sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os bailes da vida de uma adolescente

Lili iniciava um ano cabalístico, os treze anos tinham chegado com mudanças no corpo e muita inquietude sobre si mesma e o mundo. O mau humor aparecia do nada, vivia estados de rebeldia de quem já sentia não se encaixar nos sonhos da maioria das meninas. Tinha o desejo pela escrita e a insatisfação típica da adolescência. 

Eu havia crescido muito, naquele momento inclusive aparentava ser mais alta que as outras colegas, como se de repente eu fosse uma mulher jovem. Meus seios ficaram grandes, toda roupa que eu vestia a percepção era de não me caia bem. Finalmente, minha mãe deixou de interferir no corte do meu cabelo, pude deixá-los crescer. A testa reluzia de oleosidade, coberta de espinhas e cravos, o que me impedia de usar franja porque o cabelo oleoso fazia com que ela grudasse na testa. Em vão, eu tentava controlar a gordura da pele com rodelas de pepino e lavava o cabelo com todo tipo de receita caseira sugerida nas revistas Carinho ou Capricho. 

Todo o descompasso da vida de adolescente me produzia uma autoimagem bem distorcida, a de que eu era uma guria feia e desinteressante. Mas, em fevereiro daquele ano, eu tinha feito algo novo e diferente, foi minha estreia nos bailes. Fiz meu primeiro carnaval no Clube Caixeiral, em Santa Maria. Cuidada e vigiada pelos meus tios, acompanhei minhas primas e amigas nos dias de carnaval. Quando subi as escadas do Caixeiral fiquei fascinada com as colunas até o teto, moldadas com arabescos clássicos, contornando as escadas que davam acesso àquele enorme salão, ventilado pelas inúmeras janelas altas do lado esquerdo e direito. Eu então elegi o Caixeiral o lugar mais bonito que até então eu conhecia  

Descobri a diversão de pular, de fazer trenzinho, de circular pelo salão, de subir no palco onde estava a banda e bailar entusiasmada. Uma Lili divertida surgia e se deixava levar pela festa daqueles dias de férias na casa da tia Betty e do tio Cláudio. Naquele carnaval encontrei meu primeiro par de baile, o Chiquinho, com quem pulei todo carnaval e dividia todas as noites um prato de batata frita e refrigerante. O Clube Caixeiral e Santa Maria tinham entrado de maneira significativa na minha vida.

Aquele carnaval me incentivou a participar de festas. Quando meu pai autorizava, eu ficava fim de semana na cidade, na casa da minha vó Xiruca ou na casa da tia Tânea, para poder ir  aos saraus no Clube Vicentino nas tardes de domingo. Eu sabia das histórias dos carnavais no Clube Vicentino durante a juventude da minha mãe. Ela contava detalhes das fantasias, de como a vó Cinda gostava de colaborar na feitura das fantasias e de vê-las fantasiadas, ela e minhas tias. 

Naquela época o carnaval da minha cidade andava decaído, os foliões haviam esmorecido, pairava no ar falta de entusiasmo. Muita gente preferia o carnaval de Jaguari no balneário. O Clube Vicentino era nosso refúgio para jogar ping pong, fazer um lanche na copa, sentar no pátio interno para jogar conversa fora com os amigos. Da área dos fundos ouvia-se os gritos dos homens que jogavam bocha enquanto bebiam cerveja. Tardes de sábado e domingo eram dias de encontro marcado.

Sem sarau, sem baile, muita gente rumava para o Clube União, um quadra abaixo do Clube Vicentino, Ambos ocupavam esquinas importantes, se destacavam: um pintado de branco e outro de verde. Um era dos brancos e o outro, como todos chamavam "dos morenos".  Em casa eu ouvia; "mas no clube dos morenos?" Para Lili nada mudava, as boates no Clube União faziam parte do roteiro, sem restrições.   

A grande festa do Clube Vicentino sempre foi o baile dos Kerbs. Durante três dias bailávamos ao som das bandinhas alemãs. Muita cerveja distribuída no meio do salão, como multa aos que eram escolhidos para dançar com o rei e a rainha. Lili se envolvia com os preparos, dias de planejamento com as amigas sobre as roupas típicas que desenhávamos, a prova nas costureiras, os encontros na casa de alguém antes do baile e a entrada coletiva e triunfal no salão do clube. Na madrugada, uma volta na praça, uma lavada na cabeça na torneira atrás do banco em frente ao coreto, para eliminar o cheiro de suor misturado com o de cerveja e muitas risadas. A adolescência era assim, meio ranço, meio revolta e muita amizade e festa. A vida na adolescência era como a espera por um baile: expectativa constante

domingo, 20 de novembro de 2022

A tormenta


O ano começou com ares de tristeza. Meu avô Joãozinho havia falecido em fevereiro, depois de dias internado em um hospital em São Francisco. Ele andava com olhar perdido, seus belos olhos azuis ficaram opacos e expressavam um desalento que não se conseguia saber qual era a razão. O coração não resistiu.

Em março iniciamos a sétima série, com mudanças importantes, passamos ao outro corredor da escola, na ala dos maiores e a turma agora era mesclada, com meninas e meninos. A sala era grande e nos acomodamos agrupados. Quase todos os meninos, a exceção do Fabrício, amontoaram-se no fundo da sala, na chamada cozinha. As meninas se localizaram nas primeiras classe de cada fila. Eu escolhi a classe logo atrás da do Fabrício, na esperança que ele me auxiliasse em matemática, além das ajudas que a Jussi costumava me dar. Eles eram bons nas contas, aliás eles gostavam das aulas de matemática e de resolver aquelas infindáveis equações. 

Lili se garantia no inglês decorando os textos do livro "New English " que o professor Eugênio adotou para as aulas. Também gostava de ouvir o professor Darci divagando na aula de história, falando do Império e da República. E claro, a aula de português era minha preferida, especialmente se precisasse fazer redação. As longas unhas da professora Conceição se destacavam cada vez que ela gesticulava enquanto explicava uma regra gramatical, enquanto eu tentava acompanhar o seu raciocínio. De vez em quando, lá ia o Vito para secretaria levar uma chamada do diretor. Ele tinha as respostas na ponta da língua e bom humor para burlar dos colegas e dos professores. Era outro bom na matemática.

Em meados de Outubro, já estávamos na expectativa de aprovar de ano, fazendo as contas para ver se as notas somadas alcançavam a média final para passar de ano. Mas aquele foi um Outubro diferente, fomos pegos por uma tormenta violenta. 

Minha mãe andava por toda casa trancando portas e janelas e, a cada tanto, revisava se estava tudo bem fechado. Dava um espiada pela janela do quarto e se desesperava só de pensar nos animais na fazenda e no pai. Nós pulávamos nas camas, ansiosos e assustados, estávamos apenas com a luz das velas. Tia Jane havia voltado da escola mais cedo, pois havia faltado luz em toda cidade. Nereu, um veterinário amigo dela, veio acompanhando. Eles jantaram e ficamos todos na expectativa da tormenta diminuir, assim que calmou o vento, veio muita chuva, então preparamos uma cama no sofá para o Nereu dormir. Ele percebeu o quanto estávamos nervosos e o convencemos de ficar. Na manhã seguinte, ele saiu cedo para ver os estragos da tormenta pela cidade.    

A força do vento foi devastadora, a cidade amanheceu com casas destelhadas e árvores caídas. No meio da praça encontraram um telhado inteiro de uma casa. As notícias que vinham da fazenda era de muito estrago. Muitos eucaliptos antigos e imensos se foram ao chão na avenida em frente à entrada da fazenda. A estrada foi obstruída, tiveram de cortar muitas árvores e arrastá-las para liberar a passagem de carros e ônibus.

Encontraram ovelhas mortas embaixo dos troncos. Os homens saíram recorrendo animais na inundação da várzea, as partes baixas do campo eram cheias de água. Depois que parou o vento, a chuva veio volumosa, havia enchente em várias partes do campo. 

A tormenta trouxe a enchente de Santa Rosa, vento norte quente, muito calor e temporais. Levaram dias para limpar a cidade. Na fazenda morreram muitos bichos, galhos e troncos de eucaliptos foram sendo amontoados ao longo da avenida. Aquelas árvores imensas não resistiram à fúria do tempo. Logo, vieram dias calmos, dias de bonança, dias de recomeçar.    

sábado, 29 de outubro de 2022

Otacílio

Há muitas vantagens em se viver em uma cidade pequena. As distâncias são apenas pontos de vistas do que é longe e do que é perto, facilmente se atravessa a cidade com uma boa caminhada. As lonjuras, neste caso, são entre a cidade e as moradas localizadas no interior, no campo. Nestes pequenos municípios a vida tem outro ritmo, os vizinhos te socorrem, te auxiliam e te cuidam. Todo acontecimento inusitado se espalha logo como grande notícia. Metade das pessoas se encontram em festas familiares, porque casamentos acontecem ao longo de gerações entre famílias conhecidas, às vezes, primas casam com primos. E há, claro, as fofoqueiras de plantão, como de costume, espiando nas frestas das janelas ou disfarçadas por trás das cortinas das suas casas, quando não fofocam ali mesmo, no meio da praça em encontros furtivos. Espiam do alto das janelas os jovens retornando dos bailes do Clube Vicentino durante a madrugada.

Lili cruzava a cidade para provar as roupas na costureira. Gostava de olhar os modelos das revistas Manequim e Figurino, inspirava-se para desenhar seus próprios modelos. Desenhar era uma distração a que me dedicava durante à tarde, além de ler e estudar. Meus cadernos eram repletos de desenhos, minha preferência recaia sobre o desenho de pessoas. Minha mãe dizia que eu tinha mania de fazer desenhos de rostos, em especial, de mulheres. Não sei bem o que ela queria dizer nem o que exatamente pensava sobre minha obsessão.

De tempos em tempos, Lili rumava para lado oeste da cidade, para bem depois do cemitério. Levava tecidos, linhas e botões para dona Ursulina confeccionar as roupas planejadas nos esboços feitos em folhas arrancadas do caderno de desenho. A casa ficava para os lados da cooperativa,  junto ao bolicho do seu marido, seu Athos. Eu a conhecia por ser sogra de uma das minhas tantas tias, a Lena. A sala da casa tinha móveis escuros, paredes rosadas e uma porção de pássaros azuis de porcelana presos na parede e que me encantavam. Em um quarto junto ao espaço onde ela costurava, havia o dormitório de uma senhora muito idosa, quase centenária, tia do seu marido. Dona Ursulina dava corda para minhas invenções de estilista, fazia sugestões e ajustava a costura na prova. Na volta para casa, eu levava alguma costura pronta da minha mãe.

No bolicho, eu sempre pegava uma rapadura. Meu pai nos acostumou com as rapaduras de caldo de cana que comprava em Jaguari, pegamos muito gosto por elas. O balcão para atender os clientes era alto e atravessava toda a peça, dividindo as prateleiras das mercadorias de quem chegava para comprar, sobre ele uma balança com pesos de metal.  Comercializavam grãos à granel, depositados em tulhas e descascavam arroz para vender por quilo, além de enlatados, temperos, refrigerantes e cachaça. Encostados nas portas ou sentados em cadeiras de palha, os borrachos de sempre. Eu conhecia de longe o tio Vito, irmão do meu avô, com seus olhos azuis profundos, era  freguês habitual do bolicho. Mas havia outra figura que rondava o estabelecimento, para beber um trago oferecido pelos borrachos habituais. Ele também recolhia sobras e ganhava algo para comer. Andava pela cidade, atravessava distâncias com seu jeito de desnorteado: o Otacílio

O Otacílio vestia-se de roupas velhas, sempre desbotadas e gastas. Em volta da cabeça uma faixa clara já amarelada de sujeira e gordura. Amarrava as calças na cintura com um cordão. Lili o conhecia porque passava por ele na volta da escola. O almoço, ele tinha garantido pela dona Amélia, que morava na esquina, no lado oposto da farmácia da tia Ivoly. Ali ele esperava junto ao portão lateral pelo seu prato de comida, todo santo dia. Falava pouco, parecia constantemente perturbado, não gostava de provocações. Cada vez que alguém dizia algo a ele ou ria, saia esbravejando. Otacílio era meu relógio, eu calculava a hora que estava chegando em casa pela presença dele sentado na calçada na sombra das ameixeiras da casa à espera de um prato de comida. Dona Amélia não falhava no seu cuidado e ele parecia demonstrar um grande respeito por aquela senhora miúda, de cabelos brancos e um coque no altura do pescoço, que lhe oferecia o almoço diariamente.

Na cidade pequena as pessoas vão se encontrando nas poucas ruas que existem. Se cruzam no cemitério, na única agência bancária, na frente dos correios ou em algum mercadinho mais afastado, onde tem a farinha de milho mais saborosa ou onde tem o feijão que cozinha muito bem, como o do seu Augusto. A gente sabia que ele comprava feijão na Mata para revender e encomendava uns quilos. No meio do caminho, invariavelmente, dona Bibiana me parava na calçada e me segurava pelo braço, queria notícias da família. Ela me chamava carinhosamente de parentinha. De fato, eles tinham algum parentesco com minha mãe. Há uma corrente de afetos, de conversas, de encontros cotidianos que tornava a cidade de Lili um lugar de pequenas grandes histórias de vida. 



domingo, 2 de outubro de 2022

Dia de eleição

Lili seguia trajetos diferentes para ir à padaria. Em uma cidade pequena não existem tantos caminhos a percorrer, mas se pode andar cortando terrenos, mudando a direção por onde se vai, ainda que pelas mesmas quadras, ainda que fosse apenas trocar de calçada. A gente sempre acabava no mesmo lugar, pois todo o caminho que se tomava, tinha a praça como ponto de referência. Passar pela praça era inevitável. E ali onde a rua Carapé se encontrava com a sete de Setembro, fixada sobre pedras grandes e escuras, inscrita em letras de metal sobre uma placa de mármore, repousava e resistia a carta de Getúlio Vargas, eternamente aberta para leitura de quaisquer transeuntes. Diziam, à época, que toda cidade tinha aquela carta monumento. A nossa se localizava atrás de um banco de cimento, entre os muitos bancos que se distribuíam no contorno da praça. A famosa carta ficava na sombra rala de umas espirradeiras que na primavera se cobriam de flores cor de rosa, logo a espirradeira conhecida por ter folhas venenosas. Aquela carta, congelada no tempo e no mármore, era a despedida da nação feita pelo presidente antes do seu marcante suicídio.

Cada vez que eu lia a carta, quase a decorei, recordava da minha situação particular e dos que nasceram entre a década de 40 até meados dos anos 60 naquela terra fundada por índios e jesuítas. Na verdade, nasci em General Vargas, a cidade havia mudado de nome para homenagear o pai do Getúlio Vargas. Eram coisas da política local e que durou pelo menos umas duas décadas.. Eu não me via cidadã de uma cidade inexistente, gostava da origem jesuítica do nome do meu lugar de pertencimento. Aquele presidente me era familiar muito antes de começar minha experiência na vida urbana, ela fazia parte do meu universo, um velho conhecido por causa do seu retrato imponente pendurado na parede da sala da nossa casa no campo. Coisas políticas da minha mãe.

A fase de adolescente despertou em Lili novos interesses. Aguçou seu senso de observação para os acontecimentos da cidade: as festas, as comemorações, as rodas de conversas dos adultos, o comportamento das mulheres, o cotidiano morno e inalterável de quem vive no interior, os poucos fatos importantes da vida na minha cidade. Lili ampliou as leituras, migrou dos livros da série Vagalume para o jornal que lia no escritório do tio Ruco. Havia tardes que eu ficava em volta dele, até que me davam alguma tarefa, como organizar cronologicamente as notas fiscais e faturas de alguns estabelecimentos comerciais dos quais ele fazia a contabilidade. Passei a perceber os movimentos políticos da cidade e suas facetas acompanhando meu tio em algumas visitas com fins eleitorais, pois ele havia se candidatado para uma vaga de vereador. 

Naqueles anos finais da década de 70, pela primeira vez acompanhei minhas tias até a sessão eleitoral, testemunhando aquele grande acontecimento que eram as eleições. Elas se aprontavam cedo, dia de usar roupa de domingo. As que moravam longe faziam questão de votar no município, embora há muito tempo tivessem saído da cidade. Minha mãe deixava todo serviço da casa, porque votar era sagrado. Polemizava com minhas tias e tios, bradava suas ideias e votava cheia de convicção no que acreditava. Tia Cisa desde aquela eleição não perdeu mais seu posto de apuradora de votos. Relatava o que os eleitores escreviam nas cédulas, recados desaforados, desabafos inusitados e se divertia contando o que testemunhava nas horas intermináveis da sessão de conferência dos votos marcados nas cédulas. Ela era assim, vibrava com uma eleição. 

Lili ficava no corredor do Grupo Escolar aguardando elas votarem. Era dia movimentado, pequenas filas em frente às salas, fiscais dos dois únicos partidos na observação do processo. Muita conversa ao pé de ouvido nos grupos espalhados nas esquinas. Bandeiras e papéis dos santinhos voavam pelos pátios e se acumulavam nas sarjetas, fotos preto e branco de candidatos misturadas com algumas coloridas. Na praça, gente comentado seus votos, encontros com parentes e muita celebração. Via-se a correria de camionetes de cabo eleitorais e táxis trazendo e levando eleitores. Ao final da tarde muita gente se amontoava na porta do Clube Vicentino, onde se instalava a grande sala de apuração. As urnas de lona chegavam do interior assim como as que continham os votos das duas sessões eleitorais do centro, as do Grupo Escolar e as do Colégio São Vicente.  

Fui aos poucos entendendo a importância daquele dia em que brotava gente de todos lados, tinha-se a impressão de que população local duplicava. As pessoas chegavam vestidas de uma maneira quase solene: os homens de calça e camisa, no modo alfaiataria, retiravam educadamente seus chapéus ao entrar nas salas de votação; as mulheres reforçavam o batom nos tons mais fortes e usavam leques para aliviar o calor que se anunciava forte em meados de novembro.

Sentada no banco nas imediações da carta do Getúlio Vargas, Lili fotografava mentalmente a agitação do dia, as pessoas que passavam voltando para casa e as que aguardavam ansiosas o resultado da eleição, aglomeradas no entorno da banca de revistas na esquina da praça, de olho no anúncio que o juiz faria do resultado das eleições lá de dentro do Clube, do outro lado da rua. Algo de muito grande fazia aquele dia ter um ar de esperança. Lili não conseguia ainda compreender todo aquela demonstração de compromisso e fé do povo em depositar seu votos nas urnas, em dia que a cidade se avolumava e um espírito de celebração pairava no ar; ela não sabia bem se tanto alvoroço era sinal de mudança. Estávamos em meados dos anos 70.   


 

 




  

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O coreto

Toda vez que marcávamos um encontro, fosse para ver um jogo na quadra da praça, fosse para tomar um sorvete ou ficar na espreita de algum guri que a gente paquerava, era o coreto nosso ponto de referência e de encontro. Sentávamos nas escadas e ali ficávamos no final da tarde jogando conversa ao vento, comentando sobre a vida de quem passava. Às vezes nos debruçávamos sobre as muretas vazadas com suas pequenas colunas torneadas e espiávamos quem cruzava de um lado a outro da praça: os que voltavam do trabalho, os que traziam compras do mercado Encantado, as senhorinhas que se aproximavam da igreja para a missa das seis. 

Quando não tínhamos a vigilância do Tunico, até sobre as bacias em forma de conchas nós nos sentávamos, imaginando a água que deveria jorrar da boca dos leões, esculpidos logo acima daquelas grandes conchas distribuídas em volta de toda a construção. Lili não tinha memórias deste chafariz que as bocas dos leões pareciam formar, porque já não havia água correndo por ali. Na parte superior, lá no alto, as pombas faziam seus acasalamentos e ninhos de amor.

O coreto foi construído para comemorar o centenário da independência. Sua arquitetura é uma obra de arte, especialmente, pelos seus detalhes neoclássicos. Eu gostava de passar o dedo sobre os relevos, pensar sobre o desenho de suas colunas suntuosas e todo o trabalho do artista que o planejou. Contam que ele não foi apenas idealizado como um capricho do intendente da época, para enfeitar a praça, ele serviria de estrutura para uma grande caixa de água com objetivo de abastecer a cidade. Certamente o poço, logo ali entre a igreja e ele, já não comportava fornecer água à população que crescia. Sem contar, que o poço também concorria com o coreto como ponto de encontro.

Para Lili, o coreto era referência de tudo que acontecia entorno da vida dela. A posição central do coreto, de onde partiam todos os acessos calçados da praça em direção às ruas, eram raios que direcionavam a lugares importantes da cidade: a prefeitura, o cinema, o correio, o clube, a igreja, a rodoviária, o hotel e a sorveteria do seu Nelson. E a esquina da banca de revista, atraindo os compradores de cigarro, revistas, gibis e jornal. O coreto irradiava, desde sua imponência e beleza, tudo que movimentava a vida da cidade.

Duas cores eram combinadas a cada nova pintura do coreto. Um tom claro para o fundo da construção e uma cor de destaque, mais escura e vibrante, para os detalhes. Ele foi bege e marrom, ocre e azul, salmão e branco, amarelo claro e azul céu, creme e ocre. Nem sempre as cores caiam no gosto do povo. Logo se formava uma discussão nos grupos que se reuniam na esquina da banca e na do clube para debater sobre as cores escolhidas. Mas a curiosidade de Lili era sobre as cores originais, o coreto era como uma grande escultura, nada se comparava na cidade à riqueza da sua construção. Ele marcava aquela pequena cidade no mundo. Um cenário perfeito para muitos encontros românticos, namoros escondidos e palco de noitadas sem fim depois da saída dos bailes do Clube Vicentino. Em dia de céu azul e muito sol, ele se iluminava ainda mais com as flores exuberantes dos canteiros triangulares, que completavam o círculo calçado de pedras em sua volta.  

Quando sai do campo, o coreto era meu ponto de referência na cidade, tudo partia ou chegava nele. Lá estava ele, na sua beleza clássica me desafiando. Ele nos dava orgulho de viver onde vivíamos. Contemplá-lo me invadia de alegria, me ensinava a beleza, a mesma de quando eu podia ver o sol se por atrás daquela linha de cinamomos que atravessava um parte do campo das vacas mansas. As belezas tocavam Lili e provocavam sensações que o tempo ia produzindo nela enquanto crescia, e a criança dava lugar à adolescente. 


domingo, 28 de agosto de 2022

A grande perda

Agosto chegou. Metade do ano havia passado e com tantas comemorações pelo centenário do município, não tínhamos nos dado conta de que novamente voltaríamos aos longos ensaios com a banda, agora para o dia da independência. Mal folgamos nas curtas férias de inverno e lá estávamos nós formando pelotões, acertando o passo para mais um desfile. Em sala de aula preparávamos os jograis relatando o momento histórico do grito do Ipiranga, eles seriam apresentados no dia destinado à nossa turma na programação da semana da pátria no palanque construído em frente à prefeitura. 

Com toda força que o pulmão permitia cantávamos os hinos da independência e do Brasil, decorando a letra e melodia até ficarmos exaustos e entediados. Agosto sempre foi mês de clima devastador: frio, geada, calor e vento norte, e ficávamos expostos ao mal humor do tempo, enquanto nos atribuíam horas de preparação para o sete de setembro. Lili andava em círculos, envolvida com atividades da escola mas o pensamento em outro lugar. Vó Cinda tinha voltado para Santa Maria porque não andava bem. A ausência dela e a delicada situação da sua saúde desnorteava ainda mais os dias agitados de Lili, tal como aqueles primeiros ventos quentes de agosto.

Nesta época, do nada minha mãe me dava umas tarefas no período da tarde, quando eu não tinha aula de educação física, como a de comprar rendas, linhas e botões na loja da dona Nena e seu Braúlio. Era um teste de paciência aguardar dona Nena encontrar um pedido, tudo era no ritmo da sua mansidão. Seu Braúlio nem se movia da cadeira de palha entre o balcão e a grande prateleira coberta de variedades de tecidos, apenas gritava para dona Nena atender os clientes que chegavam. As encomendas da minha mãe eram para me ocupar, do contrário eu passava as tardes na casa das amigas, ou estudando ou jogando conversa fora. 

Entre as tarefas dadas pela minha mãe, teve a do dia que ela me colocou de acompanhante da Ivaldina. Uma mulher miúda, toda vestida de preto, saia longa e camisa de manga, usava a tradicional roupa de viúva, e desde que a conheci parecia estar sempre vestida com a mesma roupa. Tinha cabelo alvos, bem puxados e amarrados no alto da cabeça na forma de um coque. Já levava muitas rugas no rosto miúdo e oval, nariz adunco e foi primeira mulher com bigode que Lili conheceu. Saí com a Ivaldina enganchada no meu braço, caminhávamos devagar pela rua Brasil, a terra solta levantava pó a cada pisada. O passo dela era lento e eu tentava ir no mesmo compasso. Eu já a conhecia das suas visitas à minha avó na fazenda. Aparecia do nada, contavam que ela ia à pé, depois ficava mais de semana hospedada. Era daquelas muitas comadres que a vó Cinda fez na vida. Dizem que era muito perguntadeira, no entanto falou muito pouco durante nosso trajeto até sua casa. Embora contrariada com meu papel de acompanhante, levei a comadre Ivaldina até a porta da sua casa. Mostrou gentileza comigo, queria que eu entrasse, eu tinha a pressa de adolescente na ponta dos pés, não me permitia demoras. Apenas espiei pela porta, sobre a pequena mesa da sala, uma almofada onde ela fazia rendas de bilro. Trabalho delicado daquela mulher tão rara com bigode.

A casa da fazenda andava vazia, apenas o velho pé de camélia abundava em flores no jardim. Nos fins de semana Lili ficava algumas horas no quarto da vó Cinda. Deitava na sua cama para sentir o calor de um abraço imaginário. Eu sempre dormia nos seus braços antes de ir para cama à noite, não importava que eu já tivesse o tamanho de uma garota de doze anos. Em uma destas tardes, com o calor da primavera fazendo explodir as orquídeas do toco da laranjeira, tia Tânea e tia Ivoloy entraram apressadas abrindo as janelas do quarto, eu as tinha fechado para tirar uma soneca. Olhei para elas assustada e algo palpitou no meu peito, só pude perguntar: o que houve? Então o mundo de Lili se desmanchou entre as lágrimas e o desespero: vó Cinda se foi e eu me perdi vagando entre as peças vazias e silenciosas da casa. Minhas tias preparavam a casa para o velório. 

Setembro iniciou triste e cinzento. As festas de sete de setembro não entusiasmavam Lili. Minha mãe e minhas tias se cobriram de uma enorme tristeza. Os dias iam passando mais devagar. A primeira perda de Lili foi brutal. As tardes passaram a ser de leitura e desenhos, voltar para campo se tornou uma batalha constante com meu pai. Eu não queria passar mais os fins de semana na fazenda, havia silêncios insuportáveis na casa, no jardim, na casa do forno, na despensa, tudo se esvaziou. A cidade era agora um refúgio. 

visita da Ivaldina tinha sido um gesto de apreço pela comadre Lucinda, era para prestar suas condolências à minha mãe. 


   


domingo, 7 de agosto de 2022

Treme Terra, o propagandista do cinema

A cidade da Lili tinha encantos que iam sendo descobertos por ela como novidades típicas da vida urbana, sempre em contradição com a vida silenciosa e lenta que os tempos vividos no campo haviam impregnado na sua alma. Aos doze anos meus interesses voltavam-se para diversões que só a cidade podiam me proporcionar. Eu vivia conflitos constantes, dividida entre o campo e a cidade. Eu sabia que o campo não sairia de mim, e a cidade eu precisava ainda descobrir. 

Toda sexta-feira minha mãe arrumava sacolas com roupas para lavar com a água límpida e doce tirada de balde do poço da nossa casa lá nas terras da fazenda. Ela juntava as roupas da casa em um saco de viagem e nos carregava para rodoviária depois do almoço. No sábado era roupa estendida por todos lados, debaixo da parreira, nos arames do varal no pátio, onde podia ela distribuía as roupas para secar. Queria aproveitar o sol, o vento e água doce do poço.

A água que corria nas torneiras da casa do chalé era salobra, como a de todas as outras casas da cidade. Quando se fervia, na superfície boiava uma película embranquecida criando, ao longo do tempo, crostas brancas dentro das chaleiras. Além disso, a água salobra não ajudava o sabão fazer espuma suficiente para uma lavada eficiente de louças, menos ainda das roupas, tarefa que minha mãe se dedicava ao extremo, nossos uniformes precisavam ficar alvos para a segunda-feira. Mas a ida para o campo nas sextas-feiras à tarde me tirava de certas diversões, como ir ao cinema, ver os jogos na quadra da praça à noite, comprar sorvete de creme e morango sábado de tarde no bar do seu Nelson ao lado da rodoviária e depois conversar com as amigas nas escadas do coreto.

O cinema da cidade era mais frequentado por guris e homens, não muito recomendado para as meninas, talvez porque lá dentro ficava escuro demais quando iniciava o filme. As meninas entravam sempre acompanhadas dos pais, irmãos ou em grupo. Um vez e outra vinha uma peça de teatro para cidade e se apresentavam no palco do cinema. Então, a escola nos levava, foi assim que entrei pela primeira vez no cine teatro Carlos Gomes, situado em frente à praça, quase ao lado do correio. A cor do prédio tornava impossível não reconhecê-lo de longe, era pintado também naquela cor azul calipso dos armários da cozinha da casa da fazenda. 

Nada superava assistir uma peça de teatro ou ver um filme quando se abriam aquelas cortinas de cetim vermelho escuro. Elas iam abrindo lentamente assim que começava a tocar uma música, e nos enchia de expectativas, fosse pela peça, fosse pela sessão do filme.

O funcionário do cinema fazia todo serviço, trabalhava na bilheteria, vendia os doces, andava com a lanterna procurando poltronas vazias para nos acomodar quando as luzes se apagavam. Quando algum filme entrava em cartaz, ele saia pelas ruas da cidade carregando sobre o corpo um cavalete com cartazes de filmes pendurados. Cada vez que a gente cruzava por ele ficávamos tentando ler o nome do filme. Divulgava-os na parte da frente e nas costas, aproveitando para fazer dois anúncios ao mesmo tempo. 

João Treme Terra cruzava a praça em todas as direções, ou andava várias vezes na quadra da rodoviária, parando de vez em quando para descansar na banca de revistas, na esquina da praça, no cruzamento da rua 7 de Setembro com a General João Antônio. Treme Terra tinha este apelido porque tinha a língua presa, o que dificultava clareza na sua fala, se atrapalhava com a dificuldade que tinha para que o entendessem, se tremia todo. Era muito magro, queixo proeminente, olhos espantados. Algumas crianças temiam sua presença. Lili desde pequena se fascinava com a função que o Treme Terra cumpria. Para ela, ele era nada mais nada menos que o grande propagandista do cinema. Foi assim que o identificou aos sete anos, tentando explicar quem ele era para o irmão menor que se assustou com a sua figura.

Certo dia, Lili foi autorizada a ir ao cinema assistir um filme do Teixerinha, chamado "Ela tornou-se Freira", pois os filmes dele faziam muito sucesso. No cine teatro Carlos Gomes passavam só filmes de faroeste ou filmes do Teixerinha. A tela do cinema me fascinou do mesmo jeito que a tela da televisão em preto e branco que a vó Cinda ganhou de aniversário, pois juntas descobrimos as novelas. As telas e palcos despertaram em Lili o desejo de ser artista. A cidade então começava a me colocar no mundo de outro jeito.

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...