domingo, 7 de agosto de 2022

Treme Terra, o propagandista do cinema

A cidade da Lili tinha encantos que iam sendo descobertos por ela como novidades típicas da vida urbana, sempre em contradição com a vida silenciosa e lenta que os tempos vividos no campo haviam impregnado na sua alma. Aos doze anos meus interesses voltavam-se para diversões que só a cidade podiam me proporcionar. Eu vivia conflitos constantes, dividida entre o campo e a cidade. Eu sabia que o campo não sairia de mim, e a cidade eu precisava ainda descobrir. 

Toda sexta-feira minha mãe arrumava sacolas com roupas para lavar com a água límpida e doce tirada de balde do poço da nossa casa lá nas terras da fazenda. Ela juntava as roupas da casa em um saco de viagem e nos carregava para rodoviária depois do almoço. No sábado era roupa estendida por todos lados, debaixo da parreira, nos arames do varal no pátio, onde podia ela distribuía as roupas para secar. Queria aproveitar o sol, o vento e água doce do poço.

A água que corria nas torneiras da casa do chalé era salobra, como a de todas as outras casas da cidade. Quando se fervia, na superfície boiava uma película embranquecida criando, ao longo do tempo, crostas brancas dentro das chaleiras. Além disso, a água salobra não ajudava o sabão fazer espuma suficiente para uma lavada eficiente de louças, menos ainda das roupas, tarefa que minha mãe se dedicava ao extremo, nossos uniformes precisavam ficar alvos para a segunda-feira. Mas a ida para o campo nas sextas-feiras à tarde me tirava de certas diversões, como ir ao cinema, ver os jogos na quadra da praça à noite, comprar sorvete de creme e morango sábado de tarde no bar do seu Nelson ao lado da rodoviária e depois conversar com as amigas nas escadas do coreto.

O cinema da cidade era mais frequentado por guris e homens, não muito recomendado para as meninas, talvez porque lá dentro ficava escuro demais quando iniciava o filme. As meninas entravam sempre acompanhadas dos pais, irmãos ou em grupo. Um vez e outra vinha uma peça de teatro para cidade e se apresentavam no palco do cinema. Então, a escola nos levava, foi assim que entrei pela primeira vez no cine teatro Carlos Gomes, situado em frente à praça, quase ao lado do correio. A cor do prédio tornava impossível não reconhecê-lo de longe, era pintado também naquela cor azul calipso dos armários da cozinha da casa da fazenda. 

Nada superava assistir uma peça de teatro ou ver um filme quando se abriam aquelas cortinas de cetim vermelho escuro. Elas iam abrindo lentamente assim que começava a tocar uma música, e nos enchia de expectativas, fosse pela peça, fosse pela sessão do filme.

O funcionário do cinema fazia todo serviço, trabalhava na bilheteria, vendia os doces, andava com a lanterna procurando poltronas vazias para nos acomodar quando as luzes se apagavam. Quando algum filme entrava em cartaz, ele saia pelas ruas da cidade carregando sobre o corpo um cavalete com cartazes de filmes pendurados. Cada vez que a gente cruzava por ele ficávamos tentando ler o nome do filme. Divulgava-os na parte da frente e nas costas, aproveitando para fazer dois anúncios ao mesmo tempo. 

João Treme Terra cruzava a praça em todas as direções, ou andava várias vezes na quadra da rodoviária, parando de vez em quando para descansar na banca de revistas, na esquina da praça, no cruzamento da rua 7 de Setembro com a General João Antônio. Treme Terra tinha este apelido porque tinha a língua presa, o que dificultava clareza na sua fala, se atrapalhava com a dificuldade que tinha para que o entendessem, se tremia todo. Era muito magro, queixo proeminente, olhos espantados. Algumas crianças temiam sua presença. Lili desde pequena se fascinava com a função que o Treme Terra cumpria. Para ela, ele era nada mais nada menos que o grande propagandista do cinema. Foi assim que o identificou aos sete anos, tentando explicar quem ele era para o irmão menor que se assustou com a sua figura.

Certo dia, Lili foi autorizada a ir ao cinema assistir um filme do Teixerinha, chamado "Ela tornou-se Freira", pois os filmes dele faziam muito sucesso. No cine teatro Carlos Gomes passavam só filmes de faroeste ou filmes do Teixerinha. A tela do cinema me fascinou do mesmo jeito que a tela da televisão em preto e branco que a vó Cinda ganhou de aniversário, pois juntas descobrimos as novelas. As telas e palcos despertaram em Lili o desejo de ser artista. A cidade então começava a me colocar no mundo de outro jeito.

sábado, 16 de julho de 2022

O centenário

Quando março chegou, logo entramos em um intenso preparo para as festividades do centenário do município no final de abril. Era o mês do santo padroeiro e também da data de emancipação da antiga vila São José, que foi rebatizada com nome do santo. Em 1876, a vila de São Vicente deixou de pertencer ao município de São Gabriel. A cidade estava movimentada e com muitas expectativas para os festejos. Lili ansiava pelo dia da festa 

Os ensaios com a banda e os das apresentações da escola para a celebração da data tomavam conta de todos. Todo dia fazíamos trajetos diferentes acompanhando o compasso da banda. Percorríamos toda a chamada avenida Cipriano D'Avila até alcançar o Alto da Bronze, campo de futebol bem em frente ao hospital, e retornávamos pela 7 de setembro. Muita gente saía para fora das suas casas para nos saudar. Lili se entusiasmava com tanta preparação, pois as festividades eram anunciadas para marcar o dia histórico, por esta razão nossa dedicação nos ensaios era enorme e muito cobrada, não podíamos fazer feio. Lá íamos nós aperfeiçoando o ritmo da marcha e o alinhamento dos pelotões. O Negro Vieira, famoso entregador de jornal e mercadorias, já nos aguardava nas imediações da rodoviária, onde costumava passar grande parte do seu tempo. Dali para frente ele nos acompanhava, e ao lado da banda, como se também estivesse nos guiando, marchava forte e concentrado, até chegarmos de volta ao portão da escola.

Sob os cuidados especiais do Tunico, o jardineiro mais boa gente e educado daquelas paragens, tudo estava impecável na praça central, tal como as camisas de tergal que ele usava e lhe davam tanta elegância. Os canteiros no entorno do coreto ja estavam cobertos de amor-perfeito, cada dia com mais flores, mostrando que à medida que a temperatura diminuía, sentia-se os sinais da mudança do clima. Estávamos chegando ao outono, estação que eles desabrocham com vivacidade. As roseiras podadas e vigorosas realçavam a pintura nova do coreto. Os ares da cidade eram de glória. Todos andavam ansiosos a espera da visita do governador que havia anunciado sua presença nas comemorações. 

Em casa nos ocupamos todos com os preparativos. Tia Jane assoberbada com as atividades da escola, na expectativa da organização do desfile, que deveria sair sem atropelos e imprevistos. Minha mãe mandou fazer uniforme novo, renovar os aventais do Borges do Canto para meus irmãos, uma nova saia e blusa pra mim. Tudo com monogramas da escola bordados por ela na cor azul-marinho. Meu irmão menor ganhou um papel para representar as profissões importantes no desfile do dia 29 de abril: uniformizou-se de padeiro. Lili havia sido escolhida como representante da turma para concorrer, por meio de votos, à rainha da escola do ano do centenário. E isso fez o sexto ano ser inesquecível.

Os dias eram aulas nos primeiros períodos e depois ensaio com a banda até a hora do almoço. Pela tarde minha ocupação era pedir votos para os vizinhos, parentes e conhecidos. Vó Cinda estava de volta na casa da fazenda, e me comprou uma boa quantidade de votos. Eu me sentia vibrante com ela por perto. Planejava estar presente no ato de comemorativo com o governador, ia usar seu terninho preto e a blusa com gola de renda guipir branca. Sua roupa mais chique, usava sempre em dias importantes. 

O clima estava agradável e o sol radiante. Nas primeiras horas da manhã já estávamos organizando nossas filas. Os pelotões temáticos contavam a história do municipio, suas origens jesuítica e missioneira. As professoras corriam entre as fileiras de cada ano escolar, revisando uniforme, ajustando vestimentas e sempre nos lembrando do bom comportamento durante a passagem em frente ao palanque montado nas escadarias da igreja matriz para receber o governador.

Aquela manhã de 29 de abril de 1976 foi longa. Iniciamos nossa caminhada para nos posicionarmos e seguirmos no acompanhamento dado pelo ritmo da banda que, primeiro puxou os pelotões do Grupo Escolar Borges do Canto, depois as demais escolas. Somaram-se ainda as escolas do interior do municipio e as que ficavam nos arrabaldes da cidade. Naquele dia a população cresceu lotando a praça e as calçadas no entorno. A espera foi longa, ficamos horas no mesmo lugar sem poder sair, para não desmanchar a formação do pelotão e desorganizar o desfile. Quando não se podia mais segurar, íamos rapidamente ao banheiro da casa paroquial. Os pequenos pareciam inquietos e cansados. E nada do governador

Lili ficou na ponta dos pés sem sair da fila para melhorar o ângulo de visão e ver que cara tinha o governador. No alto do tablado improvisado sobre as escadas da igreja, um palanque oficial, com as bandeiras do município, do estado e do Brasil. Logo aquele pequeno espaço se avolumou de autoridades. Bem passado do meio-dia, iniciou-se uma chuva de luzes dos flashes das câmaras fotográficas do seu Olívio e do Arvei, registravam o momento histórico. O governador era alto, dali onde Lili estava podia ver sua careca reluzente e o terno azul marinho que usava. Nada entendeu do discurso do governador Synval Guazelli, pois como para todos ali, o cansaço se abatia sobre ela e toda a gurizada. O pessoal da banda resistia, apoiados nos instrumentos. 

O povo se amontoava para além das calçadas invadindo o espaço dos canteiros da avenida, com seus pés de extremosas ainda em fase de crescimento. Foram muitas horas de espera e de ansiedade por aquele famoso ato comemorativo. Vi a vó Cinda acompanhada das minhas tias no fio da calçada, bem posicionada para assistir a cerimônia, claro impecável e altiva no seu terninho preto e cabelos bem afofados, no estilo da moda dos penteados daqueles anos. 

A fome chegava com passar das horas. Meu irmão menor, que levava um pão d água da padaria do seu Darci na sua caracterização de padeiro, já havia devorado o pão no desespero da fome. Passou em frente ao governador um padeiro sem pão na cesta. O dia de festa havido sido longo e intenso. O governador fez sua passagem relâmpago na cidade. Lili se decepcionou com a brevidade daquele festejo, afinal eram cem anos da sua cidade, era a festa do centenário. Também não alcançou votos para ser a rainha da escola do ano do centenário, mas sabia que o dia tinha sido marcado na sua memória, afinal foi o grande momento histórico dos seus doze anos.

domingo, 3 de julho de 2022

Quando a banda passava

A virada para ano de 1976 prenunciava turbulências na vida de Lili. A primeira menstruação caiu como um grande incômodo e veio com ela os altos e baixos do humor. Sentia-se ainda uma menina do campo, mas os seios cresceram rapidamente e ela percebia estar entrando de fato em uma nova fase, na qual sequer sabia como administrar. 

O primeiro dia do ano foi assustador, vó Cinda não estava bem, há tempos vinha com desconfortos abdominais. Eu a achava muito pálida e notava que andava muito cansada. Lá se foi para consultar um médico mais especializado e eu fiquei com um aperto no coração. Antes de iniciar o ano na escola, ela pediu que me levassem à Santa Maria porque sentia saudades de mim. Estava melhor, mas permanecia desde janeiro na casa da tia Betty sob seus cuidados. 

A entrada no sexto ano em março, estava como a vida de Lili, tumultuada: minha amiga Márcia, companheira de fazer os trabalhos escolares e com quem eu brincava de professora, foi embora. Chegaram na nossa turma, a Isabel e a Cristina vindas de outras cidades. Seguíamos só as meninas na sala de aula. Novos professores, muitas disciplinas e a pasta da escola pesada de cadernos. Usei todos papéis de presente guardados pela minha mãe para fazer capas nos cadernos do sexto ano, uma estampa diferente para identificar cada matéria. 

A educação física agora era feita na quadra da praça, pois começamos a aprender handebol, abaixo de instruções dadas aos gritos pela professora Amelinha, o diminutivo do nome não condizia com o jeito duro com o qual nos tratava. Para montar o time da turma ganhamos a força e o impulso da Nádia, que eu já conhecia porque ela era filha da Gessi, a senhora que trabalhava na casa da nossa vizinha, dona Lalá. Ninguém se atrevia com a Nádia, ela era furiosa e não deixava ninguém ser preconceituoso por causa da sua pele negra. Tornou-se a a fortaleza da nossa turma. O jogo na quadra era um festival de unhadas, arranhões e puxada de cabelo, a defesa era implacável nos seus métodos. Quando eu estava disposta ia para a goleira e voltava para casa cheia de machucados de tanta bolada, colocava toda minha pouca força em enfrentar as bolas certeiras da Nádia.     

A maior das novidades é que começamos cedo os ensaios com a banda, logo estaríamos desfilando no aniversário da cidade. Participar da turma da banda era privilégio para os meninos, o grupo era formado por alunos de várias turmas e só eles tocavam na banda. As meninas entravam para guiar a banda pelas ruas da cidades como balizas. Nos ensaios para os desfiles comemorativos marchávamos todos os dias puxados pela banda, fazíamos várias voltas nas imediações da escola, descendo ou subindo as ruas próximas, e passando pelo nosso antigo colégio Borges do Canto. Também na hora cívica a banda se encarregava de tocar o hino. Silêncio no pátio, algumas risadinhas e o olho vigilante da dona Maria Cony nos observando.

Todo mundo tirava um minuto do seu tempo para ir para janela ou para a porta das casas assistir a banda passar. Até a desnorteada da Manuelinha, que dormia no banco da praça, ajeitava suas inúmeras saias sobrepostas, apoiava-se no seu cajado feito de um galho de árvore e apreciava o som harmônico das batidas dos instrumentos. Com certeza, a música trazia paz para Manuelinha, sempre tão agitada nos seus devaneios. Lili queria mesmo era ser baliza, mas era tarefa para as meninas maiores que estavam nas séries finais do primeiro grau ou já no segundo grau. Moças mais altas e magras, dignas de estarem à frente da nossa banda. Além disso, minha mãe não aprovava meus ímpetos de querer me exibir na frente da banda comandada pelo mestre Heitor. Meu desejo de querer estar na banda foi passando, tal como ela passava pelas ruas da cidade toda vez que havia algo a ser celebrado.


sábado, 25 de junho de 2022

O santo padroeiro

Só três lugares na cidade tinham a imagem do São Vicente Ferrer, padroeiro da cidade, em um lugar de destaque: a igreja, a escola e o hospital. Vi o Santo na salinha de espera na primeira vez que de fato consegui entrar nas dependências internas do hospital. Meu acesso à ala dos quartos se deu quando fui ver minha mãe em uma das tantas vezes que ela foi internada com dores fortes por causa de cálculos na vesícula. Isso sempre acontecia na segunda-feira depois de um fim de semana no campo. O churrasco do domingo, com fartura de carne de ovelha, resultava no estrago digestivo da minha mãe. Ela saboreava com gosto uma costela de ovelha bem assada, especialidade do assador, meu pai. Na minha infância comia-se muita carne de ovelha tanto quanto se comia com frequência a carne das galinhas que ela criava. 

O hospital já estava na lembrança remota da Lili, de quando aos quatro anos foi levada por uma das tias paternas para conhecer, da janela lateral de um dos quartos, o irmão que acabava de nascer. As visitas estavam proibidas para os pequenos, minha birra e insistência levou a que encontrassem um modo de eu estar lá comprovando o nascimento do meu irmão, afinal tudo aquilo era um evento novo na minha vida. O santo exposto naquele saguão, tão discreto no seu pedestal, zelava os doentes. Enquanto eu olhava para ele, tinha a sensação de que passava despercebido pelas pessoas que chegavam ao hospital, como se ninguém se importasse com o lugar sagrado que ele ocupava naquele recinto. É, talvez toda a descrição da sua presença era ideia ali: estar na vigília dos cidadãos doentes, aflitos, desesperançados.  

Na escola, o São Vicente Ferrer tinha seu lugar de honra na ampla área da entrada do prédio, era maior, destacando-se naquela ampla parede verde. Lá estava a postos nos recebendo e nos vigiando, para os mais crentes e tementes a Deus, nos protegendo. Ele estava ali, desde antes de Lili iniciar a segunda fase do primeiro grau. Desconfio que colocar o santo na escola foi obra da dona Maria Cony, a nossa eterna professora ilustre, era a diretora do colégio quando iniciei o quinto ano. Uma senhora altiva, estatura média, cabelos curtos e afofados, usava uns óculos de lentes grossas com aro preto quadrado, complementando a sua figura sóbria. Ela tinha o porte de grande dama, geralmente, andava vestida com terninhos escuros e bem alinhados. Muito religiosa, era comum vê-la ao final da tarde indo em direção à igreja, quase sempre acompanhada de sua irmã, dona Noemi, que tocava o órgão durante a missa. 

Dona Maria e Dona Noemi e a irmã Maria Clara moravam em uma casa antiga, ao lado da prefeitura, de frente para a praça central. Seguidamente, tia Jane me enviava para buscar as famosas e deliciosas queijadinhas feitas por dona Noemi. Na entrada lateral, um portão de ferro dava acesso ao corredor, coberto de folhagens, por ele se chegava a uma área que lembrava um jardim de inverno. Na frente, havia um portal com um pequeno saguão antes da porta principal, decorado com ladrilhos de cores sóbrias, lembravam-me os da sala de jantar da casa da fazenda, então toquei a campainha. Lembro de sentir um certo constrangimento ao tocar, mas entrei na sala de estar e aguardei tranquilamente a encomenda. Durante a espera, eu fiquei analisando o ambiente, tudo era como elas, bem arrumado e discreto. A vergonha vinha do fato de  que uma vez e outra eu me juntava à Tina, Jeane e Cecília na traquinagem de tocar a campainha da casa das Cony, para logo sair correndo às gargalhadas até conseguir dobrar a próxima esquina e desaparecer da vista das Cony. Tocar a campainha era uma brincadeira boba, nem sei bem do que achávamos graça, mas sabíamos que havia na cidade três lugares nos quais a campainha nunca falhava, sempre funcionava: a casa das Cony, a casa do padre e a farmácia da tia Ivoloy.

Na igreja, claro, o santo espanhol São Vicente Ferrer ficava no alto da sacristia, iluminado pela luz tênue das velas no centro do retábulo. No seu pedestal recebia também a luz indireta e amarelada das lâmpadas das luminárias redondas, de vidro leitoso e dispostas no entorno da peça da sacristia, que seguia a forma do semicírculo da construção. Ele figurava de modo harmonioso com o silêncio da igreja e se destacava entre os demais santos que se espalhavam no entorno do altar e nas laterais. 

Na quarta série nos ensinavam sobre a história do município. Lili, então, descobriu que o  santo padroeiro foi trazido pelos Jesuítas para aquelas terras entre os rios Ibicuí, Toropi e Jaguari. Nos primeiros tempos de ocupação, a localidade foi nomeada de Redução de São José, que deu origem primeiro à vila e depois ao município. Contavam na escola que na praça central havia muito gado pastando e também comentavam que, no terreno da casa da esquina onde moravam os médicos da cidade, haviam localizado um antigo cemitério indígena.  

A estância de gado São José estava sobre a guarda e administração dos jesuítas da Redução de São Miguel, um grupo de índios guaranis se instalaram naquelas bandas, ajudavam no cuidado com o rebanho. A história missioneira da cidade tinha uma magia para Lili, aquele passado longínquo e pouco conhecido parecia tão importante, tornava a sua cidade um lugar no mundo e na história. O mesmo santo trazido pelos jesuítas continuava zelando por todos na igreja, situada em frente à praça, ela foi construída naquela mesma vasta área de pastoreio do gado da Estância de São Vicente, que adotou não só o santo como padroeiro como o seu nome ao ser elevado a município em 1876 e passando então a se chamar de São Vicente do Sul.

domingo, 29 de maio de 2022

Onze anos

Duas quadras e meia de casa e Lili já estava no portão do Ginásio. Iniciava uma nova etapa com a chegada da quinta série e completava, por fim, seus cinco anos de vida urbana. O largo pátio calçado da entrada da escola era um universo a ser percorrido e com certeza seria explorado nas brincadeiras com as colegas. Pés de Pinus ao lado do mastro das bandeiras guardavam aquele espaço todo ladrilhado e indicava o quanto a construção era grande. Dois blocos grandes pintados de um cor clara em contraste com a cor vermelho escuro das vigas definiam a arquitetura e compunham o prédio da escola, que ocupava grande parte do quarteirão, contornando a esquina da Cipriano D'ávila com a Carapé. 

Em dias de sol, formávamos fileiras por turma e por ordem da série que estávamos cursando. As cortinas de grade eram erguidas ao máximo e nos posicionávamos bem em frente às duas portas largas da entrada, A terceira grade ficava constantemente fechada, todas desciam de um caixa desde o alto do teto. Na parte superior, um certo final de tarde, um colega dado às traquinagens pendurou ali minha famosa bolsa de macramê, meu orgulho de moda. Lili havia deixado de usar a pasta preta de guardar os cadernos, para usar algo mais despojado com o qual pudesse identificar sua personalidade, uma vez que os uniformes eram obrigatórios, algo nela deveria fazer a diferença. Fui salva pelo diretor que a retirou com o gancho de ferro de puxar e desenrolar as pesadas cortinas de ferro.

Havia dois modos de acessar a escola, através da entrada principal ou pelo pátio na parte mais baixa do terreno. Quando chovia a fila era organizada na parte coberta, no subsolo de um dos blocos do prédio, por onde podíamos chegar usando a escada junto ao declive do terreno, na altura na qual se alinhavam os Pinus e os mastros das bandeiras. No saguão da entrada principal, de um lado ficavam as salas da direção e da secretaria, e do outro, os murais com os avisos. Ao fundo, destacava-se solene a estátua de São Vicente Ferrer, colocada sobre um púlpito preso na parede. Ela separava os dois corredores de acesso a cada um daqueles blocos de salas: as aulas dos pequenos e as aulas dos grandes. O jeito sereno do santo se mostrava ainda mais resplandecente com a luz da lâmpada no centro do teto, que dava diretamente sobre ele. O santo padroeiro da cidade tinha um lugar de destaque, parecia nos receber e também nos abençoar lá do alto, logo acima de dois grandes vasos carregados de lírios da paz, enfeitando aquela entrada interna do novo colégio de Lili. 

Em uma grande faxina na escola, dizem que o santo foi cuidadosamente banhado, para retirada do pó e fuligem acumulados. A coordenação de tal empreitada foi da tia Jane, professora da escola e, por algum tempo, diretora. Coisa certa que uma limpeza de tal envergadura era ato de capricho comandado por ela. Desde este acontecimento, criou-se uma falação na cidade de que o tal banho inusitado dado no santo pelas professoras solteiras havia surtido um grande efeito, pois elas teriam, segundo as línguas afiadas da cidade, desencalhado. E elas eram muitas, o banho foi tarefa coletiva das mulheres. Para Lili, o tal desencalhar soava como se as professoras estivessem sem saída, a causa e efeito do banho no santo era visto como um milagre. Todo o excesso de limpeza e zelo das professoras com o santo lhes custou a piada do "desencalhar" até a última delas se casar, inclusive a tia Jane que se casou tempos depois e foi-se embora para outra cidade.

A estranha e primeira novidade de estudar no ginásio, como a escola era popularmente chamada, é que nos separaram dos meninos. Duas quintas séries, porta de sala lado a lado, o que nos ajudou a não perder a comunicação direta ali mesmo nos corredores, onde a gente conversava, dava risada, burlava uns com os outros. O grupo de meninas cresceu com novas colegas vindas da escola Coqueiros e da escola do Cavajuretã: Roselei, Sônia, Corina, Jussimara, Jeane entre outras. Separadas dos meninos nos fortalecemos, os segredos aumentaram, os interesses foram ficando comuns e, cada vez mais, nossa conversa se voltava para interesses de namoro, sobre beijos e tipos de beijos, trocar pôster de artistas, falar sobre a música preferida, olhar figurino de roupas nas revistas, comprar brilho labial com formato e gosto de morango no catálogo da Avon. E elaborar longos questionários que mais pareciam fazer parte de um inquérito sobre a vida da pessoa, e nosso alvo já se voltava para as respostas dos meninos. Nem sempre eles colaboravam, afinal viam na tal empreitada uma armadilha que buscava saber os segredos mais bem guardados dos guris: de qual menina eles gostavam.  

As nossas salas ficavam quase em frente à escada por onde descíamos para o subsolo e para o pátio onde fazíamos educação física: lá treinamos muito salto em altura e salto à distância. Haviam ainda nesta parte inferior do prédio, salas de depósitos para os materiais de artes, para os instrumentos da banda e bolas e redes para as atividades da educação física, além do consultório da dentista e a cozinha, onde ofereciam a merenda.

No mesmo corredor das nossas salas de aula, ao lado da sala dos professores, ficava a biblioteca: algumas prateleiras com livros, classe reunidas fazendo mesas para estudo e pesquisa, um quadro com avisos e mesas com máquinas de escrever, que o pessoal ensino médio usava nas aulas do técnico em contabilidade. Lili se encantou de imediato com a pequena biblioteca, procurava livros, enciclopédias e revistas, tudo era fascinante. Uma a duas vezes por semana dava uma verificada no material para ver se havia chegado algo novo. 

A leitura dos livros da tia Jane e as aulas de redação instigaram Lili para a escrita. Passou a escrever novelas curtas. O material, minhas colegas mais velhas me forneciam facilmente com seus relatos amorosos ou com seus pretensos desejos românticos. Lili reinventada as histórias relatadas pelas amigas, criava personagens inspirada pelas fotonovelas da revista Grande Hotel. Os protagonistas começaram a ter nomes fixos: Max e Verônica. Durante dias, eu juntava as moedas do troco das compras, às vezes, também ganhava umas moedinhas das vizinhas pra quem eu comprava pão todas as tardes. Com o valor guardado, eu corria para comprar revistas de fotonovelas na banca da praça, afinal ali estava meu modelo dos diálogos e de como contar uma estória romântica. 

A banca na esquina da praça era ponto de encontro e paquera dos jovens. No outro lado, na esquina do Clube, o ponto de conversa sobre política dos mais velhos e também das fofocas. Meu colega Tampinha havia se mudado da cidade, o pai dele foi por um bom tempo o proprietário da banca. Quando iniciei meu interesse na leitura de fotonovelas, o dono era seu Mozarte, um senhor alto, elegante e com um bigode de galã.

O ano crucial da entrada no ginásio foi intenso: professores diferentes, disciplinas novas,  cadernos e mais cadernos para passar a limpo, muitas provas para se preparar. Um ano que Lili perdeu quase dois meses de aulas por causa de uma caxumba e, logo depois, por uma rubéola, um ano puxado para dar conta de tantos temas novos. Sem contar ter passado pela constrangedora vistoria da escola por suspeita de piolho encontrado na cabeça de alguma colega, todas iam para fila de catação de lêndeas e do bichinho perdido na cabeleira das gurias. A inspeção era feita no pátio da escola debaixo do sol da primavera, já prenunciando o calor forte do verão.

Meu dia feliz e o melhor presente do ano foi meu aniversário de onze anos, pude convidar algumas amigas e lá estavam minhas avós de julho. Era uma gostosa tarde fria no início do mês de agosto. Tomamos juntas um xícara de chá acompanhada de uma torta de Nescau feita por uma das minhas tias doceiras. Minha vida na cidade tinha seu roteiro e eu podia dar conta de vislumbrar um novo horizonte tal como fazia lá na fazenda, contemplando a lua cheia nascendo por detrás da frondosa timbaúva ao lado da porteira.


quinta-feira, 21 de abril de 2022

A cidade nos acolheu

Em meados de 1973, Lili havia finalmente retornado à convivência cotidiana com sua família. Após  a decisão da mãe, mudaram para a cidade. Meu irmão do meio havia feito sete anos, e estava na hora dele também ir para escola. Meu pai ficou no campo, lá era sua querência e seu lugar da lida campeira, da plantação de melancia e de milho. Assim passamos a ter uma vida alternada entre a cidade e os fins de semana na nossa morada em frente à fazenda

Na cidade nos sentíamos acolhidos, tínhamos tios e primos que moravam por perto. Com a mudança da tia Cisa para a capital, meu pai negociou a compra do chalé com o proprietário. A tia Jane ainda seguiu morando conosco por mais um bom tempo, trabalhava na escola estadual onde eu comecei minha jornada nos anos finais do primeiro grau, dois anos depois de nos instalarmos na rua principal da cidade. O chalé simples de portas e janelas verdes combinando com tom de amarelo claro das paredes parecia uma bandeira brasileira já bem gasta pelo tempo. Até aquele momento, ele vinha sendo habitado pelas minhas tias solteiras que trabalhavam na cidade.

O chalé era muito simples, com dois quartos, uma sala de estar, uma outra sala que servia de escritório para tia Jane, onde fazíamos nossas tarefas da escola, uma cozinha e um banheiro bem precário. Em frente ao banheiro uma peça que minha mãe usava como um depósito. Tínhamos luz e também uma televisão pequena preto e branco, geladeira elétrica e fogão à gás: muita modernidade e novidade na nossa vida urbana. A coisa mais bonita do chalé era o piso: tábuas largas de madeira, enceradas e lustradas quase todos dias. Minha mãe deslizava sobre elas usando pedaços de pelego sob os pés, era como se estivesse treinando passos de uma dança que só ela domimava.   

O terreno da casa avançava até uma pequena plantação de cana de açúcar, que servia de alimento para as vacas de leite do seu Noé. Durante o dia, ficavam em um potreiro que se estendia até a rua detrás. Por ali ainda dava para cruzar uma cerca lateral, que limitava com pátio da casa do Tio Ruco, cortávamos o caminho para chegar a casa dele. Do lado direito, vizinhávamos com a dona Dinorá. Ela costurava e fazia minha saias, calças e blusas quando iniciei a vida escolar, no colégio estadual, que ainda chamávamos de ginásio. Na nova escola, a gente deixava de usar o avental branco com as letras iniciais do nome bordadas no bolso , uniforme que usávamos durante quatro anos no Grupo Escolar.

A sala que servia de escritório, tinha uma mesa no centro onde a tia Jane preparava as aulas  de português, literatura e francês. De vez em quando eu ajudava a recortar as figuras para as aulas de francês. Ela fazia painéis para fixar ao lado quadro negro, figuras com os nomes em francês eram agrupadas por temas: frutas, roupas, objetos da escola, entre outros. Morar com ela me abriu para o mundo da palavra e da leitura, passei a ler todos livros de literatura disponíveis. Ela só não me permitiu ler o Crime do Padre Amaro, mantido na parte fechada à chave da estante. Passei anos rondando o livro, as proibições nunca combinavam com Lili. 

A rotina ia se ajustando aos poucos. Eu dividia o quarto com a tia Jane, e meus irmãos com minha mãe. Começamos a nos encantar com filmes e os desenhos animados na TV. Minha mãe agora tinha mais tempo para seus bordados, as novelas voltaram para sua vida e plantou algumas dálias no corredor ao lado da casa, na divisa com o terreno da dona Dinorá. Deixou a recorrida das galinhas no final da tarde e a rotina de alimentar os tantos bichos domésticos  no encargo do meu pai. Mas toda sexta-feira à tarde tomava um ônibus cheia de sacolas e voltava para nossa casa no campo. Dividia seus afazeres domésticos entre duas vidas e duas casas.

A cidade foi nos trazendo novos hábitos e descobertas. Meu irmão do meio passou a achar o pão da minha mãe sem sabor, bom mesmo eram os pães da padaria do seu Darci e da dona Marisa: grandes baguetes de pão d'agua, o pão cabrito, com suas duas partes sobrepostas, de massa macia e amanteigada e ainda o pão doce sovado e brilhoso com pequenos cortes que lhe davam um ar de sofisticação. Os pães eram embalados com finas folhas de papel branco, dona Marisa as torcia nas pontas levemente para assim amarrar a embalagem. Não haviam sacos nem sacolas plásticas.

O produto preferido e mais famoso da Padaria São Vicente eram os biscoitinhos mignon, tal como nome refere, pequenos biscoitinhos crocantes de massa salgada, que inclusive levávamos em porções para a merenda na escola. Já o famoso biscoitão, a versão exagerada do tal biscoitinho, meu pai costumava comprar um saco grande para os dias de campereada, servia como acompanhamento do churrasco. Duravam dias se bem acondicionados. 

Como mais velha, passei a ser a mandalete da casa, ou seja, fazia as compras eventuais no armazém Encantado do seu Adão. Depois passamos a ter cardeneta mensal para as compras no armazém do seu Darci Fragoso, pai das minhas duas novas amigas, Jeane e Jussimara, vindas do Cavajuretã, e agora nossas colegas no ginásio. No mercadinho, comprávamos café, açúcar, farinha, lâmpadas até linhas e tecidos para costura. O verdadeiro armazém de secos & molhados. 

Lili se comunicava bem com todos, já dominava os trajetos da cidade e passou a colaborar com a compra diária do pão para as vizinhas, religiosamente no meio da tarde. Em casa comprávamos pão da padaria depois que já não tínhamos o feito pela minha mãe.  Eu vinha da padaria distrinuindo as encomendas, o nosso pão dágua vinha acomodado debaixo do braço, já com bico rasgado, não me continha em tirar um naco e saborear o pão quentinho. Rasgar pão já era meu hábito, fazia o mesmo com os fabricados pela minha mãe, o que ela detestava. Aquela tarefa de comprar e entregar pão era prazerosa, eu conhecia as pessoas, seus jeitos, seus olhares, suas expectativas. O campo me deu o ponto de observação sobre a natureza, e eu ia alargando-o em relação às pessoas na nova vida urbana.

Nesta mesma época, meu vô Joãozinho havia se mudado para a cidade. Comprou uma chácara quase dentro do perímetro urbano. Desgostoso com o suicídio da filha Cristina e com dinheiro de uma safra excepcional de arroz, comprou uma chácara e ali se instalou. Passou um lomgo tempo arrumando o lugar. Construiu um bom chalé para a vinda definitiva da vó Xiruca e dos filhos mais jovens que seguiam morando com a família, vieram todos na cidade. Lili via nos seus olhos a tristeza que lhe abatia, andava de olhar baixo. Os olhos verdes azulados tão vibrantes se tornaram opacos e vagos. Colocava as horas do dia no cuidado com a horta, e o que produzia, vendia para ajudar nas despesas. Algumas vacas de leite no grande terreno, que depois também ajudaram minha vó no sustento da família com a venda de leite, quando ele faleceu.

Eu atravessava pelo terreno dos fundos da nossa casa até chegar à rua detrás. Andava mais uns metros e entrava por um campinho ao lado da antiga residência do doutor D`Avila. Eu sabia que ia dar nos fundos da nova chácara do vô Joãozinho. Fazia isso fugida da minha mãe, porque eu tinha uns onze anos e me metia por meio de terrenos desconhecidos, sem medo. A ingenuidade de Lili era acreditar que campo e cidade tinham a mesma segurança, uma liberdade de se mover sem temor,  movida apenas pelo desejo de desvendar lugares desconhecidos.  

Meu avô só resmungava me olhando espantado: o que tá fazendo aí guria? Eu dava uma resposta qualquer e ia vasculhar a horta e as peças já se desmanchando da casa velha. Ele era calado e eu, curiosa demais. Bombardeava-o de perguntas. Ele respondia monossilábico mascando um palheiro. Misturava algumas palavras em alemão bem baixinho, quase um sussurro. O alemão vinha nele nas horas mais profundas, sua língua materna era o refúgio das suas emoções. Estávamos todos nos deslocando, aprendendo administrar um novo modo de levar a vida. No entanto, Lili sentia que ele seguia deslocado, mergulhado no silêncio de uma tristeza sem fim.  

Lili estava bem adaptada às rotinas da vida na cidade. Saia na frente quando ia à escola com o irmão do meio, guiando-o, mas nunca junto dele, afinal era ela quem ali sabia das coisas da cidade. Meus irmãos estavam divididos entre o novo que a cidade apresentava e a saudade da casa lá fora, sentiam falta da largueza do campo. O menor chorava de saudade do meu pai, era acostumado dormir junto com ele antes de ser colocado na sua cama no nosso quarto. Uma vez por semana, pelo menos, meu pai vinha de fora na charrete amarela, acomodava o veículo na entrada lateral, descarregava alguns mantimentos: ovos, frutas, batata, mandioca, moranga. Almoçava conosco, enquanto o Tarugo descansava, bebia uma água e esperava meu pai dar a ordem de retorno. Nestas vindas, seguidamente, levava meu irmão menor de volta para o campo. Cerca de um ano depois, ele entrou no jardim de infância e começou a fazer amigos. A cidade foi ficando aprazível para todos, mas sem diminuir sentimento que nos fazia pertencer ao campo: o apego telúrico.  

sábado, 29 de janeiro de 2022

Gosto de pitanga

No calendário da Lili, novembro era um mês marcado por três acontecimentos. Iniciava com o dia de finados e toda a melancolia que podia existir de um dia como aquele. Nem mesmo o ritual de colocar flores para os entes queridos, como gesto amoroso, retirava da data a tristeza que ela continha. Em meados de novembro as pitangueiras enchiam-se de frutas de tons variados desde o verde claro, amarelo, laranja, vermelho até chegar no ponto das frutas quase negras, bem escuras, maduras e deliciosamente doces. Logo para final do mês chegavam os esquiladores com suas tesouras afiadas para fazer o salão anual das ovelhas, que nesta época do ano estavam cobertas de uma abundante camada de lã. Havia na tosquia duas finalidades, retirar a lã para comercializar e também aliviar as coitadas da farta cobertura de lã, principalmente porque já fazia dias de muito calor no final de novembro.

A temporada das pitangas com certeza aguçava nosso desejo de andar pelo campo das vacas mansas. Quase na altura do pequeno açude havia um mato onde predominavam pés de maricás e de pitangas. As idas ao matinho das pitangas fazia parte do programa da pescaria no mês de novembro. Conhecíamos de memória quais daqueles pés tinham as pitangas mais doces e as mais diferentes em textura e sabor.  

Em outras ocasiões, nem precisávamos da pescaria para partir rumo ao matinho das pitangas. Atravessávamos pelo arvoredo velho e na cerca que separava-o do campo das vacas mansas, pulávamos sobre o arame, apoiando os pés em dois tocos de árvores que havia de um lado e outro da cerca, bem junto a linha das bergamoteiras. À direita duas enormes araucárias pareciam duas belas guardiãs nos espreitando.

Lili acompanhava os guris para o flanco de guerra, batalhas de trabuco com bolinhas verdes de cinamomo. Assim que passávamos pela cerca avistava-se uma linha composta por vários pés de velhos cinamomos gigantes. Ela começava nas araucárias e ia até as imediações do matinho das pitangueiras. Subidos no alto dos cinamomos, os guris simulavam uma guerra insana com as frutas verdes da árvore. Lili, então, ficava apoiada no tronco de um dos cinamomos onde ela pudesse ficar protegida da intensa batalha que eles se envolviam. Não lhe interessava aquela guerra de meninos. O tempo dela era para contemplar o campo que descia em direção à várzea até dar no arroio da Divisa. E quando sol se punha, era magnífico ver a silueta dos cinamomos que se projetava no final da tarde sobre a lavoura de melancia do meu pai, naqueles dias já com os pés bem desenvolvidos e com frutas crescidas. Em dezembro teríamos melancias maduras. Aquela hora e aquele momento eram para mim a idea mais perfeita do bucólico.

A pescaria do domingo no açude trazia anda mais expectativa. Lili não pescava, ficava observando o movimento ligeiro dos lambaris nas partes mais claras da água. Maria nos vigiava, um olho nos mais velhos que se aventuraram nas partes mais zonas mais fundas do açude e  outro nos pequenos que ficavam nas margens molhando os pés e jogando água para o alto, dois ou três realmente se ocupavam da pesca. Lili rabiscava desenhos no chão com a ponta de uma taquara, recolhida junto ao taquaral que protegia a taipa do açude, fazendo uma sombra fresca sobre a qual colocávamos nosso material de pesca, os lanches e alguma colcha velha para sentar. Já chegávamos alimentados de tanta pitanga, no meio do caminho a parada no matinho era obrigatória. Nossas risadas eram pintadas de cor de pitanga, o contorno das nossas bocas enchia-se de um lambuzo avermelhado de puro contentamento, ficava impregnado na gente o gosto das pitangas do matinho do campo das vacas mansas.

Na volta para casa ficávamos competindo salto sobre o grande cocho de sal. Um tronco de árvore, com uma vala funda no meio, onde se coloca o sal para as vacas. Escorado por cavaletes nas duas pontas, ele ficava elevado do chão, mas não tão alto que aos dez anos de idade não pudéssemos pular. Localizava-se depois da cerca do arvoredo, atrás das bergamoteiras, no lado oposto das araucárias. No final da tarde, ali naquele cocho, além da brincadeira de saltar sobre ele, também sentávamos a espera do pôr sol para ver como na luz dourado do poente a linha dos velhos cinamomos da época do nosso bisavô, ficava ainda mais gigante. O nosso dia acabava farto de tantas brincadeiras e o gosto das pitangas persistia no nosso paladar, estávamos satisfeitos de vida.   

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...