sábado, 25 de junho de 2022

O santo padroeiro

Só três lugares na cidade tinham a imagem do São Vicente Ferrer, padroeiro da cidade, em um lugar de destaque: a igreja, a escola e o hospital. Vi o Santo na salinha de espera na primeira vez que de fato consegui entrar nas dependências internas do hospital. Meu acesso à ala dos quartos se deu quando fui ver minha mãe em uma das tantas vezes que ela foi internada com dores fortes por causa de cálculos na vesícula. Isso sempre acontecia na segunda-feira depois de um fim de semana no campo. O churrasco do domingo, com fartura de carne de ovelha, resultava no estrago digestivo da minha mãe. Ela saboreava com gosto uma costela de ovelha bem assada, especialidade do assador, meu pai. Na minha infância comia-se muita carne de ovelha tanto quanto se comia com frequência a carne das galinhas que ela criava. 

O hospital já estava na lembrança remota da Lili, de quando aos quatro anos foi levada por uma das tias paternas para conhecer, da janela lateral de um dos quartos, o irmão que acabava de nascer. As visitas estavam proibidas para os pequenos, minha birra e insistência levou a que encontrassem um modo de eu estar lá comprovando o nascimento do meu irmão, afinal tudo aquilo era um evento novo na minha vida. O santo exposto naquele saguão, tão discreto no seu pedestal, zelava os doentes. Enquanto eu olhava para ele, tinha a sensação de que passava despercebido pelas pessoas que chegavam ao hospital, como se ninguém se importasse com o lugar sagrado que ele ocupava naquele recinto. É, talvez toda a descrição da sua presença era ideia ali: estar na vigília dos cidadãos doentes, aflitos, desesperançados.  

Na escola, o São Vicente Ferrer tinha seu lugar de honra na ampla área da entrada do prédio, era maior, destacando-se naquela ampla parede verde. Lá estava a postos nos recebendo e nos vigiando, para os mais crentes e tementes a Deus, nos protegendo. Ele estava ali, desde antes de Lili iniciar a segunda fase do primeiro grau. Desconfio que colocar o santo na escola foi obra da dona Maria Cony, a nossa eterna professora ilustre, era a diretora do colégio quando iniciei o quinto ano. Uma senhora altiva, estatura média, cabelos curtos e afofados, usava uns óculos de lentes grossas com aro preto quadrado, complementando a sua figura sóbria. Ela tinha o porte de grande dama, geralmente, andava vestida com terninhos escuros e bem alinhados. Muito religiosa, era comum vê-la ao final da tarde indo em direção à igreja, quase sempre acompanhada de sua irmã, dona Noemi, que tocava o órgão durante a missa. 

Dona Maria e Dona Noemi e a irmã Maria Clara moravam em uma casa antiga, ao lado da prefeitura, de frente para a praça central. Seguidamente, tia Jane me enviava para buscar as famosas e deliciosas queijadinhas feitas por dona Noemi. Na entrada lateral, um portão de ferro dava acesso ao corredor, coberto de folhagens, por ele se chegava a uma área que lembrava um jardim de inverno. Na frente, havia um portal com um pequeno saguão antes da porta principal, decorado com ladrilhos de cores sóbrias, lembravam-me os da sala de jantar da casa da fazenda, então toquei a campainha. Lembro de sentir um certo constrangimento ao tocar, mas entrei na sala de estar e aguardei tranquilamente a encomenda. Durante a espera, eu fiquei analisando o ambiente, tudo era como elas, bem arrumado e discreto. A vergonha vinha do fato de  que uma vez e outra eu me juntava à Tina, Jeane e Cecília na traquinagem de tocar a campainha da casa das Cony, para logo sair correndo às gargalhadas até conseguir dobrar a próxima esquina e desaparecer da vista das Cony. Tocar a campainha era uma brincadeira boba, nem sei bem do que achávamos graça, mas sabíamos que havia na cidade três lugares nos quais a campainha nunca falhava, sempre funcionava: a casa das Cony, a casa do padre e a farmácia da tia Ivoloy.

Na igreja, claro, o santo espanhol São Vicente Ferrer ficava no alto da sacristia, iluminado pela luz tênue das velas no centro do retábulo. No seu pedestal recebia também a luz indireta e amarelada das lâmpadas das luminárias redondas, de vidro leitoso e dispostas no entorno da peça da sacristia, que seguia a forma do semicírculo da construção. Ele figurava de modo harmonioso com o silêncio da igreja e se destacava entre os demais santos que se espalhavam no entorno do altar e nas laterais. 

Na quarta série nos ensinavam sobre a história do município. Lili, então, descobriu que o  santo padroeiro foi trazido pelos Jesuítas para aquelas terras entre os rios Ibicuí, Toropi e Jaguari. Nos primeiros tempos de ocupação, a localidade foi nomeada de Redução de São José, que deu origem primeiro à vila e depois ao município. Contavam na escola que na praça central havia muito gado pastando e também comentavam que, no terreno da casa da esquina onde moravam os médicos da cidade, haviam localizado um antigo cemitério indígena.  

A estância de gado São José estava sobre a guarda e administração dos jesuítas da Redução de São Miguel, um grupo de índios guaranis se instalaram naquelas bandas, ajudavam no cuidado com o rebanho. A história missioneira da cidade tinha uma magia para Lili, aquele passado longínquo e pouco conhecido parecia tão importante, tornava a sua cidade um lugar no mundo e na história. O mesmo santo trazido pelos jesuítas continuava zelando por todos na igreja, situada em frente à praça, ela foi construída naquela mesma vasta área de pastoreio do gado da Estância de São Vicente, que adotou não só o santo como padroeiro como o seu nome ao ser elevado a município em 1876 e passando então a se chamar de São Vicente do Sul.

domingo, 29 de maio de 2022

Onze anos

Duas quadras e meia de casa e Lili já estava no portão do Ginásio. Iniciava uma nova etapa com a chegada da quinta série e completava, por fim, seus cinco anos de vida urbana. O largo pátio calçado da entrada da escola era um universo a ser percorrido e com certeza seria explorado nas brincadeiras com as colegas. Pés de Pinus ao lado do mastro das bandeiras guardavam aquele espaço todo ladrilhado e indicava o quanto a construção era grande. Dois blocos grandes pintados de um cor clara em contraste com a cor vermelho escuro das vigas definiam a arquitetura e compunham o prédio da escola, que ocupava grande parte do quarteirão, contornando a esquina da Cipriano D'ávila com a Carapé. 

Em dias de sol, formávamos fileiras por turma e por ordem da série que estávamos cursando. As cortinas de grade eram erguidas ao máximo e nos posicionávamos bem em frente às duas portas largas da entrada, A terceira grade ficava constantemente fechada, todas desciam de um caixa desde o alto do teto. Na parte superior, um certo final de tarde, um colega dado às traquinagens pendurou ali minha famosa bolsa de macramê, meu orgulho de moda. Lili havia deixado de usar a pasta preta de guardar os cadernos, para usar algo mais despojado com o qual pudesse identificar sua personalidade, uma vez que os uniformes eram obrigatórios, algo nela deveria fazer a diferença. Fui salva pelo diretor que a retirou com o gancho de ferro de puxar e desenrolar as pesadas cortinas de ferro.

Havia dois modos de acessar a escola, através da entrada principal ou pelo pátio na parte mais baixa do terreno. Quando chovia a fila era organizada na parte coberta, no subsolo de um dos blocos do prédio, por onde podíamos chegar usando a escada junto ao declive do terreno, na altura na qual se alinhavam os Pinus e os mastros das bandeiras. No saguão da entrada principal, de um lado ficavam as salas da direção e da secretaria, e do outro, os murais com os avisos. Ao fundo, destacava-se solene a estátua de São Vicente Ferrer, colocada sobre um púlpito preso na parede. Ela separava os dois corredores de acesso a cada um daqueles blocos de salas: as aulas dos pequenos e as aulas dos grandes. O jeito sereno do santo se mostrava ainda mais resplandecente com a luz da lâmpada no centro do teto, que dava diretamente sobre ele. O santo padroeiro da cidade tinha um lugar de destaque, parecia nos receber e também nos abençoar lá do alto, logo acima de dois grandes vasos carregados de lírios da paz, enfeitando aquela entrada interna do novo colégio de Lili. 

Em uma grande faxina na escola, dizem que o santo foi cuidadosamente banhado, para retirada do pó e fuligem acumulados. A coordenação de tal empreitada foi da tia Jane, professora da escola e, por algum tempo, diretora. Coisa certa que uma limpeza de tal envergadura era ato de capricho comandado por ela. Desde este acontecimento, criou-se uma falação na cidade de que o tal banho inusitado dado no santo pelas professoras solteiras havia surtido um grande efeito, pois elas teriam, segundo as línguas afiadas da cidade, desencalhado. E elas eram muitas, o banho foi tarefa coletiva das mulheres. Para Lili, o tal desencalhar soava como se as professoras estivessem sem saída, a causa e efeito do banho no santo era visto como um milagre. Todo o excesso de limpeza e zelo das professoras com o santo lhes custou a piada do "desencalhar" até a última delas se casar, inclusive a tia Jane que se casou tempos depois e foi-se embora para outra cidade.

A estranha e primeira novidade de estudar no ginásio, como a escola era popularmente chamada, é que nos separaram dos meninos. Duas quintas séries, porta de sala lado a lado, o que nos ajudou a não perder a comunicação direta ali mesmo nos corredores, onde a gente conversava, dava risada, burlava uns com os outros. O grupo de meninas cresceu com novas colegas vindas da escola Coqueiros e da escola do Cavajuretã: Roselei, Sônia, Corina, Jussimara, Jeane entre outras. Separadas dos meninos nos fortalecemos, os segredos aumentaram, os interesses foram ficando comuns e, cada vez mais, nossa conversa se voltava para interesses de namoro, sobre beijos e tipos de beijos, trocar pôster de artistas, falar sobre a música preferida, olhar figurino de roupas nas revistas, comprar brilho labial com formato e gosto de morango no catálogo da Avon. E elaborar longos questionários que mais pareciam fazer parte de um inquérito sobre a vida da pessoa, e nosso alvo já se voltava para as respostas dos meninos. Nem sempre eles colaboravam, afinal viam na tal empreitada uma armadilha que buscava saber os segredos mais bem guardados dos guris: de qual menina eles gostavam.  

As nossas salas ficavam quase em frente à escada por onde descíamos para o subsolo e para o pátio onde fazíamos educação física: lá treinamos muito salto em altura e salto à distância. Haviam ainda nesta parte inferior do prédio, salas de depósitos para os materiais de artes, para os instrumentos da banda e bolas e redes para as atividades da educação física, além do consultório da dentista e a cozinha, onde ofereciam a merenda.

No mesmo corredor das nossas salas de aula, ao lado da sala dos professores, ficava a biblioteca: algumas prateleiras com livros, classe reunidas fazendo mesas para estudo e pesquisa, um quadro com avisos e mesas com máquinas de escrever, que o pessoal ensino médio usava nas aulas do técnico em contabilidade. Lili se encantou de imediato com a pequena biblioteca, procurava livros, enciclopédias e revistas, tudo era fascinante. Uma a duas vezes por semana dava uma verificada no material para ver se havia chegado algo novo. 

A leitura dos livros da tia Jane e as aulas de redação instigaram Lili para a escrita. Passou a escrever novelas curtas. O material, minhas colegas mais velhas me forneciam facilmente com seus relatos amorosos ou com seus pretensos desejos românticos. Lili reinventada as histórias relatadas pelas amigas, criava personagens inspirada pelas fotonovelas da revista Grande Hotel. Os protagonistas começaram a ter nomes fixos: Max e Verônica. Durante dias, eu juntava as moedas do troco das compras, às vezes, também ganhava umas moedinhas das vizinhas pra quem eu comprava pão todas as tardes. Com o valor guardado, eu corria para comprar revistas de fotonovelas na banca da praça, afinal ali estava meu modelo dos diálogos e de como contar uma estória romântica. 

A banca na esquina da praça era ponto de encontro e paquera dos jovens. No outro lado, na esquina do Clube, o ponto de conversa sobre política dos mais velhos e também das fofocas. Meu colega Tampinha havia se mudado da cidade, o pai dele foi por um bom tempo o proprietário da banca. Quando iniciei meu interesse na leitura de fotonovelas, o dono era seu Mozarte, um senhor alto, elegante e com um bigode de galã.

O ano crucial da entrada no ginásio foi intenso: professores diferentes, disciplinas novas,  cadernos e mais cadernos para passar a limpo, muitas provas para se preparar. Um ano que Lili perdeu quase dois meses de aulas por causa de uma caxumba e, logo depois, por uma rubéola, um ano puxado para dar conta de tantos temas novos. Sem contar ter passado pela constrangedora vistoria da escola por suspeita de piolho encontrado na cabeça de alguma colega, todas iam para fila de catação de lêndeas e do bichinho perdido na cabeleira das gurias. A inspeção era feita no pátio da escola debaixo do sol da primavera, já prenunciando o calor forte do verão.

Meu dia feliz e o melhor presente do ano foi meu aniversário de onze anos, pude convidar algumas amigas e lá estavam minhas avós de julho. Era uma gostosa tarde fria no início do mês de agosto. Tomamos juntas um xícara de chá acompanhada de uma torta de Nescau feita por uma das minhas tias doceiras. Minha vida na cidade tinha seu roteiro e eu podia dar conta de vislumbrar um novo horizonte tal como fazia lá na fazenda, contemplando a lua cheia nascendo por detrás da frondosa timbaúva ao lado da porteira.


quinta-feira, 21 de abril de 2022

A cidade nos acolheu

Em meados de 1973, Lili havia finalmente retornado à convivência cotidiana com sua família. Após  a decisão da mãe, mudaram para a cidade. Meu irmão do meio havia feito sete anos, e estava na hora dele também ir para escola. Meu pai ficou no campo, lá era sua querência e seu lugar da lida campeira, da plantação de melancia e de milho. Assim passamos a ter uma vida alternada entre a cidade e os fins de semana na nossa morada em frente à fazenda

Na cidade nos sentíamos acolhidos, tínhamos tios e primos que moravam por perto. Com a mudança da tia Cisa para a capital, meu pai negociou a compra do chalé com o proprietário. A tia Jane ainda seguiu morando conosco por mais um bom tempo, trabalhava na escola estadual onde eu comecei minha jornada nos anos finais do primeiro grau, dois anos depois de nos instalarmos na rua principal da cidade. O chalé simples de portas e janelas verdes combinando com tom de amarelo claro das paredes parecia uma bandeira brasileira já bem gasta pelo tempo. Até aquele momento, ele vinha sendo habitado pelas minhas tias solteiras que trabalhavam na cidade.

O chalé era muito simples, com dois quartos, uma sala de estar, uma outra sala que servia de escritório para tia Jane, onde fazíamos nossas tarefas da escola, uma cozinha e um banheiro bem precário. Em frente ao banheiro uma peça que minha mãe usava como um depósito. Tínhamos luz e também uma televisão pequena preto e branco, geladeira elétrica e fogão à gás: muita modernidade e novidade na nossa vida urbana. A coisa mais bonita do chalé era o piso: tábuas largas de madeira, enceradas e lustradas quase todos dias. Minha mãe deslizava sobre elas usando pedaços de pelego sob os pés, era como se estivesse treinando passos de uma dança que só ela domimava.   

O terreno da casa avançava até uma pequena plantação de cana de açúcar, que servia de alimento para as vacas de leite do seu Noé. Durante o dia, ficavam em um potreiro que se estendia até a rua detrás. Por ali ainda dava para cruzar uma cerca lateral, que limitava com pátio da casa do Tio Ruco, cortávamos o caminho para chegar a casa dele. Do lado direito, vizinhávamos com a dona Dinorá. Ela costurava e fazia minha saias, calças e blusas quando iniciei a vida escolar, no colégio estadual, que ainda chamávamos de ginásio. Na nova escola, a gente deixava de usar o avental branco com as letras iniciais do nome bordadas no bolso , uniforme que usávamos durante quatro anos no Grupo Escolar.

A sala que servia de escritório, tinha uma mesa no centro onde a tia Jane preparava as aulas  de português, literatura e francês. De vez em quando eu ajudava a recortar as figuras para as aulas de francês. Ela fazia painéis para fixar ao lado quadro negro, figuras com os nomes em francês eram agrupadas por temas: frutas, roupas, objetos da escola, entre outros. Morar com ela me abriu para o mundo da palavra e da leitura, passei a ler todos livros de literatura disponíveis. Ela só não me permitiu ler o Crime do Padre Amaro, mantido na parte fechada à chave da estante. Passei anos rondando o livro, as proibições nunca combinavam com Lili. 

A rotina ia se ajustando aos poucos. Eu dividia o quarto com a tia Jane, e meus irmãos com minha mãe. Começamos a nos encantar com filmes e os desenhos animados na TV. Minha mãe agora tinha mais tempo para seus bordados, as novelas voltaram para sua vida e plantou algumas dálias no corredor ao lado da casa, na divisa com o terreno da dona Dinorá. Deixou a recorrida das galinhas no final da tarde e a rotina de alimentar os tantos bichos domésticos  no encargo do meu pai. Mas toda sexta-feira à tarde tomava um ônibus cheia de sacolas e voltava para nossa casa no campo. Dividia seus afazeres domésticos entre duas vidas e duas casas.

A cidade foi nos trazendo novos hábitos e descobertas. Meu irmão do meio passou a achar o pão da minha mãe sem sabor, bom mesmo eram os pães da padaria do seu Darci e da dona Marisa: grandes baguetes de pão d'agua, o pão cabrito, com suas duas partes sobrepostas, de massa macia e amanteigada e ainda o pão doce sovado e brilhoso com pequenos cortes que lhe davam um ar de sofisticação. Os pães eram embalados com finas folhas de papel branco, dona Marisa as torcia nas pontas levemente para assim amarrar a embalagem. Não haviam sacos nem sacolas plásticas.

O produto preferido e mais famoso da Padaria São Vicente eram os biscoitinhos mignon, tal como nome refere, pequenos biscoitinhos crocantes de massa salgada, que inclusive levávamos em porções para a merenda na escola. Já o famoso biscoitão, a versão exagerada do tal biscoitinho, meu pai costumava comprar um saco grande para os dias de campereada, servia como acompanhamento do churrasco. Duravam dias se bem acondicionados. 

Como mais velha, passei a ser a mandalete da casa, ou seja, fazia as compras eventuais no armazém Encantado do seu Adão. Depois passamos a ter cardeneta mensal para as compras no armazém do seu Darci Fragoso, pai das minhas duas novas amigas, Jeane e Jussimara, vindas do Cavajuretã, e agora nossas colegas no ginásio. No mercadinho, comprávamos café, açúcar, farinha, lâmpadas até linhas e tecidos para costura. O verdadeiro armazém de secos & molhados. 

Lili se comunicava bem com todos, já dominava os trajetos da cidade e passou a colaborar com a compra diária do pão para as vizinhas, religiosamente no meio da tarde. Em casa comprávamos pão da padaria depois que já não tínhamos o feito pela minha mãe.  Eu vinha da padaria distrinuindo as encomendas, o nosso pão dágua vinha acomodado debaixo do braço, já com bico rasgado, não me continha em tirar um naco e saborear o pão quentinho. Rasgar pão já era meu hábito, fazia o mesmo com os fabricados pela minha mãe, o que ela detestava. Aquela tarefa de comprar e entregar pão era prazerosa, eu conhecia as pessoas, seus jeitos, seus olhares, suas expectativas. O campo me deu o ponto de observação sobre a natureza, e eu ia alargando-o em relação às pessoas na nova vida urbana.

Nesta mesma época, meu vô Joãozinho havia se mudado para a cidade. Comprou uma chácara quase dentro do perímetro urbano. Desgostoso com o suicídio da filha Cristina e com dinheiro de uma safra excepcional de arroz, comprou uma chácara e ali se instalou. Passou um lomgo tempo arrumando o lugar. Construiu um bom chalé para a vinda definitiva da vó Xiruca e dos filhos mais jovens que seguiam morando com a família, vieram todos na cidade. Lili via nos seus olhos a tristeza que lhe abatia, andava de olhar baixo. Os olhos verdes azulados tão vibrantes se tornaram opacos e vagos. Colocava as horas do dia no cuidado com a horta, e o que produzia, vendia para ajudar nas despesas. Algumas vacas de leite no grande terreno, que depois também ajudaram minha vó no sustento da família com a venda de leite, quando ele faleceu.

Eu atravessava pelo terreno dos fundos da nossa casa até chegar à rua detrás. Andava mais uns metros e entrava por um campinho ao lado da antiga residência do doutor D`Avila. Eu sabia que ia dar nos fundos da nova chácara do vô Joãozinho. Fazia isso fugida da minha mãe, porque eu tinha uns onze anos e me metia por meio de terrenos desconhecidos, sem medo. A ingenuidade de Lili era acreditar que campo e cidade tinham a mesma segurança, uma liberdade de se mover sem temor,  movida apenas pelo desejo de desvendar lugares desconhecidos.  

Meu avô só resmungava me olhando espantado: o que tá fazendo aí guria? Eu dava uma resposta qualquer e ia vasculhar a horta e as peças já se desmanchando da casa velha. Ele era calado e eu, curiosa demais. Bombardeava-o de perguntas. Ele respondia monossilábico mascando um palheiro. Misturava algumas palavras em alemão bem baixinho, quase um sussurro. O alemão vinha nele nas horas mais profundas, sua língua materna era o refúgio das suas emoções. Estávamos todos nos deslocando, aprendendo administrar um novo modo de levar a vida. No entanto, Lili sentia que ele seguia deslocado, mergulhado no silêncio de uma tristeza sem fim.  

Lili estava bem adaptada às rotinas da vida na cidade. Saia na frente quando ia à escola com o irmão do meio, guiando-o, mas nunca junto dele, afinal era ela quem ali sabia das coisas da cidade. Meus irmãos estavam divididos entre o novo que a cidade apresentava e a saudade da casa lá fora, sentiam falta da largueza do campo. O menor chorava de saudade do meu pai, era acostumado dormir junto com ele antes de ser colocado na sua cama no nosso quarto. Uma vez por semana, pelo menos, meu pai vinha de fora na charrete amarela, acomodava o veículo na entrada lateral, descarregava alguns mantimentos: ovos, frutas, batata, mandioca, moranga. Almoçava conosco, enquanto o Tarugo descansava, bebia uma água e esperava meu pai dar a ordem de retorno. Nestas vindas, seguidamente, levava meu irmão menor de volta para o campo. Cerca de um ano depois, ele entrou no jardim de infância e começou a fazer amigos. A cidade foi ficando aprazível para todos, mas sem diminuir sentimento que nos fazia pertencer ao campo: o apego telúrico.  

sábado, 29 de janeiro de 2022

Gosto de pitanga

No calendário da Lili, novembro era um mês marcado por três acontecimentos. Iniciava com o dia de finados e toda a melancolia que podia existir de um dia como aquele. Nem mesmo o ritual de colocar flores para os entes queridos, como gesto amoroso, retirava da data a tristeza que ela continha. Em meados de novembro as pitangueiras enchiam-se de frutas de tons variados desde o verde claro, amarelo, laranja, vermelho até chegar no ponto das frutas quase negras, bem escuras, maduras e deliciosamente doces. Logo para final do mês chegavam os esquiladores com suas tesouras afiadas para fazer o salão anual das ovelhas, que nesta época do ano estavam cobertas de uma abundante camada de lã. Havia na tosquia duas finalidades, retirar a lã para comercializar e também aliviar as coitadas da farta cobertura de lã, principalmente porque já fazia dias de muito calor no final de novembro.

A temporada das pitangas com certeza aguçava nosso desejo de andar pelo campo das vacas mansas. Quase na altura do pequeno açude havia um mato onde predominavam pés de maricás e de pitangas. As idas ao matinho das pitangas fazia parte do programa da pescaria no mês de novembro. Conhecíamos de memória quais daqueles pés tinham as pitangas mais doces e as mais diferentes em textura e sabor.  

Em outras ocasiões, nem precisávamos da pescaria para partir rumo ao matinho das pitangas. Atravessávamos pelo arvoredo velho e na cerca que separava-o do campo das vacas mansas, pulávamos sobre o arame, apoiando os pés em dois tocos de árvores que havia de um lado e outro da cerca, bem junto a linha das bergamoteiras. À direita duas enormes araucárias pareciam duas belas guardiãs nos espreitando.

Lili acompanhava os guris para o flanco de guerra, batalhas de trabuco com bolinhas verdes de cinamomo. Assim que passávamos pela cerca avistava-se uma linha composta por vários pés de velhos cinamomos gigantes. Ela começava nas araucárias e ia até as imediações do matinho das pitangueiras. Subidos no alto dos cinamomos, os guris simulavam uma guerra insana com as frutas verdes da árvore. Lili, então, ficava apoiada no tronco de um dos cinamomos onde ela pudesse ficar protegida da intensa batalha que eles se envolviam. Não lhe interessava aquela guerra de meninos. O tempo dela era para contemplar o campo que descia em direção à várzea até dar no arroio da Divisa. E quando sol se punha, era magnífico ver a silueta dos cinamomos que se projetava no final da tarde sobre a lavoura de melancia do meu pai, naqueles dias já com os pés bem desenvolvidos e com frutas crescidas. Em dezembro teríamos melancias maduras. Aquela hora e aquele momento eram para mim a idea mais perfeita do bucólico.

A pescaria do domingo no açude trazia anda mais expectativa. Lili não pescava, ficava observando o movimento ligeiro dos lambaris nas partes mais claras da água. Maria nos vigiava, um olho nos mais velhos que se aventuraram nas partes mais zonas mais fundas do açude e  outro nos pequenos que ficavam nas margens molhando os pés e jogando água para o alto, dois ou três realmente se ocupavam da pesca. Lili rabiscava desenhos no chão com a ponta de uma taquara, recolhida junto ao taquaral que protegia a taipa do açude, fazendo uma sombra fresca sobre a qual colocávamos nosso material de pesca, os lanches e alguma colcha velha para sentar. Já chegávamos alimentados de tanta pitanga, no meio do caminho a parada no matinho era obrigatória. Nossas risadas eram pintadas de cor de pitanga, o contorno das nossas bocas enchia-se de um lambuzo avermelhado de puro contentamento, ficava impregnado na gente o gosto das pitangas do matinho do campo das vacas mansas.

Na volta para casa ficávamos competindo salto sobre o grande cocho de sal. Um tronco de árvore, com uma vala funda no meio, onde se coloca o sal para as vacas. Escorado por cavaletes nas duas pontas, ele ficava elevado do chão, mas não tão alto que aos dez anos de idade não pudéssemos pular. Localizava-se depois da cerca do arvoredo, atrás das bergamoteiras, no lado oposto das araucárias. No final da tarde, ali naquele cocho, além da brincadeira de saltar sobre ele, também sentávamos a espera do pôr sol para ver como na luz dourado do poente a linha dos velhos cinamomos da época do nosso bisavô, ficava ainda mais gigante. O nosso dia acabava farto de tantas brincadeiras e o gosto das pitangas persistia no nosso paladar, estávamos satisfeitos de vida.   

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A grande mudança no trajeto de Lili


Acanhada e nervosa Lili entrou pela primeira vez pelo portão principal da escola no início de março de mil novecentos e setenta. Andou pela suave rampa, metade coberta pela sombra das árvores, outra metade, a mais íngreme já na altura da porta de acesso à parte interna escola, era uma cobertura de zinco, tendo na lateral, à direita, um corrimão de madeira reforçado. Parecia que aquele caminho era mais misterioso que longo. Não entrei dentro do recinto porque precisava antes encontrar meu lugar na fila junto aos colegas da turma da primeira série, que já estavam na parte baixa do pátio, entre as duas rampas. Havia outra rampa de acesso, a do portão lateral, ambas davam direto na porta de entrada. A escola, para quem estava quase com sete anos, e sem vivência em locais urbanos, parecia um lugar imenso, vasto como o gramado da frente da casa da fazenda. Ela ocupava boa parte do quarteirão e as crianças vinham chegando pelos dois portões, o que  aumentava ainda mais a sensação de ter muita gente estudando ali.

Aos poucos fui aprendendo a identificar os colegas. Eu não sabia até aquele momento o que era um colega e também o que era ter amigos, pois vinha do campo, meu mundo era preenchido pelas pessoas da família. Embora tudo fosse novidade e desafio ao mesmo tempo, fui arranjando modos de me acomodar naquele novo mundo da vida social que a cidade me oferecia. Tinha colegas vindas do campo também, outros mais experientes pois tinham frequentado o jardim de infância. A maioria, assim como eu, aprendeu logo a fazer sozinho o trajeto de casa à escola. A Osmilda e o Tivico vinham de muito longe, aliás o César Augusto chegava muito antes da hora na escola, junto com o guarda de quem ele, por inspiração, recebeu o mesmo apelido: Tivico. Eu podia vislumbrar o imponente e belo coreto da praça quando dobrava a primeira esquina na volta pra casa. O percurso de volta à casa dos meus tios era um momento de liberdade, tal como era caminhar pelo campo, eu estava no comando do meu trajeto.

A casa que fui morar na cidade se localizava em uma esquina, a três quadras da escola. Uma casa simples, pintada de uma cor indefinida entre o azul e o verde, era mais baixa que  a altura da rua de chão batido, pavimentada com uma mistura de terra vermelha bem sedimentada e uma terra solta cheia de minúsculas pedras moídas. Havia um pequeno portão de ferro que dava acesso direto à porta da frente, até lá uma calçada de tijolos e nas laterais umas margaridas perdidas pelo gramado do pequeno jardim. Meu quarto dava para o oeste, da janela pintada de vermelho escuro, eu podia ver a luz, apenas a luz do entardecer, porque dali eu já não conseguia ver o sol se pôr como no meu campo. 

A rotina escolar foi sendo assimilada: fila para entrar, cumprimentar a professora ao passar pela porta da sala de aula, guardar a classe na sala, de preferência sempre a mesma, responder a chamada, levantar a mão para falar, perguntar ou responder. Muitas vezes fiz xixi na calcinha de vergonha de pedir permissão para ir ao banheiro, depois acostumei. A disciplina me assustava, mas a venci pelo desejo de aprender. Entendi rapidamente como funcionava a fila para tomar a sopa da merenda, enquanto ficava de olho espichado para sala ao lado da cozinha vendo a Dona Sueli abrir o cadeado do armário mágico das guloseimas. Nele estavam guardadas caixas de doces para vender: balas, pirulitos, chicletes, merengues, sorvetes cobertos com maria mole adornados com anéis de fantasia, o maior desejo de consumo das meninas, além das saborosas merendinhas recheadas de morango ou chocolate. Mas me sobrava a sopa entulhada de legumes e verduras feita e servida pela Dona Joana, sob os olhos atentos da Dona Ana, que cuidava a vez de cada um ir à mesa para comer. Não havia lugares para todos, por isso se alternavam os horários das turmas para hora da famosa sopa. 

No pátio, Lili foi se integrando nas brincadeiras organizadas pelas colegas, logo estabeleceu laços de amizade, passou a sentar perto da Márcia e da Iolanda, nas fileiras do meio e mais à frente, elas estavam sempre concentradas na aulas. Optei por sair da classe localizada na fileira encostada na parede do corredor, onde me sentia invisível. Em seguida passei também a organizar os jogos, as rodas, a vez de cada uma na brincadeira das meninas. Quase nunca nos misturávamos com os guris. Colocava-me sempre disposta a participar, eu não era de disputas o que me dava vantagem em ser escolhida nas brincadeiras de grupo: ciranda-cirandinha, passa-passará, a canoa virou, escravos de Jó. Depois vinha a hora das atividades com bola e corda na educação física. Trazíamos, escondidos nos bolsos dos uniformes, pedaços de giz para desenhar uma sapata nas calçadas do pátio, em geral ao lado do poste de ferro no qual a bandeira do Brasil mantinha-se hasteada, movendo-se ao sabor do vento. 

Uma vez por semana tínhamos a tal hora cívica: hastear bandeira e cantar o hino e, especialmente neste dia, o uniforme deveria estar no capricho, pois passávamos por uma boa inspeção da Dona Ana, sob a observação criteriosa da nossa diretora Dona Celi. Embora ela como diretora tivesse aquelas funções fiscalizadoras, era afável, o seu sorriso desmanchava qualquer rigor que viesse a nos impor por causa da necessidade de vistoriar o uniforme ou prezar pela disciplina dos alunos, tanto no momento do recreio nos pátios externos como nas áreas comuns dentro da escola, onde não nos era permitido perambular. Quando a professora pedia para chamá-la, podíamos transitar no corredor. Em geral saímos em busca da diretora por causa das traquinagens perigosas e violentas do Ricardo, filho do turco que tinha uma loja do outro lado da rua. Às vezes, a mãe dele aparecia de surpresa na altura da janela da nossa sala de aula para espiar como ele estava se comportando.

Eu rondava a sala grande da biblioteca, raramente tínhamos atividades naquele espaço. Um misto de biblioteca com sala de artes. Eu me dedicava com afinco nas leituras e nas tarefas de artes, fiz uma cegonha de lã rosa e amarelo, moldada no arame, para a minha mãe e uma bota decorada com massa parafuso, pintada de prata, para o meu pai. Cada data comemorativa preparávamos algo especial na semana anterior, para presentear a família. O capricho de Lili estava nos detalhes, todas as folhas do caderno eram decoradas com pequenas flores coloridas, desenhadas no canto direito da parte superior de cada folha. E os cadernos forrados com capas de papel de presente que a mãe guardava e se reaproveitava. Cada novo tema de aula era sublinhado com cores variadas do seu conjunto de lápis de cor. A caneta azul e as coloridas só entraram na nossa rotina escolar no quarto ano, quando íamos nos preparando para a grande mudança que o quinto ano nos traria. A mais aterrorizante delas era ir estudar no Ginásio, sair da nossa escola. Mas a mudança para Lili se deu quando ela deixou o campo, a entrada na escola foi um divisor de águas. Navegar era preciso, os tantos desafios que chegavam só parecia o começo de uma grande travessia, definitiva: a da vida do campo para vida na cidade. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

A mãe e o afeto pela comida

Lili levantava a mão de dentro da grande bacia de alumínio com alças arredondadas e via, escorrendo lentamente entre os seus dedos, o preparo para massa de pão. Era a pressa de comer a massa crua do pão que fazia com que eu enfiasse os dedos com muita vontade sob a toalha que cobria a bacia, na esperança de encontrar na verdade um pedaço da massa pronta, era o desejo de comer aquela massa adocicada e gostosa antes mesmo dela estar assada que me movia a enfiar a mão dentro da bacia sorrateiramente. Eu estava sempre em volta da mesa onde minha mãe e a vó Cinda preparavam as fornadas de pão. Desde que me reconheci como pessoa neste vasto mundo via imagens recorrentes da minha mãe fazendo pão. Aliás, fazendo comida e transformando-a constantemente em gesto de cuidado e afeto.

Quando éramos pequenos, a mãe colocava na sopa do inverno os pedaços de galinha preferidos de cada um de nós e, ao servi-la, já destinava a parte de cada um, assim evitava brigas na hora da comida. Meu pai aproveitava e nos distraía com o pedaço do jogador, fazendo o jogo da queda de braço para ver quem levava o lado maior e vencia a disputa. Ele sempre ficava com o pescoço da galinha, pedaço que dispensávamos solenemente. À medida que crescíamos, os pedaços da galinha assada ou com molho eram feitos e oferecidos conforme a preferência de cada um. Ela também separava as sobras duras de queijo, já envelhecidas, para que a gente pudesse assar presas em um garfo, colocávamos na boca do fogão à lenha sobre as brasas flamejantes. Depois de prontas, ao comer, subia na boca aquele sabor inigualável do queijo assado e amolecido, rolado no açúcar cristal. Um lanche de luxo que fazíamos em dia de chuva, assim como as gemadas e as limonadas durante as tardes de inverno. Cada comida era um aquecer a alma e o corpo. E minha mãe sabia muito bem sobre esse prazer da comida, de inventar quitutes diferentes para nos oferecer a comida do dia com o que tínhamos à mão, alimentos produzidos em casa, riquezas gastronômicas simples e nutritivas. Assim, ela fazia do muito pouco um banquete de sabores. 

Ela nos servia a comida e saía para o pátio apressada, arrastando os tamancos, era a hora de dar milho para as galinhas, pois criá-las era sua atividade de maior dedicação, mas também a de preparar uma mamadeira com leite morno para alimentar algum cordeiro ou terneiro guacho que ela criava de igual modo, com todo o esmero. Em seguida, ela voltava, sentava-se na caixa da lenha com um prato de comida na mão e ali ela fazia as suas refeições, já de olho na pilha de louça que teria de lavar. Era corriqueiro ter mais gente para comer na nossa casa, algum ajudante do meu pai, um tio ou uma tia, irmãos do meu pai, que chegavam a passar temporadas conosco. 

Tio nito chegava normalmente na metade da manhã, tomava chimarrão com meu pai e fazia questão de aceitar o convite para o almoço, especialmente, quando minha mãe fazia carne de ovelha frita na panela de ferro. Ele se deliciava, e se fosse domingo ainda tinha a sobremesa, e ele se lambuzava comendo os doces feitos por ela. Lá em casa, as visitas sempre saiam com alguma caixa de ovos, uma linguiça, umas batatas doces, um saquinho com roscas de mandioca ou pãezinhos recém feitos, uma sacola de bergamotas ou laranja. A gentileza no mundo do campo era regada por alimentos e mantinha um sistema de trocas, sobretudo, com a vizinhança. E minha mãe seguia a cartilha da minha vó, mantendo essa tradição.

Havia sobremesas somente nos domingos e em datas festivas como o Natal e a Páscoa. Ela revezava a escolha do cardápio, usando sua capacidade inventiva de aproveitamentos, alternava sagu com creme, e na falta do vinho, usava leite ou suco de laranja, ou então fazia arroz de leite e no domingo seguinte ovos nevados e pudim, sempre tínhamos leite e ovos em casa, a base das suas receitas. Aprendeu muitas delas com minha vó e as aperfeiçoava, e tal como a vó Cinda fazia, tinha doces e bolos para oferecer, na expectativa da chegada de visitas inesperadas, em geral, de parentes e vizinhos. Nos domingos, o Vergilino aparecia na janela da cozinha, vinha buscar o seu arroz de leite, o doce preferido dele. Minha mãe tinha sempre a sobremesa dele reservada, servida em um prato bem generoso.

Minha mãe administrava o tempo com tantos afazeres que a vida no campo havia imposto a ela, com dificuldades e sacríficos, por isso estipulou horários para tudo. Metódica, encontrou uma forma de controlar a realização das tarefas diárias e, nos pequenos intervalos, podia fazer pratos que dava-nos a sensação da fartura e nos ensinava a apreciar sabores novos. Tudo que sobrava de comida era transformado em um prato novo, não se desperdiçava alimentos: da nata se fazia manteiga, do leite azedo bolinhos de coalhada, das batatas murchas e muito maduras um doce para passar no pão, das cascas e caroços das frutas uma geleia, das uvas um suco, das sobras de churrasco um carreteiro ou uma fritada com ovo. Ela sofisticava uma pedaço de carne de ovelha em bifes acebolados e das sobras da galinha assada montava um arroz em camadas que ia ao forno para ficar mais crocante. Dos miúdos da galinha um molho saboroso para o macarrão e transformava em iguaria de luxo um mondongo, servido na forma de risoto, inigualável. E, no fim do dia, restava um tempinho para enfiar cactus nos troncos do cinamomos ou plantar, em uma panela velha, uma muda de flor que havia ganhado de alguma amiga ou comadre.

Nos seis anos de Lili fizeram uma festinha, com a presença das tias e avós. Aniversários no campo eram fartos de salgados e doces feitos em casa. A torta doce foi feita pelas irmãs do meu pai. Minha mãe aproveitou o calor do forno no dia do pão e fez merengues, roscas de nata e broas de polvilho. O docinho da festa, o que sabia fazer, foram as chamadas brasileirinhas, umas torres de coco com gemas que eram levemente coradas no forno do fogão à lenha. A bebida que acompanhava tudo, chá preto ou limonada. A abundância de sabores vinha da fabricação caseira e da mão dela para culinária. 

Quando fomos morar na cidade, a rotina ficou mais leve para ela, então incluiu no seu modo de viver, visitas às amigas, comadres, parentes. Toda semana ela escolhia uma pessoa para visitar, sem deixar de ver a tia Maria todo dia, para verem juntas a novela da seis da tarde. Assistir às novelas voltou a fazer parte da vida dela novamente, pois na juventude tinha também seus horários de ouvir as novelas de rádio. Embora não aparentasse, minha mãe se importava excessivamente com os outros, porque tinha nela um jeito generoso de ser amiga e solidária.

Lili se defrontava com as reclamações da mãe porque ela se apegava muito ao pai, não se dava conta do afeto nos gestos que a mãe se esmerava em demonstrar no cuidado com a roupa, a vida escolar e o alimento, que ela nos dava sustentação para a vida. Talvez porque Lili passou parte do tempo, nos seus primeiros anos de vida, sendo regada de mimos pela vó Cinda. Minha mãe não era uma mulher fácil de lidar, nem de enganar ou manipular. Ela era astuta, briguenta quando necessário, agradável quando gostava de algo ou alguém, pois facilmente exercia sua simpatia quando confiava e se agradava da pessoa. Embora vivendo a dura rotina da vida rural, mantinha-se informada, ouvia rádio, tinha fortes posições políticas. Uma das novas atividades dela quando passou a viver durante a semana na casa da cidade, era frequentar comícios no período das eleições municipais, movida pela oportunidade de participar da campanha e da escolha de prefeitos e vereadores, depois de um longo período em que tivemos interventores nesta função. O retrato do Getúlio Vargas na parede da sala lá na nossa casa no campo era a referência da sua veia política.

Lili sabia que ela não era uma mulher que se dobrava no primeiro argumento, tinha opiniões fortes e muitas convicções, era teimosa e intensa ao mesmo tempo. Mas havia algo nela que a fazia admirável, porque na intensidade do seu gênio sempre havia uma ruptura que vinha pelo sabor de uma comida, o cheiro de um pão novo em formato de lagarto ou pombinha, um caldo ralo de doce de pera ou pêssego que nos confortava, alimentava nosso mundo de afeto, tinha lá sua forma singular e única de expressar amor.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Tia Betty e todos os cuidados que nos faziam falta

No quarto da minha mãe havia uma cômoda, uma banqueta e um espelho na parede, entre janela do lado esquerdo e a grande janela da frente, que raramente era aberta. Sobre a esta cômoda, minha mãe guardava uma caixa com material de costura e uma boneca minha, um brinquedo de borracha bem macio, fácil de apertar, de quando eu era bebê, que enfeitava a cômoda sobre um guardanapo de crochê verde claro. Ela deixava a boneca sobre o móvel para evitar que eu a levasse para brincar nos arredores da casa. Eu adorava brincar debaixo da sombra do cinamomos, mas deixava os brinquedos espalhados por onde andava. Eu perdi ali, no meio da terra solta, os bonecos de cerâmica de quando ela era criança, e ela ficou muito sentida. Muitas vezes minhas bonecas amanheciam no pátio com pés e mãos mascados pelos porcos. E eu tinha poucas bonecas, por isso chorava muito a cada perda.

Aquela bebê de plástico mole, abraçada em um ursinho, foi meu primeiro brinquedo, presente da tia Betty. Desde então ela parecia adivinhar o que eu desejava ganhar: uma caixa de giz de cera, uma caixa de lápis de doze cores, um caderno de desenho com uma capa dura alaranjada e minha única boneca negra. Tia Betty era assim, captava as vontades, os desejos e os interesses, porque ela olhava sempre para dentro da gente. 

Lili sabia desta escuta. Toda vez que ela vinha visitar a vó Cinda, trazia novidades, que não eram objetos, o que ela trazia era modos novos de fazer algo: uma costura, um bordado, uma receita, um remédio, nesse caso advindos dos saberes dela como farmacêutica. Ela achava saída para tantas situações. Eu tinha um encantamento pelo modo como ela silenciosamente prestava atenção sobre as pessoas e dava-lhes um tempo de escuta e cuidados.

Lili ficava à esperava do que ela trazia de novidade. Mal ela chegava, minha mãe se preparava para anotar alguma receita nova, pedia algum auxílio pra ela sobre como tratar algum incômodo físico, se aconselhava com a irmã, e absorvia todos os conselhos que podia. Tia Betty aprendia e ensinava, multiplicava seus conhecimentos. Eu me agarrava feliz nas roupas das minhas primas que ela repassava para mim, porque todas tinham sempre muitas delicadezas nas costuras, nas combinações e nos bordados. Ela fazia as roupas das filhas, copiava os modelos das vitrines das lojas. Ela era assim, criativa, original e com muito bom gosto. A sua elegância estava no jeito de ser, na fortaleza que brotava da sua personalidade, embora se vestisse de modo discreto, com saias bem alinhadas, camisas e blusas elegantes, tinha um ar de sofisticação genuíno. Eu admirava com ternura seu modo de demonstrar cuidado e preocupação com minha vó. Ela sabia das dores do corpo e da alma da vó Cinda. Quando jovem, em diversas ocasiões, ela enfrentou meu avô por suas seguidas intempéries com minha vó. Ela herdou a força emocional da minha vó.   

Tia Betty saiu muito cedo de casa. Rumou de trem para Ijuí para morar com tia Cecília e tio Bento, e lá frequentar a escola. Anos depois, mudou-se com eles para Santa Maria. Logo que terminou o chamado clássico no Colégio SantAnna, quis ser engenheira, mas naquela época não havia condições de se mudar para a capital, onde havia a faculdade de engenharia, além disso meu avô já tinha de ajudar mais duas das suas irmãs: tia Nira e tia Jane, que também estudavam no mesmo colégio e moravam na casa da tia Cecília. Não desistiu de fazer um curso superior e foi ser uma das alunas das primeiras turmas curso de Farmácia. Certamente foi a tia que menos morou na casa da fazenda, gostava de estudar, de ler e de se aprimorar. Ela era maior que aquele mundo do campo. Encheu meu avô e minha vó de orgulho ao ser a primeira da família a ter curso superior e o fez com coragem e generosidade.

Quando já morávamos na cidade, eu sabia que ela estava na Farmácia da tia Ivoloy, porque meu primo Titão, que era meu colega de escola, já havia me anunciado. Ela era a farmacêutica responsável, por um tempo ela e o marido, tio Cláudio, foram sócios da Farmácia Confiança. O nome do estabelecimento parecia ser a tradução do que ela nos passava: confiança. Eu entrava bem devagar pela portinha do balcão de atendimento da farmácia, à esquerda de quem entrava no estabelecimento, quase no cantinho onde ficava máquina de costura da tia Ivoloy e dali eu espiava a tia Betty concentrada no meio da pilha de receitas e de um grande caderno onde ela anotava tudo daquelas receitas especiais, que ficavam retidas na farmácia. Ela percebia minha presença, dava um sorriso afetuoso, perguntava pela escola e logo pela minha mãe. 

Naquele lugar, na mesa que meu tio Alfredo ocupava para seus afazeres de escritório, ela assumia um lugar de poder. Eu, ainda no curso da minha vida escolar, reverenciava aquela cena com admiração. Eu sentia uma vinculação imensa com ela, e pressentia algo grandioso no nosso caminho, um anúncio de que, em algum ponto da trajetória da Lili, haveria um tempo reservado para nós, para um encontro de acolhida e amorosidade, logo ali mais adiante.  


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