quinta-feira, 22 de abril de 2021
O quarto dos guris
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Tradições da Páscoa
O sinal de que a Páscoa se aproximava era quando se iniciavam os preparativos da pescaria nos dias que antecediam à semana Santa. Lili acompanhava o preparo que o pai e os tios, que durante um tempo trabalharam na fazenda, arrumando linhas, redes e anzóis para a pesca nos açudes do campo de cima ou o das vacas mansas e, às vezes, no arroio da Divisa. Também, uma vez ou outra, eles pescavam nos açudes da vizinhança: na chácara do Dr. Ayres ou na do Seu Noé. DE véspera lançavam as redes e as linhas nas águas, as deixavam na espera para fisgar, nas linhas, ou enredar na rede, alguns peixes durante a calmaria da noite. Meu pai e meus tios herdaram o gosto pela pescaria do seus tios Luís e Adolfo, com quem costumavam pescar na infância nos arroios do Salso e da Divisa e com eles aprenderam os rituais da pesca e também a contar estórias de pescador.
Minha mãe e minha vó Cinda, pelo menos dois meses antes da Páscoa, já tinham preparado as passas de pêssego que elas chamavam de origone. Secavam as lascas da polpa do pêssego e as colocavam numa forma no sol durante dias, para desidratar e secar, depois guardavam-nas em potes bem fechados até a sexta-feira santa. Cedo da manhã elas preparavam o doce para servir no meio da tarde, com canela polvilhada, dando um toque especial ao famoso arroz com pêssego, a sobremesa tradicional da sexta da paixão.
Nas primeiras horas da sexta-feira, no sereno da madrugada, antes do sol sair, meu pai já tinha percorrido o campo e feito a colheita da marcela. Teríamos chá para boa parte do ano. Em seguida, ele começava a providenciar a fritada de peixe para o almoço. Com uma boa porção de peixes: jundiás, traíras, piavas e grumatã estava garantido o almoço do dia. Se armava uma trempe no fogo do chão, sobre ela uma caçarola com banha quente e se fritavam as postas temperadas e empanadas com farinha de trigo e de mandioca. Com as postas do jundiá meu pai fazia um ensopado bem temperado. Para as crianças sempre separava-se a parte da cabeça dos peixes, para evitar que alguns de nós se engasgasse com a espinha. Lili aguardava ansiosa o pai retirar a espinha das postas, para que pudesse comer com tranquilidade. Confiava no cuidado dele.
No sábado, pós sexta da paixão, acordávamos já com um mantra religioso repetido pelas tias, era o "hoje é dia de tirar aleluia". Nunca entendi bem porque nos sentenciavam tanto, era dia de aplicar o castigo pelas teimosias e traquinagens acumulado durante todo um ano. Mas tudo ficava no plano da possibilidade, o temor ficava no ar, porém ninguém se atrevia a tanto. Nos mantinham na linha só fazendo as promessas de castigo. O dia passava devagar pela ansiedade na espera pelo domingo de Páscoa, dia de ganhar doces. Só parávamos para apreciar a lua cheia que despontava alaranjada e imensa por trás da frondosa timbaúva, à direita da porteira de entrada da fazenda.
No domingo de Páscoa já acordávamos mais cedo que o normal, na expectativa de procurar os ninhos com os ovos de Páscoa. As cestas dos ninhos eram preparadas por nós, cada um fazia a sua, usando caixas de papel. Nelas colávamos papel crepom colorido, deixávamos o papel picotado nas pontas para fazer um efeito de franja e, por fim, fazíamos uma alça e estavam prontas nossas cestas feitas de caixas de embalagens, em geral, de sapato. Dias antes da Páscoa, Lili separava as cascas de ovo que eram usadas para fazer os pães, bolachas e bolos, limpava-as e guardava-as para encher com doce de amendoim. Como não tínhamos tinta em casa, as cascas dos ovos não eram pintadas, às vezes, eu colava as sobras do papel crepom para dar um cor nos ovos de Páscoa.
Na semana Santa o clima já era outonal, pela manhã uma bruma tomava conta da paisagem, a gente se agasalhava por causa do friozinho da manhã e saia pelo pátio e galpões procurando os ninhos. Meu tio Cláudio era especialista em esconder os ninhos em lugares inusitados, chegávamos ficar toda uma manhã correndo e verificando os cantos e os possíveis esconderijos para conseguir encontrar o ninho. Quanto mais afoito se era por doces, bem mais difícil era para achá-lo. Um ano encontrei meu ninho dentro da caixa de colocar bagagem da charrete amarela, ela ficava na parte de baixo do banco. Outra vez, depois de uma manhã de desespero e de uma busca sem fim, achei meu ninho cuidadosamente encaixado em uma trama de galhos da parreira do pátio. Era só olhar pra cima, mas eu só procurava olhando pelo cantos e pra baixo. A procura pelos ninhos era uma diversão e uma disputa controlada pelo: "tá quente", "tá morno", "tá frio" à medida que nos aproximávamos ou nos afastávamos do esconderijo.
A Páscoa para Lili tinha o gosto do ovo de glacê, muito doce, colorido e delicadamente decorado. As decorações eram detalhes de açúcar, umas rendas e laços açucarados, com flores e passarinhos. Eu os guardava por dias, tinha pena de comer aquela beleza de decoração. Me contentava, de início, com os coelhos grandes de pão de mel e alguns chocolates e bombons. Mas nada superou em alegria, o dia em que ganhei uma caixa de bombons "noite de gala" do meu padrinho, o moço dos lindos olhos azuis. Pois caixas de bombons eram presentes para adultos, me senti diferenciada das outras crianças. O Domingo de Páscoa também era dia de contar os doces, protegê-los das lambidas da Susana, que astutamente havia encontrado uma maneira de arrecadar mais doce para o ninho dela. A gente ficava com nojo quando ela lambia algum doce dos nossos ninhos e dávamos a ela o doce lambido. Para Lili tudo era muito precioso, comê-los um a cada dia prolongava o sabor e os dias alegres da Páscoa, uma tentativa de aprisionar o tempo, aquele exato momento de muita doçura e de família reunida.
quarta-feira, 24 de março de 2021
A despensa
A despensa era o lugar sagrado da comida. Não era uma peça muito grande, mas mantinha o frescor de um ambiente onde se guardavam os alimentos secos e as comidas que podiam ser mantidas sem refrigeração como carnes assadas, polenta, mandioca cozida, arroz. Essas comidas eram guardadas na prateleira superior de um balcão, um armário baixo de cor cinza, e nele se colocavam as panelas com as sobras. A tela na metade de cima da porta do armário permitia a ventilação e evitava a entrada de insetos como moscas, baratas e formigas. Na parte debaixo se guardavam as panelas grandes de ferro.
No meio da peça havia uma mesa onde se deixava a gamela do pão coberta por uma toalha feita com o saco de algodão da embalagem da farinha, e também um panelão com o leite da ordenha da manhã para ser coado. Quando o leite azedava, deixava-se a coalhada que se formava para ser misturada com açúcar e ser consumida, mas o melhor uso da coalhada era nos famosos bolinhos feitos pela Vó Cinda. Em duas das paredes da peça havia prateleiras onde se colocavam, de um lado, utensílios como conchas, máquina de moer carne, funil, facas para corte de carnes, colheres de pau, peneiras, bacias e formas. Na prateleira, do outro lado, ficavam as famosas latas quadradas de guardar o pão de trigo, o de milho e os biscoitos. Eu apoiava os cotovelos na ponta da mesa e me deslumbrava com a figura de uma coroa imponente de rainha estampada nas latas, abaixo da imagem da coroa uma palavra escrita em letras vermelhas como se fosse uma assinatura: soberana. Eram latas das balas soberanas, reutilizadas pela Vó Cinda para guardar os pães, que deveriam durar até a próxima fornada.
A basculante no fundo da peça, era a única janela, de onde se avistava quem vinha do poço do arvoredo, para lado dos pinheiros. Dali também se podia ver o Vergilino colhendo cachos de banana no bananal, que se localizava logo atrás de um frondoso abacateiro plantado pelo meu avô. Abaixo da basculante ficava a tulha de madeira, em cada uma das suas separações guardava-se feijão, arroz, fardos de farinha de trigo, entre outros mantimentos, fardos, sacos, pacotes. A despensa ganhou importância com a reforma da casa, depois que a antiga estufa, onde se faziam os queijos e se depositava o mel, o sal, as linguiças, foi desativada. As latas de bala nas prateleiras e a tulha abastecida de grãos davam um ar de armazém para a despensa.
A despensa era mais que o lugar de guardar, era o de preparar o pão, as bolachas, os bolos, de temperar e ajeitar os assados nas formas. Lugar de conversas longas entre minha vó e minha mãe, especialmente no dia de fazer pão, em que vestidas com avental e de lenços amarrados na cabeça decidiam sobre quais pães fazer , enquanto eu corria para auxiliá-las batendo claras, untando as formas e alcançava o caderno de receitas, retirava-o com todo cuidado da gaveta da penteadeira do quarto da Vó Cinda. Ali onde se amassava o pão, elas amassavam suas reclamações e pediam aos gritos que o Vergilino varresse o forno para logo assarem as massas e depois as carnes. Lili enrolava a massa com dedos para fazer as roscas de polvilho e de nata, moldando-as tal como fazia com seus bolinhos de barro, só faltavam as flores cor de rosa das hortênsias da parreira para enfeitar aquelas roscas de nata e de polvilho distribuídas nas formas. Disfarçadamente, eu sempre levantava a toalha e enfiava o dedo na bacia para saborear a massa crua do pão.
A despensa era uma peça separada do resto da casa, ao mesmo tempo contígua e a ela unida pela área coberta. Dela vinham aromas misturados, um ar mais úmido e uma luz difusa . Todo dia a gente entrava e saia buscando algo que só ali se guardava ou se fabricava para toda família. Lá de dentro brotavam sabores e cheiros que passaram a alimentar continuamente as memórias da Lili.
sexta-feira, 12 de março de 2021
Retalhos e Remendos
Se não íamos à cidade fazer compras, só conseguíamos os itens de armarinho nas visitas de Seu Piber. Ele chegava no meio de uma tarde luminosa de Outono na sua velha camionete rural willys branca com aquela barra azul nas laterais. A camionete vinha repleta de mercadorias. Ele a estacionava debaixo da sombra dos cinamomos da frente da casa, abria a porta traseira e ia apresentando as novidades: utensílios de casa, tecidos, linhas, agulhas, rendas, fitas, elásticos e algumas roupas íntimas. E logo chegava minha vó, cruzava apressada a antiga estrada que separava nossa casa da casa da fazenda, do jeito que podia pois as pernas um pouco arqueadas para dentro não a ajudavam ser muito ligeira. Ela vinha ávida para verificar o que havia de novo em tecidos e enfeites e vasculhar alguma peça de "baratilho" nas mercadorias trazidas pelo Seu Piber.
Nas suas andanças de mascate motorizado, Seu Piber saía pelo interior de Jaguari e São Vicente passando pelas pequenas chácaras, sítios, fazendas, abastecendo as famílias e oportunizando às mulheres encontrar o que necessitavam para casa e para uso pessoal. Entre essas moradas que ele parava, estava a da minha vó Xiruca. Como minha mãe e a Vó Cinda, ela se abastecia de tecidos, alguns utensílios de casa e material de costura. Na casa dela, a máquina de costura ficava no quarto do casal, em frente à janela que dava para o jardim, de onde ela podia, sentada junto à máquina, apreciar o pé de brinco de princesa sob a luz morna e amarelada das tardes frescas do outono. Lili não lembra de vê-la trabalhando na máquina de costura, mas se fascinava com a luz outonal atravessando o amplo quarto do casal, na forma de um feixe de luz que repousava justo sobre a máquina de costura. Ela consertava, costurava e remendava as roupas da família naquela máquina, pois necessitava dar conta de vestir os seus muitos filhos com roupas mais quentes no inverno, que logo chegaria. Costurar estava entre os tantos afazeres que ela dava conta, e um dia que as vinte quatro horas sempre eram sinônimo de pouco tempo.
Remendar era tarefa semanal da minha mãe. Recortava sobra de tecidos para cobrir os rasgados das bombachas do meu pai, dando-lhes sobrevida, nem que fosse só para ele usar no serviço de curar os animais no campo ou para quando ia recorrer as taipas na lavoura de arroz. O ato de remendar não era só economizar, era muito mais. Era como remendar as dificuldades da vida. Das sobras de tecidos, minha vó Cinda e minha mãe faziam algumas peças para uso da família: uma barra de lençol, um enfeite em um guardanapo, um pegador de panelas mais grosso para retirar as formas do forno quente ou um avental para uso diário. Os pequenos pedaços de rendas e fitas e algumas nesgas de tecido floridos eu guardava. Cada vez que voavam da máquina para chão, eu os catava para fazer roupas para minhas bonecas. Todo retalho tinha um aproveitamento, elas, sabiamente, diziam: "quem junta o que não presta, tem o que precisa".
Na fabricação das colchas de retalhos, Lili ajudava selecionar e combinar os pedaços recortados em quadros que a Vó Cinda emendava caprichosamente por meio de um gracioso crochê. Ajoelhada ao lado da cama, eu ia alternando os quadrados de tecidos já com os acabamentos em crochê, para montar uma colcha quentinha, que poderia ainda ser usada como coberta no inverno. As linhas que sobravam de uma costura assim como pedaços de elásticos eram guardados nas gavetas da máquina se acaso necessitassem para algo. Até mesmo os restos de linha de costura ficavam esperando nas gavetas a hora de auxiliarem no colocar a linha nova na lançadeira da máquina. Nada se perdia, tudo se reciclava, se reutilizava.
O aproveitamento era uma prática: uma lata grande de óleo, era cortada e nela feito dobras para virar uma forma na qual se assavam as carnes e os pães. Já uma lata pequena, com uma alça de arame, virava um copo para beber água no poço. Do tijolo quebrado, fazia-se um pó para lustrar as panelas de ferro. As tiras de tecidos e elásticos velhos serviam para amarrar os pés de palma no jardim. Nada parecia ser descartado pelas mulheres da família, porque tudo em algum momento poderia ter uma utilidade. Era assim que elas ainda reaproveitavam as panelas velhas, os bules furados, as bacias lascadas ou trincadas como vasos ou suportes para as flores. E tudo se enchia de beleza, mesmo uma chaleira furada tinha seu encanto ao ficarem cobertas de flores de maio, petúnias, cravos ou gerânios.
sábado, 27 de fevereiro de 2021
O tapete de couro de vaca
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
Sopa de pera
O aroma de cravo e canela invadia os cômodos da casa. Logo que o caldo levantava a fervura na panela, exalava então o cheiro inigualável da sopa de pera. Em meados de dezembro Lili se reunia à mãe e aos irmãos para colherem as primeiras peras maduras, colhidas nas pereiras que se enfileiravam no arvoredo entre a linha das laranjeiras e dos pessegueiros. Na linha das pereiras, também havia dois pés de cáqui, com frutas de polpa doce e alaranjada. As pereiras cruzavam sua linha de pés até altura do galinheiro, ali se localizavam quatro pés de peras duras, que amadureciam no final do verão. Os demais pés eram de peras d'água, macias e suculentas, e era com elas que se fazia o caldo com pedaços da fruta e especiarias, um caldo doce e perfumado que também chamávamos de sopa. Pouco antes da temporada das peras maduras, fazia-se a sopa com os primeiros pêssegos que amadureciam, no mesmo processo, fatias da fruta cortadas em forma de lascas, cozidas na água com açúcar, cravo e canela. A sopa de pera era prenúncio do verão com seus banhos de açude, tardes de mormaço passadas debaixo das sombras dos cinamomos comendo melancia e voltas a cavalo no final da tarde pelas redondezas da casa.
Quando dava no jeito e meu pai pacientemente nos ajudava encilhar o cavalo, podíamos dar umas voltas. Lili se enchia de alegria porque com as primas passando férias na fazenda, podia andar a cavalo, e isso seria ainda mais divertido, pois as meninas quase sempre andavam na garupa umas das outras. De longe se ouviam os gritos de medo e as gargalhadas das gurias comandando o pitiço ou a égua Ruana, principalmente, quando arriscávamos uma galopada pelo vasto gramado em frente à casa da fazenda.
No verão, antes da chegada das primas, os finais de tarde eram dias de Lili ficar observando as ovelhas saindo apressadas e encabuladas do cercado onde eram capturadas para tosquia, naquela aparência de que pareciam se sentir despidas. Eu sentia uma enorme compaixão daqueles constrangimentos, demonstrado pela cabeça baixa das ovelhas cada vez que se livravam das mãos do tosquiador. Era final do mês de novembro, as peras estavam começando a amadurecer, no ponto para iniciar a temporada das sopas de pera da minha mãe.
Outras tardes, aguardávamos a chuva, olhando como tempo se armava para os lados dos cerros de Jaguari. Calculávamos a aproximação da pancada de chuva, sabíamos por experiência que, ao chegar na curva da antiga estrada, na parte mais baixa da ladeira, era hora de corrermos e garantirmos lugar debaixo das calhas da casa para um farto banho de chuva. As águas que desciam pelas calhas eram cachoeiras imaginárias, a brincadeira virava um jogo de empurra na disputa para caber mais de um debaixo daquela água que jorrava torrencialmente e com força total.
À noite, depois de um bom banho e de uma saborosa janta com direito à sopa de milho verde da vó Cinda, a sopa de pera adoçava e confortava mais um dia de verão bem vivido.
domingo, 17 de janeiro de 2021
Lili chega à escola
Minha mãe confiava amorosamente no meu tio Ruco e o fato da tia Tânea ser professora aumentava a segurança na sua decisão de me levar para casa deles, onde eu iria morar enquanto estudava. Lembro de chegar com uma sacola de roupas, de me mostrarem meu quarto. Nele havia uma cama com uma cabeceira estofada de uma cor de cenoura e sobre a cama uma colcha de listras muito finas e coloridas. Certamente o lindo lençol com cachopas de flores do campo, bordado pela minha mãe, ficaria perfeito naquela cama. Havia uma janela para lado oeste, por onde entrava o sol da tarde. A mudança me colocou em outro ambiente, outras relações de afeto, era um corte na minha vida de criança rural.
Fui levada à escola pelos meus tios e logo aprendi o caminho de casa até o Colégio Borges do Canto. Era uma escola de um só andar com dois grandes blocos de salas, toda pintada de um amarelo claro, salas tinham janelas altas, pintadas de cinza claro. A diretora era Dona Celi e me recebeu com seu sorriso doce e jeito tranquilo. Ela tinha o rostro redondo, pele clara, cabelo curtos e fofos, era uma figura acima do peso, mas tinha uma suavidade no andar, mal se ouvia, do nada ela aparecia na porta da sala de aula.
Aprendi logo que precisava entrar na fila no pátio e, em fila, ir até sala de aula, passando pela fiscalização do uniforme, não correr pelos corredores, pedir licença ao professor e fazer silêncio durante a aula e, especialmente, aceitar que na escola eu não era Lili, valia meu nome de batismo tal como estava na lista de chamada. Eram os anos setenta e uma vez por semana tínhamos uma hora cívica para hastear a bandeira e cantar o hino nacional. Cedo Lili descobriu o que era disciplina, e se assustava com a possibilidade de reclamações do seu comportamento, sobretudo, pelo medo de ter de deixar a escola.
Este primeiro ano marcava uma virada na vida de Lili, o início das amizades fora do círculo dos primos e irmãos. Os magrelas Tivico e Vito, o primo Titão, os baixinhos, Tampinha com seus cabelos de anjo e João Antônio com seus vibrantes olhos azuis. As primeiras amigas, a Márcia, que depois foi vizinha e minha companheira de passar na casa da professora do segundo ano, para irmos juntas à escola. Chegávamos orgulhosas de acompanhar a professora até entrada da escola. A espevitada Tina, meio desajeitada e dengosa, a tímida e carinhosa Iolanda, a brava e valente Cecília com suas longas tranças e o inquieto e desobediente Ricardo. Depois vieram outros colegas, o Teta, que era parceiro nas apresentações da escola e a Valéria, menina acanhada e discreta. E também a Osmilda, destoando por sua altura, e a doce Tânia que usava cabelos curtos como eu e me acompanhava na volta da escola nos primeiros tempos, quando morei na esquina da rua Brasil com a Rua Carapé.
Os primeiros dias foram de desafio porque Lili não conhecia as rotinas da escola, não foi ao jardim infância, mas já manuseava o lápis com a desenvoltura adquirida pelas práticas de escrita comandadas pela vó Cinda. Esquecia de responder "presente" a cada vez que a professora lia a lista de chamada, que se distraia com os barulhos vindos da rua, no entanto, observava todos e absorvia tudo. Em casa, durante a semana, tio Ruco me auxiliava nos temas na mesa de jantar, acompanhando-me na hora das tarefas. Nesta escola, também fui marcada pelo primeiro exemplo de preconceito e racismo. Tínhamos uma colega magrinha, negra, que usava duas tranças finas e ela sempre nos despertava um sentimento de compaixão, pois cada vez que não sabia responder a uma pergunta, a professora batia com a régua nos dedos da Sílvia, quando não a arrastava pelas frágeis tranças que usava presas sobre o alto da cabeça. O mais horrendo daquele momento era que sabíamos que a Sílvia era criada pela mãe da professora. Ficávamos todos atônitos, entre o medo e o pavor que aquela cena nos provocava.
O pátio da escola era amplo, pulávamos sapata, desenhada com giz na calçada da área coberta, localizada em uma das laterais, na entrada na escola, ou ao lado do mastro da bandeira. Brincávamos de pega-pega, de adivinhações, "se canoa virar...", debaixo das árvores que faziam sombra no pátio da escola ao longo do muro que separava e protegia a escola da rua.
No pavilhão, nos fundos, podíamos brincar em dias de chuva e lá formávamos as filas da entrada e do retorno do recreio. Dona Joana e Dona Ana eram as serventes da escola e faziam aquelas sopas entulhadas de legumes e verduras. Para Lili as sopas tinham uma aparência asquerosa, mas não deixavam de ser nutritivas e, às vezes, até saborosas. Quando tinha umas moedas eu comprava umas merendinhas Mirabel ou um sorvete com cobertura de Maria mole por causa dos anéis que vinham colocados no topo, era um brinde. A melhor merenda da escola era servida em dia de muita chuva, pois ficávamos dentro da sala de aula no horário do recreio e Dona Joana surgia na porta com umas canecas de café e uma bacia de roscas fritas.
Descobri na escola habilidades para Artes, gostava das aulas com trabalhos manuais, desenhos, pintura. Mas meu mundo se transformou com a leitura, aprender a ler me possibilitou vasculhar e ler todos livros da pequena biblioteca da tia Jane, quando ela morava com minha mãe e meus irmãos, nesta época eles já haviam mudado para a cidade, na metade do meu segundo ano na escola. Até o quarto ano estudei no Borges do Canto e trago dele amigos que vivem nas minhas memórias. Na mudança da minha vida escolar, para iniciar a segunda etapa do chamado 1º grau, novos colegas e amigos chegaram e Lili nesta época começava a ficar dividida entre a vida do campo e a vida da cidade.
Carapé
O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...
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A primavera anunciava sua chegada antes mesmo da data fixada no calendário. Os primeiros ventos enlouquecidos no mês agosto traziam calor, a...
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Lili levantava a mão de dentro da grande bacia de alumínio com alças arredondadas e via, escorrendo lentamente entre os seus dedos, o prepar...
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Lili é meu codinome. Fui inventada logo depois de nascer. Meu tio Ruco me chamava de Lili, dizia ele que era por eu ser tão miúda e graciosa...





