Lili seguia trajetos diferentes para ir à padaria. Em uma cidade pequena não existem tantos caminhos a percorrer, mas se pode andar cortando terrenos, mudando a direção por onde se vai, ainda que pelas mesmas quadras, ainda que fosse apenas trocar de calçada. A gente sempre acabava no mesmo lugar, pois todo o caminho que se tomava, tinha a praça como ponto de referência. Passar pela praça era inevitável. E ali onde a rua Carapé se encontrava com a sete de Setembro, fixada sobre pedras grandes e escuras, inscrita em letras de metal sobre uma placa de mármore, repousava e resistia a carta de Getúlio Vargas, eternamente aberta para leitura de quaisquer transeuntes. Diziam, à época, que toda cidade tinha aquela carta monumento. A nossa se localizava atrás de um banco de cimento, entre os muitos bancos que se distribuíam no contorno da praça. A famosa carta ficava na sombra rala de umas espirradeiras que na primavera se cobriam de flores cor de rosa, logo a espirradeira conhecida por ter folhas venenosas. Aquela carta, congelada no tempo e no mármore, era a despedida da nação feita pelo presidente antes do seu marcante suicídio.
Cada vez que eu lia a carta, quase a decorei, recordava da minha situação particular e dos que nasceram entre a década de 40 até meados dos anos 60 naquela terra fundada por índios e jesuítas. Na verdade, nasci em General Vargas, a cidade havia mudado de nome para homenagear o pai do Getúlio Vargas. Eram coisas da política local e que durou pelo menos umas duas décadas.. Eu não me via cidadã de uma cidade inexistente, gostava da origem jesuítica do nome do meu lugar de pertencimento. Aquele presidente me era familiar muito antes de começar minha experiência na vida urbana, ela fazia parte do meu universo, um velho conhecido por causa do seu retrato imponente pendurado na parede da sala da nossa casa no campo. Coisas políticas da minha mãe.
A fase de adolescente despertou em Lili novos interesses. Aguçou seu senso de observação para os acontecimentos da cidade: as festas, as comemorações, as rodas de conversas dos adultos, o comportamento das mulheres, o cotidiano morno e inalterável de quem vive no interior, os poucos fatos importantes da vida na minha cidade. Lili ampliou as leituras, migrou dos livros da série Vagalume para o jornal que lia no escritório do tio Ruco. Havia tardes que eu ficava em volta dele, até que me davam alguma tarefa, como organizar cronologicamente as notas fiscais e faturas de alguns estabelecimentos comerciais dos quais ele fazia a contabilidade. Passei a perceber os movimentos políticos da cidade e suas facetas acompanhando meu tio em algumas visitas com fins eleitorais, pois ele havia se candidatado para uma vaga de vereador.
Naqueles anos finais da década de 70, pela primeira vez acompanhei minhas tias até a sessão eleitoral, testemunhando aquele grande acontecimento que eram as eleições. Elas se aprontavam cedo, dia de usar roupa de domingo. As que moravam longe faziam questão de votar no município, embora há muito tempo tivessem saído da cidade. Minha mãe deixava todo serviço da casa, porque votar era sagrado. Polemizava com minhas tias e tios, bradava suas ideias e votava cheia de convicção no que acreditava. Tia Cisa desde aquela eleição não perdeu mais seu posto de apuradora de votos. Relatava o que os eleitores escreviam nas cédulas, recados desaforados, desabafos inusitados e se divertia contando o que testemunhava nas horas intermináveis da sessão de conferência dos votos marcados nas cédulas. Ela era assim, vibrava com uma eleição.
Lili ficava no corredor do Grupo Escolar aguardando elas votarem. Era dia movimentado, pequenas filas em frente às salas, fiscais dos dois únicos partidos na observação do processo. Muita conversa ao pé de ouvido nos grupos espalhados nas esquinas. Bandeiras e papéis dos santinhos voavam pelos pátios e se acumulavam nas sarjetas, fotos preto e branco de candidatos misturadas com algumas coloridas. Na praça, gente comentado seus votos, encontros com parentes e muita celebração. Via-se a correria de camionetes de cabo eleitorais e táxis trazendo e levando eleitores. Ao final da tarde muita gente se amontoava na porta do Clube Vicentino, onde se instalava a grande sala de apuração. As urnas de lona chegavam do interior assim como as que continham os votos das duas sessões eleitorais do centro, as do Grupo Escolar e as do Colégio São Vicente.
Fui aos poucos entendendo a importância daquele dia em que brotava gente de todos lados, tinha-se a impressão de que população local duplicava. As pessoas chegavam vestidas de uma maneira quase solene: os homens de calça e camisa, no modo alfaiataria, retiravam educadamente seus chapéus ao entrar nas salas de votação; as mulheres reforçavam o batom nos tons mais fortes e usavam leques para aliviar o calor que se anunciava forte em meados de novembro.
Sentada no banco nas imediações da carta do Getúlio Vargas, Lili fotografava mentalmente a agitação do dia, as pessoas que passavam voltando para casa e as que aguardavam ansiosas o resultado da eleição, aglomeradas no entorno da banca de revistas na esquina da praça, de olho no anúncio que o juiz faria do resultado das eleições lá de dentro do Clube, do outro lado da rua. Algo de muito grande fazia aquele dia ter um ar de esperança. Lili não conseguia ainda compreender todo aquela demonstração de compromisso e fé do povo em depositar seu votos nas urnas, em dia que a cidade se avolumava e um espírito de celebração pairava no ar; ela não sabia bem se tanto alvoroço era sinal de mudança. Estávamos em meados dos anos 70.
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