domingo, 17 de janeiro de 2021

Lili chega à escola


O sonho acalentado de Lili naqueles dias de aprendizado com a Vó Cinda enfim iria se concretizar. No alto dos meus seis anos eu não tinha clareza sobre o que viria a ser um afastamento da família e a saída daquela vida livre no campo. O fascínio pelas palavras já me dominava e a escola era um portal, não sabia bem onde ele me levaria, mas me entorpecia apenas com as possibilidades de conhecer outro mundo.

Minha mãe confiava amorosamente no meu tio Ruco e o fato da tia Tânea ser professora aumentava a segurança na sua decisão de me levar para casa deles, onde eu iria morar enquanto estudava. Lembro de chegar com uma sacola de roupas, de me mostrarem meu quarto. Nele havia uma cama com uma cabeceira estofada de uma cor de cenoura e sobre a cama uma colcha de listras muito finas e coloridas. Certamente o lindo lençol com cachopas de flores do campo, bordado pela minha mãe, ficaria perfeito naquela cama. Havia uma janela para lado oeste, por onde entrava o sol da tarde. A mudança me colocou em outro ambiente, outras relações de afeto, era um corte na minha vida de criança rural.

Fui levada à escola pelos meus tios e logo aprendi o caminho de casa até o Colégio Borges do Canto. Era uma escola de um só andar com dois grandes blocos de salas, toda pintada de um amarelo claro, salas tinham janelas altas, pintadas de cinza claro. A diretora era Dona Celi e me recebeu com seu sorriso doce e jeito tranquilo. Ela tinha  o rostro redondo, pele clara, cabelo curtos e fofos, era uma figura acima do peso, mas tinha uma suavidade no andar, mal se ouvia, do nada ela aparecia na porta da sala de aula. 

Aprendi logo que precisava entrar na fila no pátio e, em fila, ir até sala de aula, passando pela fiscalização do uniforme, não correr pelos corredores, pedir licença ao professor e fazer silêncio durante a aula e, especialmente, aceitar que na escola eu não era Lili, valia meu nome de batismo tal como estava na lista de chamada. Eram os anos setenta e uma vez por semana tínhamos uma hora cívica para hastear a bandeira e cantar o hino nacional. Cedo Lili descobriu o que era disciplina, e se assustava com a possibilidade de reclamações do seu comportamento, sobretudo, pelo medo de ter de deixar a escola.

Este primeiro ano marcava uma virada na vida de Lili, o início das amizades fora do círculo dos primos e irmãos. Os magrelas Tivico e Vito, o primo Titão, os baixinhos, Tampinha com seus cabelos de anjo e João Antônio com seus vibrantes olhos azuis. As primeiras amigas, a Márcia, que depois foi vizinha e minha companheira de passar na casa da professora do segundo ano, para irmos juntas à escola. Chegávamos orgulhosas de acompanhar a professora até entrada da escola. A espevitada Tina, meio desajeitada e dengosa, a tímida e carinhosa Iolanda, a brava e valente Cecília com suas longas tranças e o inquieto e desobediente Ricardo. Depois vieram outros colegas, o Teta, que era parceiro nas apresentações da escola e a Valéria, menina acanhada e discreta. E também a Osmilda, destoando por sua altura, e a doce Tânia que usava cabelos curtos como eu e me acompanhava na volta da escola nos primeiros tempos, quando morei na esquina da rua Brasil com a Rua Carapé.

Os primeiros dias foram de desafio porque Lili não conhecia as rotinas da escola, não foi ao jardim infância, mas já manuseava o lápis com a desenvoltura adquirida pelas práticas de escrita comandadas pela vó Cinda. Esquecia de responder "presente" a cada vez que a professora lia a lista de chamada, que se distraia com os barulhos vindos da rua, no entanto, observava todos e absorvia tudo. Em casa, durante a semana, tio Ruco me auxiliava nos temas na mesa de jantar, acompanhando-me na hora das tarefas. Nesta escola, também fui marcada pelo primeiro exemplo de preconceito e racismo. Tínhamos uma colega magrinha, negra, que usava duas tranças finas e ela sempre nos despertava um sentimento de compaixão, pois cada vez que não sabia responder a uma pergunta, a professora batia com a régua nos dedos da Sílvia, quando não a arrastava pelas frágeis tranças que usava presas sobre o alto da cabeça. O mais horrendo daquele momento era que sabíamos que a Sílvia era criada pela mãe da professora. Ficávamos todos atônitos, entre o medo e o pavor que aquela cena nos provocava. 

O pátio da escola era amplo, pulávamos sapata, desenhada com giz na calçada da área coberta, localizada em uma das laterais, na entrada na escola, ou ao lado do mastro da bandeira. Brincávamos de pega-pega, de adivinhações, "se canoa virar...", debaixo das árvores que faziam sombra no pátio da escola ao longo do muro que separava e protegia a escola da rua. 

No pavilhão, nos fundos, podíamos brincar em dias de chuva e lá formávamos as filas da entrada e do retorno do recreio. Dona Joana e Dona Ana eram as serventes da escola e faziam aquelas sopas entulhadas de legumes e verduras. Para Lili as sopas tinham uma aparência asquerosa, mas não deixavam de ser nutritivas e, às vezes, até saborosas. Quando tinha umas moedas eu comprava umas merendinhas Mirabel ou um sorvete com cobertura de Maria mole por causa dos anéis que vinham colocados no topo, era um brinde. A melhor merenda da escola era servida em dia de muita chuva, pois ficávamos dentro da sala de aula no horário do recreio e Dona Joana surgia na porta com umas canecas de café e uma bacia de roscas fritas.

Descobri na escola habilidades para Artes, gostava das aulas com trabalhos manuais, desenhos, pintura. Mas meu mundo se transformou com a leitura, aprender a ler me possibilitou vasculhar e ler todos livros da pequena biblioteca da tia Jane, quando ela morava com minha mãe e meus irmãos, nesta época eles já haviam mudado para a cidade, na metade do meu segundo ano na escola. Até o quarto ano estudei no Borges do Canto e trago dele amigos que vivem nas minhas memórias. Na mudança da minha vida escolar, para iniciar a segunda etapa do  chamado 1º grau, novos colegas e amigos chegaram e Lili nesta época começava a ficar dividida entre a vida do campo e a vida da cidade.




sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Quando a escola chegou...

A escola entrou no mundo de Lili como um desejo intenso e constante desde que  a Vó Cinda me iniciou na aventura da escrita, durante aquelas tardes de aprendizado na mesa da sala de estar. Enquanto a brisa do final da tarde entrava pela janela da frente, ela me incentivava a escrever as letras, usando um caderno velho e um rolo de linha de crochê, chamada Cléia. Apontando o rótulo, ela me fazia associar cada letra da palavra Cléia aos nomes das pessoas da família, então eu agarrava firme o lápis e ia preenchendo meu mundo de palavras escritas. Cada tarde de crochê dela se tornava em uma tarde de alfabetização para mim. 

Minha avó trabalhava muito para enviar os filhos ao colégio. Na fazenda a ida para escola era o destino certo dos filhos. Primeiro para o colégio das irmãs em Jaguari, depois para as primeiras escolas municipais de São Vicente que, nada mais eram que salas improvisadas, às vezes junto da casa das professoras, sendo que elas foram a origem da implementação do sistema educacional do município. Minhas tias e minha mãe cursaram um ano ou dois do ensino primário nessas escolas, depois de passar pelo internato no Colégio de Jaguari. Houve um tempo que minha bisavó Lídia mudou-se para uma casa na cidade para acompanhar as netas mais velhas que iniciavam sua vida escolar na escola do município, já nos anos quarenta do século XX.

As idas e vindas às escolas dependiam muito de conseguir alojar os filhos na casa dos parentes. Um dia meu avô Alberto decidiu ceder um espaço na fazenda para montar uma escola rural. Ele tinha uma sobrinha que havia feito um curso normal que a habilitava para ser professora e trouxe-a para fazenda. A sala da escola era contígua à casa dos arreios, o que possibilitada a entrada na sala de aula por dentro das áreas da casa, pois eram todas interligadas. 

A sala da escola era pavimentada com piso de tijolos, última peça no sentido horizontal da grande construção que formava o conglomerado frontal da fazenda. Na parte da frente, uma porta que dava para um terreno cheio de cinamomos, com suas sombras amplas e frondosas;  outra porta na lateral, com acesso interno, e mais outra nos fundos, voltada para o pátio dos cavalos, também duas janelas na lateral, por onde entrava o vento norte, vindo dos lados da ladeira. Nesta escola minha mãe e minha tia Nira eram auxiliares voluntárias da professora Amélia, pois era uma turma multi-seriada, cada aluno em um ano escolar. A escola foi muito importante para as famílias da região, os primos que vinham das redondezas ou como fizeram meus avós paternos que enviaram meu pai, o tio Nito e a tia Carolina para estudarem na escola da fazenda. Eram os filhos mais velhos da Vó Xiruca e e do Vô João, iam os três à cavalo, cedo da manhã já cruzavam o arroio da Divisa para chegar à escola a tempo, na hora do início das aulas. No final do ano, vinha um representante do município aplicar provas para reconhecer os estudos e emitir pareceres sobre o aprendizado dos alunos. Em datas como a da independência do Brasil, as crianças participavam do desfile na cidade. Preparavam-se, ensaiando o desfile sob a sombra dos cinamomos, acompanhadas pelo primo Olavo, que comandava a marcha dos pequenos, batendo em um tambor improvisado feito de uma lata velha. No dia do desfile de sete de Setembro, de madrugada vinha um caminhão buscá-los para participar da celebração em volta da praça central. Essa escola, dizem, foi batizada com o nome do meu trisavô, Simão José da Rosa, provavelmente primeiro morador daquelas terras, localizadas na Divisa e fundador da fazenda.

Tempos depois, uma outra sala de aula começou a funcionar do outro lado do arroio da Divisa, já nas imediações do arroio do Salso. Ali também se instalou uma sala de aula multi-seriada, em uma peça da casa professora Mariquinhas, então, meus tios e meu pai passaram a frequentá-la, porque a nova sala de aula ficava poucos metros da chácara do vô Joãozinho. Mais tarde, foi construída uma escola rural onde o restante da família do meu pai iniciou a vida escolar. Ali minhas tias entraram na escola com menos idade e puderam seguir seus estudos até quarto ano. Uma delas foi rainha da escola, arrecadou muitos votos na vizinhança, pois era uma bela menina de cabelos castanhos e olhos azuis. A escola lá naquele fundo de campo, lindeira com a propriedade do seu Carlito Gabriel, recebia crianças das famílias que viviam no entorno da estrada do Salso, muitas destas crianças eram meus parentes, descendentes dos antigos imigrantes alemães e austríacos que se instalaram naquelas terras, para lado oeste e norte do município.

A escola era uma possibilidade das crianças se educarem e terem um futuro diferente, sobretudo para esses que a frequentaram muito antes de mim. A pequena Lili, naquelas tardes de escrita das letras, só estava despertando fortemente seu desejo pela escola.



domingo, 20 de dezembro de 2020

O cheiro do doce de figo

A pequena Lili, como tio Ruco carinhosamente me chamava, desde muito cedo aprendeu sobre a vasta sensação de vida que os cheiros provocam na alma. O aroma do chá de erva cidreira ou de camomila que ele bebia no meio da tarde, sentado envolta da mesa da cozinha, me colocava sobre a mesa ao lado da lata de bolachas e me fornecia generosos pedaços de roscas de polvilho, esses aromas entraram no meu corpo aos dois anos de idade e refinaram meu olfato para os cheiros ao meu redor. A partir daí fui sendo, cada vez mais, despertada para a experiência de sentir todos os cheiros que abundavam na vida do campo. O cheiro da terra molhada entrando pelo cômodos da casa em dias de chuvas esparsas e torrenciais de verão, refrescando todos os ambientes; o das folhas dos eucaliptos esmagadas, depois de tantas vezes pisoteadas pelo gado, nas suas mesmas e constantes trilhas que percorriam entre as árvores enfileiradas na avenida de Eucaliptos na entrada da Fazenda; ou o cheiro forte do angico queimando no fogo do chão ou ainda o do couro queimado do gado que levava no lombo impiedosamente a marca de um ferro em brasa; ou o adocicado perfume do Jasmim vindo do jardim, que invadia o nosso quarto de um ar úmido e perfumado através das janelas da frente, escancaradas por causa do calor do verão. E também o cheiro do sal no frescor da estufa e o do pinhão e do milho verde assados pelo Vergilino no Fogo de chão. Toda esta profusão de aromas ia calcando em mim cada sabor provado, cada ar perfumado ou mesmo cada odor desagradável como os dos excrementos no pátio dos cavalos. As muitas sensações de Lili eram associadas aos cheiros que a vida no campo trazia todos os dias para dentro dela. A mais marcante sem dúvida era a do cheiro do doce de figo.


O cheiro do doce de figo era prenúncio de Natal e do encontro familiar no primeiro dia do novo ano. Lili aguardava ansiosa a chegada das tias e primos, era uma expectativa amorosa pela presença de mais gente na casa, os presentes das tias, que de tanto que me conheciam, uma vez que outra repetiam a ideia do presente. O ano novo tinha lá seus aromas específicos também, como o do churrasco feito debaixo da sombra dos pés de uva do Japão, exalando o cheiro particular da gordura da carne ovelha pingando na brasa e se espalhando para os lados da ladeira, levado pelo vento morno daquele primeiro dia do ano novo, dia em que a família se reunia  e saboreava uma carne bem assada pelo meu pai, em um almoço que se estendia pela tarde, até a chegada das sobremesas tradicionais: a torta de Nescau, providenciada sempre pela tia Jane e a salada de fruta que ela preparava nas primeiras horas da manhã. Logo, tia Maria trazia seu famoso pudim de leite com queijo, mais a ambrosia da Cisa, que ia sendo feita nos fins de semana quando ela vinha cidade, e o doce de figo da tia Ivoloy ou o da minha mãe.

Mas o de figo...ah o doce de figo, era preparado dias antes do Natal. Quando Lili cruzava a porta do galpão para o pátio da parreira, sentia o cheiro do doce que vinha entrando por suas narinas. Ele me conduzia em direção à entrada da cozinha, e ali, sobre o fogão à lenha em um tacho de cobre, o doce fervia e o seu aroma se espalhava pelas demais peças da casa. Assim que os figos ficavam no formato ideal para o doce em calda, eram colhidos e limpos. As figueiras se localizavam logo depois da parreira antiga, que ficava atrás dos pés de butiá. Também havia alguns pés de figo para doce em calda nas imediações das bananeiras, alguns não eram colhidos para serem saboreados depois de maduros. A limpeza dos figos não era tarefa fácil, deixava as mãos das mulheres da casa em estado deplorável, as da minha mãe em especial, no seu afinco de deixar as frutas sem nenhum vestígio daquela película áspera e desagradável do figo ainda verde, suas mãos ficavam avermelhadas, às vezes, cortadas de tal era a aspereza da fruta.   

Na minha casa não tínhamos árvore de Natal, nem presépio, nem luzes, nem luz elétrica havia na nossa casa. Não era costume celebrar o Natal. Os presentes que ganhávamos eram doces ou então uma roupa nova para a entrada do ano novo na semana seguinte. O que marcava a proximidade do Natal era o preparo do doce de figo, porque era uma das sobremesas servidas no dia primeiro do ano vindouro. Os doces em calda eram também oferecidos às visitas de final de ano, parentes que apareciam nessa época na fazenda para suas visitas anuais, principalmente aqueles que vinham de longe. A época do figo coincidia com a do Natal, por isso Lili sempre associava o cheiro do doce com o Natal. 

O cheiro do doce de figo em calda me despertava expectativas sobre os dias que se aproximavam do novo ano. A pequena Lili media o tempo pensando que em breve estaria correndo e brincando no gramado em frente à casa da fazenda com os primos e primas e seriam dias de muitas brincadeiras e de  muitas alegrias. O cheiro do doce de figo mais que o Natal era o anúncio de tempos de casa cheia, cama redonda no chão da sala, caçada de vagalumes, noites de localizar o Cruzeiro do Sul para os lados da cidade e as três Marias acima do cinamomo, aquele cheio de orquídeas e cactus de flores vermelhas, bem no portão da frente. Buscar Sputinikis naquelas noites escuras em que o céu nos cobria de muitas...muitas estrelas. E que de algum lugar, do nada, viria o cheiro da mistura das folhas de eucalipto, bostas de vaca e as brasas sobre um pedaço de lata velha, repelente natural que o Vergilino providenciava para espantar os mosquitos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A estufa


Quando a Vó Cinda girava a chave grande de ferro na porta da estufa e lentamente ela se abria, sentia-se primeiro um frescor que vinha lá de dentro da peça, e logo em seguida, uma profusão de aromas misturados com a umidade do ar presente naquele ambiente. Tudo se intensificava pela pouca luz vinda das pequenas janelas, pela sensação de frio no rostro e pelos cheiros quase inusitados que nos abatia já quando pisávamos no degrau abaixo da linha da porta. A estufa era este lugar que na imaginação da Lili ficava entre o mistério, pelo domínio das sombras, do acesso controlado pela vó Cinda, e a fragância exalada pelos alimentos ali fabricados, mantidos e conservados.  

Na extensão da área do fogo de chão, no sentido horizontal, onde a construção servia para separar os limites entre o terreno do arvoredo e o do pátio dos cavalos, havia uma longa peça de depósito, separada por meias paredes de tábua. Era um lugar onde se guardavam desde cestos, caixas, latas, cordas até a colheita de batata doce. Lá onde terminavam essas sucessivas separações da grande área dos galpões, havia a única peça de tijolinho à vista da fazenda. O acesso, ou era pelo lado de dentro desse galpão, que facilitava a ida à estufa em dias de chuva e frio, ou por outra entrada, na porta da frente da estufa que dava para o pátio dos cavalos. Essa porta externa parecia desproporcional em relação à altura interna da peça, pois assim que adentrávamos nela, o degrau imediatamente abaixo, indicava o piso de tijolos e fazia parecer que ela era um lugar com paredes muito mais altas. Não tinha forro, olhando para alto se viam a estrutura do telhado e as telhas, além de muitas teias de aranha. Um luz difusa entrava discretamente, especialmente à tarde, quando o sol jogava um feixe de luz no ambiente. Ao fundo, para os lados do arvoredo, essa luz entrava por uma janela vertical e também por uma outra que se localizava à direita, para os lados da ladeira, estas aberturas deixavam o feixe de luz iluminar toda a estufa sem aquecê-la em demasia, ambas janelas tinham telas para evitar a entrada de insetos. As prateleiras eram suspensas, com garrafas presas  na parte superior por onde desciam os arames, a mesma técnica usada no galpão dos arreios, com objetivo de dificultar a subida dos ratos. Sobre essas prateleiras ficavam dispostas as mantas de charque, linguiças e nas localizadas contra a parede se colocavam as latas de banha, de torresmo e as de mel.

No meio da peça da estufa havia um armário de guardar os queijos, com uma tela para a ventilação, o que permitia que eles fossem maturando ao longo dos dias, até o momento de serem consumidos ou vendidos. Volta e meia vó Cinda os virava, fazia uma vistoria para ver o ponto em que se encontravam, às vezes, colocava um pouco mais de sal, que ficava dentro de uma caixa de pedra sobre uma mesa bem rústica de madeira nas proximidades do armário. Ela limpava o soro que escorria dos queijos expostos nas prateleiras, separava os que já estavam prontos e os guardava no armário. Retirava de lá os que poderiam ir à mesa no café da tarde ou da manhã, reservava os das encomendas e, assim, ia repetindo a sua rotina na fabricação de queijos.

A estufa era uma espécie de lugar sagrado. Lugar de mantimentos preciosos, sobretudo em tempos de inexistência de luz elétrica na fazenda e tampouco de geladeira. Minha vó Cinda era dona absoluta daquele santuário, ali ela fez muitos queijos com as filhas. O dinheiro das vendas ajudava nas despesas do Colégio das irmãs em Jaguari, onde todas as filhas estudaram e ficavam vivendo no regime de internato. Meu avô contribuía generosamente com as despesas do colégio fornecendo mantimentos com o que era produzido na fazenda. Quando duas das suas filhas fizeram quinze anos, minha vó comprou pares de anéis e brincos para presentear as filhas. eram jóias simples, mas carregadas de afeto e simbologia,  um gesto para também recompensar as filhas pela parceria na fabricação dos queijos.

Além dos alimentos, se guardavam na estufa os materiais para a produção dos queijos, como vasilhas para o leite, umas fôrmas de metal em que se apertavam os queijos, chamada cincha, fabricadas de lata, com uns furos para escorrer o excesso de soro. Quanto mais se apertava a tal cincha mais o queijo ia secando e ia adquirindo o seu formato e o ponto ideal para o consumo. Havia também uma máquina de espremer mel, uma centrífuga, que era levada para o pátio no dia de melar. Retirava-se os favos das caixas de abelha com muito cuidado, usando um chapéu com uma tela e roupas que cobriam todo corpo para evitar o ataque das abelhas. Colocava-se todos os favos naquela máquina para espremer o mel, separando-o da cera. Eu me deliciava comendo mel em pequenos pedaços de favos que meu pai ia me dando, gostava do mel mais escuro que tinha um sabor mais intenso, ou aquele em que se podia identificar até o perfume da flor de laranjeira,  ambos inigualáveis no paladar.

Depois chegou a geladeira movida à querosene, minha vó Cinda já não fazia queijos. A caixa do sal foi trazida para cima de uma mesa localizada logo atrás da porta da peça do fogo de chão. A máquina de espremer mel foi ficando empoeirada por falta de uso. O armário dos queijos foi trazido para despensa para colocar as panelas de ferro. Entrou para dentro da peça um debulhador e triturador de milho para fazer a alimentação de cavalos e galinhas  Queijo e mel eram produzidos para o consumo da família e a fazenda foi ficando com pouca gente, foi-se então esvaziando o propósito da existência de uma estufa. Lili ainda teve muitos sonhos com a estufa construída com tijolinhos à vista, talvez porque continuava sentindo o gosto do queijo e do mel e do sal grosso no milho assado no fogo de chão. Os aromas e os sabores do que havia dentro daquela estufa não saíram da minha alma.

domingo, 8 de novembro de 2020

Ovelhas tosquiadas....


Tosquiar a farta camada de lã das ovelhas era prenúncio de que o final do ano se aproximava. No mês de novembro chegavam os esquiladores na fazenda, os especialistas em montar um salão de beleza para as ovelhas, realizando a esquila anual do rebanho. Era época de retirar toda aquela lã das coitadas e assim aliviar as humildes ovelhas do seu revestimento abundante e quente, deixá-las livres para o verão que logo chegaria trazendo muito calor. Com a pele tosquiada, elas podiam passar os dias quentes mais refrescadas, sem toda aquela lã que lhes cobria o corpo para protegê-las durante o inverno. 

Quando tosquiadas, as ovelhas saltavam alegres para dentro da mangueira. Depois, seguiam ordeiras as suas trilhas marcadas pelas estradinhas no campo, trilhas que elas mesmas desenhavam por causa das inúmeras vezes que faziam o mesmo caminho. Andavam enfileiradas de cabela baixa, às vezes, parando no caminho para uma pastada onde houvesse uma vasta vegetação, pois são as roçadeiras naturais dos campos. Lili se debruçava sobre as tábuas da mangueira, bem na altura da qual podia espiar as ovelhas esquiladas, gostava de ver como a retirada da lã as deixavam mais alvas, mais estranhas mas nem sempre mais bonitas. Lili se solidarizava com aquele momento de alívio das inúmeras ovelhas tosquiadas, que pareciam cobrir a mangueira como um enorme manto esbranquiçado. Também, pela fresta da cerca da mangueira, Lili avistava a passividade do rebanho reunido.

Meu pai e o tio Ruco gostavam de criar ovelhas. Eles tinham um ritual semanal para cuidá-las, revisavam uma a uma, verificando se elas tinham algum ferida, a tal da bicheira, chamada assim porque as feridas eram lugares muito apreciados por larvas. Para tratá-las, colocavam-nas no chão, apoiando-as entre as pernas para segurá-las e, deste modo, podiam revisar cada ferida e cada casco trincado ou machucado da ovelha. Esta dedicação e amor às ovelhas levaram os dois a construírem uma mangueira adequada para elas, com uma altura que pudessem manejar com elas e retirá-las do brete mais comodamente na hora de curar. Para os curativos usavam uma creolina e também algo mais moderno, um spray violenta. As ovelhas com machucados ficavam marcadas por manchas violetas pelo corpo, de longe podia-se identificar as mais fragilizadas pela cor arroxada nos seus corpos. Naquela mangueira, anexada à mangueira das vacas mansas, e construída sobre o terreno onde por muito tempo minha vó Cinda teve sua horta, eles passavam os finais de tarde dedicados aos cuidados do rebanho. Tudo parecia estar em harmonia, pois, ao entardecer, as mangueiras eram cobertas pelas sombras dos velhos eucaliptos, sob a luz dourada do sol do final de tarde. 

As ovelhas forneciam três produtos na fazenda: a lã, que era vendida, o pelego para uso na montaria e a carne. Comia-se muita carne de ovelha, era de fácil abate e se podia conservar na única geladeira da casa. Meu pai e meu tio Ruco eram habilidosos em carnear ovelhas e, desde muito pequena, eu acompanhava o ritual de carneação das ovelhas. Pendurada no galho forte de um pé de uva do japão, a ovelha era suspensa e meu pai começava então a retirar delicadamente o pelego, evitando que a lã encostasse na carne, por causa da sua gordura, a lanolina impregnava na carne se não cuidássemos da higiene das mãos. Nesses momentos, eu corria para buscar a bacia que ficava em um suporte de ferro apoiado em um dos esteios da parreira, logo abaixo de um vaso com um cactus que dava uma flor cor de rosa, e que minha vó chamava de rabo de gato. Eu levava água limpa para que meu pai lavasse as mãos. Repetia a troca da água o quanto fosse necessário, pois a higiene das mãos na retirada do pelego garantia o melhor sabor da carne. O pelego era limpo e depois colocado em uma moldura de madeira, no qual ficava bem esticado, colocado no vento e sob o sol, ele ia secando até ficar em condições de ser removido e então ser usado. No final do ano muita gente aparecia para comprar ovelha, para ter carne nas festas de fim de ano. Meu pai separava algumas para a venda, muitas das que eram vendidas eram das minhas tias. Lembro de uma caixa de madeira em uma das prateleiras do guarda-roupa do quarto dos meus pais, nela, meu pai guardava um maço de dinheiro amarrado com uma borracha. Lembrava-me de não mexer nesse maço cada vez que me autoriza pegar dinheiro para algum pagamento ou para alguma compra na cidadde. Era a renda das ovelhas que ele guardava para entregar às minhas tias quando elas vinham no final do ano.   

Minhas memórias sobre esta lida do campo se acumulam pelas observações de Lili. As ovelhas eram tosquiadas já pelo excesso de lã no corpo naquela época do ano. Seguia-se um ciclo, no inverno já estariam com lã suficente para cobrí-las e aquecê-las a fim de enfrentarem os dias de frio, de chuvas e geadas. A lã retirada era toda reunida em velos, grandes novelos de lã esquilada, colocados em sacos de juta bem compridos. Quando um saco daqueles estava cheio, os homens da casa, entre eles, sempre o Vergilino por sua força, carregavam os sacos apoiados sobre varas grossas de eucalipto, para facilitar o transporte do pesado saco de juta até a garagem da charrete amarela. Lá, eram empilhados contra a parede próxima à porta lateral de saída para o pátio dos cavalos. Lili e a gurizada da casa se divertiam rolando sobre os sacos fofos de lã, deitar sobre aqueles grandes colchões macios. Sobre a pilha conversávamos, pulávamos e também nos escondíamos na hora das brincadeiras, vigiados pelo Vergilino, zelava por nós nos observando, apoiado em alguma das tantas portas da grande garagem da charrete amarela. Na garagem também havia um tronco de cortar carne e, na principal viga do galpão da garagem, em ganchos de ferro, eram penduradas as peças da carne de ovelha, contrastando com dois imensos porongos também pendurados na viga e que eram raridades que chamavam atenção das visitas que chegavam na fazenda. 


domingo, 25 de outubro de 2020

Dia de flores, saudades e vento

A primavera anunciava sua chegada antes mesmo da data fixada no calendário. Os primeiros ventos enlouquecidos no mês agosto traziam calor, abafamento, uivos insistentes e aviso de tempestade nos dias vindouros. Mas também sinalizavam que era chegada a hora de limpar o jardim, remover as folhas secas, podar os galhos mortos e inúteis das roseiras, das azaléias, da alamandra. Minhas avós seguiam o ritual do calendário regido pelos sinais da natureza, cada ciclo que se fechava era hora de plantar e replantar as flores da época. Nesses primeiros anúncios de que findava o inverno, e logo ali a primavera se aproximava, elas planejavam o plantio das flores com as quais, no dia de finados, demonstrariam suas saudades e seus afetos eternos.

Ter um belo jardim era sinal de capricho e sensibilidade das mulheres da casa, pelo menos era o que sentia Lili cada vez que percorria os arbustos no jardim da casa da Vó Xiruca. Havia poucas flores no chão, porque entre os canteiros que circundavam os arbustos do jasmim, do brinco de princesa, das dálias enormes, era só chão batido de terra arenosa, mas impecavelmente varrido. Não havia grama nem calçadas, somente um caminho limpo e desenhado por entre os canteiros fartos dos pés de flores. Lili gostava especialmente do adorno que a lágrima de Cristo fazia sobre os marcos de uma das portas da casa e, da alamandra coberta de flores amarelas, que dava à porta da sala um ar de portal. Sim, um portal de acesso ao frescor de uma sala antiga, de janelas sempre abertas para a entrada da brisa da manhã. Lili se enfeitava com as flores, nos cabelos uma camélia rosa e nas orelhas uns brincos de princesa rosa e violeta, porque entre aqueles canteiros, o mundo de Lili, no alto de seus cinco anos, já era o de uma pequena princesa. 

No jardim da fazenda, vó Cinda cultivava muitas roseiras. Rosas de todas as cores, eram robustas e perfumadas. De tempos em tempos, ela colocava o Vergilino para arrancar as ervas daninhas invasoras, retirar as flores velhas e as folhas secas debaixo do pé de camélia. À noite, ela mesma cuidava de percorrer de laterna o formigueiro de onde saiam as formigas cortadeiras que devoraram suas roseiras. Uma manhã ou uma tarde da semana ela dedicava à arrumação do jardim.

Na altura do quarto onde dormíamos, ficava a cerca lateral do jardim, para os lados do arvoredo. Ali Vó Cinda preparava um canteiro para enterrar as batatas de palma, nome que ela dava para os gladíolos. Buscava sempre variar as cores, algumas com duas cores, centro claro ou vermelho e as bordas de tons coloridos variados: rosa, lilás, amarela, coral. Trocava  batatas com as comadres, para colorir ainda mais os buquês que faria para dia de Finados. Também as plantava na outra extremidade do jardim, contra a cerca de tela, entre as cravinas e as gerberas. Os canteiros no entorno dos arbustos da Palma do Domingo de ramos e do Jasmim eram cobertos por flores coloridas e delicadas: chitinhas, boca de leão e petúnias. Minhas tias traziam sementes da cidade ou de outros lugares por onde andavam. Ao terminar a temporada daquelas flores, ela cuidava de retirar as sementes e as batatas dos pés, para que na próxima entrada de primavera, ela as tivesse garantidas para novas plantações, para preparar sua colheita de flores para mais uma data de Finados.

Nas primeiras horas da manhã as flores já estavam colhidas, acomodadas numa cesta, numa bacia e num balde. E a charrete já preparada, com o Tarugo pacientemente esperando por nós: vó Cinda, minha mãe e eu. Elas faziam questão de muito cedo já estarem no cemitério, por causa do calor e para evitar a aglomeração que se fazia no largo corredor da entrada. Embora eu fosse muito pequena, tinha uma tarefa muito importante, carregar água com o jarro de alumínio que, especialmente neste dia, saia do banheiro da casa onde ficava guardado. Usávamos o jarro para colocar água nos vasos do túmulo da família e lá ia eu buscar água na torneira que se localizava  logo à direita, contra o muro do cemitério. Nunca o enchia totalmente por causa do peso do jarro, sorte também que o jazigo da família ficava bem à esquerda, próximo do portão de entrada do Cemitério. Eu ia e vinha várias vezes, pois se colocavam flores no vasos sobre o túmulo e nos fixados no chão, sempre aos pés do ente querido. 

Alguns dias antes do dia de finados, vó Cinda e minha mãe, às vezes com ajuda da tia Maria, iam ao cemitério para fazer uma limpeza, afinal encher os vasos de flores sem uma boa limpeza era um descuido inaceitável com os mortos, todo ano elas cumpriam com esta tarefa. Distribuíam flores por outros jazigos, todos ganhavam flores, os parentes e amigos próximos recebiam pequenos buquês como uma lembrança de que não eram esquecidos, pelo menos naquele dia dedicado a eles. Voltávamos antes do meio-dia para evitar o sol a pico. Invariavelmente o dia era pesado e piorava muito com o maldito vento quente vindo do norte, que transformava aquele dia, ainda que colorido pela quantidade de flores, uma dia triste de saudades dos que já haviam partido.

  

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Tia Jane, para sempre a professora


No quarto da Vó Cinda, Lili sempre escolhia dormir na cama do lado esquerdo, abaixo do quadro de um Jesus melancólico que povoava as suas indagações sobre a vida e sobre o mundo. Encostada na parede azul ficava uma cama cor amarelo claro de ferro, com uma cabeceira vazada com barras arredondadas, parecendo uma grade. A cama tinha lastro de molas e pular sobre ela era a primeira diversão do dia, era meu brinquedo de pula-pula particular. Então, eu me apossava da cama da tia Jane durante os dias da semana, quando ela não estava na fazenda ou quando ela viajava. Nossa divisão da cama respeitava os limites da gentileza familiar, misto de respeito pelos mais velhos e da hospitalidade para a qual éramos educadas. Nestas ocasiões, eu saltava para a cama da direita ou dormia em uma cama improvisada no chão, sobre o tapete de couro em frente ao guarda-roupa da vó Cinda.

Tia Jane nas primeiras lembranças da Lili era uma mulher não muito alta, de cabelos fartos, muito longos, pesados e de uma linda cor castanho escuro e com namorado. Nela tudo parecia charmoso e de bom gosto. Usava umas tiaras no cabelo, faixas ou lenços com os quais os amarrava em dias de calor. Ela fazia gestos amorosos na mesma intensidade com que usava sua franqueza em apontar o que não gostava e firmeza em nos corrigir. Era a professora que se sobressaia, muitas vezes, mais que a tia. Educava-nos na mesa, no comportamento com os outros e na higiene pessoal.

Todo ano, durante as férias vinham os primos mais velhos passar as férias na casa da fazenda. As tias cuidavam nessa época do ano de fazer grandes mudanças e faxinas na casa. E para nos manter ocupados, sobretudo os menores, nos convocavam para tarefas rotineiras: ajudar com retirada de uma montanha de lixo, um amontoado de muitas folhas dos cinamomos, porque o pátio fica impecavelmente bem varrido, lavar copos e arrumar a mesa, tarefa solitária da Lili, por ser a única menina em grande parte do ano, as atribuições do chamado mundo feminino eram todas pra mim. Com a Tia Jane arrumávamos o jardim, seguindo o capricho com as formas e alinhamentos que ela determinava, tudo tinha uma simetria, como a distribuição das mudas de amor-perfeito e cravinas nos canteiros, circundando o pé de roseira ou do jasmim, que ficavam centralizados e adornados por outras flores. Ela primava pela ordem caprichosa das coisas do mesmo modo que vigiava a concordância nominal e verbal da nossa fala.

Nestes dias de férias, tia Jane não deixava escapar os erros de português da gurizada, alguns alunos dela no Colégio Estadual. Certa vez, além das inúmeras com que seguidamente rearranjava os quadrados de tecido com crochê, para montar uma colcha que minha vó confeccionava, ela aproveitava para fazer adequações linguísticas na fala da vó Cinda. Explicava a ela que agora com a circulação de ônibus intermunicipais, passando na estrada em frente à fazenda, não se poderia dizer que a pessoa apeava do ônibus, tia Jane no seu ar professoral, insistia: mãe se diz "desembarca". Minha vó seguindo à risca a aula dada pela tia Jane, um dia quando um compadre apareceu à cavalo para fazer uma breve visita na fazenda, minha vó correu imediatamente para recebê-lo, dizendo: desembarque, desembarque.

O cuidado com as formas era repetido na hora de picar as frutas para salada de frutas, tradicional sobremesa do dia primeiro ano. Ela cortava as frutas e revisava os tamanhos, buscando a delicadeza harmoniosa dos tamanhos. Por esta razão, os mais velhos lembravam como ela tinha as manias da tia Dina, tia da minha vó Cinda, dado o hábito de picar batata ou mandioca em quadrados similares. Deste zelo com a harmonia das coisas, tia Jane também instituiu a Torta de Nescau como uma nova sobremesa de fim de ano e para essa e outras ocasiões de reunião familiar, o creme de camadinhas: uma camada de gelatina, uma de creme inglês e, por último, a camada de merengada. Na culinária fazia poucas coisas, mas se esmerava pela apresentação do prato, por isso o creme de camadinhas era colocado em cremeiras individuais transparentes, com um desenho de círculos coloridos, que se confundiam com as camadas do creme. 

Lili via nela um jeito de ser elegante e charmosa, era o estilo de uma professora de francês, já que ministrava também língua francesa na escola, reproduzido no modo de vestir: vestidos retos e discretos, conjuntos de casacos e calças combinando, de cores variadas e muito bem ajustados ao corpo pequeno, e batom de cores alaranjadas e rosadas, que passava até para ir na farmácia do meu tio, poucos metros de distância da casa onde morava na cidade. No seu guarda-roupa havia uma prateleira cheia de sapatos mocassim, com salto de madeira, ela usava uma cartela de cores desses sapatos: preto, azul-marino, marrom, vermelho, verde escuro, bege, amarelo... cores que ainda vivem nas memórias de Lili. 

Era uma mulher de beleza diferente, com um nariz adunco que não combinava com a doçura do seu sorriso, porém combinava perfeitamente com a franqueza habitual como expressava suas opiniões. Tinha lá suas implicâncias, e um desejo permanente de ver tudo bonito. Era fato que gostava de ser quem ela era, nesta certeza, solicitou mudança do nome que constava na certidão de nascimento. O cartório havia registrado como seu nome: Janiz, mas ela se reconhecia como Jane. O jeito didático como ordenava o seu mundo, suas aulas, seu trabalho docente, era um estilo de ser. Inspiração que Lili carregou consigo e que certamente transformou a escola em um sonho ainda maior para sua vida de menina do campo.

 




Lili chega à escola

O sonho acalentado de Lili naqueles dias de aprendizado com a Vó Cinda enfim iria se concretizar. No alto dos meus seis anos eu não tinha cl...