sábado, 4 de setembro de 2021

As galinhas e a minha mãe

Liberdade para Lili era correr pelo gramado em frente à casa da fazenda. Parecia-lhe um campo imenso, abria os braços como quem quisesse colocar para dentro de um abraço toda a beleza do sol do poente, dourando os altos eucaliptos que faziam a linha de frente no gramado, e separavam a estrada da área da moradia: casa, jardim, galpões, mangueiras para lida diária com ovelhas e vacas de leite. Final de tarde, os terneiros eram colocados em uma área coberta, separados das vacas. Davam a eles algum farelo ou cana para alimentá-los enquanto não podiam tomar leite das suas mães. O cheiro de cada mãe vinha com cheiro do leite, e cedo da manhã, depois da ordenha, eram liberados e assim reconheciam suas mães.

Quase todo ano, durante o inverno, tínhamos um terneirinho para cuidar. Minha mãe tomava a tarefa de criá-los como uma missão, ela passava a ter uma rotina de dedicação para cuidá-los, era como se a atenção dela estivesse totalmente focada em consolar os terneiros da perda prematura de suas mães. Um filhote tinha suas horas de alimentar, de soltar para pastar e de colocar em um local protegido para não pegarem o frio da noite. Ela preparava uma garrafa de vidro com leite morno, colocava no gargalo um bico feito de borracha para que pudesse sugar o leite, imitando a teta da vaca e, três vezes ao dia, os alimentava. Dependendo do rigor do inverno, tínhamos de  dois a três órfãos para cuidar. As grandes enchentes, as enfermidades ou fraqueza das mães as levavam à morte logo após darem cria. E uma vez e outra também acolhíamos cordeirinhos.

Lili só se encarregava de dar as sobras de comida para o Titinho. Um cusco baio, bem menor que nosso cachorro chamado foguete. Era um bulldog mal humorado, carrancudo e sempre na vigilia do cavalo do meu pai. Passava horas deitado ao lado do cavalo encilhado, até meu pai montar para alguma lida no campo. Não era muito amistoso para brincadeiras. Já o Titinho nos acompanhava, era a melhor pista para minha mãe nos localizar pelas imediações do arvoredo ou lenheira. Excepcionalmente, meu pai dava permissão dele entrar na cozinha, ficava nos procurando pelos cantos.  Fora esses dois, havia uns gatos ariscos no galpão, prontos para uma caçada de ratos. E claro, meu pai criava uma boa quantia de porcos e minha mãe uma centena de galinhas.

A criação das galinhas não só era tarefa primordial da vida rural para minha mãe, era uma paixão que ela desenvolveu desde pequena. Ela e a tia Nira, com pouca diferença de idade uma da outra, andavam sempre juntas. Vó Cinda fazia roupas iguais para as duas, em muitas ocasiões se apresentavam como se fossem gêmeas. Elas compartilhavam o mesmo gosto por criar os pintinhos e, quando crescidos identificar e separar os frangos, escolher os que poderiam ser garbosos galos do terreiro e também aquelas galinhas que seriam cevadas para depois serem abatidas e se ter carne para o almoço de domingo. Elas atribuíam nomes para as galinhas e cuidavam de protegê-las das raposas e graxains que sorrateiros batiam no galinheiro durante à noite.

Na nossa casa, minha mãe estava sempre alerta para invasores que à noite viam saborear alguma galinha. Cada pintinho que nascia com dificuldade ou se machucava, ganhava um lugar especial, ela preparava uma caixa de madeira ou papelão, com pedaço de pano, água e um pouco de quirera de milho. Colocava a caixa embaixo do fogão à lenha para garantir que os pintinhos ficassem aquecidos, às vezes, eles ainda estavam saindo da casca do ovo. Depois os pintinhos viravam frangos e andavam atrás dela, estabelecia uma relação de confiança tal com ela, o que explicava o fato dela nunca abater uma galinha, designava a tarefa para meu pai. 

Toda rotina da minha mãe era madrugar, abrir o galinheiro para soltar as galinhas, dar milho a elas, repor a água dos cochos de madeira dispostos embaixo das pereiras. Três pés de pereira faziam sombra na parte da frente para peça de madeira que servia de galinheiro. Toda manhã, logo depois do café ela limpava tudo e, no meio da tarde, religiosamente revisava os ninhos em busca dos ovos. Final da tarde, ia trazendo as galinhas que estavam debaixo das taquaras, no arvoredo, na lenheira, em geral, elas sabiam a hora de se recolher e rumavam ao galinheiro. Aquela centena de aves que se aglomeravam entorno dela tinham o ritmo e a rotina que ela havia imposto  O prazer da minha mãe era conhecer a linhagem de cada galinha, uma que sumisse ou desaparecesse, ela logo se dava conta. Na folhinha de calendário do ano, pendurada na parede acima da caixa da lenha, marcava a data que cada galinha era colocada para chocar, daí para frente contava os dias e ficava na espreita de quando nasceria o primeiro pintinho.  

Lili não se achegava muito às galinhas, temia as bicadas e unhadas. mas se encantava com os pintinhos. Colocava-os entre as mãos e os apertava como um brinquedo, o carinho em excesso os sufocava demais. Vez que outra, meu pai socorria os coitadinhos para evitar que fossem esmagados. Observava sua mãe sempre entorno daquele bando galinhas, vermelhas, amarelas, brancas, carijós. Via como ela negociava novas penugens e raças com vizinhos e parentes, trocava seus frangos e galinhas por galos. Todo cuidado na criação das galinhas se mostrava no brilho das penas, na gordura das galinhas, na elegância dos galos. Desde que nasci minha mãe já estava nesta labuta e vivendo o prazer de  fazer algo que ama. Viver no campo para ela era gozar da liberdade de criar os bichos, de resgatá-los, de acolhê-los e cuidá-los.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Autodeclarada ovelha negra

Uma certa tarde de Outono apareceu na fazenda um carro de aluguel com duas freiras trazendo junto com elas minha tia Cisa, nesta época, com cerca de oito anos. De batismo se chamava Luci, mas ganhou o apelido familiar de Cisa dado pela Dida, a senhora que cuidava dos trabalhos domésticos na casa da fazenda desde época da minha bisavó, quando meus tios e tias eram crianças. E todos nós os sobrinhos adotamos chamá-la de Cisa. A visita inesperada e inusitada surpreendeu meus avós, porque as freiras do Colégio de Jaguari tinham vindo devolver minha tia. A traquinagem que ela havia aprontado tinha sido grande, podia-se entender muito bem que um internato não combinava com ela, pois era uma alma livre, de arroubos inteligentes e desafiadores para aqueles comportamentos e horários rígidos, exigidos pelas irmãs nas rotinas do Colégio. Havia faltado às missas da madrugada, e se comportava sempre de modo inquieto nas missas, nas quais era obrigada a cantar em Latim, embora já tivesse decorado todos os cânticos. 

Ela era a caçula da família, mimada da minha bisavó e desfrutava do zelo e condescendência do vô Alberto que deixava passar, sem repressões, suas traquinagens e suas invenções. Minha mãe e as outras tias mais velhas contavam que ela criava histórias mirabolantes, cantava e dançava enquanto narrava suas invencionices. Lili ouvia ela sempre falar do casamento da Raposa, se tivesse chuva com sol ela nos dizia: dia de casamento da Raposa. Nunca entendi muito a origem desta história muito menos como uma raposa poderia se casar. Entre outras coisas, tia Cisa usava muitos ditados, ousava com certos palavrões tal como era o costume da Tia Idalina, minha tia bisavó. Aplicava os ditados com maestria às situações da vida: "eu conheço os bois com que eu lavro"; "atrás de mim vem quem me faça melhor", ditado preferido da minha vó Cinda, além de outros como: "quem sai ao seus não degenera"; e comparações do tipo: "amassado como bucho de vaca"; "enrugado como maracujá de gaveta; "frio de cagar gelo". Seu lado mais desbocado e engraçado se mostrava em horas inusitadas com esses ditados e eu me divertia aprendendo esses ditos familiares. 

Em ocasiões como as do dia de marcação do gado, quando se batizavam os terneiros jovens, marcando-os com um ferro quente sobre o couro, para assim identificar os donos de cada animal, ela sentava no alto da cerca da mangueira com a gurizada em volta e se divertia comparando a cara das vacas com alguns parentes. A gente ria muito porque a comparação sempre fazia sentido. Seu maior medo eram as cobras, davam-lhe pânico e horror. Um cobra que aparecesse no pátio ou no jardim, ainda que das verdes, já sabíamos que não se podia comentar, mas sempre tinha um guri sádico para abrir o bico e provocar: "vi uma cobra hoje", era certo que ela reagia nervosa e descambava com palavrões.

Eu gostava da alegria com que ela nos divertia, sem contar do quanto ela nos envolvia e, ao mesmo tempo, nos ensinava com suas faxinas, ou nas varridas do pátio nos colocando para ajudar, distribuía tarefas, afinal " trabalho de criança é pouco, mas quem despreza é louco", bradava dando risada do nosso esforço. Apreciava tudo muito limpo e com ar de arrumado, sem folhas secas no chão, sem bagunça nos quartos, camas impecavelmente arrumadas, nenhum pó sobre os móveis, e claro os guardanapos de crochê impecavelmente engomados e trocados a cada grande faxina da casa. 

A fase da faxina veio depois que ela se mudou para capital, as faxinas eram o modo dela cuidar da casa durante as férias na fazenda, muito mais ainda depois que minha vó Cinda faleceu. Ela deixava a casa pronta para ser habitada, ainda que a casa ficasse cada vez mais fechada com passar dos anos, sem a presença das pessoas da família, já que as temporadas na fazenda foram minguando e ficando mais raras. Porém, na juventude levou uma vida agitada, muito cigarro, festas, bebidas, bailes, banhos de rio. Contavam que sua maior aventura dessa época foi cruzar por dentro da praça em um fusca, durante uma madrugada, lotado de amigos.

Trabalhou um bom tempo na cidade, trabalhava na prefeitura, gostava da política, ocupou cargo de Secretária de Finanças do Município, era boa nas contas. Nos nos fins de semana ia para fazenda, fazer ambrosia, ajudar nas faxinas e preparar alguma janta para reunir os amigos, sentar na frente da casa pra ver as estrelas, beber uma cerveja enquanto ouviam a melodia do violão tocado por algum amigo. Com ela ouvíamos rádio todo tempo, ela cantava e dançava. Quando os sobrinhos mais velhos ficaram moços ela, magra e leve, bailava com eles, às vezes, descalça e vestida com o que ela nomeava "roupas rurais". Puxava um dos meus primos pelo braço e dizia: "Cavalheiro me dá honra desta dança? Ela também nos apurou o gosto musical, ouvindo as canções de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, a trilha sonora da sua juventude. 

Mas a tia Cisa era de humor variável, sofria de frequentes dores de cabeça e seu gênio de questionadora se revelou. Lili observava seus destemperos, era estranho porque na verdade se opunha ao que não aceitava, era aguda nos argumentos e tinha uma grande intuição sobre o comportamento das pessoas. Eu admirava o grau de inteligência dela, que se mostrava na sua rebeldia, como a de andar só de biquini pela casa e pelo pátio na Fazenda, sem se importar com os homens que trabalhavam na lida do campo ou da lavoura, que a olhavam meio envergonhados, nem com com o olhar atravessado dos meus tios. 

Era verão, mês de fevereiro e ela vestia uma avental sobre o biquini e coordenava uma fabricação caseira de goiabada. Mexia um tacho de doce de goiaba com gosto, depois de azucrinar o Vergilino para armar um fogo de chão no pátio dos cavalos, debaixo dos cinamomos. O doce era resultado dos muitos frutos dos pés de goiaba como os das primeiras e únicas nogueiras da fazenda, coisa rara naqueles idos dos anos setenta, mudas que ela havia trazido no bagageiro de um ônibus que fazia a linha Porto Alegre - São Borja. Meu pai fez o plantio das goiabeiras e nogueiras. Quando ela descia cedo da manhã na beira da estrada, ele sempre a esperava e auxiliava com a bagagem. Um vez ela trouxe enroladas num papel bem dobrado algumas sementes de melão americano para meu pai plantar, sempre uma novidade vinha com ela. Para nós, crianças vivendo no campo, a chegada dela perto do Natal era  também sinal de presentes bons.

Ela e meu pai eram companheiros de chimarrão e de beber cerveja nas festas da família. Quando bebia muito, em geral, ela passava do ponto e ficava agressiva. Afloravam todas suas inquietações, implicava com alguém no ambiente ou com quem tinha algum dissabor e se descontrolava. Dava no jeito de apressar sua volta para a capital, assim que se recuperava, percebia-se ressacada da bebida e atarantada por suas explosões de comportamento. Lili descobria nessas explosões uma amostra da sua lucidez. Ser quem ela era, tão independente, era um sopro no meio de tanta gente apegada ao modelo de vida interiorana e conservadora. Por esta razão, ela se identificava com a letra do rock da Rita Lee, ironicamente, em um dado momento da sua vida, passou a se autodeclarar a Ovelha Negra da família. 

 

sábado, 7 de agosto de 2021

Nas ondas do rádio

No auge dos anos setenta a disputa pela vez de ter o rádio portátil em mãos e, por fim, sintonizar na estação preferida, era fato corriqueiro na fazenda. Eu sempre tinha de resgatar o rádio nas horas que os guris da casa davam sossego no rádio portátil que a Tia Nira havia trazido para vó Cinda. A herança histórica das peleias familiares  pelo direito de garantir o horário de uso do rádio, foi costume passado para nós desde os tempos de juventude da minha mãe. O rádio nos fascinava, ele  possibilitava sonhos de alcançarmos o mundo além daquela vida serena do campo. Alargamos nossos olhares  lá para as bandas do leste, onde nos diziam que se localizava a capital, bem depois da curva delicada desenhada no alto da coxilha, contra a linha do horizonte. O rádio nos deu acesso a muito lugares, às novidades  às curiosidades do mundo, antes da chegada da televisão.

Meu avô Alberto comprou um aparelho de rádio grande por volta dos anos cinquenta, precisou de um lugar especial para a novidade, assim o pessoal da casa podia sentar em volta e ouvir, principalmente, as notícias que chegavam até fazenda pelas ondas do rádio. Era um móvel no formato de uma bela caixa de madeira lustrada, com os botões brancos que moviam o dial em busca de algum estação ou possibilitavam mudar o tipo de ondas de transmissão. Ter um rádio daqueles era um luxo. Contam que minha mãe disputava a hora de uso do rádio com meus tios, e a batalha se dava por causa do horário de sua novela preferida, para ela era coisa sagrada. Acompanhava assiduamente as novelas de rádio, encantava-se com as histórias e as emoções provocadas por cada capítulo da novela Direito de Nascer. Também admirava Ângela Maria e ficava atenta à estreia de suas canções nos programas da rádio nacional, além de ser fã da dupla Eliana e Adelaide e do som do acordeon tocado pelas artistas. O rádio era a novidade de entretenimento não só dela, mas também das moças mais velhas da casa. Ela e minhas tias foram conhecendo mais da cultura nacional pelas ondas das emissoras de rádio lá no campo, inclusive, inspirando minha mãe na escolha do meu nome.

Ao longo da vida de Lili no campo sempre houve um rádio ao seu redor. Meu pai tinha sua rotina regulada pelos programas de rádio que, coincidentemente, entravam em sintonia com os horários em que ele parava a lida para tomar mate. Aprontava cedo da manhã o primeiro chimarrão do dia já com o rádio sintonizado na rádio Jaguari para ouvir música gauchesca. Passando das onze horas, o rádio sobre o armário da cozinha era ligado outra vez e logo o anúncio de mais um horário de músicas gaúchas se iniciava com "ohhh de casa...", a hora de escutar os sucessos do Teixerinha, Gildo de Freitas, José Mendes. Nos intervalos entre as músicas e os comerciais, havia a seção de comunicados informando algum falecimento, às vezes, algum nascimento, muitos recados repassados para quem vivia no interior, aviso de visitas, de missa e batismos nas capelas dos distritos, boletins dando conta do estado de saúde de algum parente hospitalizado; o rádio era mesmo a descoberta do mundo da comunicação. Outra vez, no final da tarde, antes de mudar de estação e sintonizar a faixa na rádio Guaíba para ouvir o noticiário "correspondente Renner", ouvia-se mais uma programa de música gauchesca na rádio Jaguari. O rádio marcava o dia do meu pai e, durante as manhãs, oportunizava uma trilha sonora para a hora de passar roupas da minha mãe.

No inverno nos recolhíamos cedo, ouvíamos os programas em volta do fogão à lenha enquanto minha mãe preparava a janta. Logo depois de deitarmos e meu pai pegar no sono, iniciava-se mais uma batalha pelo nosso rádio portátil retangular, forrado com uma napa vermelho escuro, que pulava de uma cama a outra. Éramos três na disputa pelo rádio, cada noite um ficava com ele. Na minha vez, colocava-o contra a parede e a ponta do travesseiro, a cama ficava bem encostada junto àquela parede em que coloquei alguns pôsteres de artistas que vinham nas revistas para meninas. Ouvia músicas e passava um bom tempo tentando conseguir a melhor sintonia da rádio "el mundo", a rádio que me transportava para muitos lugares em viagens imaginárias, já meus irmãos ouviam futebol e um programa de humor na rádio Tupi. Desse programa humorístico, meu pai aprendia charadas e nas noites de verão, nas frestas iluminadas pela lua entre as sombras dos cinamomos naquele chão de terra batida, varrido no capricho pela minha mãe, sentávamos em bancos mochinhos para a hora de responder os enigmas e charadas do meu pai. Já mais crescidos nos demos conta que ele memorizava o que ouvia nesses programas: o que cai em pé e corre deitado? e lá ia ele emendando uma charada na outra. Era o modo dele nos divertir e prolongar nosso tempo na fresca da noite nos dias em que o calor do verão era insuportável. 

Meu avô Joãozinho também comprou um rádio grande, quando meus tios e tias já estavam mais crescidos. Ele ficava em uma prateleira, à direita da porta de saída da grande sala para parte externa que dava acesso à cozinha. Entre a ampla peça da cozinha e resto da casa, estava o poço, essa partes eram ligadas por uma calçada de tijolos. O rádio ficava em uma prateleira bem alta, pois assim parecia para minha pouca altura de sete anos, não me permitia mexer nos botões, ali o rádio era uma preciosidade sobre a toalha de crochê. Além das notícias, o rádio trouxe muita alegria para casa, pois minhas tias e meus tios gostavam de dançar, de frequentar bailes na vizinhança. Minhas tias se aprimoravam nos ritmos dos xotes e das vaneiras com as músicas que ouviam na rádio Jaguari, treinando as danças, bailando umas com as outras. 

Na casa da fazenda, a luta de Lili pelo rádio com os primos mais velhos vinha assim que as as tias se ausentavam. O rádio portátil da tia Nira, forrado com um couro fininho de uma cor caramelo que lembrava a cor do doce de leite, circulava entre a cozinha, o quarto da vó Cinda, o quarto dos guris e as rodas que eles faziam no entorno do banco velho e descascado da frente da casa. Lili só queria ouvir as músicas do momento, nesta época já havia alargando suas opções para também ouvir as emissoras de Santa Maria. Percorria o dial para localizar a rádio que tocava as músicas de Roberto Carlos e, mais tarde, também os sucessos das trilhas sonoras das novelas como as de Anjo Mau. Quando as tias chegavam,  ouvia-se a rádio Guaíba, e o gosto musical se sofisticava com músicas dos cantores da Tropicália e Bossa Nova.

Sempre tivemos rádios, os modelos portáteis permitiam levá-los para debaixo das árvores na hora do chimarrão ou acompanhar algum afazer nas imediações da casa,  às vezes sobre o tabuleiro das melancias, junto das frutas, enquanto esperávamos ansiosos por um cliente, por algum carro que parasse e comprasse muitas melancias. Havia sempre uma trilha sonora nos acompanhando vindas pelas ondas do rádio.


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Sapato vermelho de verniz

Por muito tempo Lili foi a única neta dos avós paternos, era absoluta no seu reinado. Meu pai se casou jovem e como era um dos filhos mais velhos, as tantas tias e tios que eu tinha foram casando e tendo filhos quando eu já estava com mais de dez anos. Assim, eu e meus irmãos gozamos felizes da temporada de primeiros netos do vô Joãozinho e da vó Xiruca. Todo ano havia um casamento e uma festa na família, algumas eram na casa da chácara, outras eram nas famílias dos noivos e noivas. Nestas bodas familiares sempre havia uma quantidade de comidas deliciosas, cheiros bons, fartura de assados e sem faltar obviamente os maravilhosos doces feitos pelas mulheres habilidosas da família: ambrosias, pudins, tortas, doces de figo e abóbora em calda, entre outros. 

Cada casamento em que a festa era na chácara, tudo era preparado de véspera. As carnes do churrasco, as de porco para o assado e as de galinha para o risoto. Cedo da manhã eram colocadas no forno de barro e, nos panelões sobre o fogão à lenha, além das batatas e mandiocas, preparava-se também o caldo para o risoto. As saladas eram uma abundância de verdes colhidos na horta, verduras e legumes variados, que haviam sido cuidadosamente plantados e cuidados pelo meu avô. A horta da chácara parecia um lugar sagrado onde ele, no seu jeito calado e severo limpava, regava e cuidava dos canteiros bem perfilados e repletos de mudas, enquanto tragava seu cigarro de palha. 

Nestas ocasiões festivas, sentia-se logo na chegada ao pátio, o cheiro da fumaça de um fogo armado no chão e sobre ele um caldeirão de ferro de onde vinha aquele aroma de temperos e carne: era o cheiro do caldo do risoto inigualável que minhas tias faziam. Lá estavam elas, de avental e lenço no cabelo, mexendo aquele caldeirão com uma pá de madeira  para cozinhar por igual todo aquele arroz. Elas se divertiam nesta tarefa, riam de tudo, o tempero desse risoto vinha misturado com alegria e prazer, o que dava o toque final naquele momento festivo que envolvia toda a família no preparo das comidas da festa, na arrumação da casa e das mesas para o almoço debaixo das árvores, enfeitadas com vasos de flores do jardim da minha vó. 

O primeiro casamento que Lili assistiu, gerou muita expectativa, pois aos seis anos a ideia do que era uma cerimônia de casamento povoava o mundo da Lili. E foi justo o casamento do tio Ruco que fez explodir nela uma quantidade de emoções e sentimentos, ainda desconhecidos no mundo de uma menina que vivia no campo. Madrugamos na fazenda com o rebuliço e arrumação das mulheres, com os rolos no cabelo para ajeitar o penteado, as roupas bem passadas e a maquiagem adequada para aquele momento. Vó Cinda como sempre muito nervosa com compromissos de tal grandeza, em especial, porque era seu filho mais jovem, apegado à casa, à ela e à vida da fazenda, que estava se casando. Lili sentia toda uma emoção nova, era seu dia de vestido de festa: vestido branco de tecido leve, na altura do ombro uma transparência que dava-lhe delicadeza, muito apropriado para o calor escaldante do mês de fevereiro, era pura harmonia com as delicadas sandálias brancas que eu calçava. 

Neste dia, coube ao tio Cláudio levar todas as crianças na Kombi bicolor, a excitação da criançada era notada pelas muitas conversas e burburinhos na curta viagem até igreja matriz da cidade. A noiva vestida com muita elegância e beleza, chamava atenção para seu véu, adornado com fios delicadamente torcidos que desciam do alto da cabeça, era diferente e moderno, moldava seu rosto de traços marcantes e bonitos. Eu a admirava com encantamento, embora já tivesse me dado conta que não seria eu a aia do casamento do meu tio Ruco. Descobri que era muita honra ser escolhida para papel de aia de casamento, mas logo baixei a cabeça para que não vissem meus olhos quase explodindo em lágrimas e para esconder minha breve vergonha pelo ciúme que senti da menina que cumpriria este papel. Na hora da fotografia com os noivos e sobrinhos me postei frente à noiva para reivindicar o lugar de aia, ainda que por um instante.

Realizei o sonho de ser aia na cerimônia de casamento da tia Janina, primeira tia que se casou depois do meu pai. Era inverno e chegamos cedo na capela onde se realizaria a celebração, em uma pequena igreja localizada no interior de Jaguari. Como tudo naqueles anos setenta, as cores da igreja eram naquele azul turquesa igual aos armários da cozinha da casa da fazenda. Decorada com flores do jardim da chácara da família do noivo, a beleza simples daquela igreja combinava com a simplicidade das bodas realizadas no campo. Lili vestiu-se com roupas mais simples e claro mais quentes, o dia estava muito frio. Minha mãe comprou um lindo sapato de verniz vermelho, bem sobre o pé haviam pequenas flores feitas com furinhos no próprio couro, a cor do sapato combinava com vestido de lã xadrez escocês vermelho e azul-marinho, e completava essa combinação, as meias brancas de renda. O sapato vermelho de verniz me deslumbrava, era a coisa mais bonita que eu tinha naquela idade.

Enfim havia chegado meu dia de estreia como aia, me comportei e cumpri bem minha honrada tarefa. Como na casa dos meus avós paternos, na festa do casamento havia abundância de comidas e doces e se estendeu até o meio da tarde, quando sol já ia se indo e o frio voltava com força. Nas brincadeiras com as crianças, Lili fez um pequeno risco no seu sapato vermelho de verniz, ficou chorosa. Mas outras festas haveriam de acontecer, só não sabia se novamente como aia de casamento. Um dia, veio um convite para outro casamento, minha mãe e eu retiramos o famoso sapato de festa para lustrar o tal risco que eu havia feito naquele dia. Descobri, então, que ele já não me servia. Corriam lágrimas pelo meu rostro pela falta de oportunidade de uma menina do campo de usar seu sapato de festa mais vezes, usá-lo foi daquelas coisas raras da vida. Só foi um dia de aia e um dia só com meu lindo sapato vermelho verniz.   

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Chá de cidreira

Meu tio Ruco era o penúltimo dos oito filhos da vó Cinda e do vô Alberto. Ouvia várias vezes a história de que meu avô sentiu muito a falta dele quando meu tio teve de sair da fazenda para estudar, foi viver em uma pensão em Jaguari. Era um guri manso, sensível e um tanto distraído. Foi difícil para ele sair do aconchego da família ainda tão menino. Dizem que chorava muito de saudade e pela distância do campo. 

Lili recordava dele como a imagem de um tio adulto, de sorriso manso e amoroso. Todas as tardes, quando ele estava na casa da fazenda, tinha a hora do chá com biscoitos ou bolachas. O cheiro do chá de cidreira invadia a cozinha no meio da tarde. Ele sentava na lateral da mesa, naqueles bancos azul-turquesa igual a cor do armário da cozinha onde eram guardadas as latas com as famosas roscas de nata feitas pela minha avó e minha mãe. Colocava uma das latas sobre a mesa e arrumava um espaço para me colocar sentada bem ao lado dele e, enquanto colocava um boa porção de açúcar no chá, para logo sorvê-lo vagarosamente, ia me fornecendo pequenos pedaços de bolachas. Era um ritual de amorosidade que era tal qual a doçura daquele tio. Dele recebi o apelido de Lili, dizia que combinava comigo por eu ser tão pequena, de cabelos loiros e encaracolados nas pontas e com bochechas sempre rosadas: uma pequena Lili.

O laço que nos aproximava foi sendo bem amarrado pelos colos que eu recebia seguidamente. Ele me carregava pelo pátio, me trazia balas, tocava com a mão sobre a minha cabeça cada vez que eu passava por ele. Tudo que lembro dele é coberto de gestos de afeto, era aquele sorriso tímido que misturava um certo jeito reservado com timidez e mansidão. O tempo para ele parecia mais devagar. Era diferente do meu tio mais velho, que era agitado e cheio de rompantes. E também bem longe da inquietude e pressa características das minhas tias. Era o oposto, em muito se afinava com meu pai, foi por esta razão que depositei confiança em toda minha amorosidade por ele. Minha mãe, com quem ele era muito apegado, percebeu este laço que construímos e delegou a ele me levar para estudar. Então fui morar  na cidade com ele, minha tia Tânea e um bebê que estava por chegar.

Entrar na escola foi um divisor de águas, me jogou da vida no campo para a vida na cidade, aprendi novas rotinas por causa do colégio: assistir às aulas, fazer os temas, cuidar do uniforme e estudar bastante. Nesses desafios lembro, ainda que vagamente, dele me acompanhar no horário de fazer os temas, me auxiliava com as contas de matemática. Se minha mãe ou meu pai não vinham me buscar na sexta-feira, ele me levava de ônibus no sábado, dia que ele se dedicava a cuidar das ovelhas da fazenda junto com meu pai. Ele parecia combinar perfeitamente com aquele rebanho de ovelhas, elas eram pacatas e ele cuidava delas no mesmo ritmo. Raramente se via ele irritado ou bravo, ficava ainda mais calado quando não gostava de alguma coisa, muita das vezes preferia se recolher. 

Meu tio Ruco comprou um fusca, o carro possibilitava que ele em alguns dias da semana fosse à fazenda, em geral no final da tarde, para curar as ovelhas, revisar o rebanho com meu pai, dar uma olhada na minha vó e tomar um mate com eles. O fusca era de um cor muito difícil de definir, nem marrom, nem amarelo, um cor que costumávamos identificar como de "burro quando foge". 

Fusca era o carro do momento, quem podia comprar um carro preferia o fusca e a cidade foi sendo invadida por fuscas de várias cores: o fusca vermelho do Seu Adalberto Cony, escolhido a dedo por causa do time favorito, era um colorado fanático;  o fusca azul claro do professor Eugênio, nosso professor de inglês da oitava série, um italiano grande, com um tom muito exigente, imponente quando lia os textos em inglês. Qualquer pergunta desconcertante que fazíamos subia um rubor intenso no seu rostro e pescoço, por causa disso, a gurizada o apelidou de peru. Ele estacionava o fusca bem em frente à escada da entrada da escola, saia sempre muito apressado, ou para dar aula na Escola da Coqueiros, bem ao lado da igreja luterana, ou para retornar para Jaguari onde morava; o fusca branco da professora Lina, nossa simpática e amorosa professora de artes, no caso dela, o fusca ficava estacionado do outro lado da rua, em frente da casa do Vito, meu colega desde a primeira série, e do pequeno estúdio de fotografia do Seu Olívio; o fusca verde do padre Cargin, estava sempre estacionado na rua lateral da escola, bem na descida, para facilitar o arranque. Ali o fusca dele era alvo das traquinagens dos guris, esvaziavam os pneus do fusca do pobre do padre, sem contar o boato que se espalhava pela cidade de que o fusca estacionado ali, era mesmo um disfarce, porque na verdade o padre descia em direção à casa da tia Ney, a famosa casa de prostituição da cidade, localizada logo mais abaixo na rua, lá onde iniciava a estrada de chão batido. No fusca verde, o padre Cargnin fazia suas viagens de exploração paleontológica e arqueológica, vivia subindo nos cerros do Loreto realizando suas escavações em busca de fósseis e vestígios arqueológicos. E, claro, não se pode esquecer do fusca mais famoso da cidade, a fama era mais pelo motorista do que pelo carro, o fusca branco do seu Carlito Gabriel, vizinho do meu vô Joãozinho. Cada passagem do Seu Carlito pela cidade era uma aventura na certa. Nas esquinas, ele apertava com força a buzina apressando quem pudesse cruzar o caminho, carro ou pessoa, colocava a cabeça para fora da janela e gritava: "pobre, sai do caminho", este era um dos xingamentos para quem parava o carro na frente do seu fusca e atrapalhava ele de seguir caminho. No fusca cabia de tudo: melancias, sacos de sementes, seu rádio, cuia e térmica de chimarrão. 

No fusca do tio Ruco, Lili fez visitas ao interior do município. Era época de eleição, eu não entendia muito bem como ele podia ser candidato a vereador, calado como era e com certeza sem talento e preparo para discursos e promessas, mas era com certeza gente boa, estava estampado na cara nele. Eu me divertia com essas viagens, valia uma visita na fazenda do seu Antero e de dona Madalena Xavier para comer doces em calda e as famosas rapadurinhas de leite, além é claro de brincar com as meninas. Tempos depois, a filha mais nova, a Cristina, foi minha colega na quinta série. Dona Madalena teve uma loja na cidade, lá minha vó comprou o último presente de aniversário que ela me deu. Eu escolhi na vitrine da loja uma pulseira de prata, feita com argolas minúsculas, que se encaixavam como uma mola, minha primeira pulseira. Tio Ruco sempre fazia uma parada na fazenda, na ida ou na volta, quando fazia viagens rápidas a Jaguari. Mal ele apontava na porteira, eu corria para o tanque no pátio da parreira, lavava os pés, colocava um chinelinho de borracha, ajeitava o cabelo e pulava para dentro do fusca. Eu me fazia de companhia para ele, nem saia de dentro do carro, estava ali só pelo passeio e por aquele momento silencioso, só sentindo o vento morno entrando pela janela. 

Meu tio Ruco morreu jovem, justo em um acidente com aquele fusca de cor estranha. Todas as lembranças que tenho dele, centram-se em um sorriso manso, nas falas espirituosas e nas conclusões certeiras sobre certos assuntos, sempre depois de um longo tempo de escuta e observação. Ele foi breve nesta vida, uma brisa calma e calorosa que passou por nós. Todo chá de cidreira que tomo, vem junto uma calma no meu coração e lembro do seu sorriso tímido e doce.

sábado, 5 de junho de 2021

As matriarcas.

Lili conheceu as bisavós através dos relatos da família. Por muito tempo, as memórias trazidas nas falas da mãe e das tias maternas e paternas despertaram na Lili uma inexplicável curiosidade a respeito do trajeto de vida das suas bisavós. Lembranças que iam costurando uma narrativa cheia de dores, trabalho, resignação, detalhes oferecidos pelo testemunho das suas avós que as conheceram. Lili foi assim criando histórias de vida de outros tempos, tomada por uma espécie de encanto pelo passado das bisavós, tão cheio de lapsos, imprecisões e imagens que iam se reconstruindo pelas vozes das mulheres da família. 

Minhas duas avós perderam suas mães ainda meninas e muito pouco se comentava sobre elas nas conversas familiares. Por outro lado, duas matriarcas na figura das minhas bisavós  Carolina e Lídia, mães de seus maridos, se apresentavam com força e vitalidade nos relatos que eu escutava nas tardes de conversas junto à maquina de costura ou, à noite, logo depois do jantar na casa da vó Cinda. Na casa da vó Xiruca, as conversas foram movidas pelo meu desejo de conhecer vó Carolina, pois gostava do seu nome e fui descobrir sobre sua vida só na minha adolescência. Eu costumava visitar seguidamente a Vó Xiruca depois que ela foi morar na cidade, em uma antiga chácara que meu avô comprou nos anos 70.A casa era um chalé, que de tempos em tempos, a pintura variava entre a cor azul, outras vezes, a verde, e tinha como sempre um jardim e horta muito caprichados. Meu desejo de conhecer mais sobre família me fazia bombardeá-la de perguntas, que ela respondida no tempo dela, era um aprendizado de paciência ouvi-la. Eu sempre notava que em cada conversa com minhas avós, as recordações se tornavam muito vivas, pareciam movidas pela intensidade das saudades e da admiração que elas tinham por minhas bisavós. Absorvidas nestas estórias, Lili tentava montar o quebra-cabeça familiar se perguntando de onde elas tinham vindo? Como chegaram até ali? viviam no interior do município e como que, por obra do destino, tornaram-se vizinhas rurais? 

Vó Carolina era uma imigrante vinda da região do vasto território austro-húngaro, filha mais velha de Estefan e Anna Cristina. Com cerca de seis anos fez a longa travessia rumo a América e, além dos pais, veio também acompanhada do irmão mais novo, e várias outras famílias com crianças como ela. Montaram seu barraco em terras destinadas aos imigrantes no interior do Uruguai, na região do Rio Negro. Nesta localidade iniciaram uma nova vida, nasceram mais três dos seus irmãos e também ali conheceu a família do meu avô Antônio. Chegaram a essas terras por volta de 1890, e pelo que dizem alguns registros, oriundos da Bucovina, uma região de fronteira entre a Ucrânia e a Romênia. Anos mais tarde, na virada do século, algumas famílias desses imigrantes tomaram o rumo em direção ao Brasil e ocuparam terras devolutas na zona rural de São Vicente. Foi assim que as famílias do meu bisavô Antônio e minha bisavó Carolina chegaram nos campos onde se estabeleceram e sobreviveram da agricultura e de alguns afazeres e técnicas que dominavam, conhecimento que traziam das experiências e dos aprendizados de vida das suas famílias na Europa Oriental. Casaram-se jovens, minha bisavó Carolina se dedicava aos afazeres domésticos, dizem que com grande capricho e meu bisavô Antônio à carpintaria. Passaram dificuldades para se estabelecerem e criarem uns quantos filhos, que à medida que se tornavam adultos saiam para trabalhar em outros lugares. Minha bisavó Carolina resistia bravamente às dores nas articulações e às consequências de uma doença que a paralisava. Com a perda da mobilidade e avanço da enfermidade de que tanto padecia, meus avós João e Xiruca, com poucos anos de casados, mudaram-se do Umbú para a chácara dos meus bisavós, especialmente, para cuidar da vó Carolina. Ela morreu uns quatro anos depois e ele nunca mais foi o mesmo, se entregou para bebida e vivia na oficina de carpintaria na sua solidão.

Lili lembra que na chácara onde nasceu seu pai, havia um galpão rústico de madeira, sem pintura, com uma varanda onde tinham empilhadas lenhas, madeiras, ferramentas penduradas nas tábuas das paredes e, pelos cantos, os tornos nos quais o bisavô Antônio trabalhou para sustentar a família. Era homem da arte da madeira, então meu avô Joãozinho se dedicou ao cultivo do arroz nas terras da família. As dores e os ensinamentos da bisavó Carolina ficaram na memória da minha avó, sua nora, que se dedicou tanto a cuidá-la, na época em que já tinha de dar conta de quatro filhos pequenos. Com ela, vó Xiruca aprendeu a fazer uma comida que conheceram como "galush", uma trouxinha feita com folha de couve cozida, recheada com arroz feito junto com várias carnes, bem temperado. Contava a vó que este prato se comia nas festas de casamento das famílias desses imigrantes.  

Minha outra bisavó, que conheci como Vozinha, era uma descendente de portugueses, ou talvez de espanhóis, e viveu muito. Morreu com 98 anos depois de fraturar uma perna, ainda que tenha durado um bom tempo pelo cuidado incansável da minha vó Cinda, da minha mãe e das minhas tias. Dela quase nada se conhecia de onde teria vindo, o passado de sua família até antes de casar como meu bisavô Alfredo. Conhecíamos a Tia Idalina, sua irmã que morava na fazenda e Bentoca, seu irmão mais novo, moço de olhos muito claros, diferente dela que tinha feições mais amorenadas e um ar de seriedade constante, era o que as fotos diziam a Lili quando mirava os retratos da bisa Lídia na parede da sala. Deu a um dos seus filhos o nome do seu pai, Bento, mas parece não ter tido coragem de dar o nome de sua mãe a uma das suas três filhas, Sinforosa. Lili girava entorno da mesma pergunta: de onde teria vindo ela? O que sabíamos  era o que nos contavam a partir daquela famosa caixa dourada, com a fotografia de duas mulheres, encaixada em um fundo de veludo. Era um retrato antigo, provavelmente, de meados do Século XIX e a caixa era guardada e, muito bem escondida, no guarda-roupa da vó Cinda, pois ela a cuidava como uma prova do passado da família. As mulheres do retrato eram a mãe e a avó da bisa Lídia: a quarta e quinta geração antes de mim. 

A bisa Lídia tinha uma vida confortável, uma casa na fazenda com empregados para as tarefas do pátio, do campo e da lavoura. Entre as estórias contadas é que Sinhá Maria, que cuidava dos afazeres domésticos, era filha de escrava. Era uma mulher de poucos sorrisos, mas de bom coração, sobretudo, com os netos, os protegia das represálias do meu avô e dos chinelos da minha vó Cinda. Maior prova desse amor foi ter criado os netos quando sua nora adoeceu gravemente por uma depressão profunda após o parto do filho mais novo e, especialmente, quando acolheu os filhos da tia Santinha, falecida aos 39 anos. Quando suas netas ficaram adolescentes e a escola em São Vicente se estendeu até depois do 4º ano, foi morar uma temporada na cidade para que elas pudessem seguir estudando. A casa da fazenda sempre estava repleta de visitas, e minha vó Cinda cuidava de garantir o bem servir e o bem hospedar os parentes da vozinha. As caixas guardadas nos gavetões dos roupeiros e nos baús dão prova de que ela tinha parentes próximos em outras paragens, pois ela recebia fotos, postais e cartas de primos e sobrinhos de muito longe. O retrato da caixa dourada parece ter sido feito em um estúdio em Pelotas, a existência dele me provocava milhares de hipóteses de que ela teria vindo dessas bandas do Sul. Seu lugar de origem eram peças soltas que Lili buscava encaixar, recompondo estórias pelas vozes das mulheres da família. Como ela, aprendi o gosto por uma varrida de pátio, passou esta prática para minha mãe e por sua vez, a recebi como uma herança simbólica da sua existência no meu passado. 

Minhas avós foram responsáveis por construírem uma narrativa sobre a personalidade dessas mulheres. suas sogras. A dúvida que ficou lá atrás, muito antes de eu ser a bisneta delas, é se um dia elas chegaram a se conhecer. Chegaram naquelas terras quase na mesma época, vindas de tão longe, formaram suas famílias, uma com ares de quem usufruía de certos confortos, a outra sofrida desde pequena fugindo de conflitos e guerras, para ter uma vida mais digna. E ambas viveram toda uma vida separadas apenas pelo arroio da Divisa e do Salso. 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Os segredos dos baús

Em cada quarto da casa da fazenda havia um baú onde se guardavam normalmente cobertores, colchas pesadas e mantas. Embora alguns desses baús fossem, na verdade, antigas malas de madeira arrematadas com faixas de couro e tampas com dobradiças, conhecíamos como baús. Na reforma da casa essas malas-baús foram restauradas, forradas com papéis de estampas delicadas, ou com papel contact imitando cor de madeira. Eles foram pintados e renovados para que se pudesse guardar dentro deles as roupas de cama, sobretudo, as cobertas de uso da família. Em umas das suas férias de verão, Lili e os primos acompanharam e auxiliaram tia Nira e tia Jane no dedicado trabalho de restauro dos móveis da casa, etapa final da grande reforma da casa no final dos anos 60.

No quarto da vó Cinda, o baú tinha outra finalidade: era lugar de guardar as memórias da família, lá ficavam o álbum marrom de couro com suas folhas duras de cor cinza escuro, iguais as de um cartão, separadas por um fino papel de seda que protegiam as fotos preto e branco, dispostas e fixadas por elegantes cantoneiras escuras. Na parte da frente do álbum, havia um espaço destinado para um retrato, e a honra coube ao meu tio Ruco, uma foto dele jovem e lindo, posando de terno escuro e gravata borboleta. Um álbum de fotografia era uma relíquia familiar, talvez por isso fosse muito bem guardado dentro um caixa no interior do móvel. No baú ainda eram guardadas caixas de camisa com documentos, com cartas dos parentes, lembranças de festas e santinhos com convites de missa de sétimo dia, além dessas caixas, haviam outras com amostras de crochê e também uma cheia de folhas com modelos de desenhos para bordar, os chamados riscos de bordado. 

Durante o período de internato no Colégio de Irmãs de Jaguari, minha mãe e minhas tias aprenderam, ainda meninas, a bordar toalhas e lençóis com maestria. Os riscos de bordado formavam álbuns repletos de desenhos de buquês de rosas, cravos, papoulas; guirlandas ornamentadas com profusão de flores e arabescos e cornucópias explodindo flores do campo. Esses álbuns de riscados à lápis sobre papel de seda proporcionavam um exercício de desenho para Lili, que os copiava colocando sobre eles outro papel de seda, e assim movimentada agilmente as mãos refinando sua motricidade, fascinada pela beleza dos traçados riscos e das composições desenhadas para os bordados. O baú do quarto da vó Cinda era aberto seguidamente para se buscar essas amostras de crochê, os tais riscos de bordados, ou por ocasião de uma visita, ou então por simples curiosidade, em que olhávamos o álbum para o reconhecimento de algum parente. Ali ficavam presas muitas lembranças do passado, receitas das artes manuais da vó e das mulheres da família, e claro, segredos escondidos, perdidos em meio daquelas cartas, fotos e objetos, no enorme quebra-cabeça a partir do qual se podia armar a história familiar.    

Mas baú de verdade, era o do antigo quarto dos meus avós que foi usado pela vó Cinda até o início da sua viuvez. Daí pra frente, passou a ser quarto das filhas casadas quando vinham visitá-la. Era o quarto do meio, ficava entre a sala de estar e grande sala de jantar. Tinha uma janela grande que dava para o jardim, de onde se podia ver os reflexos do primeiro facho de luz do sol nascente, batendo lentamente sobre o tronco do velho pé de camélia. O quarto mais requintado da casa tinha móveis de madeira finamente decorados, com detalhes em baixo relevo, contornos feitos com riscos leves de uma decoração com ares neoclássico. A penteadeira ficava em um dos lados da cama, com seu espelho de cristal, tampo de mármore branco e prateleiras estreitas localizadas entre o espelho e o tampo, nas quais se apoiavam os castiçais de velas, além de alguns potes de creme. Enfeitava-se o centro do tampo de mármore com um porta-joias de porcelana e um guardanapo feito com linha mercê crochê, a famosa linha ultrafina com que se faziam conjuntos de guardanapos, que mais se pareciam a rendas finas e delicadas, por isso eram apropriados para decorar uma penteadeira. Do outro lado da cama, havia uma mesa de cabeceira alta, onde se colocava, providencialmente, uma lanterna. Na parede em frente à cama de madeira com sua cabeceira ampla, estava o guarda-roupa e, ao lado dele, um baú grande na forma de arca, forrado com um plástico escuro e grosso que lembrava a textura de um couro, em toda volta do móvel haviam barras de madeira, presas com tachas de metal, amarrando as partes que então compunham a grande arca, o famoso baú do enxoval da tia Santinha.

Lili conhecia tia Santinha pela presença imponente daquela arca, o baú em que cabiam muitas cobertas e muitas histórias. Tia Santinha era irmã do meu avô Alberto e casou-se com um negociador de gado vindo de muito longe, de Minas Gerais. Jovem, bonito e elegante, usava roupas de boa qualidade, e com pinta de quem tinha posses, o tal rapaz buscava uma moça para se casar e foi informado por um fazendeiro da vizinhança, que lá na fazenda do meu bisavô Alfredo morava uma moça muito linda. Chegou a cavalo à fazenda, garboso e com novidades de outras bandas, logo se encantou pela tia Santinha, comprovou que de fato ela era uma jovem muito bonita e delicada. Ela então apressou-se em providenciar seu enxoval, que coube todo no baú, nele também eram guardadas as relíquias do noivo: todos os complementos de prata do conjunto de arreios que usava para montaria. Casaram-se e partiram para estabelecer moradia em Cruz Alta,  e lá, posteriormente, abriram uma pensão. Dele, também ficou de lembrança na fazenda um pé de coqueiro, plantado bem no meio da mangueira das vacas mansas, chamava-se assim porque ali se encerravam as vacas para a ordenha.  

Tia Santinha morreu antes do quarenta anos e seu marido, aquele jovem garboso e dado a negócios instáveis, partiu antes dela. Os filhos foram acolhidos por sua mãe, minha bisavó Lídia, de quem ela havia recebido o nome de batismo. E o baú na forma de grande arca voltou para fazenda. Décadas depois, quando Lili era muito pequena, o baú era um móvel intocável, quase nunca era aberto, vez e outra era aberto para arejar e receber um pouco de sol. Ali dentro, havia agora outro enxoval, composto de lençóis, toalhas, conjunto de guardanapos, colchas, tudo ricamente bordado com esmero e afeto inclusive nos monogramas, uma assinatura dos noivos com suas iniciais L&M entrelaçadas, que identificavam aquelas peças adormecidas por longos anos dentro do baú. Ele, então, nesta época, passou a servir apenas para guardar o enxoval de um casamento que não se realizou.

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...