sábado, 27 de fevereiro de 2021
O tapete de couro de vaca
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
Sopa de pera
O aroma de cravo e canela invadia os cômodos da casa. Logo que o caldo levantava a fervura na panela, exalava então o cheiro inigualável da sopa de pera. Em meados de dezembro Lili se reunia à mãe e aos irmãos para colherem as primeiras peras maduras, colhidas nas pereiras que se enfileiravam no arvoredo entre a linha das laranjeiras e dos pessegueiros. Na linha das pereiras, também havia dois pés de cáqui, com frutas de polpa doce e alaranjada. As pereiras cruzavam sua linha de pés até altura do galinheiro, ali se localizavam quatro pés de peras duras, que amadureciam no final do verão. Os demais pés eram de peras d'água, macias e suculentas, e era com elas que se fazia o caldo com pedaços da fruta e especiarias, um caldo doce e perfumado que também chamávamos de sopa. Pouco antes da temporada das peras maduras, fazia-se a sopa com os primeiros pêssegos que amadureciam, no mesmo processo, fatias da fruta cortadas em forma de lascas, cozidas na água com açúcar, cravo e canela. A sopa de pera era prenúncio do verão com seus banhos de açude, tardes de mormaço passadas debaixo das sombras dos cinamomos comendo melancia e voltas a cavalo no final da tarde pelas redondezas da casa.
Quando dava no jeito e meu pai pacientemente nos ajudava encilhar o cavalo, podíamos dar umas voltas. Lili se enchia de alegria porque com as primas passando férias na fazenda, podia andar a cavalo, e isso seria ainda mais divertido, pois as meninas quase sempre andavam na garupa umas das outras. De longe se ouviam os gritos de medo e as gargalhadas das gurias comandando o pitiço ou a égua Ruana, principalmente, quando arriscávamos uma galopada pelo vasto gramado em frente à casa da fazenda.
No verão, antes da chegada das primas, os finais de tarde eram dias de Lili ficar observando as ovelhas saindo apressadas e encabuladas do cercado onde eram capturadas para tosquia, naquela aparência de que pareciam se sentir despidas. Eu sentia uma enorme compaixão daqueles constrangimentos, demonstrado pela cabeça baixa das ovelhas cada vez que se livravam das mãos do tosquiador. Era final do mês de novembro, as peras estavam começando a amadurecer, no ponto para iniciar a temporada das sopas de pera da minha mãe.
Outras tardes, aguardávamos a chuva, olhando como tempo se armava para os lados dos cerros de Jaguari. Calculávamos a aproximação da pancada de chuva, sabíamos por experiência que, ao chegar na curva da antiga estrada, na parte mais baixa da ladeira, era hora de corrermos e garantirmos lugar debaixo das calhas da casa para um farto banho de chuva. As águas que desciam pelas calhas eram cachoeiras imaginárias, a brincadeira virava um jogo de empurra na disputa para caber mais de um debaixo daquela água que jorrava torrencialmente e com força total.
À noite, depois de um bom banho e de uma saborosa janta com direito à sopa de milho verde da vó Cinda, a sopa de pera adoçava e confortava mais um dia de verão bem vivido.
domingo, 17 de janeiro de 2021
Lili chega à escola
Minha mãe confiava amorosamente no meu tio Ruco e o fato da tia Tânea ser professora aumentava a segurança na sua decisão de me levar para casa deles, onde eu iria morar enquanto estudava. Lembro de chegar com uma sacola de roupas, de me mostrarem meu quarto. Nele havia uma cama com uma cabeceira estofada de uma cor de cenoura e sobre a cama uma colcha de listras muito finas e coloridas. Certamente o lindo lençol com cachopas de flores do campo, bordado pela minha mãe, ficaria perfeito naquela cama. Havia uma janela para lado oeste, por onde entrava o sol da tarde. A mudança me colocou em outro ambiente, outras relações de afeto, era um corte na minha vida de criança rural.
Fui levada à escola pelos meus tios e logo aprendi o caminho de casa até o Colégio Borges do Canto. Era uma escola de um só andar com dois grandes blocos de salas, toda pintada de um amarelo claro, salas tinham janelas altas, pintadas de cinza claro. A diretora era Dona Celi e me recebeu com seu sorriso doce e jeito tranquilo. Ela tinha o rostro redondo, pele clara, cabelo curtos e fofos, era uma figura acima do peso, mas tinha uma suavidade no andar, mal se ouvia, do nada ela aparecia na porta da sala de aula.
Aprendi logo que precisava entrar na fila no pátio e, em fila, ir até sala de aula, passando pela fiscalização do uniforme, não correr pelos corredores, pedir licença ao professor e fazer silêncio durante a aula e, especialmente, aceitar que na escola eu não era Lili, valia meu nome de batismo tal como estava na lista de chamada. Eram os anos setenta e uma vez por semana tínhamos uma hora cívica para hastear a bandeira e cantar o hino nacional. Cedo Lili descobriu o que era disciplina, e se assustava com a possibilidade de reclamações do seu comportamento, sobretudo, pelo medo de ter de deixar a escola.
Este primeiro ano marcava uma virada na vida de Lili, o início das amizades fora do círculo dos primos e irmãos. Os magrelas Tivico e Vito, o primo Titão, os baixinhos, Tampinha com seus cabelos de anjo e João Antônio com seus vibrantes olhos azuis. As primeiras amigas, a Márcia, que depois foi vizinha e minha companheira de passar na casa da professora do segundo ano, para irmos juntas à escola. Chegávamos orgulhosas de acompanhar a professora até entrada da escola. A espevitada Tina, meio desajeitada e dengosa, a tímida e carinhosa Iolanda, a brava e valente Cecília com suas longas tranças e o inquieto e desobediente Ricardo. Depois vieram outros colegas, o Teta, que era parceiro nas apresentações da escola e a Valéria, menina acanhada e discreta. E também a Osmilda, destoando por sua altura, e a doce Tânia que usava cabelos curtos como eu e me acompanhava na volta da escola nos primeiros tempos, quando morei na esquina da rua Brasil com a Rua Carapé.
Os primeiros dias foram de desafio porque Lili não conhecia as rotinas da escola, não foi ao jardim infância, mas já manuseava o lápis com a desenvoltura adquirida pelas práticas de escrita comandadas pela vó Cinda. Esquecia de responder "presente" a cada vez que a professora lia a lista de chamada, que se distraia com os barulhos vindos da rua, no entanto, observava todos e absorvia tudo. Em casa, durante a semana, tio Ruco me auxiliava nos temas na mesa de jantar, acompanhando-me na hora das tarefas. Nesta escola, também fui marcada pelo primeiro exemplo de preconceito e racismo. Tínhamos uma colega magrinha, negra, que usava duas tranças finas e ela sempre nos despertava um sentimento de compaixão, pois cada vez que não sabia responder a uma pergunta, a professora batia com a régua nos dedos da Sílvia, quando não a arrastava pelas frágeis tranças que usava presas sobre o alto da cabeça. O mais horrendo daquele momento era que sabíamos que a Sílvia era criada pela mãe da professora. Ficávamos todos atônitos, entre o medo e o pavor que aquela cena nos provocava.
O pátio da escola era amplo, pulávamos sapata, desenhada com giz na calçada da área coberta, localizada em uma das laterais, na entrada na escola, ou ao lado do mastro da bandeira. Brincávamos de pega-pega, de adivinhações, "se canoa virar...", debaixo das árvores que faziam sombra no pátio da escola ao longo do muro que separava e protegia a escola da rua.
No pavilhão, nos fundos, podíamos brincar em dias de chuva e lá formávamos as filas da entrada e do retorno do recreio. Dona Joana e Dona Ana eram as serventes da escola e faziam aquelas sopas entulhadas de legumes e verduras. Para Lili as sopas tinham uma aparência asquerosa, mas não deixavam de ser nutritivas e, às vezes, até saborosas. Quando tinha umas moedas eu comprava umas merendinhas Mirabel ou um sorvete com cobertura de Maria mole por causa dos anéis que vinham colocados no topo, era um brinde. A melhor merenda da escola era servida em dia de muita chuva, pois ficávamos dentro da sala de aula no horário do recreio e Dona Joana surgia na porta com umas canecas de café e uma bacia de roscas fritas.
Descobri na escola habilidades para Artes, gostava das aulas com trabalhos manuais, desenhos, pintura. Mas meu mundo se transformou com a leitura, aprender a ler me possibilitou vasculhar e ler todos livros da pequena biblioteca da tia Jane, quando ela morava com minha mãe e meus irmãos, nesta época eles já haviam mudado para a cidade, na metade do meu segundo ano na escola. Até o quarto ano estudei no Borges do Canto e trago dele amigos que vivem nas minhas memórias. Na mudança da minha vida escolar, para iniciar a segunda etapa do chamado 1º grau, novos colegas e amigos chegaram e Lili nesta época começava a ficar dividida entre a vida do campo e a vida da cidade.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Quando a escola chegou...
Minha avó trabalhava muito para enviar os filhos ao colégio. Na fazenda a ida para escola era o destino certo dos filhos. Primeiro para o colégio das irmãs em Jaguari, depois para as primeiras escolas municipais de São Vicente que, nada mais eram que salas improvisadas, às vezes junto da casa das professoras, sendo que elas foram a origem da implementação do sistema educacional do município. Minhas tias e minha mãe cursaram um ano ou dois do ensino primário nessas escolas, depois de passar pelo internato no Colégio de Jaguari. Houve um tempo que minha bisavó Lídia mudou-se para uma casa na cidade para acompanhar as netas mais velhas que iniciavam sua vida escolar na escola do município, já nos anos quarenta do século XX.
As idas e vindas às escolas dependiam muito de conseguir alojar os filhos na casa dos parentes. Um dia meu avô Alberto decidiu ceder um espaço na fazenda para montar uma escola rural. Ele tinha uma sobrinha que havia feito um curso normal que a habilitava para ser professora e trouxe-a para fazenda. A sala da escola era contígua à casa dos arreios, o que possibilitada a entrada na sala de aula por dentro das áreas da casa, pois eram todas interligadas.
A sala da escola era pavimentada com piso de tijolos, última peça no sentido horizontal da grande construção que formava o conglomerado frontal da fazenda. Na parte da frente, uma porta que dava para um terreno cheio de cinamomos, com suas sombras amplas e frondosas; outra porta na lateral, com acesso interno, e mais outra nos fundos, voltada para o pátio dos cavalos, também duas janelas na lateral, por onde entrava o vento norte, vindo dos lados da ladeira. Nesta escola minha mãe e minha tia Nira eram auxiliares voluntárias da professora Amélia, pois era uma turma multi-seriada, cada aluno em um ano escolar. A escola foi muito importante para as famílias da região, os primos que vinham das redondezas ou como fizeram meus avós paternos que enviaram meu pai, o tio Nito e a tia Carolina para estudarem na escola da fazenda. Eram os filhos mais velhos da Vó Xiruca e e do Vô João, iam os três à cavalo, cedo da manhã já cruzavam o arroio da Divisa para chegar à escola a tempo, na hora do início das aulas. No final do ano, vinha um representante do município aplicar provas para reconhecer os estudos e emitir pareceres sobre o aprendizado dos alunos. Em datas como a da independência do Brasil, as crianças participavam do desfile na cidade. Preparavam-se, ensaiando o desfile sob a sombra dos cinamomos, acompanhadas pelo primo Olavo, que comandava a marcha dos pequenos, batendo em um tambor improvisado feito de uma lata velha. No dia do desfile de sete de Setembro, de madrugada vinha um caminhão buscá-los para participar da celebração em volta da praça central. Essa escola, dizem, foi batizada com o nome do meu trisavô, Simão José da Rosa, provavelmente primeiro morador daquelas terras, localizadas na Divisa e fundador da fazenda.
Tempos depois, uma outra sala de aula começou a funcionar do outro lado do arroio da Divisa, já nas imediações do arroio do Salso. Ali também se instalou uma sala de aula multi-seriada, em uma peça da casa professora Mariquinhas, então, meus tios e meu pai passaram a frequentá-la, porque a nova sala de aula ficava poucos metros da chácara do vô Joãozinho. Mais tarde, foi construída uma escola rural onde o restante da família do meu pai iniciou a vida escolar. Ali minhas tias entraram na escola com menos idade e puderam seguir seus estudos até quarto ano. Uma delas foi rainha da escola, arrecadou muitos votos na vizinhança, pois era uma bela menina de cabelos castanhos e olhos azuis. A escola lá naquele fundo de campo, lindeira com a propriedade do seu Carlito Gabriel, recebia crianças das famílias que viviam no entorno da estrada do Salso, muitas destas crianças eram meus parentes, descendentes dos antigos imigrantes alemães e austríacos que se instalaram naquelas terras, para lado oeste e norte do município.
A escola era uma possibilidade das crianças se educarem e terem um futuro diferente, sobretudo para esses que a frequentaram muito antes de mim. A pequena Lili, naquelas tardes de escrita das letras, só estava despertando fortemente seu desejo pela escola.
domingo, 20 de dezembro de 2020
O cheiro do doce de figo
A pequena Lili, como tio Ruco carinhosamente me chamava, desde muito cedo aprendeu sobre a vasta sensação de vida que os cheiros provocam na alma. O aroma do chá de erva cidreira ou de camomila que ele bebia no meio da tarde, sentado envolta da mesa da cozinha, me colocava sobre a mesa ao lado da lata de bolachas e me fornecia generosos pedaços de roscas de polvilho, esses aromas entraram no meu corpo aos dois anos de idade e refinaram meu olfato para os cheiros ao meu redor. A partir daí fui sendo, cada vez mais, despertada para a experiência de sentir todos os cheiros que abundavam na vida do campo. O cheiro da terra molhada entrando pelo cômodos da casa em dias de chuvas esparsas e torrenciais de verão, refrescando todos os ambientes; o das folhas dos eucaliptos esmagadas, depois de tantas vezes pisoteadas pelo gado, nas suas mesmas e constantes trilhas que percorriam entre as árvores enfileiradas na avenida de Eucaliptos na entrada da Fazenda; ou o cheiro forte do angico queimando no fogo do chão ou ainda o do couro queimado do gado que levava no lombo impiedosamente a marca de um ferro em brasa; ou o adocicado perfume do Jasmim vindo do jardim, que invadia o nosso quarto de um ar úmido e perfumado através das janelas da frente, escancaradas por causa do calor do verão. E também o cheiro do sal no frescor da estufa e o do pinhão e do milho verde assados pelo Vergilino no Fogo de chão. Toda esta profusão de aromas ia calcando em mim cada sabor provado, cada ar perfumado ou mesmo cada odor desagradável como os dos excrementos no pátio dos cavalos. As muitas sensações de Lili eram associadas aos cheiros que a vida no campo trazia todos os dias para dentro dela. A mais marcante sem dúvida era a do cheiro do doce de figo.
Mas o de figo...ah o doce de figo, era preparado dias antes do Natal. Quando Lili cruzava a porta do galpão para o pátio da parreira, sentia o cheiro do doce que vinha entrando por suas narinas. Ele me conduzia em direção à entrada da cozinha, e ali, sobre o fogão à lenha em um tacho de cobre, o doce fervia e o seu aroma se espalhava pelas demais peças da casa. Assim que os figos ficavam no formato ideal para o doce em calda, eram colhidos e limpos. As figueiras se localizavam logo depois da parreira antiga, que ficava atrás dos pés de butiá. Também havia alguns pés de figo para doce em calda nas imediações das bananeiras, alguns não eram colhidos para serem saboreados depois de maduros. A limpeza dos figos não era tarefa fácil, deixava as mãos das mulheres da casa em estado deplorável, as da minha mãe em especial, no seu afinco de deixar as frutas sem nenhum vestígio daquela película áspera e desagradável do figo ainda verde, suas mãos ficavam avermelhadas, às vezes, cortadas de tal era a aspereza da fruta.
Na minha casa não tínhamos árvore de Natal, nem presépio, nem luzes, nem luz elétrica havia na nossa casa. Não era costume celebrar o Natal. Os presentes que ganhávamos eram doces ou então uma roupa nova para a entrada do ano novo na semana seguinte. O que marcava a proximidade do Natal era o preparo do doce de figo, porque era uma das sobremesas servidas no dia primeiro do ano vindouro. Os doces em calda eram também oferecidos às visitas de final de ano, parentes que apareciam nessa época na fazenda para suas visitas anuais, principalmente aqueles que vinham de longe. A época do figo coincidia com a do Natal, por isso Lili sempre associava o cheiro do doce com o Natal.
O cheiro do doce de figo em calda me despertava expectativas sobre os dias que se aproximavam do novo ano. A pequena Lili media o tempo pensando que em breve estaria correndo e brincando no gramado em frente à casa da fazenda com os primos e primas e seriam dias de muitas brincadeiras e de muitas alegrias. O cheiro do doce de figo mais que o Natal era o anúncio de tempos de casa cheia, cama redonda no chão da sala, caçada de vagalumes, noites de localizar o Cruzeiro do Sul para os lados da cidade e as três Marias acima do cinamomo, aquele cheio de orquídeas e cactus de flores vermelhas, bem no portão da frente. Buscar Sputinikis naquelas noites escuras em que o céu nos cobria de muitas...muitas estrelas. E que de algum lugar, do nada, viria o cheiro da mistura das folhas de eucalipto, bostas de vaca e as brasas sobre um pedaço de lata velha, repelente natural que o Vergilino providenciava para espantar os mosquitos.
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
A estufa
Na extensão da área do fogo de chão, no sentido horizontal, onde a construção servia para separar os limites entre o terreno do arvoredo e o do pátio dos cavalos, havia uma longa peça de depósito, separada por meias paredes de tábua. Era um lugar onde se guardavam desde cestos, caixas, latas, cordas até a colheita de batata doce. Lá onde terminavam essas sucessivas separações da grande área dos galpões, havia a única peça de tijolinho à vista da fazenda. O acesso, ou era pelo lado de dentro desse galpão, que facilitava a ida à estufa em dias de chuva e frio, ou por outra entrada, na porta da frente da estufa que dava para o pátio dos cavalos. Essa porta externa parecia desproporcional em relação à altura interna da peça, pois assim que adentrávamos nela, o degrau imediatamente abaixo, indicava o piso de tijolos e fazia parecer que ela era um lugar com paredes muito mais altas. Não tinha forro, olhando para alto se viam a estrutura do telhado e as telhas, além de muitas teias de aranha. Um luz difusa entrava discretamente, especialmente à tarde, quando o sol jogava um feixe de luz no ambiente. Ao fundo, para os lados do arvoredo, essa luz entrava por uma janela vertical e também por uma outra que se localizava à direita, para os lados da ladeira, estas aberturas deixavam o feixe de luz iluminar toda a estufa sem aquecê-la em demasia, ambas janelas tinham telas para evitar a entrada de insetos. As prateleiras eram suspensas, com garrafas presas na parte superior por onde desciam os arames, a mesma técnica usada no galpão dos arreios, com objetivo de dificultar a subida dos ratos. Sobre essas prateleiras ficavam dispostas as mantas de charque, linguiças e nas localizadas contra a parede se colocavam as latas de banha, de torresmo e as de mel.
No meio da peça da estufa havia um armário de guardar os queijos, com uma tela para a ventilação, o que permitia que eles fossem maturando ao longo dos dias, até o momento de serem consumidos ou vendidos. Volta e meia vó Cinda os virava, fazia uma vistoria para ver o ponto em que se encontravam, às vezes, colocava um pouco mais de sal, que ficava dentro de uma caixa de pedra sobre uma mesa bem rústica de madeira nas proximidades do armário. Ela limpava o soro que escorria dos queijos expostos nas prateleiras, separava os que já estavam prontos e os guardava no armário. Retirava de lá os que poderiam ir à mesa no café da tarde ou da manhã, reservava os das encomendas e, assim, ia repetindo a sua rotina na fabricação de queijos.
A estufa era uma espécie de lugar sagrado. Lugar de mantimentos preciosos, sobretudo em tempos de inexistência de luz elétrica na fazenda e tampouco de geladeira. Minha vó Cinda era dona absoluta daquele santuário, ali ela fez muitos queijos com as filhas. O dinheiro das vendas ajudava nas despesas do Colégio das irmãs em Jaguari, onde todas as filhas estudaram e ficavam vivendo no regime de internato. Meu avô contribuía generosamente com as despesas do colégio fornecendo mantimentos com o que era produzido na fazenda. Quando duas das suas filhas fizeram quinze anos, minha vó comprou pares de anéis e brincos para presentear as filhas. eram jóias simples, mas carregadas de afeto e simbologia, um gesto para também recompensar as filhas pela parceria na fabricação dos queijos.
Além dos alimentos, se guardavam na estufa os materiais para a produção dos queijos, como vasilhas para o leite, umas fôrmas de metal em que se apertavam os queijos, chamada cincha, fabricadas de lata, com uns furos para escorrer o excesso de soro. Quanto mais se apertava a tal cincha mais o queijo ia secando e ia adquirindo o seu formato e o ponto ideal para o consumo. Havia também uma máquina de espremer mel, uma centrífuga, que era levada para o pátio no dia de melar. Retirava-se os favos das caixas de abelha com muito cuidado, usando um chapéu com uma tela e roupas que cobriam todo corpo para evitar o ataque das abelhas. Colocava-se todos os favos naquela máquina para espremer o mel, separando-o da cera. Eu me deliciava comendo mel em pequenos pedaços de favos que meu pai ia me dando, gostava do mel mais escuro que tinha um sabor mais intenso, ou aquele em que se podia identificar até o perfume da flor de laranjeira, ambos inigualáveis no paladar.
Depois chegou a geladeira movida à querosene, minha vó Cinda já não fazia queijos. A caixa do sal foi trazida para cima de uma mesa localizada logo atrás da porta da peça do fogo de chão. A máquina de espremer mel foi ficando empoeirada por falta de uso. O armário dos queijos foi trazido para despensa para colocar as panelas de ferro. Entrou para dentro da peça um debulhador e triturador de milho para fazer a alimentação de cavalos e galinhas Queijo e mel eram produzidos para o consumo da família e a fazenda foi ficando com pouca gente, foi-se então esvaziando o propósito da existência de uma estufa. Lili ainda teve muitos sonhos com a estufa construída com tijolinhos à vista, talvez porque continuava sentindo o gosto do queijo e do mel e do sal grosso no milho assado no fogo de chão. Os aromas e os sabores do que havia dentro daquela estufa não saíram da minha alma.
domingo, 8 de novembro de 2020
Ovelhas tosquiadas....
Quando tosquiadas, as ovelhas saltavam alegres para dentro da mangueira. Depois, seguiam ordeiras as suas trilhas marcadas pelas estradinhas no campo, trilhas que elas mesmas desenhavam por causa das inúmeras vezes que faziam o mesmo caminho. Andavam enfileiradas de cabela baixa, às vezes, parando no caminho para uma pastada onde houvesse uma vasta vegetação, pois são as roçadeiras naturais dos campos. Lili se debruçava sobre as tábuas da mangueira, bem na altura da qual podia espiar as ovelhas esquiladas, gostava de ver como a retirada da lã as deixavam mais alvas, mais estranhas mas nem sempre mais bonitas. Lili se solidarizava com aquele momento de alívio das inúmeras ovelhas tosquiadas, que pareciam cobrir a mangueira como um enorme manto esbranquiçado. Também, pela fresta da cerca da mangueira, Lili avistava a passividade do rebanho reunido.
Meu pai e o tio Ruco gostavam de criar ovelhas. Eles tinham um ritual semanal para cuidá-las, revisavam uma a uma, verificando se elas tinham algum ferida, a tal da bicheira, chamada assim porque as feridas eram lugares muito apreciados por larvas. Para tratá-las, colocavam-nas no chão, apoiando-as entre as pernas para segurá-las e, deste modo, podiam revisar cada ferida e cada casco trincado ou machucado da ovelha. Esta dedicação e amor às ovelhas levaram os dois a construírem uma mangueira adequada para elas, com uma altura que pudessem manejar com elas e retirá-las do brete mais comodamente na hora de curar. Para os curativos usavam uma creolina e também algo mais moderno, um spray violenta. As ovelhas com machucados ficavam marcadas por manchas violetas pelo corpo, de longe podia-se identificar as mais fragilizadas pela cor arroxada nos seus corpos. Naquela mangueira, anexada à mangueira das vacas mansas, e construída sobre o terreno onde por muito tempo minha vó Cinda teve sua horta, eles passavam os finais de tarde dedicados aos cuidados do rebanho. Tudo parecia estar em harmonia, pois, ao entardecer, as mangueiras eram cobertas pelas sombras dos velhos eucaliptos, sob a luz dourada do sol do final de tarde.
As ovelhas forneciam três produtos na fazenda: a lã, que era vendida, o pelego para uso na montaria e a carne. Comia-se muita carne de ovelha, era de fácil abate e se podia conservar na única geladeira da casa. Meu pai e meu tio Ruco eram habilidosos em carnear ovelhas e, desde muito pequena, eu acompanhava o ritual de carneação das ovelhas. Pendurada no galho forte de um pé de uva do japão, a ovelha era suspensa e meu pai começava então a retirar delicadamente o pelego, evitando que a lã encostasse na carne, por causa da sua gordura, a lanolina impregnava na carne se não cuidássemos da higiene das mãos. Nesses momentos, eu corria para buscar a bacia que ficava em um suporte de ferro apoiado em um dos esteios da parreira, logo abaixo de um vaso com um cactus que dava uma flor cor de rosa, e que minha vó chamava de rabo de gato. Eu levava água limpa para que meu pai lavasse as mãos. Repetia a troca da água o quanto fosse necessário, pois a higiene das mãos na retirada do pelego garantia o melhor sabor da carne. O pelego era limpo e depois colocado em uma moldura de madeira, no qual ficava bem esticado, colocado no vento e sob o sol, ele ia secando até ficar em condições de ser removido e então ser usado. No final do ano muita gente aparecia para comprar ovelha, para ter carne nas festas de fim de ano. Meu pai separava algumas para a venda, muitas das que eram vendidas eram das minhas tias. Lembro de uma caixa de madeira em uma das prateleiras do guarda-roupa do quarto dos meus pais, nela, meu pai guardava um maço de dinheiro amarrado com uma borracha. Lembrava-me de não mexer nesse maço cada vez que me autoriza pegar dinheiro para algum pagamento ou para alguma compra na cidadde. Era a renda das ovelhas que ele guardava para entregar às minhas tias quando elas vinham no final do ano.
Minhas memórias sobre esta lida do campo se acumulam pelas observações de Lili. As ovelhas eram tosquiadas já pelo excesso de lã no corpo naquela época do ano. Seguia-se um ciclo, no inverno já estariam com lã suficente para cobrí-las e aquecê-las a fim de enfrentarem os dias de frio, de chuvas e geadas. A lã retirada era toda reunida em velos, grandes novelos de lã esquilada, colocados em sacos de juta bem compridos. Quando um saco daqueles estava cheio, os homens da casa, entre eles, sempre o Vergilino por sua força, carregavam os sacos apoiados sobre varas grossas de eucalipto, para facilitar o transporte do pesado saco de juta até a garagem da charrete amarela. Lá, eram empilhados contra a parede próxima à porta lateral de saída para o pátio dos cavalos. Lili e a gurizada da casa se divertiam rolando sobre os sacos fofos de lã, deitar sobre aqueles grandes colchões macios. Sobre a pilha conversávamos, pulávamos e também nos escondíamos na hora das brincadeiras, vigiados pelo Vergilino, zelava por nós nos observando, apoiado em alguma das tantas portas da grande garagem da charrete amarela. Na garagem também havia um tronco de cortar carne e, na principal viga do galpão da garagem, em ganchos de ferro, eram penduradas as peças da carne de ovelha, contrastando com dois imensos porongos também pendurados na viga e que eram raridades que chamavam atenção das visitas que chegavam na fazenda.
Carapé
O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...
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Lili levantava a mão de dentro da grande bacia de alumínio com alças arredondadas e via, escorrendo lentamente entre os seus dedos, o prepar...
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Lili é meu codinome. Fui inventada logo depois de nascer. Meu tio Ruco me chamava de Lili, dizia ele que era por eu ser tão miúda e graciosa...





