domingo, 20 de dezembro de 2020

O cheiro do doce de figo

A pequena Lili, como tio Ruco carinhosamente me chamava, desde muito cedo aprendeu sobre a vasta sensação de vida que os cheiros provocam na alma. O aroma do chá de erva cidreira ou de camomila que ele bebia no meio da tarde, sentado envolta da mesa da cozinha, me colocava sobre a mesa ao lado da lata de bolachas e me fornecia generosos pedaços de roscas de polvilho, esses aromas entraram no meu corpo aos dois anos de idade e refinaram meu olfato para os cheiros ao meu redor. A partir daí fui sendo, cada vez mais, despertada para a experiência de sentir todos os cheiros que abundavam na vida do campo. O cheiro da terra molhada entrando pelo cômodos da casa em dias de chuvas esparsas e torrenciais de verão, refrescando todos os ambientes; o das folhas dos eucaliptos esmagadas, depois de tantas vezes pisoteadas pelo gado, nas suas mesmas e constantes trilhas que percorriam entre as árvores enfileiradas na avenida de Eucaliptos na entrada da Fazenda; ou o cheiro forte do angico queimando no fogo do chão ou ainda o do couro queimado do gado que levava no lombo impiedosamente a marca de um ferro em brasa; ou o adocicado perfume do Jasmim vindo do jardim, que invadia o nosso quarto de um ar úmido e perfumado através das janelas da frente, escancaradas por causa do calor do verão. E também o cheiro do sal no frescor da estufa e o do pinhão e do milho verde assados pelo Vergilino no Fogo de chão. Toda esta profusão de aromas ia calcando em mim cada sabor provado, cada ar perfumado ou mesmo cada odor desagradável como os dos excrementos no pátio dos cavalos. As muitas sensações de Lili eram associadas aos cheiros que a vida no campo trazia todos os dias para dentro dela. A mais marcante sem dúvida era a do cheiro do doce de figo.


O cheiro do doce de figo era prenúncio de Natal e do encontro familiar no primeiro dia do novo ano. Lili aguardava ansiosa a chegada das tias e primos, era uma expectativa amorosa pela presença de mais gente na casa, os presentes das tias, que de tanto que me conheciam, uma vez que outra repetiam a ideia do presente. O ano novo tinha lá seus aromas específicos também, como o do churrasco feito debaixo da sombra dos pés de uva do Japão, exalando o cheiro particular da gordura da carne ovelha pingando na brasa e se espalhando para os lados da ladeira, levado pelo vento morno daquele primeiro dia do ano novo, dia em que a família se reunia  e saboreava uma carne bem assada pelo meu pai, em um almoço que se estendia pela tarde, até a chegada das sobremesas tradicionais: a torta de Nescau, providenciada sempre pela tia Jane e a salada de fruta que ela preparava nas primeiras horas da manhã. Logo, tia Maria trazia seu famoso pudim de leite com queijo, mais a ambrosia da Cisa, que ia sendo feita nos fins de semana quando ela vinha cidade, e o doce de figo da tia Ivoloy ou o da minha mãe.

Mas o de figo...ah o doce de figo, era preparado dias antes do Natal. Quando Lili cruzava a porta do galpão para o pátio da parreira, sentia o cheiro do doce que vinha entrando por suas narinas. Ele me conduzia em direção à entrada da cozinha, e ali, sobre o fogão à lenha em um tacho de cobre, o doce fervia e o seu aroma se espalhava pelas demais peças da casa. Assim que os figos ficavam no formato ideal para o doce em calda, eram colhidos e limpos. As figueiras se localizavam logo depois da parreira antiga, que ficava atrás dos pés de butiá. Também havia alguns pés de figo para doce em calda nas imediações das bananeiras, alguns não eram colhidos para serem saboreados depois de maduros. A limpeza dos figos não era tarefa fácil, deixava as mãos das mulheres da casa em estado deplorável, as da minha mãe em especial, no seu afinco de deixar as frutas sem nenhum vestígio daquela película áspera e desagradável do figo ainda verde, suas mãos ficavam avermelhadas, às vezes, cortadas de tal era a aspereza da fruta.   

Na minha casa não tínhamos árvore de Natal, nem presépio, nem luzes, nem luz elétrica havia na nossa casa. Não era costume celebrar o Natal. Os presentes que ganhávamos eram doces ou então uma roupa nova para a entrada do ano novo na semana seguinte. O que marcava a proximidade do Natal era o preparo do doce de figo, porque era uma das sobremesas servidas no dia primeiro do ano vindouro. Os doces em calda eram também oferecidos às visitas de final de ano, parentes que apareciam nessa época na fazenda para suas visitas anuais, principalmente aqueles que vinham de longe. A época do figo coincidia com a do Natal, por isso Lili sempre associava o cheiro do doce com o Natal. 

O cheiro do doce de figo em calda me despertava expectativas sobre os dias que se aproximavam do novo ano. A pequena Lili media o tempo pensando que em breve estaria correndo e brincando no gramado em frente à casa da fazenda com os primos e primas e seriam dias de muitas brincadeiras e de  muitas alegrias. O cheiro do doce de figo mais que o Natal era o anúncio de tempos de casa cheia, cama redonda no chão da sala, caçada de vagalumes, noites de localizar o Cruzeiro do Sul para os lados da cidade e as três Marias acima do cinamomo, aquele cheio de orquídeas e cactus de flores vermelhas, bem no portão da frente. Buscar Sputinikis naquelas noites escuras em que o céu nos cobria de muitas...muitas estrelas. E que de algum lugar, do nada, viria o cheiro da mistura das folhas de eucalipto, bostas de vaca e as brasas sobre um pedaço de lata velha, repelente natural que o Vergilino providenciava para espantar os mosquitos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A estufa


Quando a Vó Cinda girava a chave grande de ferro na porta da estufa e lentamente ela se abria, sentia-se primeiro um frescor que vinha lá de dentro da peça, e logo em seguida, uma profusão de aromas misturados com a umidade do ar presente naquele ambiente. Tudo se intensificava pela pouca luz vinda das pequenas janelas, pela sensação de frio no rostro e pelos cheiros quase inusitados que nos abatia já quando pisávamos no degrau abaixo da linha da porta. A estufa era este lugar que na imaginação da Lili ficava entre o mistério, pelo domínio das sombras, do acesso controlado pela vó Cinda, e a fragância exalada pelos alimentos ali fabricados, mantidos e conservados.  

Na extensão da área do fogo de chão, no sentido horizontal, onde a construção servia para separar os limites entre o terreno do arvoredo e o do pátio dos cavalos, havia uma longa peça de depósito, separada por meias paredes de tábua. Era um lugar onde se guardavam desde cestos, caixas, latas, cordas até a colheita de batata doce. Lá onde terminavam essas sucessivas separações da grande área dos galpões, havia a única peça de tijolinho à vista da fazenda. O acesso, ou era pelo lado de dentro desse galpão, que facilitava a ida à estufa em dias de chuva e frio, ou por outra entrada, na porta da frente da estufa que dava para o pátio dos cavalos. Essa porta externa parecia desproporcional em relação à altura interna da peça, pois assim que adentrávamos nela, o degrau imediatamente abaixo, indicava o piso de tijolos e fazia parecer que ela era um lugar com paredes muito mais altas. Não tinha forro, olhando para alto se viam a estrutura do telhado e as telhas, além de muitas teias de aranha. Um luz difusa entrava discretamente, especialmente à tarde, quando o sol jogava um feixe de luz no ambiente. Ao fundo, para os lados do arvoredo, essa luz entrava por uma janela vertical e também por uma outra que se localizava à direita, para os lados da ladeira, estas aberturas deixavam o feixe de luz iluminar toda a estufa sem aquecê-la em demasia, ambas janelas tinham telas para evitar a entrada de insetos. As prateleiras eram suspensas, com garrafas presas  na parte superior por onde desciam os arames, a mesma técnica usada no galpão dos arreios, com objetivo de dificultar a subida dos ratos. Sobre essas prateleiras ficavam dispostas as mantas de charque, linguiças e nas localizadas contra a parede se colocavam as latas de banha, de torresmo e as de mel.

No meio da peça da estufa havia um armário de guardar os queijos, com uma tela para a ventilação, o que permitia que eles fossem maturando ao longo dos dias, até o momento de serem consumidos ou vendidos. Volta e meia vó Cinda os virava, fazia uma vistoria para ver o ponto em que se encontravam, às vezes, colocava um pouco mais de sal, que ficava dentro de uma caixa de pedra sobre uma mesa bem rústica de madeira nas proximidades do armário. Ela limpava o soro que escorria dos queijos expostos nas prateleiras, separava os que já estavam prontos e os guardava no armário. Retirava de lá os que poderiam ir à mesa no café da tarde ou da manhã, reservava os das encomendas e, assim, ia repetindo a sua rotina na fabricação de queijos.

A estufa era uma espécie de lugar sagrado. Lugar de mantimentos preciosos, sobretudo em tempos de inexistência de luz elétrica na fazenda e tampouco de geladeira. Minha vó Cinda era dona absoluta daquele santuário, ali ela fez muitos queijos com as filhas. O dinheiro das vendas ajudava nas despesas do Colégio das irmãs em Jaguari, onde todas as filhas estudaram e ficavam vivendo no regime de internato. Meu avô contribuía generosamente com as despesas do colégio fornecendo mantimentos com o que era produzido na fazenda. Quando duas das suas filhas fizeram quinze anos, minha vó comprou pares de anéis e brincos para presentear as filhas. eram jóias simples, mas carregadas de afeto e simbologia,  um gesto para também recompensar as filhas pela parceria na fabricação dos queijos.

Além dos alimentos, se guardavam na estufa os materiais para a produção dos queijos, como vasilhas para o leite, umas fôrmas de metal em que se apertavam os queijos, chamada cincha, fabricadas de lata, com uns furos para escorrer o excesso de soro. Quanto mais se apertava a tal cincha mais o queijo ia secando e ia adquirindo o seu formato e o ponto ideal para o consumo. Havia também uma máquina de espremer mel, uma centrífuga, que era levada para o pátio no dia de melar. Retirava-se os favos das caixas de abelha com muito cuidado, usando um chapéu com uma tela e roupas que cobriam todo corpo para evitar o ataque das abelhas. Colocava-se todos os favos naquela máquina para espremer o mel, separando-o da cera. Eu me deliciava comendo mel em pequenos pedaços de favos que meu pai ia me dando, gostava do mel mais escuro que tinha um sabor mais intenso, ou aquele em que se podia identificar até o perfume da flor de laranjeira,  ambos inigualáveis no paladar.

Depois chegou a geladeira movida à querosene, minha vó Cinda já não fazia queijos. A caixa do sal foi trazida para cima de uma mesa localizada logo atrás da porta da peça do fogo de chão. A máquina de espremer mel foi ficando empoeirada por falta de uso. O armário dos queijos foi trazido para despensa para colocar as panelas de ferro. Entrou para dentro da peça um debulhador e triturador de milho para fazer a alimentação de cavalos e galinhas  Queijo e mel eram produzidos para o consumo da família e a fazenda foi ficando com pouca gente, foi-se então esvaziando o propósito da existência de uma estufa. Lili ainda teve muitos sonhos com a estufa construída com tijolinhos à vista, talvez porque continuava sentindo o gosto do queijo e do mel e do sal grosso no milho assado no fogo de chão. Os aromas e os sabores do que havia dentro daquela estufa não saíram da minha alma.

domingo, 8 de novembro de 2020

Ovelhas tosquiadas....


Tosquiar a farta camada de lã das ovelhas era prenúncio de que o final do ano se aproximava. No mês de novembro chegavam os esquiladores na fazenda, os especialistas em montar um salão de beleza para as ovelhas, realizando a esquila anual do rebanho. Era época de retirar toda aquela lã das coitadas e assim aliviar as humildes ovelhas do seu revestimento abundante e quente, deixá-las livres para o verão que logo chegaria trazendo muito calor. Com a pele tosquiada, elas podiam passar os dias quentes mais refrescadas, sem toda aquela lã que lhes cobria o corpo para protegê-las durante o inverno. 

Quando tosquiadas, as ovelhas saltavam alegres para dentro da mangueira. Depois, seguiam ordeiras as suas trilhas marcadas pelas estradinhas no campo, trilhas que elas mesmas desenhavam por causa das inúmeras vezes que faziam o mesmo caminho. Andavam enfileiradas de cabela baixa, às vezes, parando no caminho para uma pastada onde houvesse uma vasta vegetação, pois são as roçadeiras naturais dos campos. Lili se debruçava sobre as tábuas da mangueira, bem na altura da qual podia espiar as ovelhas esquiladas, gostava de ver como a retirada da lã as deixavam mais alvas, mais estranhas mas nem sempre mais bonitas. Lili se solidarizava com aquele momento de alívio das inúmeras ovelhas tosquiadas, que pareciam cobrir a mangueira como um enorme manto esbranquiçado. Também, pela fresta da cerca da mangueira, Lili avistava a passividade do rebanho reunido.

Meu pai e o tio Ruco gostavam de criar ovelhas. Eles tinham um ritual semanal para cuidá-las, revisavam uma a uma, verificando se elas tinham algum ferida, a tal da bicheira, chamada assim porque as feridas eram lugares muito apreciados por larvas. Para tratá-las, colocavam-nas no chão, apoiando-as entre as pernas para segurá-las e, deste modo, podiam revisar cada ferida e cada casco trincado ou machucado da ovelha. Esta dedicação e amor às ovelhas levaram os dois a construírem uma mangueira adequada para elas, com uma altura que pudessem manejar com elas e retirá-las do brete mais comodamente na hora de curar. Para os curativos usavam uma creolina e também algo mais moderno, um spray violenta. As ovelhas com machucados ficavam marcadas por manchas violetas pelo corpo, de longe podia-se identificar as mais fragilizadas pela cor arroxada nos seus corpos. Naquela mangueira, anexada à mangueira das vacas mansas, e construída sobre o terreno onde por muito tempo minha vó Cinda teve sua horta, eles passavam os finais de tarde dedicados aos cuidados do rebanho. Tudo parecia estar em harmonia, pois, ao entardecer, as mangueiras eram cobertas pelas sombras dos velhos eucaliptos, sob a luz dourada do sol do final de tarde. 

As ovelhas forneciam três produtos na fazenda: a lã, que era vendida, o pelego para uso na montaria e a carne. Comia-se muita carne de ovelha, era de fácil abate e se podia conservar na única geladeira da casa. Meu pai e meu tio Ruco eram habilidosos em carnear ovelhas e, desde muito pequena, eu acompanhava o ritual de carneação das ovelhas. Pendurada no galho forte de um pé de uva do japão, a ovelha era suspensa e meu pai começava então a retirar delicadamente o pelego, evitando que a lã encostasse na carne, por causa da sua gordura, a lanolina impregnava na carne se não cuidássemos da higiene das mãos. Nesses momentos, eu corria para buscar a bacia que ficava em um suporte de ferro apoiado em um dos esteios da parreira, logo abaixo de um vaso com um cactus que dava uma flor cor de rosa, e que minha vó chamava de rabo de gato. Eu levava água limpa para que meu pai lavasse as mãos. Repetia a troca da água o quanto fosse necessário, pois a higiene das mãos na retirada do pelego garantia o melhor sabor da carne. O pelego era limpo e depois colocado em uma moldura de madeira, no qual ficava bem esticado, colocado no vento e sob o sol, ele ia secando até ficar em condições de ser removido e então ser usado. No final do ano muita gente aparecia para comprar ovelha, para ter carne nas festas de fim de ano. Meu pai separava algumas para a venda, muitas das que eram vendidas eram das minhas tias. Lembro de uma caixa de madeira em uma das prateleiras do guarda-roupa do quarto dos meus pais, nela, meu pai guardava um maço de dinheiro amarrado com uma borracha. Lembrava-me de não mexer nesse maço cada vez que me autoriza pegar dinheiro para algum pagamento ou para alguma compra na cidadde. Era a renda das ovelhas que ele guardava para entregar às minhas tias quando elas vinham no final do ano.   

Minhas memórias sobre esta lida do campo se acumulam pelas observações de Lili. As ovelhas eram tosquiadas já pelo excesso de lã no corpo naquela época do ano. Seguia-se um ciclo, no inverno já estariam com lã suficente para cobrí-las e aquecê-las a fim de enfrentarem os dias de frio, de chuvas e geadas. A lã retirada era toda reunida em velos, grandes novelos de lã esquilada, colocados em sacos de juta bem compridos. Quando um saco daqueles estava cheio, os homens da casa, entre eles, sempre o Vergilino por sua força, carregavam os sacos apoiados sobre varas grossas de eucalipto, para facilitar o transporte do pesado saco de juta até a garagem da charrete amarela. Lá, eram empilhados contra a parede próxima à porta lateral de saída para o pátio dos cavalos. Lili e a gurizada da casa se divertiam rolando sobre os sacos fofos de lã, deitar sobre aqueles grandes colchões macios. Sobre a pilha conversávamos, pulávamos e também nos escondíamos na hora das brincadeiras, vigiados pelo Vergilino, zelava por nós nos observando, apoiado em alguma das tantas portas da grande garagem da charrete amarela. Na garagem também havia um tronco de cortar carne e, na principal viga do galpão da garagem, em ganchos de ferro, eram penduradas as peças da carne de ovelha, contrastando com dois imensos porongos também pendurados na viga e que eram raridades que chamavam atenção das visitas que chegavam na fazenda. 


domingo, 25 de outubro de 2020

Dia de flores, saudades e vento

A primavera anunciava sua chegada antes mesmo da data fixada no calendário. Os primeiros ventos enlouquecidos no mês agosto traziam calor, abafamento, uivos insistentes e aviso de tempestade nos dias vindouros. Mas também sinalizavam que era chegada a hora de limpar o jardim, remover as folhas secas, podar os galhos mortos e inúteis das roseiras, das azaleias, da alamanda, plantar os gladíolos. Minhas avós seguiam o ritual do calendário regido pelos sinais da natureza, cada ciclo que se fechava era hora de plantar e replantar as flores da época. Nesses primeiros anúncios de que findava o inverno, e logo ali a primavera se aproximava, elas planejavam o plantio das flores com as quais, no dia de finados, demonstrariam suas saudades e seus afetos eternos.

Ter um belo jardim era sinal de capricho e sensibilidade das mulheres da casa, pelo menos era o que sentia Lili cada vez que percorria os arbustos no jardim da casa da Vó Xiruca. Havia poucas flores no chão, porque entre os canteiros que circundavam os arbustos do jasmim, do brinco de princesa, das dálias enormes, era só chão batido de terra arenosa, mas impecavelmente varrido. Não havia grama nem calçadas, somente um caminho limpo e desenhado por entre os canteiros fartos de pés de flores. Lili gostava especialmente do adorno que a lágrima de Cristo fazia sobre os marcos de uma das portas da casa e, da alamanda coberta de flores amarelas, que dava à porta da sala um ar de portal. Sim, um portal de acesso ao frescor de uma sala antiga, de janelas sempre abertas para a entrada da brisa da manhã. Lili se enfeitava com as flores, nos cabelos uma camélia rosa e nas orelhas uns brincos de princesa rosa e violeta, porque entre aqueles canteiros, o mundo de Lili, no alto de seus cinco anos, já era o de se imaginar uma pequena princesa. 

No jardim da fazenda, vó Cinda cultivava muitas roseiras. Rosas de todas as cores, eram robustas e perfumadas. De tempos em tempos, ela colocava o Vergilino para arrancar as ervas daninhas invasoras, retirar as flores velhas e as folhas secas debaixo do pé de camélia. À noite, ela mesma cuidava de percorrer com uma lanterna os caminhos que levava ao formigueiro de onde saiam as formigas cortadeiras que devoraram suas roseiras. Uma manhã ou uma tarde da semana ela se dedicava à arrumação do jardim.

Na altura do quarto onde dormíamos ficava a cerca lateral do jardim, para os lados do arvoredo. Ali Vó Cinda preparava um canteiro para enterrar as batatas de palma, nome que ela dava para os gladíolos. Buscava sempre variar as cores, algumas com duas cores, centro claro ou vermelho e as bordas de tons coloridos variados: vermelho, branca, rosa, lilás, amarela, coral. Trocava as batatas com as comadres, para colorir ainda mais os buquês que faria para o dia de Finados. Também as plantava na outra extremidade do jardim, contra a cerca de tela, entre as cravinas e as gérberas. Os canteiros tanto o do entorno dos arbustos da palma santa, aquela que levavam para ser benzida no domingo de ramos e o do pé de jasmim eram cobertos por flores coloridas e delicadas: cravinas, chitinhas e boca de leão. Minhas tias traziam sementes da cidade ou de outros lugares por onde andavam. Ao terminar a temporada daquelas flores, ela cuidava de retirar as sementes e as batatas dos canteiros, para que na próxima entrada de primavera, ela as tivesse já garantidas para novas plantações e prepararia assim sua colheita de flores para mais uma data de Finados.

Nas primeiras horas da manhã as flores já estavam colhidas, acomodadas numa cesta, numa bacia e num balde. E a charrete preparada, com o Tarugo pacientemente esperando por nós: vó Cinda, minha mãe e eu. Elas faziam questão de muito cedo já estarem colocando flores nos túmulos, por causa do calor e para evitar a aglomeração que se fazia no largo corredor que dividia o cemitério em dias grandes alas. na calçada externa da frente do cemitério velhos pés de plátanos devam o ar sóbrio e melancólico daquele lugar. Embora eu fosse muito pequena, tinha uma tarefa muito importante, a de carregar água com o jarro de alumínio que, especialmente neste dia, saia do banheiro da casa onde ficava guardado, para servir de apoio no ritual de organizar as flores em cada vaso ou floreira sobre os túmulos. Usávamos o jarro para colocar bastante água nos vasos, com água abundante tinha-se a sensação de que as flores perdurariam por mais tempo. Eu ia e voltava várias vezes até a torneira que se localizava logo à direita do portão, contra o muro do cemitério. Nunca o enchia totalmente por causa do peso do jarro, sorte também que o jazigo da família ficava bem à esquerda, próximo da entrada do cemitério. Além dos vasos sobre os túmulos, colocávamos flores nos vasos fixados no chão, sempre aos pés do ente querido. 

Alguns dias antes do dia de finados, vó Cinda e minha mãe, às vezes com ajuda da tia Maria, iam ao cemitério para fazer uma limpeza, afinal encher os vasos de flores sem uma boa limpeza era como se ter um descuido inaceitável com os mortos, e todo ano elas cumpriam com esta tarefa. Distribuíam flores por outros jazigos: todos ganhavam flores, os parentes e amigos próximos recebiam pequenos buquês como uma lembrança de que não eram esquecidos, pelo menos naquele dia dedicado a eles. Voltávamos antes do meio-dia para evitar o sol a pico. Invariavelmente o dia era pesado e piorava muito com o maldito vento quente vindo do lado norte, que transformava aquele dia, ainda que colorido pela quantidade de flores, um dia triste de saudades daqueles que já haviam partido.

  

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Tia Jane, para sempre a professora


No quarto da Vó Cinda, Lili sempre escolhia dormir na cama do lado esquerdo, abaixo do quadro de um Jesus melancólico que povoava as suas indagações sobre a vida e sobre o mundo. Encostada na parede azul ficava uma cama cor amarelo claro de ferro, com uma cabeceira vazada com barras arredondadas, parecendo uma grade. A cama tinha lastro de molas e pular sobre ela era a primeira diversão do dia, era meu brinquedo de pula-pula particular. Então, eu me apossava da cama da tia Jane durante os dias da semana, quando ela não estava na fazenda ou quando ela viajava. Nossa divisão da cama respeitava os limites da gentileza familiar, misto de respeito pelos mais velhos e da hospitalidade para a qual éramos educadas. Nestas ocasiões, eu saltava para a cama da direita ou dormia em uma cama improvisada no chão, sobre o tapete de couro em frente ao guarda-roupa da vó Cinda.

Tia Jane nas primeiras lembranças da Lili era uma mulher não muito alta, de cabelos fartos, muito longos, pesados e de uma linda cor castanho escuro. Nela tudo parecia charmoso e de bom gosto. Usava umas tiaras no cabelo, faixas ou lenços com os quais os amarrava em dias de calor. Ela fazia gestos amorosos na mesma intensidade com que usava sua franqueza em apontar o que não gostava e na firmeza em nos corrigir, sobretudo, o nosso modo de falara língua portuguesa. Era a professora que se sobressaia, muitas vezes, mais que a tia. Educava-nos na mesa, no comportamento com os outros e na higiene pessoal.

Todo ano, durante as férias vinham os primos mais velhos passar as férias na casa da fazenda. As tias cuidavam nessa época do ano de fazer grandes mudanças e faxinas. E para nos manter ocupados, sobretudo os menores, nos convocavam para tarefas rotineiras: ajudar com retirada de uma montanha de lixo, um amontoado de muitas folhas dos cinamomos, depois de varrido, o pátio fica impecável. Lavar copos e arrumar a mesa, tarefa solitária da Lili, por ser a única menina na casa grande parte do ano, pois as atribuições do chamado mundo feminino eram todas pra mim. Com a Tia Jane arrumávamos o jardim, seguindo o capricho com as formas e alinhamentos que ela determinava, tudo tinha uma simetria, como a distribuição das mudas de amor-perfeito e cravinas nos canteiros, circundando o pé de roseira ou do jasmim, que ficavam centralizados e adornados por outras flores. Ela primava pela ordem caprichosa das coisas do mesmo modo que vigiava a concordância nominal e verbal da nossa fala.

Nestes dias de férias, tia Jane não deixava escapar os erros de português da gurizada, alguns alunos dela no Colégio Estadual. O gosto pelas combinações se sobressaia no modo com que seguidamente rearranjava os quadrados de tecido com crochê para montar uma colcha que minha vó confeccionava. Nestes momentos, durante as conversas,  ela aproveitava para também fazer adequações linguísticas na fala da vó Cinda. Explicava a ela que agora com a circulação de ônibus intermunicipais, passando na estrada em frente à fazenda, não se poderia dizer que a pessoa apeava do ônibus, e com  seu ar professoral, insistia: mãe se diz "desembarca". Minha vó seguindo à risca a aula dada pela tia Jane, um dia quando um compadre apareceu à cavalo para fazer uma breve visita à fazenda, minha vó correu imediatamente para recebê-lo, e no apuro de ser gentil, dizia: "desembarque, desembarque".

O cuidado com as formas era repetido na hora de picar as frutas para famosa salada de frutas, tradicional sobremesa do dia primeiro ano. Ela cortava as frutas e revisava o corte dos pedaços, buscando a delicadeza harmoniosa dos tamanhos. Por esta razão, os mais velhos lembravam como ela tinha manias da tia Dina, tia da minha vó Cinda, dado o hábito dessa tia de picar batatas ou mandiocas em quadrados similares. Deste zelo com a harmonia das coisas, tia Jane também instituiu na Torta de Nescau como uma nova sobremesa de fim de ano e, ainda, para essa e outras ocasiões de reunião familiar, o creme de camadinhas: uma camada de gelatina, uma de creme inglês e, por último, a camada de merengada. Na culinária fazia poucas coisas, mas se esmerava pela apresentação do prato, por isso o creme de camadinhas era colocado em cremeiras individuais transparentes, decoradas com círculos coloridos, que se confundiam com as camadas do creme. 

Lili via nela um jeito de ser elegante e charmoso, era o estilo de uma professora de francês, já que ministrava também língua francesa na escola, reproduzido no modo de vestir: vestidos retos e discretos, conjuntos de casacos e calças combinando, de cores variadas e muito bem ajustados ao corpo pequeno. Usava batom de cores alaranjadas e rosadas, que passava até para ir na farmácia do meu tio, poucos metros de distância da casa onde morava na cidade. No seu guarda-roupa havia uma prateleira cheia de sapatos mocassim com salto médio de madeira, ela usava uma cartela de cores desses sapatos: preto, azul-marino, marrom, vermelho, verde escuro, bege, amarelo... cores que ainda vivem nas memórias de Lili. 

Era uma mulher de beleza diferente, com um nariz adunco que não combinava com a doçura do seu sorriso, porém combinava perfeitamente com a franqueza habitual como expressava suas opiniões. Tinha lá suas implicâncias, e um desejo permanente de ver tudo bonito. Era uma personalidade que de fato gostava de ser quem era, nesta certeza, solicitou mudança do nome que constava na certidão de nascimento. O cartório havia registrado como seu nome: Janiz, mas ela se reconhecia como Jane. O jeito didático como ordenava o seu mundo, suas aulas, seu trabalho docente, era um estilo de ser. Inspiração que Lili carregou consigo e que certamente transformou a escola em um sonho ainda maior para sua vida de menina do campo.

 




sábado, 3 de outubro de 2020

Doces de tacho e linguiças campeiras


Na primeira luz penetrando nas frestas da janela do quarto, anunciando o amanhecer, vó Cinda já estava em pé e vestida para o dia de carneação, de lenço na cabeça e, sobre a roupa, um avental feito por ela. Muito cedo da manhã já estava sentada numa cadeira, posicionada na altura de uma mesa improvisada, para que pudesse picar toda a carne para as linguiças. Apoiava uma tábua retangular sobre uma grande gamela e começava sua tarefa, sempre com muita destreza e rapidez, cortava uns bons quilos de carne de gado e de porco que, mais tarde, minha mãe daria forma para as linguiças. Neste dia, Lili realizava pequenos auxílios junto às mulheres da casa no trabalho do dia: cozinhar carnes, separar as misturas, preencher as tripas para fazer vários embutidos, pois se aproveitava tudo que fosse possível das carnes e entranhas do porco.

Meu meu pai controlava o fogo de chão com as lenhas trazidas pelo Vergilino para derreter a gordura das carnes em um grande caldeirão, que ele cedo da manhã já havia separado das carnes do porco, para transformá-las na banha que usaríamos para cozinhar. Em um panela de ferro menor, ele cozinhava as carnes para minha mãe fazer patê, morcilha, queijo de porco, também preparava um espeto para assar a primeira linguiça, um aperitivo para todos os envolvidos naquele trabalho. Quando minha mãe iniciava o preenchimento das tripas para fazer as linguiças, eu corria em direção ao arvoredo velho, passava pelo portão da área do tanque e arrancava alguns espinhos do limoeiro, que se localizava logo atrás de dois pés de butiá na lateral da casa. Os espinhos serviam para fazer pequenos furos nas linguiças, tirando o ar que ficava dentro delas. 

Nesse dia, almoçávamos todos em volta daquela mesa cheia de pedaços de carne, tiras com pele e banha, linguiças, gamelas, bacias, máquina de moer carne, muitas facas, que vez e outra meu pai vinha afiar para minha avó e minha mãe. Banha distribuída nas latas, queijo de porco na prensa, torresmo também guardado em uma lata, tripas cheias de patê pronto para o consumo, acomodados numa fôrma, morcilha quente numa panela, era então a vez de pendurar as linguiças numa longa vara de taquara, suspensa e amarrada com arames que a seguravam desde o teto do grande galpão, o da garagem da charrete amarela. Ali as linguiças arejavam, secavam e era retiradas para o consumo, prontas para fazer com arroz, o famoso prato chamado de "arroz de china pobre".     

Outro dia de trabalho conjunto e com ar de festa, era o dia de fazer doce de tacho. No inverno fazíamos as linguiças por conta da temperatura, o frio era mais adequado para mexer com carnes, ainda mais em tempos de falta de luz elétrica. E no verão, por conta da estação das frutas, se fazia muito doce de tacho, inclusive para guardar para o inverno. Um dia se fazia uma tachada de pessegada e perada, outra de figada ou de goiabada. Na parte do fundo do pátio dos cavalos, debaixo da sombra das árvores, Vergilino providenciava um fogo, uma trempe de ferro, uma tábua de proteção para quem mexia o tacho, para evitar o excesso de calor. 

Enquanto minha mãe e minha vó Cinda terminavam de descascar as frutas, picá-las e passá-las na máquina de moer para fazer uma massa, debaixo da parreira, Vergilino apoiava o tacho grande de cobre sobre a borda do poço e passava limão e sal para limpá-lo. Também se usava um tacho menor de cobre para doces de calda como os de abóbora e figo ou para, com as sobras dos caroços e das cascas das frutas, fazer um caldo que depois se usava para fazer deliciosas geleias.

Minha mãe trazia uma bacia grande com a massa das frutas, media o açúcar e colocava a massa no tacho. Depois de cozinhar a massa da fruta, o doce iniciava a apurar e aí era preciso muita agilidade com a longa pá de madeira para não queimar e cuidar muito de proteger as pernas do doce quente borbulhando e saltando para fora do tacho. No inverno ou nos dias de chuva, meu pai auxiliava mexer o doce no tacho, pois a grande quantidade de massa ficava pesada e ele então socorria as mulheres da casa.

Lili limpava as caixas retangulares de madeira, depois recortava um papel celofone e o colocava no fundo e nas laterais e as deixava sobre uma mesa para colocarem o doce pronto. Quando se retirava a massa do tacho para encher as caixas, sempre sobrava no fundo do grande tacho uma rapa de doce assim como sobrava pedaços da massa na parte mais larga da pá. A melhor porção do doce sempre estava ali, naquela rapa do tacho e na bordas da pá, muito disputada por toda criançada da casa. Em março, quando iniciava a escola, colocávamos fatias de pessegada, perada, figada no meio do pão e já tínhamos nossa merenda. Sabores doces da vida da Lili no campo. 



sábado, 19 de setembro de 2020

O dia de fazer o pão


Na saída da porta da cozinha, na casa da fazenda, havia uma área coberta que permitia ir à dispensa para buscar o que era necessário para cozinhar: panelas, formas, farinha, açúcar entre outras tantas coisas guardadas naquela peça, onde também se preparavam as massas de pão, biscoitos, bolachas. Nessa área coberta tinha um tanque, uma pia, a tália de barro encaixada em um suporte de madeira, com latas de azeite com alças de arame colocadas, propositalmente, na borda da madeira do suporte para aqueles que quisessem beber a água fresca do poço, pois a tália era abastecida pelo Vergilino várias vezes ao dia. Em frente à tália ficava a caixa da lenha de cor cinza claro, transformada em o banco preferido do Vergilino enquanto ele aguardava o almoço. Ela também era o lugar onde eu sentava no dia de fazer pão e batia as claras em neve, em uma bacia grande de barro, para pão de ló que a vó Cinda assaria mais tarde. Ali também, algumas vezes, me colocavam a bater gemada para um bolo ou bater a nata do leite tirado nas ordenhas da semana e que era recolhida até ter quantidade suficiente para fazer uma boa manteiga. Pequenas tarefas e grandes aprendizados de Lili.

O dia de fazer o pão era dia de agitação, de muito alvoroço desde das primeiras horas da manhã, a começar pelo ponto do calor do grande forno, que era preparado desde cedo para que, na virada do meio-dia, estivesse no ponto para assar os pães. Se o dia fosse de vento norte minha mãe e minha vó tomavam o ritmo desembestado do vento, os humores era sentidos de longe e pelo tanto que o Vergilino resmungava enquanto preparava a lenha e cuidava de manter o fogo e as brasas para aquecer o forno, sendo requisitado a toda hora por elas. 

O forno se localizava na área ao lado da dispensa, bem no fundo da área coberta, à esquerda desta área havia duas macieiras, uma folhagem de flores roxas contra parede lateral do forno e, na parte detrás, pé de hortênsias frondosos, em cores que iam do rosa claro ao azul intenso. Na outra lateral do forno havia um estreito corredor, onde se depositavam as lenhas cortadas para o fogão da cozinha e pedaços de lenha maiores e mais grossos para o forno grande. Nesse espaço havia também uma mesa de madeira já bem gasta e um banco comprido, naquela mesa as crianças almoçavam no verão em dia de casa cheia, ou era usada por convidados, como vizinhos e parentes, em dia serviço de campo. No dia de fazer pão, sobre a mesa ficavam as fôrmas, feitas artesanalmente de latas, já prontas com os pães, aguardando a hora de irem para o forno, e também as gamelas para colocá-los depois de assados. 

O pão era feito na sexta-feira, quando havia algum imprevisto, no sábado. Cedo da manhã minha mãe vinha de casa, entrava pela entrada do tanque e se dirija à dispensa para preparar o fermento, ou já o trazia preparado de casa, e iniciava a fazer, e depois sovar, as massas. Enquanto a massa do pão crescia, ela providenciava a massa das roscas de nata e a vó Cinda preparava a massa do pão de milho. Esse pão de milho era uma massa mole, quase uma polenta, colocada com uma concha sobre a fôrma, depois de assado ficava com aparência de um bolachão. Era o pão para os empregados, além de mais nutritivo, durava mais. Lili era requisitada para ajudar fechar as roscas de nata com as pontas dos dedos e levar as fôrmas para colocar sobre a mesa da casa do forno. Minha mãe fazia também biscoitos com a mesma massa do pão, que o pessoal da casa consumia logo que saia do forno, o famoso pão quentinho para o café da tarde. Ela ainda preparava pãezinhos especiais para as crianças com formatos de bichinhos, decorados com olhos de feijão: pombinhas, lagartos, corujas. As roscas, biscoitos e o pão de ló, cortado em quadradinhos e torrado, se guardava nas latas decoradas com figuras de passarinhos sobre um fundo branco e adornadas lindamente com tampas vermelhas. As latas ficavam guardadas no armário azul calipso localizado na passagem da cozinha para quarto da vó Cinda. 

Lili se deliciava com queijo, mel e o pão caseiro na casa da vó Xiruca. Na porta dos fundos da cozinha, havia um forno que lembrava o modelo da casa dos esquimós. Ele ficava bem alto do chão, porque eu não alcança, parecia pequeno, mas vó Xiruca fazia nele os pães para alimentar sua numerosa família. Como lá na casa da vó Cinda, na casa da Vó Xiruca também se fazia outras massas, como as das roscas de leite em um formato em que a massa era de uma rosca torcida, eram macias e crocantes ao mesmo tempo. Guardei o sabor desta receita no meu paladar para sempre. 

Já as roscas de nata da minha mãe eram doces e quando se mordia elas esfarelavam na boca de tão macias, ideais para acompanhar um chá ou um café, feitas com: uma xícara de nata, duas xícaras de açúcar, um ovo, uma pitada de sal, uma colher de manteiga, uma colher de chá de sal amoníaco e farinha até dar o ponto de modelar as roscas. Essa receita traz um aroma adocicado daquelas tardes em que transformávamos a dispensa e casa do forno em uma padaria, pães para o café da manhã do pessoal da casa, para nós lá de casa e para a vó Cinda. O pão de ló, os biscoitos e roscas para as visitas e o pão de milho para os empregados. Todos saboreavam as delícias daquelas fornadas semanais, do dia de fazer o pão.   



 



     

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...