domingo, 25 de outubro de 2020

Dia de flores, saudades e vento

A primavera anunciava sua chegada antes mesmo da data fixada no calendário. Os primeiros ventos enlouquecidos no mês agosto traziam calor, abafamento, uivos insistentes e aviso de tempestade nos dias vindouros. Mas também sinalizavam que era chegada a hora de limpar o jardim, remover as folhas secas, podar os galhos mortos e inúteis das roseiras, das azaleias, da alamanda, plantar os gladíolos. Minhas avós seguiam o ritual do calendário regido pelos sinais da natureza, cada ciclo que se fechava era hora de plantar e replantar as flores da época. Nesses primeiros anúncios de que findava o inverno, e logo ali a primavera se aproximava, elas planejavam o plantio das flores com as quais, no dia de finados, demonstrariam suas saudades e seus afetos eternos.

Ter um belo jardim era sinal de capricho e sensibilidade das mulheres da casa, pelo menos era o que sentia Lili cada vez que percorria os arbustos no jardim da casa da Vó Xiruca. Havia poucas flores no chão, porque entre os canteiros que circundavam os arbustos do jasmim, do brinco de princesa, das dálias enormes, era só chão batido de terra arenosa, mas impecavelmente varrido. Não havia grama nem calçadas, somente um caminho limpo e desenhado por entre os canteiros fartos de pés de flores. Lili gostava especialmente do adorno que a lágrima de Cristo fazia sobre os marcos de uma das portas da casa e, da alamanda coberta de flores amarelas, que dava à porta da sala um ar de portal. Sim, um portal de acesso ao frescor de uma sala antiga, de janelas sempre abertas para a entrada da brisa da manhã. Lili se enfeitava com as flores, nos cabelos uma camélia rosa e nas orelhas uns brincos de princesa rosa e violeta, porque entre aqueles canteiros, o mundo de Lili, no alto de seus cinco anos, já era o de se imaginar uma pequena princesa. 

No jardim da fazenda, vó Cinda cultivava muitas roseiras. Rosas de todas as cores, eram robustas e perfumadas. De tempos em tempos, ela colocava o Vergilino para arrancar as ervas daninhas invasoras, retirar as flores velhas e as folhas secas debaixo do pé de camélia. À noite, ela mesma cuidava de percorrer com uma lanterna os caminhos que levava ao formigueiro de onde saiam as formigas cortadeiras que devoraram suas roseiras. Uma manhã ou uma tarde da semana ela se dedicava à arrumação do jardim.

Na altura do quarto onde dormíamos ficava a cerca lateral do jardim, para os lados do arvoredo. Ali Vó Cinda preparava um canteiro para enterrar as batatas de palma, nome que ela dava para os gladíolos. Buscava sempre variar as cores, algumas com duas cores, centro claro ou vermelho e as bordas de tons coloridos variados: vermelho, branca, rosa, lilás, amarela, coral. Trocava as batatas com as comadres, para colorir ainda mais os buquês que faria para o dia de Finados. Também as plantava na outra extremidade do jardim, contra a cerca de tela, entre as cravinas e as gérberas. Os canteiros tanto o do entorno dos arbustos da palma santa, aquela que levavam para ser benzida no domingo de ramos e o do pé de jasmim eram cobertos por flores coloridas e delicadas: cravinas, chitinhas e boca de leão. Minhas tias traziam sementes da cidade ou de outros lugares por onde andavam. Ao terminar a temporada daquelas flores, ela cuidava de retirar as sementes e as batatas dos canteiros, para que na próxima entrada de primavera, ela as tivesse já garantidas para novas plantações e prepararia assim sua colheita de flores para mais uma data de Finados.

Nas primeiras horas da manhã as flores já estavam colhidas, acomodadas numa cesta, numa bacia e num balde. E a charrete preparada, com o Tarugo pacientemente esperando por nós: vó Cinda, minha mãe e eu. Elas faziam questão de muito cedo já estarem colocando flores nos túmulos, por causa do calor e para evitar a aglomeração que se fazia no largo corredor que dividia o cemitério em dias grandes alas. na calçada externa da frente do cemitério velhos pés de plátanos devam o ar sóbrio e melancólico daquele lugar. Embora eu fosse muito pequena, tinha uma tarefa muito importante, a de carregar água com o jarro de alumínio que, especialmente neste dia, saia do banheiro da casa onde ficava guardado, para servir de apoio no ritual de organizar as flores em cada vaso ou floreira sobre os túmulos. Usávamos o jarro para colocar bastante água nos vasos, com água abundante tinha-se a sensação de que as flores perdurariam por mais tempo. Eu ia e voltava várias vezes até a torneira que se localizava logo à direita do portão, contra o muro do cemitério. Nunca o enchia totalmente por causa do peso do jarro, sorte também que o jazigo da família ficava bem à esquerda, próximo da entrada do cemitério. Além dos vasos sobre os túmulos, colocávamos flores nos vasos fixados no chão, sempre aos pés do ente querido. 

Alguns dias antes do dia de finados, vó Cinda e minha mãe, às vezes com ajuda da tia Maria, iam ao cemitério para fazer uma limpeza, afinal encher os vasos de flores sem uma boa limpeza era como se ter um descuido inaceitável com os mortos, e todo ano elas cumpriam com esta tarefa. Distribuíam flores por outros jazigos: todos ganhavam flores, os parentes e amigos próximos recebiam pequenos buquês como uma lembrança de que não eram esquecidos, pelo menos naquele dia dedicado a eles. Voltávamos antes do meio-dia para evitar o sol a pico. Invariavelmente o dia era pesado e piorava muito com o maldito vento quente vindo do lado norte, que transformava aquele dia, ainda que colorido pela quantidade de flores, um dia triste de saudades daqueles que já haviam partido.

  

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Tia Jane, para sempre a professora


No quarto da Vó Cinda, Lili sempre escolhia dormir na cama do lado esquerdo, abaixo do quadro de um Jesus melancólico que povoava as suas indagações sobre a vida e sobre o mundo. Encostada na parede azul ficava uma cama cor amarelo claro de ferro, com uma cabeceira vazada com barras arredondadas, parecendo uma grade. A cama tinha lastro de molas e pular sobre ela era a primeira diversão do dia, era meu brinquedo de pula-pula particular. Então, eu me apossava da cama da tia Jane durante os dias da semana, quando ela não estava na fazenda ou quando ela viajava. Nossa divisão da cama respeitava os limites da gentileza familiar, misto de respeito pelos mais velhos e da hospitalidade para a qual éramos educadas. Nestas ocasiões, eu saltava para a cama da direita ou dormia em uma cama improvisada no chão, sobre o tapete de couro em frente ao guarda-roupa da vó Cinda.

Tia Jane nas primeiras lembranças da Lili era uma mulher não muito alta, de cabelos fartos, muito longos, pesados e de uma linda cor castanho escuro. Nela tudo parecia charmoso e de bom gosto. Usava umas tiaras no cabelo, faixas ou lenços com os quais os amarrava em dias de calor. Ela fazia gestos amorosos na mesma intensidade com que usava sua franqueza em apontar o que não gostava e na firmeza em nos corrigir, sobretudo, o nosso modo de falara língua portuguesa. Era a professora que se sobressaia, muitas vezes, mais que a tia. Educava-nos na mesa, no comportamento com os outros e na higiene pessoal.

Todo ano, durante as férias vinham os primos mais velhos passar as férias na casa da fazenda. As tias cuidavam nessa época do ano de fazer grandes mudanças e faxinas. E para nos manter ocupados, sobretudo os menores, nos convocavam para tarefas rotineiras: ajudar com retirada de uma montanha de lixo, um amontoado de muitas folhas dos cinamomos, depois de varrido, o pátio fica impecável. Lavar copos e arrumar a mesa, tarefa solitária da Lili, por ser a única menina na casa grande parte do ano, pois as atribuições do chamado mundo feminino eram todas pra mim. Com a Tia Jane arrumávamos o jardim, seguindo o capricho com as formas e alinhamentos que ela determinava, tudo tinha uma simetria, como a distribuição das mudas de amor-perfeito e cravinas nos canteiros, circundando o pé de roseira ou do jasmim, que ficavam centralizados e adornados por outras flores. Ela primava pela ordem caprichosa das coisas do mesmo modo que vigiava a concordância nominal e verbal da nossa fala.

Nestes dias de férias, tia Jane não deixava escapar os erros de português da gurizada, alguns alunos dela no Colégio Estadual. O gosto pelas combinações se sobressaia no modo com que seguidamente rearranjava os quadrados de tecido com crochê para montar uma colcha que minha vó confeccionava. Nestes momentos, durante as conversas,  ela aproveitava para também fazer adequações linguísticas na fala da vó Cinda. Explicava a ela que agora com a circulação de ônibus intermunicipais, passando na estrada em frente à fazenda, não se poderia dizer que a pessoa apeava do ônibus, e com  seu ar professoral, insistia: mãe se diz "desembarca". Minha vó seguindo à risca a aula dada pela tia Jane, um dia quando um compadre apareceu à cavalo para fazer uma breve visita à fazenda, minha vó correu imediatamente para recebê-lo, e no apuro de ser gentil, dizia: "desembarque, desembarque".

O cuidado com as formas era repetido na hora de picar as frutas para famosa salada de frutas, tradicional sobremesa do dia primeiro ano. Ela cortava as frutas e revisava o corte dos pedaços, buscando a delicadeza harmoniosa dos tamanhos. Por esta razão, os mais velhos lembravam como ela tinha manias da tia Dina, tia da minha vó Cinda, dado o hábito dessa tia de picar batatas ou mandiocas em quadrados similares. Deste zelo com a harmonia das coisas, tia Jane também instituiu na Torta de Nescau como uma nova sobremesa de fim de ano e, ainda, para essa e outras ocasiões de reunião familiar, o creme de camadinhas: uma camada de gelatina, uma de creme inglês e, por último, a camada de merengada. Na culinária fazia poucas coisas, mas se esmerava pela apresentação do prato, por isso o creme de camadinhas era colocado em cremeiras individuais transparentes, decoradas com círculos coloridos, que se confundiam com as camadas do creme. 

Lili via nela um jeito de ser elegante e charmoso, era o estilo de uma professora de francês, já que ministrava também língua francesa na escola, reproduzido no modo de vestir: vestidos retos e discretos, conjuntos de casacos e calças combinando, de cores variadas e muito bem ajustados ao corpo pequeno. Usava batom de cores alaranjadas e rosadas, que passava até para ir na farmácia do meu tio, poucos metros de distância da casa onde morava na cidade. No seu guarda-roupa havia uma prateleira cheia de sapatos mocassim com salto médio de madeira, ela usava uma cartela de cores desses sapatos: preto, azul-marino, marrom, vermelho, verde escuro, bege, amarelo... cores que ainda vivem nas memórias de Lili. 

Era uma mulher de beleza diferente, com um nariz adunco que não combinava com a doçura do seu sorriso, porém combinava perfeitamente com a franqueza habitual como expressava suas opiniões. Tinha lá suas implicâncias, e um desejo permanente de ver tudo bonito. Era uma personalidade que de fato gostava de ser quem era, nesta certeza, solicitou mudança do nome que constava na certidão de nascimento. O cartório havia registrado como seu nome: Janiz, mas ela se reconhecia como Jane. O jeito didático como ordenava o seu mundo, suas aulas, seu trabalho docente, era um estilo de ser. Inspiração que Lili carregou consigo e que certamente transformou a escola em um sonho ainda maior para sua vida de menina do campo.

 




sábado, 3 de outubro de 2020

Doces de tacho e linguiças campeiras


Na primeira luz penetrando nas frestas da janela do quarto, anunciando o amanhecer, vó Cinda já estava em pé e vestida para o dia de carneação, de lenço na cabeça e, sobre a roupa, um avental feito por ela. Muito cedo da manhã já estava sentada numa cadeira, posicionada na altura de uma mesa improvisada, para que pudesse picar toda a carne para as linguiças. Apoiava uma tábua retangular sobre uma grande gamela e começava sua tarefa, sempre com muita destreza e rapidez, cortava uns bons quilos de carne de gado e de porco que, mais tarde, minha mãe daria forma para as linguiças. Neste dia, Lili realizava pequenos auxílios junto às mulheres da casa no trabalho do dia: cozinhar carnes, separar as misturas, preencher as tripas para fazer vários embutidos, pois se aproveitava tudo que fosse possível das carnes e entranhas do porco.

Meu meu pai controlava o fogo de chão com as lenhas trazidas pelo Vergilino para derreter a gordura das carnes em um grande caldeirão, que ele cedo da manhã já havia separado das carnes do porco, para transformá-las na banha que usaríamos para cozinhar. Em um panela de ferro menor, ele cozinhava as carnes para minha mãe fazer patê, morcilha, queijo de porco, também preparava um espeto para assar a primeira linguiça, um aperitivo para todos os envolvidos naquele trabalho. Quando minha mãe iniciava o preenchimento das tripas para fazer as linguiças, eu corria em direção ao arvoredo velho, passava pelo portão da área do tanque e arrancava alguns espinhos do limoeiro, que se localizava logo atrás de dois pés de butiá na lateral da casa. Os espinhos serviam para fazer pequenos furos nas linguiças, tirando o ar que ficava dentro delas. 

Nesse dia, almoçávamos todos em volta daquela mesa cheia de pedaços de carne, tiras com pele e banha, linguiças, gamelas, bacias, máquina de moer carne, muitas facas, que vez e outra meu pai vinha afiar para minha avó e minha mãe. Banha distribuída nas latas, queijo de porco na prensa, torresmo também guardado em uma lata, tripas cheias de patê pronto para o consumo, acomodados numa fôrma, morcilha quente numa panela, era então a vez de pendurar as linguiças numa longa vara de taquara, suspensa e amarrada com arames que a seguravam desde o teto do grande galpão, o da garagem da charrete amarela. Ali as linguiças arejavam, secavam e era retiradas para o consumo, prontas para fazer com arroz, o famoso prato chamado de "arroz de china pobre".     

Outro dia de trabalho conjunto e com ar de festa, era o dia de fazer doce de tacho. No inverno fazíamos as linguiças por conta da temperatura, o frio era mais adequado para mexer com carnes, ainda mais em tempos de falta de luz elétrica. E no verão, por conta da estação das frutas, se fazia muito doce de tacho, inclusive para guardar para o inverno. Um dia se fazia uma tachada de pessegada e perada, outra de figada ou de goiabada. Na parte do fundo do pátio dos cavalos, debaixo da sombra das árvores, Vergilino providenciava um fogo, uma trempe de ferro, uma tábua de proteção para quem mexia o tacho, para evitar o excesso de calor. 

Enquanto minha mãe e minha vó Cinda terminavam de descascar as frutas, picá-las e passá-las na máquina de moer para fazer uma massa, debaixo da parreira, Vergilino apoiava o tacho grande de cobre sobre a borda do poço e passava limão e sal para limpá-lo. Também se usava um tacho menor de cobre para doces de calda como os de abóbora e figo ou para, com as sobras dos caroços e das cascas das frutas, fazer um caldo que depois se usava para fazer deliciosas geleias.

Minha mãe trazia uma bacia grande com a massa das frutas, media o açúcar e colocava a massa no tacho. Depois de cozinhar a massa da fruta, o doce iniciava a apurar e aí era preciso muita agilidade com a longa pá de madeira para não queimar e cuidar muito de proteger as pernas do doce quente borbulhando e saltando para fora do tacho. No inverno ou nos dias de chuva, meu pai auxiliava mexer o doce no tacho, pois a grande quantidade de massa ficava pesada e ele então socorria as mulheres da casa.

Lili limpava as caixas retangulares de madeira, depois recortava um papel celofone e o colocava no fundo e nas laterais e as deixava sobre uma mesa para colocarem o doce pronto. Quando se retirava a massa do tacho para encher as caixas, sempre sobrava no fundo do grande tacho uma rapa de doce assim como sobrava pedaços da massa na parte mais larga da pá. A melhor porção do doce sempre estava ali, naquela rapa do tacho e na bordas da pá, muito disputada por toda criançada da casa. Em março, quando iniciava a escola, colocávamos fatias de pessegada, perada, figada no meio do pão e já tínhamos nossa merenda. Sabores doces da vida da Lili no campo. 



sábado, 19 de setembro de 2020

O dia de fazer o pão


Na saída da porta da cozinha, na casa da fazenda, havia uma área coberta que permitia ir à dispensa para buscar o que era necessário para cozinhar: panelas, formas, farinha, açúcar entre outras tantas coisas guardadas naquela peça, onde também se preparavam as massas de pão, biscoitos, bolachas. Nessa área coberta tinha um tanque, uma pia, a tália de barro encaixada em um suporte de madeira, com latas de azeite com alças de arame colocadas, propositalmente, na borda da madeira do suporte para aqueles que quisessem beber a água fresca do poço, pois a tália era abastecida pelo Vergilino várias vezes ao dia. Em frente à tália ficava a caixa da lenha de cor cinza claro, transformada em o banco preferido do Vergilino enquanto ele aguardava o almoço. Ela também era o lugar onde eu sentava no dia de fazer pão e batia as claras em neve, em uma bacia grande de barro, para pão de ló que a vó Cinda assaria mais tarde. Ali também, algumas vezes, me colocavam a bater gemada para um bolo ou bater a nata do leite tirado nas ordenhas da semana e que era recolhida até ter quantidade suficiente para fazer uma boa manteiga. Pequenas tarefas e grandes aprendizados de Lili.

O dia de fazer o pão era dia de agitação, de muito alvoroço desde das primeiras horas da manhã, a começar pelo ponto do calor do grande forno, que era preparado desde cedo para que, na virada do meio-dia, estivesse no ponto para assar os pães. Se o dia fosse de vento norte minha mãe e minha vó tomavam o ritmo desembestado do vento, os humores era sentidos de longe e pelo tanto que o Vergilino resmungava enquanto preparava a lenha e cuidava de manter o fogo e as brasas para aquecer o forno, sendo requisitado a toda hora por elas. 

O forno se localizava na área ao lado da dispensa, bem no fundo da área coberta, à esquerda desta área havia duas macieiras, uma folhagem de flores roxas contra parede lateral do forno e, na parte detrás, pé de hortênsias frondosos, em cores que iam do rosa claro ao azul intenso. Na outra lateral do forno havia um estreito corredor, onde se depositavam as lenhas cortadas para o fogão da cozinha e pedaços de lenha maiores e mais grossos para o forno grande. Nesse espaço havia também uma mesa de madeira já bem gasta e um banco comprido, naquela mesa as crianças almoçavam no verão em dia de casa cheia, ou era usada por convidados, como vizinhos e parentes, em dia serviço de campo. No dia de fazer pão, sobre a mesa ficavam as fôrmas, feitas artesanalmente de latas, já prontas com os pães, aguardando a hora de irem para o forno, e também as gamelas para colocá-los depois de assados. 

O pão era feito na sexta-feira, quando havia algum imprevisto, no sábado. Cedo da manhã minha mãe vinha de casa, entrava pela entrada do tanque e se dirija à dispensa para preparar o fermento, ou já o trazia preparado de casa, e iniciava a fazer, e depois sovar, as massas. Enquanto a massa do pão crescia, ela providenciava a massa das roscas de nata e a vó Cinda preparava a massa do pão de milho. Esse pão de milho era uma massa mole, quase uma polenta, colocada com uma concha sobre a fôrma, depois de assado ficava com aparência de um bolachão. Era o pão para os empregados, além de mais nutritivo, durava mais. Lili era requisitada para ajudar fechar as roscas de nata com as pontas dos dedos e levar as fôrmas para colocar sobre a mesa da casa do forno. Minha mãe fazia também biscoitos com a mesma massa do pão, que o pessoal da casa consumia logo que saia do forno, o famoso pão quentinho para o café da tarde. Ela ainda preparava pãezinhos especiais para as crianças com formatos de bichinhos, decorados com olhos de feijão: pombinhas, lagartos, corujas. As roscas, biscoitos e o pão de ló, cortado em quadradinhos e torrado, se guardava nas latas decoradas com figuras de passarinhos sobre um fundo branco e adornadas lindamente com tampas vermelhas. As latas ficavam guardadas no armário azul calipso localizado na passagem da cozinha para quarto da vó Cinda. 

Lili se deliciava com queijo, mel e o pão caseiro na casa da vó Xiruca. Na porta dos fundos da cozinha, havia um forno que lembrava o modelo da casa dos esquimós. Ele ficava bem alto do chão, porque eu não alcança, parecia pequeno, mas vó Xiruca fazia nele os pães para alimentar sua numerosa família. Como lá na casa da vó Cinda, na casa da Vó Xiruca também se fazia outras massas, como as das roscas de leite em um formato em que a massa era de uma rosca torcida, eram macias e crocantes ao mesmo tempo. Guardei o sabor desta receita no meu paladar para sempre. 

Já as roscas de nata da minha mãe eram doces e quando se mordia elas esfarelavam na boca de tão macias, ideais para acompanhar um chá ou um café, feitas com: uma xícara de nata, duas xícaras de açúcar, um ovo, uma pitada de sal, uma colher de manteiga, uma colher de chá de sal amoníaco e farinha até dar o ponto de modelar as roscas. Essa receita traz um aroma adocicado daquelas tardes em que transformávamos a dispensa e casa do forno em uma padaria, pães para o café da manhã do pessoal da casa, para nós lá de casa e para a vó Cinda. O pão de ló, os biscoitos e roscas para as visitas e o pão de milho para os empregados. Todos saboreavam as delícias daquelas fornadas semanais, do dia de fazer o pão.   



 



     

sábado, 12 de setembro de 2020

Maria baila um xote

Sentada na lateral da mesa, Lili desenhava paisagens sob a luz do Aladin, o lampião à querosene que iluminava a cozinha. No entanto, para olhar bem dentro das panelas sobre o fogão à lenha, era preciso segurar um castiçal com uma vela branca um pouco mais que altura do peito, para ter uma maior claridade e analisar o ponto da comida, nosso jantar que fumegava no calor do fogão. Maria começava o jantar ouvindo o programa de músicas gaúchas na rádio Jaguari, no horário do final da tarde, antes do programa Voz do Brasil. Assoviava uns trechos de alguma vanera ou um xote, pois a música tornava a tarefa de fazer o jantar um evento, principalmente, quando estávamos em poucas pessoas na casa e jantávamos todos na mesa da cozinha. Maria sentia-se acompanhada e integrada aos demais que faziam seus afazeres em volta da mesa: Lili desenhava seu mundo de cenas da vida no campo, vó Cinda fazia o seu crochê e o Vergilino escolhia o feijão para o almoço do dia seguinte. Quando estava mais animada, por algum trago que tomava às escondidas, Maria bailava pela cozinha, me puxava de onde eu estava sentada e bailava comigo, sem deixar de dar umas gargalhadas ao ver que eu não conseguia acompanhá-la. A bebida soltava-lhe o pudor e a condição de empregada ficava-lhe menos definida.

Maria era um mulher magra, de cabelos curtos e crespos, nariz achatado e uma pele com os poros cheios de cravos, quando caminhava parecia levitar, era ligeira e risonha, mas eram as gargalhadas sua marca registrada. Elas eram reconhecidas de longe, pois achava graça das nossas brincadeiras, das nossas brigas e das nossas invenções. Sabendo do espantada que ela era, preparávamos várias formas de assustá-la, como colar um lençol branco por cima e fingir ser um fantasma. Em silêncio e no escuro, escondidos no último quarto da casa, lá no final do longo corredor, começávamos a chamá-la, ela corria para nos atender e ao abrir a porta aquele que estava vestido com lençol se atirava sobre ela. Maria dava um grito ensurdecedor e depois desatava a dar risadas e nos chamar de medonhos. 

No inverno Maria fazia bolinho de chuva enquanto jogávamos uma partida de canastra ou dorminhoco. De vez em quando chegava perto da mesa da sala de jantar para espiar o que fazíamos, dava uma olhada no jogo, dava uma provocada com o jogo de cada um, e soltava mais uma boa gargalhada com as nossas respostas. Ela se dava tempo para nos apreciar, parecia não ter pressa de terminar com a pilha da louça do almoço ainda sobre a pia da cozinha. 

Muitos domingos da minha infância assim como dos meus irmãos e primos eram programados pela Maria em mais aventura, o que incluía um acampamento com direito a passar o dia no meio do mato, entre pitangueiras e maricás, uma pescaria no açude do campo das vacas mansas, um piquenique durante as tardes de domingo, regado a bolo, k-suco ou um empadão que ela preparava especialmente para a ocasião. Uma vez Maria nos levou até o córrego na saída do açude grande, a água descia por baixo de uma ponte de madeira, pois a estrada ainda não era asfaltada, ali se pescava lambaris e se podia correr atrás das preás que se escondiam no matagal. A gente podia pescar no alto da ponte, sob vigilância dela, que cuidava dos carros. Enquanto não avistava os carros vindo pela estrada, ela bailava sobre a ponte e cantava o xote laranjeira, sua música preferida, rodava feliz com sua saia plissada cor de rosa já bem desbotada. Ela se divertia conosco fazendo aquelas tardes de domingo mais intensas e inesquecíveis.

Maria me ensinou os primeiros pontos de tricô, me auxiliava cada vez que eu caia no choro porque perdia os pontos na agulha e o tricô ia se desmanchando. Uma noite, cansada e sem saber onde iria dormir com a casa lotada de gente, adormeci na cama dela, ao levantar vi que havíamos dormido uma para o lado da cabeceira da cama e a outra para lado dos pés. Ela dava um jeito de eu não voltar para casa dos meus pais, porque queria seguir ali na casa da Vó Cinda, com as tias e os primos. 

Mas Maria não só nos alegrava com os passeios domingueiros, ela criava receitas, algumas exóticas para nosso paladar de criança, como omelete com as beldroegas do jardim, vísceras de ovelha empanadas e o doce de geleia de mocotó, comíamos como se fosse uma gelatina de doce de leite. Era especialista em doce de laranja azeda em calda, pudim de leite e carreteiro. Com ela, aprendi comer coalhada com açúcar no café da manhã e arrancar com mãos na lavoura as batatas para sopa da noite. Ensinamentos e sabores que ela nos oferecia como novidade, e assim também nos expandia o paladar.

Uma vez por mês ia visitar seus pais e ver seus filhos, alguns muito pequenos, talvez por esta razão nos oferecia tanto afeto e acolhida. Vi lágrimas nos olhos dela por saudades dos filhos e também por um amor mal resolvido. O vento às vezes me traz o eco das gargalhadas generosas da Maria se divertindo com a gurizada da casa. Se o Vergilino era nosso guardião, a Maria era nossa recreacionista rural, por isso ambos são memórias felizes da Lili. 

domingo, 6 de setembro de 2020

Esconderijos secretos e brincadeiras singelas

Lili aprendeu muito cedo o quanto era divertido se esconder, embora não tivesse noção dos efeitos que essa brincadeira produzia e, com pouco mais de dois anos de idade, descobriu a magia de brincar de esconde-esconde. Minha mãe e minha vó Cinda passaram uma manhã a minha procura, desesperadas com meu sumiço. A ingenuidade da brincadeira provocou muita preocupação, mas lá estava eu espremida atrás da porta de um quarto, achando divertido toda aquela movimentação em busca da Lili.

O fato é que nas minhas memórias mais remotas, a primeira lembrança é a voz alta e brava da vó Cinda, uma lembrança difusa dela me reprendendo à beira do poço do arvoredo. O tal poço era cheio de barro, tinha uma água com um limo verde boiando na superfície, água suja e fétida na qual os porcos se banhavam. Lá estava eu na borda do poço, no meio das macegas, depois de correr incansável atrás de uma galinha com seus pintinhos. O medo da minha vó estava claro no tom de voz, temia que eu caísse naquelas águas imundas do poço do arvoredo. Esta memória vem como um esboço mostrando-me Lili muito pequena, usando um vestido curto, cabelos loiros com cachos nas pontas e um ar de assustada diante da reação da vó Cinda. O medo da minha vó ficou na minha memória na forma de sentimentos de afeto e cuidado. Experimentar e observar o mundo ao meu redor me vinha sempre como um desafio constante, talvez por esta razão eu procurasse esconderijos e lugares inexplorados. 

Quando chegavam as férias de inverno ou de verão, a casa da vó Cinda se enchia de netos, porque ela era em si mesma um aconchego, às vezes ranzinza, mas com uma amorosidade constante nos gestos e no modo de acolher, que se traduzia em doces, pães, jogos de memória, uma coberta estendida sobre nós em uma noite de frio, ou uma conversa na frente da casa depois do jantar enquanto admirávamos as estrelas. Nestas temporadas explorávamos os cantos dos galpões e do arredores da casa para o esconderijo mais secreto e difícil de ser localizado.   

A brincadeira que mais fazíamos reunindo os maiores e os pequenos era esconde-esconde. Ficar atrás de uma das inúmeras portas dos galpões da fazenda já era tarefa fácil para nós. Os maiores tornavam a brincadeira mais desafiante porque subiam nos cinamomos do pátio dos cavalos, ou no jirau, encontravam lugares impossíveis dos pequenos acessarem. A dificuldade dos esconderijos tornava a brincadeira infindável, sempre sobrava alguém para encontrar e lá se ia a tarde toda na espera de encontrar o último escondido. Outra brincadeira, na verdade uma traquinagem, era colocar um balde de água na parte posterior da porta, deixando um vão muito estreito para passar,  alguém empurrava para passar e levava um banho inesperado. A vítima que mais sofria com essa brincadeira era o pobre do Fidêncio, um senhor barrigudo, de meia idade, que usava uns óculos de lentes muito grossas e vestia umas roupas bem surradas. Era um andarilho que de vez em quando aparecia na fazenda carregando uma trouxa de roupas numa vara. Tinha a preguiça no corpo, se oferecia para pequenos serviços em troca de pouso e comida, mas cedo da tarde já estava acomodado num banco na frente da casa, fumando um palheiro e, às vezes, aproveitando um mate com o Vergilino. 

Logo depois da porta do galpão da charrete, que dava para o pátio e a entrada da casa pelos fundos, chegando até a cozinha, havia um barril enorme, provavelmente de um antigo alambique ou das barricas de vinho de Jaguari. Naquele barril se guardava a colheita do feijão e também a de amendoim, como ele nunca ficava totalmente cheio, então servia como um excelente esconderijo, era pular e puxar a tampa pelo lado de dentro, assim dificultávamos a tarefa de localização. Quando chegava a época da esquila das ovelhas, o galpão da charrete servia de depósito para os enormes sacos de juta com os velos da lã tosquiada das ovelhas. A pilha dos sacos formava um imenso colchão macio e o espaço entre eles podia  também se transformar em um bom esconderijo. 

Outras vezes a brincadeira era simplesmente um pega-pega no extenso gramado da frente da casa, ou provocar um carneiro mal humorado que gostava de correr atrás de nós dando marradas na gurizada, uma diversão movida a gargalhadas. Já na casa da vó Xiruca, o meu brinquedo era fugir de um garnizé invocado, cada vez que sapateava perto dele, o bicho corria desesperadamente para me alcançar e bicar minhas pernas. Descobri um dia que minha calça Lee, novidade comprada na Argentina pela tia Jane, era uma excelente armadura contra o garnizé e nunca mais minhas pernas ficaram marcadas pelas bicadas do garnizé.

Das coisas bobas e singelas de que nos ocupavam nas longas férias de verão na casa da Vó Cinda, estava o banho de chuva aproveitando a água que jorrava das calhas nos cantos do telhado da casa, era uma disputa feita no jogo de empurrões, um banho refrescante, dava-nos um gosto de liberdade indescritível. Também tínhamos tardes de jogo de bolita no chão batido debaixo dos cinamomos. Ao entardecer, o sol descia sobre cerro do Loreto nas bandas do oeste, o calor ia diminuindo, era hora de organizarmos um jogo de caçador e assim cada eliminado passava então ocupar uma ordem na fila do banho. A noite caia e no corredor da casa, com toalha e roupa para trocar nos braços, esperávamos a nossa vez do banho. Depois da janta, ainda tínhamos energia para um jogo de víspora e, já esgotados pelo dia de brincadeiras, caíamos fatigados na cama, em mais um dia de férias felizes no campo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

As águas em que nos banhávamos

Uma das melhores diversões, e privilégio da infância no campo, é tomar um bom banho em um açude ou em um rio. As águas em que nos banhávamos não só nos refrescavam no verão como ajudavam a transformar nossa energia uma calmaria, sobretudo, no final da tarde. A ida ao rio Jaguari ou um banho no grande açude do campo de cima era um prêmio pelo nosso bom comportamento e também uma recompensa pelo cumprimento das tarefas que as tias nos delegavam: varrer o pátio, ajudar colocar o lixo no carro de mão, auxiliar na faxina do galpão, colaborar com a limpeza do jardim. Na casa da vó Cinda a ida ao açude dependia da disposição da tia Nira, que se aventurava a levar uma turma de pirralhos para se banhar. A partir do meio da tarde, a cada meia hora, lá estávamos nós em volta dela que, pacientemente, nos ouvia e seguia pedalando na máquina de costura. Quando ela dava o sinal de que estava na hora, era uma corrida para colocar a roupa de banho, providenciar toalha e sabonete, roupa para trocar, pois já saíamos do açude com o banho do dia cumprido.

Lili sempre teve medo das águas barrentas do açude, principalmente, na temporada das sanguessugas. Muitas vezes saíamos do açude com as sanguessugas grudadas nas pernas e só conseguíamos tirar em casa, onde então alguém colocava algo quente para que elas se soltassem dos nossos pés e pernas. Lili se enojava com elas, não se aventurava muito para dentro do açude. Momento pior que esse só o das brincadeiras dos guris mais crescidinhos que me puxavam pelas pernas por baixo da água, para terem o prazer de assistir o meu desespero. O famoso caldinho era uma brincadeira típica dos guris, desafiando-se entre si. Para gerenciar a gurizada, a tia Nira colocava limites de horário para o retorno para casa e estipulava a distância até onde podíamos avançar na água, na maioria das vezes ela nem entrava no açude, sentava para fumar e nos cuidar. Na parte mais alta, antes da chegada à beirada do açude, havia um velho eucalipto onde deixávamos as roupas, e sempre tinha um cusco para vigiar as vacas e as roupas. Antes de voltar para casa, caminhávamos sobre a larga e alta taipa do açude, de lá podíamos apreciar um belo pôr do sol. 

Este grande açude, que muitos chamavam de barragem por causa do tamanho e da profundidade, servia para irrigar as lavouras e para matar a sede do gado. Porém, no início dos anos setenta, a finalidade mais importante que ele ganhou foi fornecer a água, que movida por uma roda vermelha de metal, era bombeada para os canos que chegavam até à casa da fazenda,  abastecendo, assim, uma caixa que possibilitava termos água nas torneiras e no chuveiro. A instalação deste sistema com uma roda mobilizou o pessoal da casa, dos grandes aos pequenos, uma engenharia pensada pelo tio Cláudio, sempre atento e disposto a ter alguma solução que melhorasse as condições da casa da fazenda. Minha vó Cinda não cabia em si de tão faceira, pois era um conforto do qual finalmente poderia usufruir.  

Lá na vó Xiruca este conforto ela nem desfrutou. O açude fornecia a água para quase tudo, ele se estendia ao longo da entrada da chácara, pela taipa se acessava à casa. Era bonita aquela estradinha da entrada contornando o açude, imprimia um ar bucólico que só a vida no campo nos permite vislumbrar. Era um açude que tinha formato de lago, com seus patos e marrecos nadando tranquilamente. Ali a família se banhava no verão e minha vó Xiruca lavava trouxas de roupas. Nunca tomei banho no açude dos patos, porque os medos de Lili não me deixavam arriscar.

Os dias de passeio no rio Jaguari, na altura do Passo dos Vidais, despertava nossa tagarelice e nossa alegria se espalhava pela casa. Lá íamos nós na kombi bicolor cinza-escuro e branca do tio Cláudio, cheia de crianças ansiosas por um mergulho no rio. Corríamos para preparar o passeio, roupas, toalhas, chinelos, um pão ou um bolo, bolachas, afinal a água nos deixava cansados e famintos, ou então levávamos umas melancias, que pegávamos no tabuleiro na beira da estrada onde meu pai as vendia. 

A estrada do Passo dos Vidais até rio Jaguari era de chão batido e com muita areia, ao longo do caminho se avistavam as moradas de alguns parentes, a escolinha, chácaras e lavouras até a entrada no mato. Já dentro do mato uma clareira onde haviam umas duas casas de veraneio e uns banheiros que a prefeitura construiu. Claro, na temporada de férias de verão, o balneário se enchia de acampamentos, acomodados debaixo de árvores frondosas. Para chegar até à água era preciso descer uma rampa, pois o barranco era muito alto pelo lado que acessávamos o rio. A melhor parte de ficar no rio era uma ilha de areia com uns poucos maricás, quase na margem oposta, por isso era preciso cruzá-lo, cuidando de tomar o caminho menos fundo do rio. Os pequenos atravessavam enganchados nos braços dos grandes ou no colo. Nas areias mornas brincávamos, jogávamos bola e podíamos entrar e sair da água na parte mais rasa. Dizem que quando Lili era muito pequena mergulhou toda cabeça em um buraco de água nas margens do rio e foi resgatada rapidamente pelo tio Cláudio, que não desviava o olho na vigilância sobre os pequenos. Meu pai e minha só nos autorizam a ir ao rio se ele fosse o responsável, tal era a confiança nos seus cuidados. 

 O banho no rio Jaguari era uma grande aventura, melhor que a ida nas tardes de domingo, era passar o dia todo no rio, com um churrasco, um carreteiro, milho assado e refrigerante para o almoço. No intervalo, entre os banhos da manhã e da tarde, aproveitávamos para explorar as imediações da mata e brincar com as crianças das famílias dos veranistas acampados no Passo dos Vidais. Depois de já estarmos com os dedos murchos de tanto tempo de molho nas águas do rio, nos reuníamos debaixo de uma árvore e partíamos as melancias. Ao entardecer, quando os mosquitos começavam a nos atacar, regressávamos felizes e exaustos do banho de rio.



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