segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A grande mudança no trajeto de Lili


Acanhada e nervosa Lili entrou pela primeira vez pelo portão principal da escola no início de março de mil novecentos e setenta. Andou pela suave rampa, metade coberta pela sombra das árvores, outra metade, a mais íngreme já na altura da porta de acesso à parte interna escola, era uma cobertura de zinco, tendo na lateral, à direita, um corrimão de madeira reforçado. Parecia que aquele caminho era mais misterioso que longo. Não entrei dentro do recinto porque precisava antes encontrar meu lugar na fila junto aos colegas da turma da primeira série, que já estavam na parte baixa do pátio, entre as duas rampas. Havia outra rampa de acesso, a do portão lateral, ambas davam direto na porta de entrada. A escola, para quem estava quase com sete anos, e sem vivência em locais urbanos, parecia um lugar imenso, vasto como o gramado da frente da casa da fazenda. Ela ocupava boa parte do quarteirão e as crianças vinham chegando pelos dois portões, o que  aumentava ainda mais a sensação de ter muita gente estudando ali.

Aos poucos fui aprendendo a identificar os colegas. Eu não sabia até aquele momento o que era um colega e também o que era ter amigos, pois vinha do campo, meu mundo era preenchido pelas pessoas da família. Embora tudo fosse novidade e desafio ao mesmo tempo, fui arranjando modos de me acomodar naquele novo mundo da vida social que a cidade me oferecia. Tinha colegas vindas do campo também, outros mais experientes pois tinham frequentado o jardim de infância. A maioria, assim como eu, aprendeu logo a fazer sozinho o trajeto de casa à escola. A Osmilda e o Tivico vinham de muito longe, aliás o César Augusto chegava muito antes da hora na escola, junto com o guarda de quem ele, por inspiração, recebeu o mesmo apelido: Tivico. Eu podia vislumbrar o imponente e belo coreto da praça quando dobrava a primeira esquina na volta pra casa. O percurso de volta à casa dos meus tios era um momento de liberdade, tal como era caminhar pelo campo, eu estava no comando do meu trajeto.

A casa que fui morar na cidade se localizava em uma esquina, a três quadras da escola. Uma casa simples, pintada de uma cor indefinida entre o azul e o verde, era mais baixa que  a altura da rua de chão batido, pavimentada com uma mistura de terra vermelha bem sedimentada e uma terra solta cheia de minúsculas pedras moídas. Havia um pequeno portão de ferro que dava acesso direto à porta da frente, até lá uma calçada de tijolos e nas laterais umas margaridas perdidas pelo gramado do pequeno jardim. Meu quarto dava para o oeste, da janela pintada de vermelho escuro, eu podia ver a luz, apenas a luz do entardecer, porque dali eu já não conseguia ver o sol se pôr como no meu campo. 

A rotina escolar foi sendo assimilada: fila para entrar, cumprimentar a professora ao passar pela porta da sala de aula, guardar a classe na sala, de preferência sempre a mesma, responder a chamada, levantar a mão para falar, perguntar ou responder. Muitas vezes fiz xixi na calcinha de vergonha de pedir permissão para ir ao banheiro, depois acostumei. A disciplina me assustava, mas a venci pelo desejo de aprender. Entendi rapidamente como funcionava a fila para tomar a sopa da merenda, enquanto ficava de olho espichado para sala ao lado da cozinha vendo a Dona Sueli abrir o cadeado do armário mágico das guloseimas. Nele estavam guardadas caixas de doces para vender: balas, pirulitos, chicletes, merengues, sorvetes cobertos com maria mole adornados com anéis de fantasia, o maior desejo de consumo das meninas, além das saborosas merendinhas recheadas de morango ou chocolate. Mas me sobrava a sopa entulhada de legumes e verduras feita e servida pela Dona Joana, sob os olhos atentos da Dona Ana, que cuidava a vez de cada um ir à mesa para comer. Não havia lugares para todos, por isso se alternavam os horários das turmas para hora da famosa sopa. 

No pátio, Lili foi se integrando nas brincadeiras organizadas pelas colegas, logo estabeleceu laços de amizade, passou a sentar perto da Márcia e da Iolanda, nas fileiras do meio e mais à frente, elas estavam sempre concentradas na aulas. Optei por sair da classe localizada na fileira encostada na parede do corredor, onde me sentia invisível. Em seguida passei também a organizar os jogos, as rodas, a vez de cada uma na brincadeira das meninas. Quase nunca nos misturávamos com os guris. Colocava-me sempre disposta a participar, eu não era de disputas o que me dava vantagem em ser escolhida nas brincadeiras de grupo: ciranda-cirandinha, passa-passará, a canoa virou, escravos de Jó. Depois vinha a hora das atividades com bola e corda na educação física. Trazíamos, escondidos nos bolsos dos uniformes, pedaços de giz para desenhar uma sapata nas calçadas do pátio, em geral ao lado do poste de ferro no qual a bandeira do Brasil mantinha-se hasteada, movendo-se ao sabor do vento. 

Uma vez por semana tínhamos a tal hora cívica: hastear bandeira e cantar o hino e, especialmente neste dia, o uniforme deveria estar no capricho, pois passávamos por uma boa inspeção da Dona Ana, sob a observação criteriosa da nossa diretora Dona Celi. Embora ela como diretora tivesse aquelas funções fiscalizadoras, era afável, o seu sorriso desmanchava qualquer rigor que viesse a nos impor por causa da necessidade de vistoriar o uniforme ou prezar pela disciplina dos alunos, tanto no momento do recreio nos pátios externos como nas áreas comuns dentro da escola, onde não nos era permitido perambular. Quando a professora pedia para chamá-la, podíamos transitar no corredor. Em geral saímos em busca da diretora por causa das traquinagens perigosas e violentas do Ricardo, filho do turco que tinha uma loja do outro lado da rua. Às vezes, a mãe dele aparecia de surpresa na altura da janela da nossa sala de aula para espiar como ele estava se comportando.

Eu rondava a sala grande da biblioteca, raramente tínhamos atividades naquele espaço. Um misto de biblioteca com sala de artes. Eu me dedicava com afinco nas leituras e nas tarefas de artes, fiz uma cegonha de lã rosa e amarelo, moldada no arame, para a minha mãe e uma bota decorada com massa parafuso, pintada de prata, para o meu pai. Cada data comemorativa preparávamos algo especial na semana anterior, para presentear a família. O capricho de Lili estava nos detalhes, todas as folhas do caderno eram decoradas com pequenas flores coloridas, desenhadas no canto direito da parte superior de cada folha. E os cadernos forrados com capas de papel de presente que a mãe guardava e se reaproveitava. Cada novo tema de aula era sublinhado com cores variadas do seu conjunto de lápis de cor. A caneta azul e as coloridas só entraram na nossa rotina escolar no quarto ano, quando íamos nos preparando para a grande mudança que o quinto ano nos traria. A mais aterrorizante delas era ir estudar no Ginásio, sair da nossa escola. Mas a mudança para Lili se deu quando ela deixou o campo, a entrada na escola foi um divisor de águas. Navegar era preciso, os tantos desafios que chegavam só parecia o começo de uma grande travessia, definitiva: a da vida do campo para vida na cidade. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

A mãe e o afeto pela comida

Lili levantava a mão de dentro da grande bacia de alumínio com alças arredondadas e via, escorrendo lentamente entre os seus dedos, o preparo para massa de pão. Era a pressa de comer a massa crua do pão que fazia com que eu enfiasse os dedos com muita vontade sob a toalha que cobria a bacia, na esperança de encontrar na verdade um pedaço da massa pronta, era o desejo de comer aquela massa adocicada e gostosa antes mesmo dela estar assada que me movia a enfiar a mão dentro da bacia sorrateiramente. Eu estava sempre em volta da mesa onde minha mãe e a vó Cinda preparavam as fornadas de pão. Desde que me reconheci como pessoa neste vasto mundo via imagens recorrentes da minha mãe fazendo pão. Aliás, fazendo comida e transformando-a constantemente em gesto de cuidado e afeto.

Quando éramos pequenos, a mãe colocava na sopa do inverno os pedaços de galinha preferidos de cada um de nós e, ao servi-la, já destinava a parte de cada um, assim evitava brigas na hora da comida. Meu pai aproveitava e nos distraía com o pedaço do jogador, fazendo o jogo da queda de braço para ver quem levava o lado maior e vencia a disputa. Ele sempre ficava com o pescoço da galinha, pedaço que dispensávamos solenemente. À medida que crescíamos, os pedaços da galinha assada ou com molho eram feitos e oferecidos conforme a preferência de cada um. Ela também separava as sobras duras de queijo, já envelhecidas, para que a gente pudesse assar presas em um garfo, colocávamos na boca do fogão à lenha sobre as brasas flamejantes. Depois de prontas, ao comer, subia na boca aquele sabor inigualável do queijo assado e amolecido, rolado no açúcar cristal. Um lanche de luxo que fazíamos em dia de chuva, assim como as gemadas e as limonadas durante as tardes de inverno. Cada comida era um aquecer a alma e o corpo. E minha mãe sabia muito bem sobre esse prazer da comida, de inventar quitutes diferentes para nos oferecer a comida do dia com o que tínhamos à mão, alimentos produzidos em casa, riquezas gastronômicas simples e nutritivas. Assim, ela fazia do muito pouco um banquete de sabores. 

Ela nos servia a comida e saía para o pátio apressada, arrastando os tamancos, era a hora de dar milho para as galinhas, pois criá-las era sua atividade de maior dedicação, mas também a de preparar uma mamadeira com leite morno para alimentar algum cordeiro ou terneiro guacho que ela criava de igual modo, com todo o esmero. Em seguida, ela voltava, sentava-se na caixa da lenha com um prato de comida na mão e ali ela fazia as suas refeições, já de olho na pilha de louça que teria de lavar. Era corriqueiro ter mais gente para comer na nossa casa, algum ajudante do meu pai, um tio ou uma tia, irmãos do meu pai, que chegavam a passar temporadas conosco. 

Tio nito chegava normalmente na metade da manhã, tomava chimarrão com meu pai e fazia questão de aceitar o convite para o almoço, especialmente, quando minha mãe fazia carne de ovelha frita na panela de ferro. Ele se deliciava, e se fosse domingo ainda tinha a sobremesa, e ele se lambuzava comendo os doces feitos por ela. Lá em casa, as visitas sempre saiam com alguma caixa de ovos, uma linguiça, umas batatas doces, um saquinho com roscas de mandioca ou pãezinhos recém feitos, uma sacola de bergamotas ou laranja. A gentileza no mundo do campo era regada por alimentos e mantinha um sistema de trocas, sobretudo, com a vizinhança. E minha mãe seguia a cartilha da minha vó, mantendo essa tradição.

Havia sobremesas somente nos domingos e em datas festivas como o Natal e a Páscoa. Ela revezava a escolha do cardápio, usando sua capacidade inventiva de aproveitamentos, alternava sagu com creme, e na falta do vinho, usava leite ou suco de laranja, ou então fazia arroz de leite e no domingo seguinte ovos nevados e pudim, sempre tínhamos leite e ovos em casa, a base das suas receitas. Aprendeu muitas delas com minha vó e as aperfeiçoava, e tal como a vó Cinda fazia, tinha doces e bolos para oferecer, na expectativa da chegada de visitas inesperadas, em geral, de parentes e vizinhos. Nos domingos, o Vergilino aparecia na janela da cozinha, vinha buscar o seu arroz de leite, o doce preferido dele. Minha mãe tinha sempre a sobremesa dele reservada, servida em um prato bem generoso.

Minha mãe administrava o tempo com tantos afazeres que a vida no campo havia imposto a ela, com dificuldades e sacríficos, por isso estipulou horários para tudo. Metódica, encontrou uma forma de controlar a realização das tarefas diárias e, nos pequenos intervalos, podia fazer pratos que dava-nos a sensação da fartura e nos ensinava a apreciar sabores novos. Tudo que sobrava de comida era transformado em um prato novo, não se desperdiçava alimentos: da nata se fazia manteiga, do leite azedo bolinhos de coalhada, das batatas murchas e muito maduras um doce para passar no pão, das cascas e caroços das frutas uma geleia, das uvas um suco, das sobras de churrasco um carreteiro ou uma fritada com ovo. Ela sofisticava uma pedaço de carne de ovelha em bifes acebolados e das sobras da galinha assada montava um arroz em camadas que ia ao forno para ficar mais crocante. Dos miúdos da galinha um molho saboroso para o macarrão e transformava em iguaria de luxo um mondongo, servido na forma de risoto, inigualável. E, no fim do dia, restava um tempinho para enfiar cactus nos troncos do cinamomos ou plantar, em uma panela velha, uma muda de flor que havia ganhado de alguma amiga ou comadre.

Nos seis anos de Lili fizeram uma festinha, com a presença das tias e avós. Aniversários no campo eram fartos de salgados e doces feitos em casa. A torta doce foi feita pelas irmãs do meu pai. Minha mãe aproveitou o calor do forno no dia do pão e fez merengues, roscas de nata e broas de polvilho. O docinho da festa, o que sabia fazer, foram as chamadas brasileirinhas, umas torres de coco com gemas que eram levemente coradas no forno do fogão à lenha. A bebida que acompanhava tudo, chá preto ou limonada. A abundância de sabores vinha da fabricação caseira e da mão dela para culinária. 

Quando fomos morar na cidade, a rotina ficou mais leve para ela, então incluiu no seu modo de viver, visitas às amigas, comadres, parentes. Toda semana ela escolhia uma pessoa para visitar, sem deixar de ver a tia Maria todo dia, para verem juntas a novela da seis da tarde. Assistir às novelas voltou a fazer parte da vida dela novamente, pois na juventude tinha também seus horários de ouvir as novelas de rádio. Embora não aparentasse, minha mãe se importava excessivamente com os outros, porque tinha nela um jeito generoso de ser amiga e solidária.

Lili se defrontava com as reclamações da mãe porque ela se apegava muito ao pai, não se dava conta do afeto nos gestos que a mãe se esmerava em demonstrar no cuidado com a roupa, a vida escolar e o alimento, que ela nos dava sustentação para a vida. Talvez porque Lili passou parte do tempo, nos seus primeiros anos de vida, sendo regada de mimos pela vó Cinda. Minha mãe não era uma mulher fácil de lidar, nem de enganar ou manipular. Ela era astuta, briguenta quando necessário, agradável quando gostava de algo ou alguém, pois facilmente exercia sua simpatia quando confiava e se agradava da pessoa. Embora vivendo a dura rotina da vida rural, mantinha-se informada, ouvia rádio, tinha fortes posições políticas. Uma das novas atividades dela quando passou a viver durante a semana na casa da cidade, era frequentar comícios no período das eleições municipais, movida pela oportunidade de participar da campanha e da escolha de prefeitos e vereadores, depois de um longo período em que tivemos interventores nesta função. O retrato do Getúlio Vargas na parede da sala lá na nossa casa no campo era a referência da sua veia política.

Lili sabia que ela não era uma mulher que se dobrava no primeiro argumento, tinha opiniões fortes e muitas convicções, era teimosa e intensa ao mesmo tempo. Mas havia algo nela que a fazia admirável, porque na intensidade do seu gênio sempre havia uma ruptura que vinha pelo sabor de uma comida, o cheiro de um pão novo em formato de lagarto ou pombinha, um caldo ralo de doce de pera ou pêssego que nos confortava, alimentava nosso mundo de afeto, tinha lá sua forma singular e única de expressar amor.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Tia Betty e todos os cuidados que nos faziam falta

No quarto da minha mãe havia uma cômoda, uma banqueta e um espelho na parede, entre janela do lado esquerdo e a grande janela da frente, que raramente era aberta. Sobre a esta cômoda, minha mãe guardava uma caixa com material de costura e uma boneca minha, um brinquedo de borracha bem macio, fácil de apertar, de quando eu era bebê, que enfeitava a cômoda sobre um guardanapo de crochê verde claro. Ela deixava a boneca sobre o móvel para evitar que eu a levasse para brincar nos arredores da casa. Eu adorava brincar debaixo da sombra do cinamomos, mas deixava os brinquedos espalhados por onde andava. Eu perdi ali, no meio da terra solta, os bonecos de cerâmica de quando ela era criança, e ela ficou muito sentida. Muitas vezes minhas bonecas amanheciam no pátio com pés e mãos mascados pelos porcos. E eu tinha poucas bonecas, por isso chorava muito a cada perda.

Aquela bebê de plástico mole, abraçada em um ursinho, foi meu primeiro brinquedo, presente da tia Betty. Desde então ela parecia adivinhar o que eu desejava ganhar: uma caixa de giz de cera, uma caixa de lápis de doze cores, um caderno de desenho com uma capa dura alaranjada e minha única boneca negra. Tia Betty era assim, captava as vontades, os desejos e os interesses, porque ela olhava sempre para dentro da gente. 

Lili sabia desta escuta. Toda vez que ela vinha visitar a vó Cinda, trazia novidades, que não eram objetos, o que ela trazia era modos novos de fazer algo: uma costura, um bordado, uma receita, um remédio, nesse caso advindos dos saberes dela como farmacêutica. Ela achava saída para tantas situações. Eu tinha um encantamento pelo modo como ela silenciosamente prestava atenção sobre as pessoas e dava-lhes um tempo de escuta e cuidados.

Lili ficava à esperava do que ela trazia de novidade. Mal ela chegava, minha mãe se preparava para anotar alguma receita nova, pedia algum auxílio pra ela sobre como tratar algum incômodo físico, se aconselhava com a irmã, e absorvia todos os conselhos que podia. Tia Betty aprendia e ensinava, multiplicava seus conhecimentos. Eu me agarrava feliz nas roupas das minhas primas que ela repassava para mim, porque todas tinham sempre muitas delicadezas nas costuras, nas combinações e nos bordados. Ela fazia as roupas das filhas, copiava os modelos das vitrines das lojas. Ela era assim, criativa, original e com muito bom gosto. A sua elegância estava no jeito de ser, na fortaleza que brotava da sua personalidade, embora se vestisse de modo discreto, com saias bem alinhadas, camisas e blusas elegantes, tinha um ar de sofisticação genuíno. Eu admirava com ternura seu modo de demonstrar cuidado e preocupação com minha vó. Ela sabia das dores do corpo e da alma da vó Cinda. Quando jovem, em diversas ocasiões, ela enfrentou meu avô por suas seguidas intempéries com minha vó. Ela herdou a força emocional da minha vó.   

Tia Betty saiu muito cedo de casa. Rumou de trem para Ijuí para morar com tia Cecília e tio Bento, e lá frequentar a escola. Anos depois, mudou-se com eles para Santa Maria. Logo que terminou o chamado clássico no Colégio SantAnna, quis ser engenheira, mas naquela época não havia condições de se mudar para a capital, onde havia a faculdade de engenharia, além disso meu avô já tinha de ajudar mais duas das suas irmãs: tia Nira e tia Jane, que também estudavam no mesmo colégio e moravam na casa da tia Cecília. Não desistiu de fazer um curso superior e foi ser uma das alunas das primeiras turmas curso de Farmácia. Certamente foi a tia que menos morou na casa da fazenda, gostava de estudar, de ler e de se aprimorar. Ela era maior que aquele mundo do campo. Encheu meu avô e minha vó de orgulho ao ser a primeira da família a ter curso superior e o fez com coragem e generosidade.

Quando já morávamos na cidade, eu sabia que ela estava na Farmácia da tia Ivoloy, porque meu primo Titão, que era meu colega de escola, já havia me anunciado. Ela era a farmacêutica responsável, por um tempo ela e o marido, tio Cláudio, foram sócios da Farmácia Confiança. O nome do estabelecimento parecia ser a tradução do que ela nos passava: confiança. Eu entrava bem devagar pela portinha do balcão de atendimento da farmácia, à esquerda de quem entrava no estabelecimento, quase no cantinho onde ficava máquina de costura da tia Ivoloy e dali eu espiava a tia Betty concentrada no meio da pilha de receitas e de um grande caderno onde ela anotava tudo daquelas receitas especiais, que ficavam retidas na farmácia. Ela percebia minha presença, dava um sorriso afetuoso, perguntava pela escola e logo pela minha mãe. 

Naquele lugar, na mesa que meu tio Alfredo ocupava para seus afazeres de escritório, ela assumia um lugar de poder. Eu, ainda no curso da minha vida escolar, reverenciava aquela cena com admiração. Eu sentia uma vinculação imensa com ela, e pressentia algo grandioso no nosso caminho, um anúncio de que, em algum ponto da trajetória da Lili, haveria um tempo reservado para nós, para um encontro de acolhida e amorosidade, logo ali mais adiante.  


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Os chás da tia Maria

Dia de abater um porco, era dia de fazer linguiças, morcilhas, patês,; dia de abundância. Todos se envolviam com alguma tarefa no dia da carneação e íamos aprendendo a produzir e apreciar os alimentos que fazíamos. Eu ficava na volta para atender algum chamado da minha mãe e minha vó, a postos para buscar algo que precisassem. naquele dia de trabalho familiar. Assim que minha mãe terminava de cozinhar as morcilhas, meu pai retirava elas do caldeirão de ferro pendurado sobre o fogo de chão, que se mantinha abarrotado de lenha e brasa. Ele separava uma morcilha e cortava-a em rodelas grossas e as despejava em um prato cheio de farinha de mandioca. E todos corríamos para comer.

Lili se fartava com aquelas iguarias recém cozidas a ponto de fazer bigode de farinha de mandioca. Logo que a primeira linguiça tomava forma saindo da máquina de moer carne, que era adaptada para encher a tripa com o preparo para a linguiça, meu pai ia colocando as linguiças prontas sobre a grande mesa coberta de cortes de carne, no espaço onde conseguia juntá-las. Minha mãe as amarrava nas pontas com tiras de palha de milho, que eu rasgava cuidadosamente para que funcionasse como um barbante para uma amarração, colocava-as de molho na água morna para que ficassem malháveis e, com isso, facilitar o momento de fazer nó do acabamento que fecharia a linguiça. A primeira delas que ficasse pronta ia para um espeto, fazíamos assim o controle de qualidade: a quantidade de sal, alho e pimenta. Era dia de provar muita comida, dia de misturar linguiça quente com bergamota de sobremesa, dia de exageros e de um misto de diversão e trabalho Certa vez, Lili se fartou tanto que passou mal, mas lá estava a vó Cinda com seu chá de marcela, bem docinho, para  ajudar a recuperar o estrago no estômago da neta. Por muito tempo, Lili dispensou a linguiça nas refeições. 

Na vida rural, tudo que era mal estar se curava com chá. No inverno tomávamos chá preto no lanche da tarde como bebida quente, apenas para aquecer. Nos aniversários de Lili sempre havia uma torta bem recheada, merengues, rosquinhas de polvilho, pudim, tudo acompanhado por uma bela xícara de chá preto.

Os chás para dores e mal estar eram recomendados e alguém sempre conhecia alguma erva específica para cada enfermidade do corpo. Chá de cidreira para acalmar, chá de boldo e losna para o estômago, chá de carqueja para diarreia, chá de malva para fazer um gargarejo quando se tinha dor de garganta ou alguma ferida na boca, chá de camomila para enjoo e também pata aliviar a tensão da dor. E sempre tinha alguém na família que era a enciclopédia dos chás. Este era o caso da tia Maria.

Tia Maria era uma mulher alta, de fala mansa, sorriso afável e acolhedor. Usava o cabelo sempre curto e  na maioria das vezes vestia saia e blusa. Também era calma para andar, não se apressava, ia caminhando devagar e conversando. Era a filha mais velha do vô Alberto e vó Cinda e como filha mais velha ajudava a cuidar dos irmãos, era responsável pelas irmãs menores e o irmão mais jovem. Dizem que se dedicava a tarefa de dar banho neles, vesti-los e penteá-los, além de fazer tranças nas meninas e muito chá pra meu tio Ruco. Na adolescência aprendeu a fumar cigarro de palha, minhas tias contava que ela e a prima Amélia para fumam escondidas, temiam ser repreendidas pelo vô Alberto, mas ele acabou descobrindo pelo cheiro que vinha do alto das árvores, ondes elas se acomodavam para fumar um palheiro. 

Tia Maria se casou cedo e foi a primeira sair da fazenda para morar em uma chácara localizada em umas terras da família, que ficavam a uns poucos quilômetros da casa dos pais, situada logo depois da velha ponte de madeira do arroio do Salso. Minha mãe passava temporadas com ela, especialmente, quando nasceram os seus primeiros filhos. Anos mais tarde, mudou-se para cidade, e levou com ela os aprendizados de uma vida no campo e as sabedoria sobre os chás.

Na cidade, minha mãe se aproximou ainda mais da tia Maria, pois tínhamos ido morar na mesma rua, um quadra da casa dela. Todos dias, após o café da tarde, minha mãe fazia uma visita, tinha uma rotina de visitá-la no mesmo horário. Elas combinavam uma passada no cemitério para levar flores para algum familiar, nas datas de nascimento e morte, também idas à missa, visitas às primas e comadres,  muita conversa sobre as novelas que assistiam juntas. 

Com um cigarro no canto da boca, tia Maria estava sempre disponível para uma conversa na porta da casa, que ficava bem junto da calçada. A casa dela era fácil de entrar, a porta da frente nunca estava trancada ou chaveada, era só mover a maçaneta, entrar e chamá-la. Pela lateral da casa havia também um portão pelo qual se entrava em um terreno grande, já na chegada a gente se deparava com um cachorro buldogue muito feroz preso em uma corrente, por vezes também estava o cavalo do tio Adão encilhado, debaixo de uma sombra, além de ter muitas galinhas ciscando soltas pelo terreno. 

Do terreno podia-se acessar os fundos da casa e dar em um pátio interno onde havia um poço velho que não se usava, sobre ele tinha um quantidade de vasos dispostos com mudas de sementes que ela colhia ou ganhava, tinha mão boa para flores e plantas, parece que tudo que ela plantava nascia e crescia bem. À direita, uma área cercada com roseiras, muitas flores e algumas orquídeas Ao fundo, uma saída lateral entre o muro do vizinho e o galpão, chegava-se à horta, onde ela cultivava temperos, canteiros com várias verduras e muitas ervas para os chás que costumava fazer e oferecer para quem necessitasse: vizinhos com algum mal estar, minhas tias solteiras com ressaca ou enjoadas do estômago, e meu tio Ruco quando ele ficava ansioso ou nervoso. 

No verão, ela sentava com o marido na calçada em frente à casa até tarde da noite. Durante o dia, ela dava umas espiadas no movimento da rua do portal da casa, saudava as comadres que passavam, ficava sabendo das novidades da cidade, conversava com os parentes. Ali ela acolhia muita gente com aquele sorriso afável, olhar enviesado e muita calma. 

Era só sentir o cheiro de pão novo que lá estava Lili na cozinha da tia Maria. E o cheiro bom da comida exalava pelo ambiente, invadindo o corredor, passando entre o exuberante vaso com flor de maio, todo florido, naquela cor que chamavam rosa maravilha. Nas primeiras dores da menstruação, assustada Lili se socorria na casa da tia Maria, porque lá sempre tinha um chazinho quente, o chá dela era como um colo. Sinto o gosto doce e o aroma marcante de camomila.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Bordados da vida

A arte de bordar entrou na vida de Lili pela primeira vez através do álbum com riscos de bordados da sua mãe: arranjos de flores, guirlandas, cestas de frutas, grinaldas de flores do campo, além de desenhos de linhas sinuosas arrematadas com arabescos delicados que serviam para decorar as barras dos lençóis, inclusive a do lençol preferido de Lili, de que ela tanto gostava. 

Nas tardes chuvosas eu me distraia remexendo nas caixas onde vinham as camisas que minha mãe comprava para meu pai, ela reaproveitava a embalagem para guardar sua coleção de modelos de desenhos para bordar, riscos feitos à lápis sobre papel de seda. Era um mundo de delicadezas, caixas repletas de linhas coloridas, reunindo uma gama de cores e matizes impressionantes, com meadas de linhas de tipos diferentes, um cartão na forma de cesta com agulhas de várias espessuras, pedaços de tecidos com agulhas em uso presas, retalhos coloridos, pedaços de rendas e gregas, carretéis usados com sobras de fios, tudo para ser utilizado em algum bordado no futuro. As meadas mais longas e volumosas eram das famosas linhas da ilha da Madeira. Lili pensava intrigada que lugar seria este? quão distante seria esta ilha? pois nem o mar ela conhecia. Havia nessas linhas um requinte e nas outras, as mais sedosas, um brilho intenso que dava fineza a qualquer bordado, fosse um babador para bebê, um conjunto de quarto, um colcha, uma barra de lençol.

Minha mãe, como todas as mulheres da família, aproveitava quase toda a sobra, como as caixas de madeira ou as de papelão, ou papéis sedosos das embalagens de presentes que recebia da madrinha dela ou das irmãs. No guarda-roupa do quarto do casal, na parte destinada ao meu pai, tinha um local para pendurar os cabides com camisas e casacos e, logo abaixo, havia uma prateleira onde minha mãe guardava uma caixa de madeira. Eu mexia muito nos roupeiros, descobri dentro dessa caixa uma grande quantidade de recortes de jornal com poesias. Eram lembranças da vida de solteira da minha mãe, quando ela podia se dar ao luxo de se deleitar com aquelas poesias que havia selecionado ao longo do tempo, retirou-as das páginas de jornais da época, quando alguém os trazia para a fazenda. A caixa era um baú de recordações. Os tantos afazeres domésticos, os filhos pequenos e mais a rotina dura da vida no campo, tudo tomava muito do tempo dela e o interesse pela leitura das poesias foi sendo deixado pra trás. A coleção de recortes ficou guardada por anos dentro daquela caixa de madeira, escondida entre algumas mangas de camisa do meu pai. 

No roupeiro dela, na prateleira mais alta, estavam guardados seus objetos pessoais como uma caixa com lenços bordados, para usar quando saia para cidade ou ia alguma festa da família, um batom e um estojo de pó de arroz com um espelho. Também tinha uma embalagem acrílica de talco de tocador, que depois de vazia, se transformou em um porta bijouterias. Ela não dispensava o uso do talco logo depois do banho; ela cheirava a talco e distribuía o perfume pela casa. Nessa caixa de bijouterias estavam guardados brincos, correntes, pregadores de roupa, enfeites que na juventude ela comprava pelo catálogo da Hermes, pagava e buscava os produtos no correio. A tal prateleira era tão alta pra mim, que eu só conseguia ver o que estava nela se subida em um dos bancos da cozinha, eu sabia que ela guardava ali presentes que ela mesmo fazia, ou alguma encomenda de bordado já concluída. 

Durante algumas horas da tarde, minha mãe se dedicava a consertar e remendar roupas, mas também fazia alguns conjuntos de cozinha para as irmãs do meu pai, sendo tantas, cada ano tinha uma casando. O bordado era feito com aplicações de tecidos, morangos, cachos de uva, peras, ou então eram cenouras, tomates, cebolas Os bordados com aplicações de tecido eram mais para ambientes como os de cozinha. Ela também bordava golas para camisas de bebê ou os chamados vira mantilhas, sempre com delicados arranjos de flores. Levava um bom tempo elaborando as aplicações, fazendo os acabamentos de cada peça bordada. Depois de concluídos, elas eram lavadas, passadas e colocadas em caixas na prateleira mais alta do roupeiro para a hora oportuna de entregá-los. Meus melhores achados de guria arteira vinham do que eu vasculhava nos guardados da minha mãe, ainda que, na maioria das vezes, eu fosse repreendida exatamente por ser mexer em tais caixas. 

Lili se debruçava o que podia sobre a mesa da sala de jantar, ajoelhada sobre uma das cadeiras de madeira que ficavam no entorno da mesa, para poder assim ver mais de perto os bordados que estavam fazendo a da tia Nira e a tia Jane. Insistia em aprender, então elas selecionavam um pedaço de tecido, me davam uma agulha com uma linha para iniciar um bordado, mas antes era preciso copiar um desenho. Eu escolhi um ramo de flores, então elas passaram o lápis sobre o desenho no papel de seda para que o carbono, entre o tecido e o papel, reproduzisse o risco que eu havia indicado para bordar. Eu errava, desfazia, fazia de novo para manter o bordado sobre as linhas do desenho. Mal aprendia um ponto, já me cansava, queria mudar para outro, pois eu sabia, de tanto olhar os trabalhos delas, e de passar os dedos sobre os bordados dos guardanapos da casa, que se podia fazer outros pontos, de jeitos diferentes. Me aborrecia de tanto ponto atrás, queria a escama de peixe, queria as linhas harmônicas do caseado que se usava para contornar as bordas dos guardanapos. Eu  ansiava por ver aquele desenho do buquê de flores coloridas, amarrado com um laço azul, pronto. Eu tinha pressa de concretizar o que minha mente vislumbrava através das cores daquele risco desenhado sobre o tecido, o acabamento do meu aprendizado era por fim concluir o tal bordado. Tia Nira era paciente, me sinalizava em gestos que refazer era o primeiro passo para o capricho e a perfeição. Nos bordados dela, o direito e o avesso eram quase indistintos dado o esmero com que se dedicava a cada detalhe. Tia Jane perdia a paciência comigo rapidamente, de vez em quando soltava um "que guria enjoada". Muito tempo depois, me ensinou a tricotar e aprendi o jeito único com que ela tecia os pontos do tricô.

Quando nos mudamos para chalé da cidade, assim que meu irmão do meio precisou entrar na escola, fomos vizinhar com Dona Lalá e seu Noé. Ela era bordadeira de mão cheia, ele dono de um açougue que ficava junto à casa deles. Era uma casa grande, pintada de verde escuro, com a entrada pelo corredor lateral, que fazia divisa com nosso terreno. Logo depois do portãozinho de ferro, localizado bem junto da calçada da rua, havia uns degraus que davam acesso à porta de entrada da sala de visitas. Na casa havia duas salas: a da entrada, que tinha um sofá grande contra parede do fundo, umas poltronas e uma mesa de centro. A outra, contígua à sala da entrada, era a sua sala de trabalho, tinha uma mesa, um armário com muitas caixas com linhas e fios e, sobre as prateleiras, cortes de tecidos. Naquela sala ela acolhia as noivas, para quem bordava as peças dos enxovais. Algumas tardes, ela sentava naquele sofá e deixava a porta aberta, da janela do meu quarto eu a via bordando pacientemente lençóis e colchas. Cravos, rosas, flores do campo se espalhavam sobre os tecidos, os claros para os lençóis e os coloridos para as colchas. Tudo delicadamente bordado, eram dias e dias dando formato àqueles desenhos escolhidos pelas noivas, caprichosamente ela ia escolhendo pontos, cores e traçados para cada peça conforme o gosto de cada noiva.

Depois de fazer minhas tarefas da escola, mais para final da tarde, gostava de visitá-la, tocava os bordados para sentir os traçados, com a permissão dela, é claro. Meu fascínio não era porque aquelas eram peças para noivas, que ela bordava com tanta maestria, era o trabalho dela que me encantava, era aquela arte de preencher formas e linhas que se transformavam em tanta beleza, em guirlandas coloridas, laços robustos, folhas e flores entrelaçados, buquês frondosos. Dona Lalá exercia a arte de preencher linhas e espaços com tanta paciência, tardes infindáveis sentada ali, bordando. Uma parte da vida dedicada à cada conjunto de lençol, às colchas, vida  dela se estreitava com o destino daquelas noivas.

sábado, 4 de setembro de 2021

As galinhas e a minha mãe

Liberdade para Lili era correr pelo gramado em frente à casa da fazenda. Parecia-lhe um campo imenso, abria os braços como quem quisesse colocar para dentro de um abraço toda a beleza do sol do poente, dourando os altos eucaliptos que faziam a linha de frente no gramado, e separavam a estrada da área da moradia: casa, jardim, galpões, mangueiras para lida diária com ovelhas e vacas de leite. Final de tarde, os terneiros eram colocados em uma área coberta, separados das vacas. Davam a eles algum farelo ou cana para alimentá-los enquanto não podiam tomar leite das suas mães. O cheiro de cada mãe vinha com cheiro do leite, e cedo da manhã, depois da ordenha, eram liberados e assim reconheciam suas mães.

Quase todo ano, durante o inverno, tínhamos um terneirinho para cuidar. Minha mãe tomava a tarefa de criá-los como uma missão, ela passava a ter uma rotina de dedicação para cuidá-los, era como se a atenção dela estivesse totalmente focada em consolar os terneiros da perda prematura de suas mães. Um filhote tinha suas horas de alimentar, de soltar para pastar e de colocar em um local protegido para não pegarem o frio da noite. Ela preparava uma garrafa de vidro com leite morno, colocava no gargalo um bico feito de borracha para que pudesse sugar o leite, imitando a teta da vaca e, três vezes ao dia, os alimentava. Dependendo do rigor do inverno, tínhamos de  dois a três órfãos para cuidar. As grandes enchentes, as enfermidades ou fraqueza das mães as levavam à morte logo após darem cria. E uma vez e outra também acolhíamos cordeirinhos.

Lili só se encarregava de dar as sobras de comida para o Titinho. Um cusco baio, bem menor que nosso cachorro chamado foguete. Era um bulldog mal humorado, carrancudo e sempre na vigilia do cavalo do meu pai. Passava horas deitado ao lado do cavalo encilhado, até meu pai montar para alguma lida no campo. Não era muito amistoso para brincadeiras. Já o Titinho nos acompanhava, era a melhor pista para minha mãe nos localizar pelas imediações do arvoredo ou lenheira. Excepcionalmente, meu pai dava permissão dele entrar na cozinha, ficava nos procurando pelos cantos.  Fora esses dois, havia uns gatos ariscos no galpão, prontos para uma caçada de ratos. E claro, meu pai criava uma boa quantia de porcos e minha mãe uma centena de galinhas.

A criação das galinhas não só era tarefa primordial da vida rural para minha mãe, era uma paixão que ela desenvolveu desde pequena. Ela e a tia Nira, com pouca diferença de idade uma da outra, andavam sempre juntas. Vó Cinda fazia roupas iguais para as duas, em muitas ocasiões se apresentavam como se fossem gêmeas. Elas compartilhavam o mesmo gosto por criar os pintinhos e, quando crescidos identificar e separar os frangos, escolher os que poderiam ser garbosos galos do terreiro e também aquelas galinhas que seriam cevadas para depois serem abatidas e se ter carne para o almoço de domingo. Elas atribuíam nomes para as galinhas e cuidavam de protegê-las das raposas e graxains que sorrateiros batiam no galinheiro durante à noite.

Na nossa casa, minha mãe estava sempre alerta para invasores que à noite viam saborear alguma galinha. Cada pintinho que nascia com dificuldade ou se machucava, ganhava um lugar especial, ela preparava uma caixa de madeira ou papelão, com pedaço de pano, água e um pouco de quirera de milho. Colocava a caixa embaixo do fogão à lenha para garantir que os pintinhos ficassem aquecidos, às vezes, eles ainda estavam saindo da casca do ovo. Depois os pintinhos viravam frangos e andavam atrás dela, estabelecia uma relação de confiança tal com ela, o que explicava o fato dela nunca abater uma galinha, designava a tarefa para meu pai. 

Toda rotina da minha mãe era madrugar, abrir o galinheiro para soltar as galinhas, dar milho a elas, repor a água dos cochos de madeira dispostos embaixo das pereiras. Três pés de pereira faziam sombra na parte da frente para peça de madeira que servia de galinheiro. Toda manhã, logo depois do café ela limpava tudo e, no meio da tarde, religiosamente revisava os ninhos em busca dos ovos. Final da tarde, ia trazendo as galinhas que estavam debaixo das taquaras, no arvoredo, na lenheira, em geral, elas sabiam a hora de se recolher e rumavam ao galinheiro. Aquela centena de aves que se aglomeravam entorno dela tinham o ritmo e a rotina que ela havia imposto  O prazer da minha mãe era conhecer a linhagem de cada galinha, uma que sumisse ou desaparecesse, ela logo se dava conta. Na folhinha de calendário do ano, pendurada na parede acima da caixa da lenha, marcava a data que cada galinha era colocada para chocar, daí para frente contava os dias e ficava na espreita de quando nasceria o primeiro pintinho.  

Lili não se achegava muito às galinhas, temia as bicadas e unhadas. mas se encantava com os pintinhos. Colocava-os entre as mãos e os apertava como um brinquedo, o carinho em excesso os sufocava demais. Vez que outra, meu pai socorria os coitadinhos para evitar que fossem esmagados. Observava sua mãe sempre entorno daquele bando galinhas, vermelhas, amarelas, brancas, carijós. Via como ela negociava novas penugens e raças com vizinhos e parentes, trocava seus frangos e galinhas por galos. Todo cuidado na criação das galinhas se mostrava no brilho das penas, na gordura das galinhas, na elegância dos galos. Desde que nasci minha mãe já estava nesta labuta e vivendo o prazer de  fazer algo que ama. Viver no campo para ela era gozar da liberdade de criar os bichos, de resgatá-los, de acolhê-los e cuidá-los.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Autodeclarada ovelha negra

Uma certa tarde de Outono apareceu na fazenda um carro de aluguel com duas freiras trazendo junto com elas minha tia Cisa, nesta época, com cerca de oito anos. De batismo se chamava Luci, mas ganhou o apelido familiar de Cisa dado pela Dida, a senhora que cuidava dos trabalhos domésticos na casa da fazenda desde época da minha bisavó, quando meus tios e tias eram crianças. E todos nós os sobrinhos adotamos chamá-la de Cisa. A visita inesperada e inusitada surpreendeu meus avós, porque as freiras do Colégio de Jaguari tinham vindo devolver minha tia. A traquinagem que ela havia aprontado tinha sido grande, podia-se entender muito bem que um internato não combinava com ela, pois era uma alma livre, de arroubos inteligentes e desafiadores para aqueles comportamentos e horários rígidos, exigidos pelas irmãs nas rotinas do Colégio. Havia faltado às missas da madrugada, e se comportava sempre de modo inquieto nas missas, nas quais era obrigada a cantar em Latim, embora já tivesse decorado todos os cânticos. 

Ela era a caçula da família, mimada da minha bisavó e desfrutava do zelo e condescendência do vô Alberto que deixava passar, sem repressões, suas traquinagens e suas invenções. Minha mãe e as outras tias mais velhas contavam que ela criava histórias mirabolantes, cantava e dançava enquanto narrava suas invencionices. Lili ouvia ela sempre falar do casamento da Raposa, se tivesse chuva com sol ela nos dizia: dia de casamento da Raposa. Nunca entendi muito a origem desta história muito menos como uma raposa poderia se casar. Entre outras coisas, tia Cisa usava muitos ditados, ousava com certos palavrões tal como era o costume da Tia Idalina, minha tia bisavó. Aplicava os ditados com maestria às situações da vida: "eu conheço os bois com que eu lavro"; "atrás de mim vem quem me faça melhor", ditado preferido da minha vó Cinda, além de outros como: "quem sai ao seus não degenera"; e comparações do tipo: "amassado como bucho de vaca"; "enrugado como maracujá de gaveta; "frio de cagar gelo". Seu lado mais desbocado e engraçado se mostrava em horas inusitadas com esses ditados e eu me divertia aprendendo esses ditos familiares. 

Em ocasiões como as do dia de marcação do gado, quando se batizavam os terneiros jovens, marcando-os com um ferro quente sobre o couro, para assim identificar os donos de cada animal, ela sentava no alto da cerca da mangueira com a gurizada em volta e se divertia comparando a cara das vacas com alguns parentes. A gente ria muito porque a comparação sempre fazia sentido. Seu maior medo eram as cobras, davam-lhe pânico e horror. Um cobra que aparecesse no pátio ou no jardim, ainda que das verdes, já sabíamos que não se podia comentar, mas sempre tinha um guri sádico para abrir o bico e provocar: "vi uma cobra hoje", era certo que ela reagia nervosa e descambava com palavrões.

Eu gostava da alegria com que ela nos divertia, sem contar do quanto ela nos envolvia e, ao mesmo tempo, nos ensinava com suas faxinas, ou nas varridas do pátio nos colocando para ajudar, distribuía tarefas, afinal " trabalho de criança é pouco, mas quem despreza é louco", bradava dando risada do nosso esforço. Apreciava tudo muito limpo e com ar de arrumado, sem folhas secas no chão, sem bagunça nos quartos, camas impecavelmente arrumadas, nenhum pó sobre os móveis, e claro os guardanapos de crochê impecavelmente engomados e trocados a cada grande faxina da casa. 

A fase da faxina veio depois que ela se mudou para capital, as faxinas eram o modo dela cuidar da casa durante as férias na fazenda, muito mais ainda depois que minha vó Cinda faleceu. Ela deixava a casa pronta para ser habitada, ainda que a casa ficasse cada vez mais fechada com passar dos anos, sem a presença das pessoas da família, já que as temporadas na fazenda foram minguando e ficando mais raras. Porém, na juventude levou uma vida agitada, muito cigarro, festas, bebidas, bailes, banhos de rio. Contavam que sua maior aventura dessa época foi cruzar por dentro da praça em um fusca, durante uma madrugada, lotado de amigos.

Trabalhou um bom tempo na cidade, trabalhava na prefeitura, gostava da política, ocupou cargo de Secretária de Finanças do Município, era boa nas contas. Nos nos fins de semana ia para fazenda, fazer ambrosia, ajudar nas faxinas e preparar alguma janta para reunir os amigos, sentar na frente da casa pra ver as estrelas, beber uma cerveja enquanto ouviam a melodia do violão tocado por algum amigo. Com ela ouvíamos rádio todo tempo, ela cantava e dançava. Quando os sobrinhos mais velhos ficaram moços ela, magra e leve, bailava com eles, às vezes, descalça e vestida com o que ela nomeava "roupas rurais". Puxava um dos meus primos pelo braço e dizia: "Cavalheiro me dá honra desta dança? Ela também nos apurou o gosto musical, ouvindo as canções de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, a trilha sonora da sua juventude. 

Mas a tia Cisa era de humor variável, sofria de frequentes dores de cabeça e seu gênio de questionadora se revelou. Lili observava seus destemperos, era estranho porque na verdade se opunha ao que não aceitava, era aguda nos argumentos e tinha uma grande intuição sobre o comportamento das pessoas. Eu admirava o grau de inteligência dela, que se mostrava na sua rebeldia, como a de andar só de biquini pela casa e pelo pátio na Fazenda, sem se importar com os homens que trabalhavam na lida do campo ou da lavoura, que a olhavam meio envergonhados, nem com com o olhar atravessado dos meus tios. 

Era verão, mês de fevereiro e ela vestia uma avental sobre o biquini e coordenava uma fabricação caseira de goiabada. Mexia um tacho de doce de goiaba com gosto, depois de azucrinar o Vergilino para armar um fogo de chão no pátio dos cavalos, debaixo dos cinamomos. O doce era resultado dos muitos frutos dos pés de goiaba como os das primeiras e únicas nogueiras da fazenda, coisa rara naqueles idos dos anos setenta, mudas que ela havia trazido no bagageiro de um ônibus que fazia a linha Porto Alegre - São Borja. Meu pai fez o plantio das goiabeiras e nogueiras. Quando ela descia cedo da manhã na beira da estrada, ele sempre a esperava e auxiliava com a bagagem. Um vez ela trouxe enroladas num papel bem dobrado algumas sementes de melão americano para meu pai plantar, sempre uma novidade vinha com ela. Para nós, crianças vivendo no campo, a chegada dela perto do Natal era  também sinal de presentes bons.

Ela e meu pai eram companheiros de chimarrão e de beber cerveja nas festas da família. Quando bebia muito, em geral, ela passava do ponto e ficava agressiva. Afloravam todas suas inquietações, implicava com alguém no ambiente ou com quem tinha algum dissabor e se descontrolava. Dava no jeito de apressar sua volta para a capital, assim que se recuperava, percebia-se ressacada da bebida e atarantada por suas explosões de comportamento. Lili descobria nessas explosões uma amostra da sua lucidez. Ser quem ela era, tão independente, era um sopro no meio de tanta gente apegada ao modelo de vida interiorana e conservadora. Por esta razão, ela se identificava com a letra do rock da Rita Lee, ironicamente, em um dado momento da sua vida, passou a se autodeclarar a Ovelha Negra da família. 

 

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...