tampo de mármore branco e prateleiras estreitas localizadas entre o espelho e o tampo, nas quais se apoiavam os castiçais de velas, além de alguns potes de creme. Enfeitava-se o centro do tampo de mármore com um porta-joias de porcelana e um guardanapo feito com linha mercê crochê, a famosa linha ultrafina com que se faziam conjuntos de guardanapos, que mais se pareciam a rendas finas e delicadas, por isso eram apropriados para decorar uma penteadeira. Do outro lado da cama, havia uma mesa de cabeceira alta, onde se colocava, providencialmente, uma lanterna. Na parede em frente à cama de madeira com sua cabeceira ampla, estava o guarda-roupa e, ao lado dele, um baú grande na forma de arca, forrado com um plástico escuro e grosso que lembrava a textura de um couro, em toda volta do móvel haviam barras de madeira, presas com tachas de metal, amarrando as partes que então compunham a grande arca, o famoso baú do enxoval da tia Santinha.

Lili conhecia tia Santinha pela presença imponente daquela arca, o baú em que cabiam muitas cobertas e muitas histórias. Tia Santinha era irmã do meu avô Alberto e casou-se com um negociador de gado vindo de muito longe, de Minas Gerais. Jovem, bonito e elegante, usava roupas de boa qualidade, e com pinta de quem tinha posses, o tal rapaz buscava uma moça para se casar e foi informado por um fazendeiro da vizinhança, que lá na fazenda do meu bisavô Alfredo morava uma moça muito linda. Chegou a cavalo à fazenda, garboso e com novidades de outras bandas, logo se encantou pela tia Santinha, comprovou que de fato ela era uma jovem muito bonita e delicada. Ela então apressou-se em providenciar seu enxoval, que coube todo no baú, nele também eram guardadas as relíquias do noivo: todos os complementos de prata do conjunto de arreios que usava para montaria. Casaram-se e partiram para estabelecer moradia em Cruz Alta,  e lá, posteriormente, abriram uma pensão. Dele, também ficou de lembrança na fazenda um pé de coqueiro, plantado bem no meio da mangueira das vacas mansas, chamava-se assim porque ali se encerravam as vacas para a ordenha.  

Tia Santinha morreu antes do quarenta anos e seu marido, aquele jovem garboso e dado a negócios instáveis, partiu antes dela. Os filhos foram acolhidos por sua mãe, minha bisavó Lídia, de quem ela havia recebido o nome de batismo. E o baú na forma de grande arca voltou para fazenda. Décadas depois, quando Lili era muito pequena, o baú era um móvel intocável, quase nunca era aberto, vez e outra era aberto para arejar e receber um pouco de sol. Ali dentro, havia agora outro enxoval, composto de lençóis, toalhas, conjunto de guardanapos, colchas, tudo ricamente bordado com esmero e afeto inclusive nos monogramas, uma assinatura dos noivos com suas iniciais L&M entrelaçadas, que identificavam aquelas peças adormecidas por longos anos dentro do baú. Ele, então, nesta época, passou a servir apenas para guardar o enxoval de um casamento que não se realizou.

domingo, 2 de maio de 2021

O Tempo e as canções

Uma área localizada quase em frente ao poço facilitava a entrada para interior da casa de quem vinha pela calçada dos fundos. Era um pequeno espaço aberto para lado da parreira, em que havia um tanque baixo e  água encanada. Ali o pessoal lavava os pés e as mãos antes de se dirigir à mesa da sala de jantar para as refeições, sobretudo em dia da casa cheia de gente. Nele, os pequenos tomavam banhos rápidos para tirar a poeira do corpo que juntavam durante as brincadeiras na terra solta debaixo dos cinamomos da frente da casa. A gente chamava ele de o tanque da tia Jane, dizem que o batizaram assim porque a ideia de ter este lugar para higiene pessoal foi dela, coisas de seu famoso capricho com o corpo e com as vestimentas. Havia ainda, naquela minúscula área, uma janela basculante que era por onde entrava luz e ar no banheiro e um vaso de folhagem com folhas verdes escuras e largas, quase junto à porta, que uma vez ou outra, dava uma flor branca muito perfumada.

Cedo da manhã, durante o verão, as tias passavam roupa na longa mesa da sala de jantar. Antes da chegada da luz elétrica passavam as roupas da casa com ferro à brasa. As brasas eram trazidas do fogo de chão do galpão e o Vergilino se ocupava de manter o fogo aceso e a produção de brasas para abastecer o ferro de passar. Quando as brasas do ferro se esmoreciam, as tias gritavam e ele então se aproximava pelo pátio, andando pelas sombras da parreira, trazendo em uma das suas mãos uma pá de cabo longo, feita de cabo de vassoura e de latas de azeite velhas, que vinha carregada de brasas flamejantes. A roupa era passada em todas as suas dobras, frente e verso, para desamassar o máximo possível, especialidade da Tia Cisa ou Cisa como passávamos a chamá-la na adolescência. Não sei bem a razão de deixar de chamá-la de tia, talvez porque ela era a mais nova das irmãs da minha mãe ou porque a vó Cinda desfilava o nome de todas as filhas, quando necessitava de algo, e eu era a última a ser chamada logo depois da tia Cisa. 

Era divertido ver como a Cisa se dedicava à perfeição no passar as roupas, ocupava toda a grande mesa de jantar, com pilhas de roupas por passar. Colocava-se um cobertor bem usado e gasto, sobre ele um lençol igualmente já bem velho, assim ambos eram usados para acolchoar a mesa, esticando-se sobre eles as roupas a serem passadas. De um lado da mesa, um copo de água para esborrifar sobre o tecido e, do outro, as roupas já passadas. Conforme terminava de passar as peças, colocava-as sobre as cadeiras,  ordenadas por tipo e tamanho. Ela fazia paradas para fumar, deixando o cigarro apoiado sobre o cinzeiro de vidro, fazendo pequenas pausas para tragar e seguir na tarefa. Deslizava o ferro cuidadosamente sobre os lençóis e esbravejada que eles mais pareciam ter saído do "bucho de uma vaca". Todos sabiam na casa se ela estava fazendo faxina ou se estava passando roupas, porque o rádio a acompanhava e ressoava a todo volume tocando as canções da época.

Lili associava o ato de passar a um momento de reflexão, uma hora de calmaria e de pensamentos silenciosos das mulheres da casa. Minha mãe passava rapidamente o ferro à brasa sobre as roupas, queria livrar-se das pilhas de roupas que se acumulavam, sempre apurada em dar conta de muitas outras tarefas por fazer ao longo do dia. Também passava roupas muito cedo da manhã, enquanto meu pai tomava o seu primeiro chimarrão do dia, ao som das músicas gaúchas no alvorecer da rádio Jaguari. Quando ela estava sozinha, cantava uma música bem baixinho, quase um sussurro, mas eu nunca esqueci da letra da música "Carinhoso", de Lupicínio Rodrigues, igual aos trechos do Luar do Sertão que a vó Cinda raramente cantarolava.

Nos fins de semana, nos piqueniques coordenados pela Maria, a gente aprendia a bailar ao som do xote laranjeira. No campo a música gaúcha era a tradução das dificuldades e das alegrias da vida no meio rural, ainda que as canções parecessem sempre a um lamento, uma saudade contínua de algo vivido no passado, elas marcavam a jornada da vida campeira, no lavrar ou no lidar com o gado. Os programas da rádio dividiam o dia em: madrugada, hora do almoço e entardecer, e para meu pai definiam também os horários de sorver o chimarrão. Nos domingos, com as tias em casa, a gente podia ouvir as músicas do momento no toca discos vermelho da tia Jane, portátil e movido à pilha. Nos anos 70 era uma novidade ter uma aparelho para tocar os LPs que elas colecionavam, foi deste momento que Lili se apaixonou pelo timbre do Caetano Veloso e se impressionava com a audácia dele e de Chico Buarque cantar "Deus me deu perna comprida para poder fugir da polícia.... diz que Deus diz que dá". Tempos depois, ganhei da Cisa meu primeiro LP do Roberto Carlos, penso que foi porque eu não parava de cantar "Quero que vá tudo para o Inferno...". De todas as músicas que ia conhecendo e as que estavam sempre ao meu redor, uma onda delicada se espalhava no ar ao escutar meu pai repetindo "passarinho preso na gaiola voou...voou...voou." Lili era um passarinho liberto na vagareza do tempo da vida rural.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

O quarto dos guris

Aos seis anos e meio fui para escola. Sai da largueza que só a dimensão do mundo rural pode nos dar e deixei para trás o hábito de andar descalça, de caminhar devagar na grama evitando pisar nas rosetas. Lili nunca gostou de usar calçados, gostava de sentir a terra, o frescor da grama úmida pelo orvalho da manhã ou pelo sereno do final da tarde. Entrar na escola naquela época significava me disciplinar e adotar o uso do avental branco, com minhas iniciais em forma de monogramas no bolso, caprichosamente bordadas pela minha mãe, meias brancas até altura do joelho e usar os desconfortáveis sapatos pretos. Lá pela quinta série passamos a usar camisas brancas, saias azul-marinho e as mesmas meias brancas esticadas até o joelho. Nesta época podíamos usar, além dos sapatos pretos modelo colegial, as congas brancas ou azul-marinho e também o famoso kichute, uma versão grosseira de tênis na cor preta com solado de borracha, que mais parecia ser feito do mesmo material com que se fabricavam pneus. Quando arrastávamos os pés ou fazíamos fricções no piso, eles deixavam riscos escuros nas cerâmicas vermelhas da cozinha do chalé em que fomos morar na cidade. Meu pai comprou o chalé para que minha mãe e meus irmãos também viessem morar na cidade para estudarmos. Eu já morava com os tios há pelo menos dois anos. Foi por decisão da minha mãe que deixamos meu pai no campo, morando na casa em frente à casa da fazenda, para que todos pudéssemos ir ao colégio. Ela fazia jus ao desejo de que frequentássemos a escola, participava ativamente da nossa vida escolar, nunca deixava de ir a uma reunião de pais. Mas religiosamente toda sexta-feira voltávamos para o campo. Lili já descia do ônibus rumo à casa da fazenda, com mais idade e há muito morando todos fins de semana com a vó Cinda, eu tinha então conquistado uma prateleira e uma gaveta na penteadeira do quarto dela. Eu me revezava no uso de uma ou outra das camas das tias, pois a vó usava a cama do meio, de frente para janela, de onde podíamos apreciar a lua subindo enquanto a noite avançava. Quando todas as tias estavam na casa, eu mudava para quarto de casal que dava para o pátio, bem na altura do poço, entre o banheiro e o último quarto da casa, à esquerda do final do corredor, que era o quarto destinado aos guris.

O quarto dos guris era meu refúgio, lá eu tirava um cochilo de tarde e ficava lendo, em geral as revistas Manchete, Realidade e Cruzeiro da tia Jane, muito bem guardadas na parte debaixo do sofá-cama cor de cenoura, encostado na parede que separava a sala do corredor principal da casa. Aquele sofá contrastava com a sobriedade do resto da sala, estava sob o olhar solene dos meus bisavós Lídia e Alfredo, naqueles retratos em quadros de molduras douradas e rebuscadas, e que em nada combinavam com aquele sofá de cor radiante. Às vezes me entediava com as leituras e passava a vasculhar o gavetão do guarda-roupa. A gaveta ficava na parte inferior do móvel, era alta e pesada, com dois puxadores em forma de concha. Ali dentro havia um mundo, muitas lembranças da família espalhadas entre caixas de madeira e em outras que eram de embalagens de camisa. Elas eram cheias de fotografias, recortes de jornais antigos, cadernos dos meus tios e tias do tempo do internato no colégio de freiras de Jaguari. Na parte superior do guarda-roupa, havia umas poucas roupas penduradas nos cabides e, na prateleira, algumas cobertas. Na reforma da casa, as tias decoraram a parte interna das portas com recortes das charges do Amigo da Onça, de tanto ler, mesmo não entendendo muito a ironia daquele humor tão crítico, eu decorava as falas e as imagens.

Assim que entrava no quarto, encontrava-se à esquerda um móvel de cor clara, pintado de amarelo, em um tom meio desbotado. Havia poucos objetos expostos sobre o tampo de madeira forrado com um plástico estampado com flores miúdas, sobre ele nada mais do que um castiçal de velas e umas embalagens de desodorante, um guardanapo de crochê e um vaso de porcelana. Ele foi alocado neste quarto depois da reforma casa, sempre foi uma sapateira junto ao antigo quarto de banho da casa. Na parede, acima do móvel, tinha um espelho de moldura larga, levemente arredonda na parte de cima, também pintada de cor amarelo desbotado. Muitos dos móveis da casa foram revitalizados e pintados nesta única cor, o que fazia com que eles sempre contrastassem com tom azul céu das paredes, o que dava um certo charme aos ambientes. Neste armário se guardavam calçados velhos, chinelos, botinas, alguns já com muitos anos de uso, eram também guardadas as sandálias de plataforma muito usadas pelas minhas tias. Atrás da porta havia um cabide de madeira com casacos, capas de chuva e chapéus pendurados. Por um tempo também esteve pendurada uma espingarda, escondida bem no canto da parede. De cada lado da peça, ficavam dispostas duas camas de madeira encostadas nas paredes, ao fundo, a janela de vidro, uma basculante por onde entrava a luz da tarde e muito calor no verão, só amenizados por uma cortina grossa, feita de um tecido pesado, de cor clara e bastante rústica. 

Este quarto, muito antes de abrigar os netos da vó Cinda e, embora fosse atribuído aos guris, sobretudo porque era usado por eles durante as férias da escola, sempre foi o quarto de hóspedes temporários, de casais que ficavam longo tempo na fazenda. Por um bom tempo moraram ali tia Cecília e tio Bento, irmão do meu avô, logo que se casaram, Posteriormente, tia Maria e tio Adão se hospedaram no quarto em um período que meuavô esteve doente. Meu pai e minha mãe moraram por mais de dois anos nesta peça, era uma parte da casa mais reservada e possibilitava uma certa privacidade de quem o habitava, por isso muitos familiares se hospedaram nele. Antes da reforma da casa, o quarto tinha outros móveis e duas portas. Tornou-se o quarto dos guris com saída dos meus pais, pois tio Ruco ainda solteiro passou a usá-lo assim como os netos mais velhos quando visitavam a fazenda. 

Apesar de simples e acolhedor, era o último quarto da casa, dava para o lado do pátio, bem na parte da casa onde o teto ia descendo, acompanhando o declive do telhado. Ao sair da peça, dava-se no fundo do corredor, quase na porta alta que abria em duas folhas, por onde se tinha acesso direto ao grande galpão da charrete amarela. Era o aconchego e o calor do sol da tarde do quarto dos guris que no inverno era prazeroso para Lili tirar cochilos em um daquelas camas, sobre aqueles colchões feitos de capim Santa Fé, costurados com rigor e capricho pelas mulheres da casa. Às vezes pinicavam, mas eram firmes e dizem que, seguidamente, eram expostos ao sol e revisados por causa dos percevejos.

O maior fascínio de Lili era mesmo revirar as caixas de madeira e as de camisa. Deslumbrava-se com os retratos de familiares, analisava as imagens desbotadas em tons de sépia. Registros de um passado muito remoto, parentes vestidos com a elegância dos ternos bem ajustados e de mulheres com vestidos longos e ricos em detalhes, cabelos presos e rostos com traços, ao mesmo tempo, fortes e delicados. Uma que outra foto não era retrato, como a famosa foto do tio Meirelles guiando uma carroça antiga. Ele era casado com tia Idalina, irmã da minha bisavó Lídia. O casal viveu muitos anos na fazenda e dizem que depois de ficar viúva tia Idalina também morou neste quarto. Quanto mais eu revirava aqueles guardados, os cadernos de desenho do tio Ruco e da tia Jane, os jornais do início do século XX, que meu avô Alberto recebia dos parentes com notícias do país, tudo ali parecia aguçar minha imaginação. Neste quarto, aos doze anos comecei a me interessar pela escrita e escrever os primeiros poemas e textos de novelas. Lili povoava seus sonhos com estórias de outros tempos, guardava tantas memórias que sequer podia dimensionar o quanto elas afetavam sua própria história, pressentia o futuro costurado nos detalhes daquelas recordações, engavetadas no velho guarda-roupa do quarto dos guris.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Tradições da Páscoa

O sinal de que a Páscoa se aproximava era quando se iniciavam os preparativos da pescaria nos dias que antecediam à semana Santa. Lili acompanhava o preparo que o pai e os tios, que durante um tempo trabalharam na fazenda, arrumando linhas, redes e anzóis para a pesca nos açudes do campo de cima ou o das vacas mansas e, às vezes, no arroio da Divisa. Também, uma vez ou outra, eles pescavam nos açudes da vizinhança: na chácara do Dr. Ayres ou na do Seu Noé. DE véspera lançavam as redes e as linhas nas águas, as deixavam na espera para fisgar, nas linhas, ou enredar na rede, alguns peixes durante a calmaria da noite. Meu pai e meus tios herdaram o gosto pela pescaria do seus tios Luís e Adolfo, com quem costumavam pescar na infância nos arroios do Salso e da Divisa e com eles aprenderam os rituais da pesca e também a contar estórias de pescador. 

Minha mãe e minha vó Cinda, pelo menos dois meses antes da Páscoa, já tinham preparado as passas de pêssego que elas chamavam de origone. Secavam as lascas da polpa do pêssego e as colocavam numa forma no sol durante dias, para desidratar e secar, depois guardavam-nas em potes bem fechados até a sexta-feira santa. Cedo da manhã elas preparavam o doce para servir no meio da tarde, com canela polvilhada, dando um toque especial ao famoso arroz com pêssego, a sobremesa tradicional da sexta da paixão.

Nas primeiras horas da sexta-feira, no sereno da madrugada, antes do sol sair, meu pai já tinha percorrido o campo e feito a colheita da marcela. Teríamos chá para boa parte do ano. Em seguida, ele começava a providenciar a fritada de peixe para o almoço. Com uma boa porção de peixes: jundiás, traíras, piavas e grumatã estava garantido o almoço do dia. Se armava uma trempe no fogo do chão, sobre ela uma caçarola com banha quente e se fritavam as postas temperadas e empanadas com farinha de trigo e de mandioca. Com as postas do jundiá meu pai fazia um ensopado bem temperado. Para as crianças sempre separava-se a parte da cabeça dos peixes, para evitar que alguns de nós se engasgasse com a espinha. Lili aguardava ansiosa o pai retirar a espinha das postas, para que pudesse comer com tranquilidade. Confiava no cuidado dele.

No sábado, pós sexta da paixão, acordávamos já com um mantra religioso repetido pelas tias, era o "hoje é dia de tirar aleluia". Nunca entendi bem porque nos sentenciavam tanto, era dia de aplicar o castigo pelas teimosias e traquinagens acumulado durante todo um ano. Mas tudo ficava no plano da possibilidade, o temor ficava no ar, porém ninguém se atrevia a tanto. Nos mantinham na linha só fazendo as promessas de castigo. O dia passava devagar pela ansiedade na espera pelo domingo de Páscoa, dia de ganhar doces. Só parávamos para apreciar a lua cheia que despontava alaranjada e imensa por trás da frondosa timbaúva, à direita da porteira de entrada da fazenda. 

No domingo de Páscoa já acordávamos mais cedo que o normal, na expectativa de procurar os ninhos com os ovos de Páscoa. As cestas dos ninhos eram preparadas por nós, cada um fazia a sua, usando caixas de papel. Nelas colávamos papel crepom colorido, deixávamos o papel picotado nas pontas para fazer um efeito de franja e, por fim, fazíamos uma alça e estavam prontas nossas cestas feitas de caixas de embalagens, em geral, de sapato. Dias antes da Páscoa, Lili separava as cascas de ovo que eram usadas para fazer os pães, bolachas e bolos, limpava-as e guardava-as para encher com doce de amendoim. Como não tínhamos tinta em casa, as cascas dos ovos não eram pintadas, às vezes, eu colava as sobras do papel crepom para dar um cor nos ovos de Páscoa.

Na semana Santa o clima já era outonal, pela manhã uma bruma tomava conta da paisagem, a gente se agasalhava por causa do friozinho da manhã e saia pelo pátio e galpões procurando os ninhos. Meu tio Cláudio era especialista em esconder os ninhos em lugares inusitados, chegávamos ficar toda uma manhã correndo e verificando os cantos e os possíveis esconderijos para conseguir encontrar o ninho. Quanto mais afoito se era por doces, bem mais difícil era para achá-lo. Um ano encontrei meu ninho dentro da caixa de colocar bagagem da charrete amarela, ela ficava na parte de baixo do banco. Outra vez, depois de uma manhã de desespero e de uma busca sem fim, achei meu ninho cuidadosamente encaixado em uma trama de galhos da parreira do pátio. Era só olhar pra cima, mas eu só procurava olhando pelo cantos e pra baixo. A procura pelos ninhos era uma diversão e uma disputa controlada pelo: "tá quente", "tá morno", "tá frio" à medida que nos aproximávamos ou nos afastávamos do esconderijo.

A Páscoa para Lili tinha o gosto do ovo de glacê, muito doce, colorido e delicadamente decorado. As decorações eram detalhes de açúcar, umas rendas e laços açucarados, com flores e passarinhos. Eu os guardava por dias, tinha pena de comer aquela beleza de decoração. Me contentava, de início, com os coelhos grandes de pão de mel e alguns chocolates e bombons. Mas nada superou em alegria, o dia em que ganhei uma caixa de bombons "noite de gala" do meu padrinho, o moço dos lindos olhos azuis. Pois caixas de bombons eram presentes para adultos, me senti diferenciada das outras crianças. O Domingo de Páscoa também era dia de contar os doces, protegê-los das lambidas da Susana, que astutamente havia encontrado uma maneira de arrecadar mais doce para o ninho dela. A gente ficava com nojo quando ela lambia algum doce dos nossos ninhos e dávamos a ela o doce lambido. Para Lili tudo era muito precioso, comê-los um a cada dia prolongava o sabor e os dias alegres da Páscoa, uma tentativa de aprisionar o tempo, aquele exato momento de muita doçura e de família reunida. 

Sapato vermelho de verniz

Por muito tempo Lili foi a única neta dos avós paternos, era absoluta no seu reinado. Meu pai se casou jovem e como era um dos filhos mais v...