domingo, 17 de dezembro de 2023

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pontos cardeais: norte, sul, leste e oeste, tal costuma ser na cidade grande. Sabe-se o lado por onde o sol se levanta e por onde ele se põe e isso basta. A gente toma o rumo conforme o que está determinado como referência, bem informada pela boca do povo. Todo mundo sabe dizer por onde se vai, uso um gesto, um detalhe, que são quase sempre reconhecidos pelos moradores, pode ser de um lugar, uma morada, uma pessoa, um acidente geográfico. 

Para sair da cidade e entrar nas larguezas do município, seguem-se outras indicações, pois as distâncias são curtas entre o que é cidade e o que já é campo, só perceptíveis pela mudança na paisagem. A periferia tem jeito rural, há vastos terrenos baldios entre as casas, que vão se distanciando umas das outras e as moradas são, na verdade, nada mais do que pequenas chácaras. Era como eu sentia e via o mapa da minha cidade.

Na cidade da Lili, todo mundo sabia qual era a direção que um vicentense tomava quando ia para as bandas do arroio do Cuchá, lugar preferido dos guris para um bom banho no verão. Para se chegar até lá, havia dois caminhos: uma caminhada seguindo pela rua lateral da escola, passando pela famosa "zona", local da conhecida casa de prostituição da cidade, por ali, ia-se cortando os terrenos até avistar o arroio. O outro acesso, era pela rua do hospital, passado pela curva da rua, seguindo bem além da casa do tio Niquinho, carpinteiro irmão do meu avô. Por este trajeto, dava-se uma boa puxada de pernas, sobretudo, vindo do centro. Valia à pena a longa caminhada para era alcançar o paraíso daquele frescor que só as águas do Cuchá proporcionavam. Lili, do jardim da casa da vó Xiruca, suspirava ansiosamente pelo dia em que seria liberada para essa caminhada, enquanto avistava um grupo de meninos descendo a rua, mas ela estava proibida de fazer tal aventura, havia muitos mistérios inexplicáveis sobre o arroio do Cuchá. Para aqueles lados, girando à esquerda, havia uma escola Brizoleta, ao lado da propriedade de uma família Lutz. Também para aquelas bandas se chegava à localidade da Timbaúva. 

Caso a gente fosse para as bandas da cooperativa, ou se mais perto, se dizia "depois da curva do cemitério", "na esquina do bolicho do Nelson Lima"; a cada tanto, tinha-se novas referências de locais, podia ser rumo ao Agrícola ou à fazenda do Sobrado. Mais adiante por estradas arenosas encontrava-se o rio Umbú. Para o mesmo lado, tomando à direita seguia-se para o Loreto, o conhecido, singular e majestoso cerro símbolo do município. Se o caminho escolhido fosse para as bandas do Grenal, o famoso salão de baile, se estava nas proximidades da igreja Luterana e da Escola Coqueiros, já quase chegando na estrada que se saia para Santa Maria. Em linha reta seguia-se pela estradinha de chão batido até a Vila Clara, há poucos metros havia uma curva para esquerda, por onde se alcançava o distrito do  Cavajuretã.

Se girasse mais ao norte, se ia rumo a Jaguari, passando lá pela vó Cinda. Meu pai ia e vinha de charrete da nossa morada, trilhando a rota do arroio do Salso, contornando pela lateral da avenida de eucaliptos que ornamentava e dava sombra para a Cancha, onde aconteciam as carreiras de cavalos, diversão dominical. Passando por ali, se cruzava pela Vila Carapé, primeira vila organizada do município.

A vila Carapé foi a primeira que conheci. Quando minha mãe visitava a madrinha Mimosa, da esquina eu podia espiar as casas distribuídas lado a lado, todas com o mesmo desenho arquitetônico. Eram casas populares, coloridas, a cor diferente dava individualidade a cada uma. Entre elas havia uma escola, no mesmo modelo da escolinha lá para os lados da minha avó Xiruca. Em cada região, na saída do perímetro urbano, em seguida se avistada uma Brizoleta, assim eram chamadas as escolas rurais, pois foram construídas por meio de um projeto de acesso à educação na época em que o Brizola foi governador.

O nome Carapé homenageava o cacique e depois capitão mor Carapé, índio que auxiliou na organização da estância São Vicente Ferrer, que fornecia gado e cavalos para as demais estâncias jesuíticas das Missões. A primeira ocupação foi de um general paraguaio, assessorado por Carapé. Dizem que Carapé retornou depois do fim das Reduções e colaborou com o desenvolvimento da primeira aldeia. No local onde se ergueu a Vila Carapé, ao escavarem o terreno para a construção das casas, dizem que encontraram artefatos dos indígenas, os primeiros moradores do município. 

Lili apreciava o nome Carapé, parecia sonoro e único, talvez porque ao passar pelos cinamomos em frente à prefeitura, na rua Carapé, pensava que só existíamos como município porque um certo índio capitão organizou a aldeia, que virou vila e que depois virou município. Carapé significa uma pequena ave, que por estas terras se agigantou.

domingo, 10 de setembro de 2023

O poço


Os festejos do dia da independência naqueles tempos de militares na presidência do país se comemoravam com desfiles cívicos, pois não tínhamos unidades do exército na cidade. A banda da escola se encarregava de tocar as marchas que davam o tom no andar dos pelotões sobre o calçamento com paralepípedos. Formados pelos estudantes das escolas do município, os pelotões seguiam o rtmo da banda, quando parava os acordeas da marcha, a banda se posicionava em retirada e seguia tocando músicas do repertório clássico brasileiro. Este era de fato o momento festivo, balançavamos os corpo e mexiamos as pernas em movimentos de dança para celebrar  A cidade parecia tão populosa, enchia de gente por todos os lados, as pessoas tomavam o dia com solenidade, com uma boa dose de devoção à pátria, muito bem construída pelo o que se aprendia principalmente na escola.

Durante semanas preparávamos nossa participação na famosa hora cívica. Tarefa que incluía, antes de iniciar a aula, ensaiar o hino nacional e saber hastear bem a bandeira. No dia destinado à nossa turma apresentávamos cenas da história brasileira, narradas na forma de jogral, enaltecendo certas figuras que nos diziam ser heróis do nosso país. A praça em todo seu entorno estava enfeitada com bandeirinhas, agitadas com entusiasmo pelas pessoas. E sempre, quase sempre, soprava aquele vento norte morno, já anunciando a primavera, enquanto uma autoridade fazia um discurso interminável. A tarde findava e, exaustos, só desejávamos uma bebida gelada, um picolé ou um sorvete.

Em um desses desfiles chegamos ao nosso limite de espera e cansaço, nossa colega Jeane caiu feito fruta madura junto aos meus pés e eu pensava: que aniversário que ela está tendo. O calor insuportável das primeiras horas da tarde provocou desmaios na gurizada, aguardávamos enfileirados sob o bafo que levantava das pedras do calçamento. A gente contava os minutos para o final, na expectativa da ouvir a ordem de "desmanchar pelotão" a ser dada pelo professor de educação física. Ele organizava os pelotões, era mais um soldado entre os professores nos comandando e nos vigiando. Cada autoridade, do padre ao prefeito, queria discursar e o palanque ficava abarrotado de figuras ilustres. Nosso alívio eram as piadinhas dos guris, as risadas das gurias, as provocações e os olhares trocados entre os colegas nas diferentes filas que formavam aqueles pelotões: um por ano escolar.  

Lili mal se livrava daquele momento torturante e corria para se aglomerar junto às colegas. A praça estava florida e movimentada, logo nos acomodávamos em um banco para repassar os acontecimentos do dia, algo inesperado sempre acontecia, algo que havia saído do controle dos professores. De tudo que se contava, se gargalhava. Afinal, dever cumprido, o resto do dia estava por nossa conta.

Depois da janta, dependendo do humor da minha mãe, ou se ela decidia dar uma passada na casa da tia Maria, Lili podia encontrar as amigas na praça outra vez. Nosso ponto de encontro era o poço, localizado entre a Igreja e o Coreto. O poço naquela época servia como referência, lugar de encontros de todo tipo. Muitas vezes a gente chegava e ele já estava ocupado por um casal de namorados ou por alguma família reunida de cochicho com algum parente, com certeza o poço era um local bem disputado. Confesso que não o via como um bom lugar para namorar, pois ficava exatamente no caminho que as carolas percorriam para achegar à igreja. E se houvesse anoitecido, no retorno delas da igreja, piorava muito a situação dos apreciadores românticos do poço, pois, coincidência ou não, as mais conhecidas tinham o mau hábito de também comentar maliciosamente a vida alheia. 

No círculo ladrilhado com pedras rosadas e brancas que contornava o coreto haviam bancos de concreto. No verão ficavam lotados, as pessoas costumavam ir à praça tomar a fresca da noite. As luminárias brancas enfeitavam o canteiro central e deixavam o coreto mais majestoso. Aquela luz difusa e amarelada também incidia sobre o poço, favorecendo a intimidade entre os namorados. A antiga construção feita para abastecer o povoado de água não funcionava mais para tal fim. Mas o poço seguia no caminho para igreja, de frente para o coreto; tornou-se há muito tempo o pano de fundo para fotografias de famílias, amigos, namorados. Ele também não perdeu sua magia como ponto de referência, uma vez que outra Lili imaginava um encontro no poço, com um namorado que ainda não tinha.             


       

domingo, 25 de junho de 2023

A banca de revistas

Buscar o pão para o café da tarde, momento sagrado de se alimentar para minha mãe, seguia sendo tarefa diária de Lili. Quatro quadras de caminhada interrompida pelas minhas paradas de observação e de conversa solta com os conhecidos. Eu era um grilo falante e um poço fundo de curiosidade pela vida, pelo mundo e pela história das pessoas. O fascínio pelas revistas me fazia perder a noção do tempo na banca na esquina da praça, agora sob comando do Candinho. 

Aquela pequena casa de madeira mudava de cor e de dono, mas mantinha sua importância para a movimentação da cidade. Chegavam os jornais, as revistas mensais e semanais, as novidades em álbuns para colecionadores e novas guloseimas do mercado. Aquela esquina da praça tinha seu lugar no coração de muitos moradores, ponto de referência para uma conversa, um negócio, ou apenas uma distração.  

Eu me deliciava com as novidades anunciadas nas capas da revistas, juntava as moedas do troco do pão por semanas até conseguir comprar uma Grande Hotel, famosa revista de fotonovelas. Elas povoavam a minha imaginação, muito mais pelo enredo do que pelo romantismo insinuado nas fotos e nos diálogos dos protagonistas.

A televisão preto e branca tornou-se um grande lazer para minha mãe, as novelas davam a ela a possibilidade de imaginar um mundo que não tinha. Deu um frescor à sua vida urbana, reavivou seu gosto pelas novelas, iniciado nos tempos das novelas de rádio, que ouvia antes de ter casa, filhos, bichos e um marido para cuidar. A televisão e as novelas eram uma trégua na vida dura que a esperava cada vez que voltava para nossa casa no campo. Já eu, havia adicionado ao hábito de ver as novelas com ela, o de ler fotonovelas.

Lili alimentava muitos sonhos através das novelas, desde quando acompanhava a vó Cinda assistindo Mulheres de Areia. Lili hipotetizava o que iria se desenrolar nos próximos capítulos, ansiava pelo horário em que se iniciava a sequência de novelas na televisão, das 18 horas às 23 horas. Aguardava tia Jane voltar da escola, tarde da noite, para ver os delírios dos personagens fantásticos de Saramandaia, tão diferentes, cheios de poderes que só a ficção possibilitava. O universo imaginado por Lili se nutria de histórias, ia ficando cada vez mais vasto, inalcansável. Nele, ela mergulhava absoluta e dava rumos para sua vida futura, decolava daquela pequena cidade para o mundo.  

Meus irmãos frequentavam a banca do Candinho para comprar figurinhas para os álbuns: de animais, de lugares desconhecidos e os de seleções e de times de futebol. E claro, semanalmente, meu pai comprava pacotes de cigarros. Quando sobrava uns trocados da compra da revista, eu me presenteava e me deliciava com um bombom beijo de moça. A banca oferecia um mundo de diversão: jornais, revistas, doces, figurinhas, cigarros. Estar no meio do meu caminho na ida à padaria, tornava aquela obrigação diária um luxo. Afinal, a banca era como uma porta de entrada para longe daquela vida pacata do interior. Lili desejava ir mais longe, seus sonhos não cabiam ali. 

Embalada pelas novelas, colava poster dos artistas na parte interna do guarda-roupa. Todos os dias eu dava uma espiada naquele painel de atores, atrizes, cantores e cantoras. Trocava um olhar e travava um papo imaginário com eles. A alma de artista de Lili se inspirava e se entusiasmava. Queria ser atriz, queria ser diretora de teatro, queria ser pintora e também poeta ou escritora. Os cadernos da escola tinham espaços reservados para extravazar minha inspiração artística: desenhos, poemas, listas de personagens, projeto de cenários. Um turbilhão de ideias me atormentavam. Comecei a dar formato aos meus ímpetos de criação, e em um caderno pequeno de capa vermelha escrevi histórias curtas, enredos inspirados nas inquietudes românticas das amigas, através delas eu escapava de uma vida monótona e de um destino que parecia sempre estar predestinado para meninas do interior.  


sábado, 27 de maio de 2023

O tempo e a vida na cidade pequena

Logo depois de passar pelo prédio do hospital acabava o calçamento de pedras da rua Antônio Gomes, começava então uma rua cascalhada, onde a poeira levantava fina e abundante. Em dias de chuva a gente precisava saber como desviar das poças de água e, ao mesmo tempo, se livrar do barro que se acumulava nas laterais da rua, poucas casas tinham calçadas, faixas de grama predominavam em frente as construções. Justo por estas bandas morava a vó Xiruca. Lili preferia ir visitá-la fazendo o caminho pela rua Cipriano Dávila, tinha a impressão de que a subida das duas últimas quadras nas proximidades do Alto da Bronze era mais suave do que indo pela sete de Setembro. Ali estava o ponto mais elevado da cidade, local conhecido pelo campo de futebol.

Lili saia pelo fundos de casa, cruzava o terreno do seu Noé. Era fácil descer pelo campinho, bastava se esquivar com cuidado das vacas de leite. A rua de baixo, diferente da sete de Setembro, era só poeira, terra fina e muito buraco. Andando por ela, a cidade tinha outro encanto: moradas com terrenos grandes, casas amplas, muitas de madeira, com jardins, hortas e pomares. Eu podia avistar minhas colegas que moravam naquelas quadras logo acima de onde eu havia cruzado: a Ceres, a Iara e a Mara. Abanava para a Ceres, a primeira que eu avistava. Algumas vezes fiz trabalhos da escola com a Mara, que morava em um chalé todo azul cor do céu, contrastando com as janelas pintadas de vermelho escuro. A casa da família era grande e o pátio caprichosamente coberto de folhagens variadas, dentro de casa se repetia o mesmo capricho do jardim, cômodos organizados e limpos. Localizada na esquina da Cipriano Dávila com a Antônio Gomes, no lado oposto do famoso campo de futebol do Alto da Bronze, a morada parecia um sítio. Antes de chegar passava pelo boteco do Mingo, pai da Iara. Uma construção de alvenaria, posicionada na linha da calçada, já desbotada das tantas pinturas recebidas, mesclas de tons de azul, verde e branco. Uma casa de fachada alta, com portas abertas recebendo, desde cedo, os borrachos de plantão.

Uma vez por semana eu dobrava aquela esquina, passava pelo minúsculo estabelecimento do João sapateiro. Seguidamente minha mãe tinha algo para eu deixar para conserto:  sacolas, sapatos, bolsas, botas do meu pai ou dos guris. Umas casas mais adiante, avistava dona Alemoa me olhando da janela, eu fazia um aceno com a cabeça, sem erguer muito os olhos. Lili ficava constrangida, pois não conseguia desviar o olhar daquele papo enorme grudado no pescoço da vizinha da vó Xiruca. Dona Alemoa tinha um bócio enorme logo abaixo do queixo. A ignorância do povo levava a comentarem que era dela fazer tanto esforço quando jovem, tinha o ofício de lavadeira, trouxas e pilhas de roupas ao longo de uma vida de sacrifícios. Coitada, aquilo era uma anomalia, com certeza sinal de algum problema de saúde. 

Eu a via como uma figura de contos de fadas: as rugas faziam sulcos no rostro, o nariz era grande e pontudo, parecia usar muitas roupas sobrepostas. Usava um lenço branco amarrado na cabeça, o que disfarçava bem seus cabelos grisalhos e desalinhados. Embora usasse sempre saias longas, no inverno colocava calças compridas por debaixo da saia para se aquecer. Ela alimentava minhas ideias na criação de personagens, pois naquelas alturas de início da adolescência, eu já me ocupava com a escrita.

Os arredores da cidade ficavam tão próximos da zona central, caminhava-se quatro a cinco quadras e se chegava à parte mais urbana. Em verdade, havia poucas ruas calçadas, o que dava um ar de vilarejo à cidade. Os terrenos baldios entre as casas iam surgindo cada vez mais à medida que a gente ia se afastando da praça. Eu gostava dessa passagem mágica, do mais urbano para o mais rural, das ruas para as estradas. Tudo o que era mais povoado e desenvolvido se concentrava no entorno da praça central. 

O desenho da praça destaca-se pelos vários acessos, pode-se ir para qualquer lado da cidade. Do centro, onde está o majestoso coreto, partem suas calçadas largas, seguidas por árvores frondosas. Eu tinha um gosto inexplicável por sentar nos bancos de pedra no círculo grande  em volta do coreto. Naqueles bancos, Lili tinha longas conversas, repletas de confidências e risadas, com as colegas da escola enquanto o sol se punha e pintava de tons dourados as colunas neoclássicas do coreto. 

A praça com suas extremosas rosadas, além das palmeiras solitárias que circundam o coreto, surgiu de uma área grande, em frente a igreja. As ruas que foram surgindo a partir  da praça, atraindo a construção de mais casas, e assim comércio também foi se estabelecendo. Antes, tudo ali era um campo aberto, onde cavalos e vacas pastavam soltos, pastoreados por indígenas guaranis. O campo deu lugar à praça central, pois a sede definitiva da igreja matriz estava pronta e havia se instalado um poço para abastecer de água a população da pequena cidade que se emancipava. Depois, a construção do coreto deu à cidade um patamar mais civilizado. A chegada de mais de cinco mil imigrantes na época aumentou consideravelmente a população, embora eles tivessem se estabelecido no campo, nas imediações da cidade, dando origem às pequenas chácaras e moradas do interior, houve uma mudança definitiva na paisagem do município, antes dominada pelos campos vastos das fazendas localizadas muito distantes da cidade.

Os antigos contavam e recontavam, nas suas conversas rotineiras, muitas histórias dos seus antepassados; discutiam fatos, recordavam detalhes e acrescentavam mais um ponto naquela rede de conversas sobre as pessoas e suas histórias. As rodas de conversa se armavam com amigos, compadres e parentes, tecendo comentários sobre como a cidade foi crescendo, recordavam causos de todo tipo: os inusitados, os vergonhosos e os divertidos. Os velhos tinham apreço por  se reunirem em pequenas rodas nas esquinas, a mais conhecida era a da praça no entorno da banca de revista ou, então, na do clube, do outro lado da rua. Nos dias de frio, os homens de pala e bombacha se aqueciam ao sol e se atualizavam sobre os últimos acontecimentos, ou puxavam da memória um enredo sem fim de uma história passada. Pouco antes do relógio bater as doze, rumavam para casa, hora do almoço. Suas esposas os aguardavam com mesa servida: tempo e vida de cidade pequena. 

   


sábado, 22 de abril de 2023

A cor da pele

Catarina, filha do seu Nelson, sempre andava pela porta do bar do pai, conversando com os hóspedes do hotel, que ficava na parte dos fundos da grande casa onde a família morava e trabalhava, atendendo no bar localizado na parte da frente. A casa ficava situada estrategicamente ao lado da rodoviária, era um entra e sai de gente no local, motoristas e passageiros em trânsito fazendo seus lanches e gente necessitada de ir ao banheiro. Em frente à praça, o casarão verde desbotado funcionava até tarde da noite. 

Naquele lugar, onde se mesclavam espaços entre o bar, a padaria e o hotel, havia o melhor sorvete da cidade, talvez por ser o único fabricado ali mesmo. Três sabores principais eram preparados pelo movimento sincronizado das pás de metal de uma máquina de fabricar sorvetes. Quando não dava tempo de tomar um sorvete, apressada para pegar o ônibus que a deixaria na parada da Divisa, em frente à fazenda, Lili comprava um picolé de creme holandês, seu preferido. Havia diversos sabores de picolé, alguns de puro suco congelado, outros cremosos, a base de leite. 

Sob aquelas tampas de metal do balcão estavam armazenados os cremes gelados dos sorvetes de morango, chocolate e baunilha, servidos fartamente em casquinhas crocantes, feitas de uma massa doce e porosa. Nada era mais saboroso para Lili do que aquele sorvete servido pela Catarina, acompanhado de um sorriso simpático e amoroso que ela nos dava como que para retribuir a preferência pelo sorvete do estabelecimento do seu pai,  e que  soava como um certo perdão pelo momento cruel da vacina que nos aplicava, pois ela trabalhava também como enfermeira no posto de saúde. Catarina tinha a cor e a doçura de um sorvete de chocolate.

Pessoas como a Catarina eram a própria resistência, trabalhavam muito, ela teve uma vida sofrida pelas mazelas de uma diabetes. Lili fazia mentalmente uma lista, relacionando a vida de certas mulheres como a de Catarina. Costumava observá-las, trabalhavam arduamente em certos circuitos familiares, outras vezes, porque sabia que em muitas ocasiões, elas passavam por invisíveis, se quer as notavam. A cor da pele as definiam, mas também definiam seu lugar naquele mundinho de uma pequena cidade do interior. 

Uma delas, Lili via todo dia. Gessi trabalhava com dona Lalá, nossa vizinha. Muito cedo da manhã e no final da tarde, de balde, vassoura e pano em mãos limpava o açougue do seu Noé. Um lugar que exigia higiene e limpeza constantes. Ela cuidava da casa, da comida e seguidamente eu podia vê-la encerrando as vacas de leite que seu Noé criava no campinho nos fundos de casa. Gessi amargurava a vida na bebida, dizem. Criou outra fortaleza, que era a Nádia, nossa colega do sexto ano. Uma potência de força física e raiva do mundo, que davam a ela uma resistência inabalável.

Ninguém se comparava em bravura à Neda. O capricho em pessoa, com certeza, razão de ser da sua profissão, lavadeira de roupas finas. Dedicava-se a alvejar toalhas de mesa, conjuntos de lençóis, guardanapos bordados e tantas outras peças de enxoval de muitas senhoras. A risada era solta e gargalhava nas alturas, no entanto a fúria se instalava naquele corpo como um furacão se acaso fosse discriminada ou ofendida. Senti a desconfiança da Neda no dia em que ousei, como pirralha metida que eu era, dizer a ela que precisava cuidar bem  do meu lençol bordado, feito com todo carinho pela minha mãe, parte do que eu havia levado comigo quando fui morar na cidade. Passei um bom tempo sentindo um grande mal estar pela ousadia de ter questionado o capricho da Neda.

Guiomar desfilava elegância com suas saias de cós alto e camisas bem ajustadas ao corpo bem desenhado. Ela deixava no ar a beleza das suas curvas e o sorriso solto com que saudava a todos. Ria com facilidade, era espirituosa e dava impressão de que nada a abalava. Casada com Tunico, o guarda e jardineiro da praça, impressionavam ambos pela simpatia. Dançavam lindamente nos bailes pelos clubes da cidade. 

A cor da pele marcava a força e a beleza dessas mulheres que passavam por mim, que cruzavam por mim. Lili levou tempo para compreender o que custava a elas se fazerem presentes, defendendo a pele da dor, da desconfiança, da humilhação, da discriminação. Eu via beleza e via coragem, mas não podia sentir por elas, não tinha a mesma cor da sua pele.

domingo, 2 de abril de 2023

Um ano de findar etapas

Nas horas em que se distraía, vagando por pensamentos absortos, sem endereço certo, Lili costumava fixar seu olhar em algo inusitado. Observava a entrada e saída das abelhas sem ferrão que viviam em um pequeno buraco no tronco do cinamomo, aquele do banco de ferro onde o Vergilino sentava para tomar chimarrão, localizado bem em frente à janela do quarto dos arreios. As abelhas iam e vinham, talvez seduzidas pelo perfume das flores da primavera, localizada logo ao lado da cerca da lateral da casa, de onde se via o campo da ladeira. Eram inofensivas, então Lili podia se aproximar e analisar seu vai e vem para entrar no pequeno orifício da sua colmeia, disfarçado entre as cascas do tronco da árvore.

Os dias andavam tristes na fazenda, até insuportáveis. A casa estava silenciosa,  havia pouca gente da família, alguns homens no galpão e, claro, o Vergilino que não nos deixava sozinhas. Desde que a vó Cinda faleceu, eu costumava acompanhar minhas tias cada vez que elas vinham passar alguns dias na casa da fazenda. A Maria também seguia por aqui, mas como eu, parecia sem rumo, sem ter quem nos guiasse. A tristeza havia piorado muito com a perda inesperada do tio Ruco. Eu fiquei diminuída, meus grandes afetos partiram cedo demais. Cortaram-se laços de modo muito abrupto na vida de Lili e isso doía imensamente dentro dela.  

Naquele início de março começávamos nossa jornada para finalizar o ensino fundamental e Lili vivia grandes expectativas. Mas o acidente do tio Ruco nos pegou de surpresa, minha mãe chorava pelos cantos sem esperança. Eu só tinha o olhar perdido, sentava debaixo de um árvore na praça antes de voltar para casa, me dava uns minutos de silêncio, era minha forma de rezar, falava com Deus, porque tio Ruco importava demais na minha vida. Mas ele não resistiu, e o ano começava assim, muito dolorido.

A vida seguia seu curso, era ano de formatura, mais uma etapa se encerraria na nossa vida escolar. Aos poucos a rotina da escola foi me recuperando da tristeza. A novidade da escola neste ano era a chegada de alunos de Jaguari para cursar o segundo grau. Vinham de ônibus e chamavam a atenção. As meninas se alvoroçaram com os rapazes bonitos e mais maduros e a paquera estava liberada, embora fosse uma ilusão, pois não passávamos de umas pirralhas para os guris jaguarienses. 

O colégio se encheu de gente, à tarde era um agito nos corredores e nos pátios. O bar do Faete na esquina era uma atração. Sentadas nos degraus da entrada do colégio, a gente via a Catarina pular uma janela do prédio da esquina, e a fofoca rolava solta entre as meninas. A suspeita é de aquela era a janela do quarto do Lafayete, o dono do bar. Catarina era filha do sapateiro, nossos vizinhos que moravam de outro lado da rua, em frente a nossa casa. Tinha fama de espevitada e danada, e a alegria dela nos fazia bem.

Findada a jornada diária escolar, cruzávamos a praça para uma conversa nas escadarias do coreto ou rumávamos ao clube para uma partida de ping pong. Ali se reuniam os "feras" na arte de jogar ping pong, o Ciro, o Titão, o Vito. Na maioria das vezes, as gurias se reservavam ao papel de observadoras, mas a gente também gostava de jogar partidas entre nós. Invariavelmente eu levava uma "capinada" da minha mãe porque chegava bem depois da aula em casa, pouco antes do horário sagrado da janta. Lili ensaiava ares de uma liberdade em que se auto vigiava, o que dava a ela a sensação de que disfrutar de certas alegrias, aliviava sobremaneira as perdas recentes, que iam se tornando uma saudade imensa, mas gratificante por ter tido aquelas pessoas inigualáveis na sua vida. E assim seria, um ano de findar etapas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O povo e o interior

A primeira vez que Lili ouviu a palavra povo foi quando vô Joãozinho se referiu à cidade ao comentar sobre as compras de produtos que necessitavam em casa e a chácara não fornecia para a família, pois o auto sustento do qual viviam praticamente evitava idas seguidas à área urbana, tudo o que a família consumia era produzido nas terras no entorno da casa. O que ele mais aguardava das compras vindas da cidade eram a erva, para fazer o mate de todos os dias, e o fumo que ele desfiava com a ponta dos dedos até que virasse um punhado de fios muito finos. O passo seguinte era colocar o fumo desfiado sobre a palha já cortada e enrolar o seu palheiro. Ele fumava enquanto ficava absorto em pensamentos. Anos depois, pelos reveses da vida e do destino, ele se mudou para o povo. 

A cidade havia surgido de um pequeno aldeamento. Tal como Lili aprendeu na escola, na praça central iniciou-se um povoamento com gentios vindos das Reduções Jesuíticas dos Sete Povos das Missões. A velha estância de gado dos jesuítas espanhóis nada mais era do que um agrupamento de índios guaranis que ali cumpriam com o papel de cuidar do gado e dos cavalos. Depois da destruição das Reduções, e findadas as batalhas entre Espanha e Portugal, as antigas terras da estância começaram a receber gado de militares à serviço de autoridades portuguesas. Também vieram portugueses que requeriam suas sesmarias de terras recebidas pelos serviços ao império no controle da fronteira. Muitos outros chegaram nos anos seguintes, exploradores e criadores de gado que viam naquela terra oportunidades para montar seus negócios como o da retirada de madeira no chamado rincão de São Xavier e outros que se dedicaram à pecuária nos bons campos nativos contornados pelo rio Ibicuí e o Jaguari. 

Nosso povoado tem ainda sua origem guarani. quando foram os índios que primeiro se instalaram nas terras da antiga estância. Se realocaram nelas depois que definitivamente a estância de São Vicente saiu do domínio espanhol e foi dando origem, sob o império português, à Vila São José, liderados pelo valente chefe Carapé. Mais tarde, as famílias dos sesmeiros se apossaram de suas terras, alguns aventureiros chegaram para iniciar seus negócios. Aportou na vila, o padre espanhol Boaventura Garcia para assumir como pároco aa igreja matriz São Vicente Ferrer. Contam que antes dessa igreja, duas outras haviam sido erguidas durante o período da Estância Jesuítica em Cavajuretã e Timbaúva  

O povo, nasceu como vila São José e foi crescendo, ergueu-se a primeira igreja e se construíram as primeiras casas. Dizem que a população triplicou com a chegada dos imigrantes, como meus bisavós, pais do vô Joaozinho, para ocupar as terras antes vigiadas pela guarda nacional, as terras do rei. Minha mãe comentava sobre o campo reiuno, ela apontava o lugar onde o gado, sem marca e identificação, formava o rebanho do império, em seguida que passávamos de charrete pela velha estrada intermunicipal, depois da ponte do Salsinho. Tudo o que mais encantava Lili era ver aquele campo todo amarelo, coberto por uma grande colcha bordada com flores de maria mole. 

A vila, em 1876, se transformou em município, e seguia sendo o povo para quem vivia nos fundos de campo, em rincões perdidos e em moradias espalhadas pelo interior. Para qualquer um que vivia em propriedades rurais, em especial em pequenas chácaras, ir ao povo significava dificuldades em se deslocar. O povo, bem mais do que lugar para passear tinha as condições para se usufruir de certos serviços e se cumprir com certos deveres civis, como votar, fazer consultas, compras de roupas, móveis, objetos para casa, entre tantas coisas. No povo a vida era sentida como civilizada, uma ida para a cidade se definia por ocasiões de grande importância. O povo representada o lugar do progresso. 

Mas se deslocar do campo para o povo era tarefa difícil. Estradinhas precárias, muita pedra, muita areia ou muito barro depois das chuvaradas e das enchentes. O transporte era de charrete ou à cavalo. Em alguns locais tinha-se acesso pelos ônibus que realizavam suas rotas intermunicipais cruzando pela cidade, assim quem morava mais próximo das estradas conseguia usá-los como transporte: São Rafael, Loreto, Salso, Divisa, Palma, Cavajuretã, Vila Clara. 

Meu pai costuma vir ao povo pelo menos uma vez na semana na charrete amarela, trazia mantimentos produzidos em casa: laranja, bergamotas, ovos, mandioca, batata doce, leite.  Haviam muitas charretes, um transporte bem comum pelas ruas da cidade, os pobres cavalos precisavam usar ferraduras para aguentar o tranco das distâncias percorridas entre o interior e o povo,  sem contar que ainda andavam sobre as pedras irregulares do calçamento. 

 Cedo da manhã chegavam as pessoas do interior e se acomodavam na área externa do posto de saúde esperando a hora de abrir. A gente sabia da rotina ao avistar a Vanilda passar do outro lado da calçada, trabalhava todo dia no posto, chegava nas primeiras horas da manhã, organizava as filas e as consultas. Eu conhecia bem o cotidiano dela porque morávamos quase em frente ao posto de saúde. Uma vinda ao povo para quem percorria longas distâncias desde suas moradias no campo se pautava por motivos inadiáveis, raramente era por causa de visitas sociais, as pessoas se deslocavam mesmo por necessidades, por urgências como um velório ou uma consulta médica. 

Eu observava do portão de casa as charretes estacionadas na sombra do terreno da esquina. Se olhasse para outra direção via alguma charrete em frente à farmácia da tia Ivoloy. Quase sempre tinha alguém cuidando do veículo, aguardando quem ia comprar um remédio. Lá pela metade da manhã chegava a charrete do seu Ernesto, ele vinha oferecer as verduras de sua horta para minha tia, freguesa habitual do verdureiro mais conhecido da cidade. Ele vinha religiosamente no povo vender seus produtos, e tinha freguesas certas como ela, percorria muitas casas ao longo da manhã. Era um homem de ares germânicos, tez avermelhada, fosse por efeito dos dias de frio ou pelos de sol muito quente. De tanto pegar o gelo das madrugadas teve um espasmo que o deixou com o pescoço torto. Levou uma vida com o pescoço quase deitado sobre um dos seus ombros.

O povo a que meu avô mandava seus filhos entregar leite e comprar fumo de rolo e erva mate, era um outro mundo para quem vivia no campo. Dois modos de viver o tempo. Para quem vinha do interior, atravessando trilhas no campo, cortando caminho, abrindo uma quantidade de porteiras, o povo deslumbrava pelo seu progresso, pelas novidades no comércio, pelas notícias que corriam de boca em boca nas esquinas, pelas conversas rápidas com conhecidos nos bancos da praça. O ritmo de quem vinha do interior se alimentava do que o povo oferecia de novidades e de oportunidades. A escola era uma delas já as que existiam no interior ficam muito distantes uma das outras. Tivemos de nos deslocar do interior, do campo largo da liberdade, para ter aquilo que o povo tinha a nos oferecer. 

   


sábado, 14 de janeiro de 2023

A pediatra

Lili saía apressada da casa da Dona Dinorá, embora ela fosse a vizinha mais próxima, com quem dividíamos a cerca do jardim. Do nosso lado um pé de roseiras de cachopas frondosas, na cor de um rosa delicado; do lado dela, dois pés de palmeiras com uns cactus que desciam pelo tronco e floriam em setembro, flores escarlates grandes e esplendorosas. Já era próximo do meio-dia, Lili buscava a receita de um bolo de chocolate chamado Nega Maluca. Dona Dinorá dizia que era muito saboroso e que havia copiado a receita de um programa de rádio. Eu tinha em mim todo um gosto por aprender novidades em tudo, e muito especialmente, na culinária. Mas minha pressa era porque precisava tomar banho, almoçar e estar na escola no início da tarde. 

Eu sempre chegava mais cedo e me reunia com as colegas. Sentava em um dos degraus da escada da entrada principal da escola, ali conversávamos antes da sirene tocar. Lili alimentava as ideias com as narrativas dos namoros das colegas para elaborar a trama das novelas que vinha escrevendo nas folhas de um caderno velho do ano anterior, inspirada nas fotonovelas da revista Grande Hotel.

O banho precisava ser rápido porque a comida  estava na mesa. Minha mãe era pontual, minutos antes de dar meio-dia no relógio despertador, acomodado em uma das prateleiras laterais do armário aéreo, ela já estava gritando pelos guris, sempre atrasados, envolvidos com alguma brincadeira no pátio, em geral, com o jogo de bolita no terreno na lateral da casa. 

O Lindolfo já estava nos fundos da cozinha esperando as sobras de pão e de gordura que minha mãe juntava para ele. Costumava recorrer a vizinhança buscando o que restava da comida do dia, mais ainda quando não encontrava um pátio para capinar. Era um homem baixinho, vestido com uma calça surrada, enrolada na altura do tornozelo e apertada na cintura com um pedaço de cinto. Usava um chinelo gasto pelo tempo, um chapéu de feltro amassado cheio de furos e uma camisa encardida, às vezes, andava com um casaco muito maior que seu corpo miúdo. Tinha fama de invocado e muitos o chamavam de "taruginho". Vivia de pequenos serviços nos pátios das casas, e tudo que lhe davam era para alimentar os filhos.

Na volta da escola, senti uma dor forte na garganta, febre e cansaço. Lili tinha histórico de doenças típicas da infância: sarampo, catapora, rubéola. Cada vez que alguém aparecia na escola com sintomas de algumas delas, sinal de que também tinham se instalado no corpo de Lili. Eu não era frágil nem magra, atraia vírus só de saber que eles andavam soltos no ar, em surtos que apareciam de tempos em tempos.  

No menor sinal de desconforto, minha mãe era muito precavida, cruzava a rua e nos levava no posto de saúde. Cedo da manhã lá estávamos eu e ela sentadas na sala de espera. Era um espaço amplo com bancos de madeira encostados contra as paredes. O chão com ladrilhos geométricos me deixava tonta cada vez que me fixava nas formas, enjoada com todo aquele mal estar, a vontade de fugir dali rondava meus pensamentos febris. Lili não temia os médicos, nem a ameaça da injeção. A mão de meu pai e a da tia Ivoly costumavam ser leves quando aplicavam injeções, e eu confiava neles. 

Entrei meio acanhada na sala bem iluminada da médica, predominava o ambiente claro, dava sensação de que estava tudo muito limpo e higienizado. A médica levantou a cabeça e nos cumprimentou com a cordialidade de sempre, pois já nos conhecíamos. Meu pai cuidava do gado da chácara do marido dela, o médico de todos os partos da minha mãe. Tinha cabelos castanhos claros quase na altura do ombro, levantou calmamente e veio em minha direção. Antes de me examinar, com o seu sorriso contido e a voz serena me olhou e perguntou: o que houve com esta moça? Bastou para que eu desfilasse uma quantidade de sintomas, descrevia-os com detalhes, eu era boa nisso. Ela simpatizava com a minha destreza em falar e explicar. Eu estava com caxumba, seriam dias em casa para não transmitir para os colegas. Meus irmãos, por outro lado, certamente não escapariam da quarentena.  

Sempre que ficávamos amolados, lá ia minha mãe no posto ou no consultório na casa da médica. Era atravessar a praça e a casa dela estava ali, vizinha da casa paroquial e da igreja. Todo final de tarde era possível vê-la, religiosamente, após a última batida do sino, entrando na igreja. Para consultar na casa, era só entrar por um portão baixinho de ferro, contornando o jardim por uma calçadinha de pedra e tocar a campainha, caso a sala de espera já não estivesse aberta.

A médica cuidava de todos nós, sua especialidade era pediatria. Naquelas salas de espera do posto ou da casa dela haviam muitas mães e crianças. Mas também muitas mulheres sozinhas, consultando para assuntos da intimidade feminina. Para esses assuntos, também minha mãe recorria as prescrições da médica, até mesmo quando menstruei pela primeira vez ela foi se instruir com a médica, tal era o grau de confiança depositado na Dr.ª Daily, a pediatra que cuidava, principalmente, da saúde de toda criançada da cidade.   

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os bailes da vida de uma adolescente

Lili iniciava um ano cabalístico, os treze anos tinham chegado com mudanças no corpo e muita inquietude sobre si mesma e o mundo. O mau humor aparecia do nada, vivia estados de rebeldia de quem já sentia não se encaixar nos sonhos da maioria das meninas. Tinha o desejo pela escrita e a insatisfação típica da adolescência. 

Eu havia crescido muito, naquele momento inclusive aparentava ser mais alta que as outras colegas, como se de repente eu fosse uma mulher jovem. Meus seios ficaram grandes, toda roupa que eu vestia a percepção era de não me caia bem. Finalmente, minha mãe deixou de interferir no corte do meu cabelo, pude deixá-los crescer. A testa reluzia de oleosidade, coberta de espinhas e cravos, o que me impedia de usar franja porque o cabelo oleoso fazia com que ela grudasse na testa. Em vão, eu tentava controlar a gordura da pele com rodelas de pepino e lavava o cabelo com todo tipo de receita caseira sugerida nas revistas Carinho ou Capricho. 

Todo o descompasso da vida de adolescente me produzia uma autoimagem bem distorcida, a de que eu era uma guria feia e desinteressante. Mas, em fevereiro daquele ano, eu tinha feito algo novo e diferente, foi minha estreia nos bailes. Fiz meu primeiro carnaval no Clube Caixeiral, em Santa Maria. Cuidada e vigiada pelos meus tios, acompanhei minhas primas e amigas nos dias de carnaval. Quando subi as escadas do Caixeiral fiquei fascinada com as colunas até o teto, moldadas com arabescos clássicos, contornando as escadas que davam acesso àquele enorme salão, ventilado pelas inúmeras janelas altas do lado esquerdo e direito. Eu então elegi o Caixeiral o lugar mais bonito que até então eu conhecia  

Descobri a diversão de pular, de fazer trenzinho, de circular pelo salão, de subir no palco onde estava a banda e bailar entusiasmada. Uma Lili divertida surgia e se deixava levar pela festa daqueles dias de férias na casa da tia Betty e do tio Cláudio. Naquele carnaval encontrei meu primeiro par de baile, o Chiquinho, com quem pulei todo carnaval e dividia todas as noites um prato de batata frita e refrigerante. O Clube Caixeiral e Santa Maria tinham entrado de maneira significativa na minha vida.

Aquele carnaval me incentivou a participar de festas. Quando meu pai autorizava, eu ficava fim de semana na cidade, na casa da minha vó Xiruca ou na casa da tia Tânea, para poder ir  aos saraus no Clube Vicentino nas tardes de domingo. Eu sabia das histórias dos carnavais no Clube Vicentino durante a juventude da minha mãe. Ela contava detalhes das fantasias, de como a vó Cinda gostava de colaborar na feitura das fantasias e de vê-las fantasiadas, ela e minhas tias. 

Naquela época o carnaval da minha cidade andava decaído, os foliões haviam esmorecido, pairava no ar falta de entusiasmo. Muita gente preferia o carnaval de Jaguari no balneário. O Clube Vicentino era nosso refúgio para jogar ping pong, fazer um lanche na copa, sentar no pátio interno para jogar conversa fora com os amigos. Da área dos fundos ouvia-se os gritos dos homens que jogavam bocha enquanto bebiam cerveja. Tardes de sábado e domingo eram dias de encontro marcado.

Sem sarau, sem baile, muita gente rumava para o Clube União, um quadra abaixo do Clube Vicentino, Ambos ocupavam esquinas importantes, se destacavam: um pintado de branco e outro de verde. Um era dos brancos e o outro, como todos chamavam "dos morenos".  Em casa eu ouvia; "mas no clube dos morenos?" Para Lili nada mudava, as boates no Clube União faziam parte do roteiro, sem restrições.   

A grande festa do Clube Vicentino sempre foi o baile dos Kerbs. Durante três dias bailávamos ao som das bandinhas alemãs. Muita cerveja distribuída no meio do salão, como multa aos que eram escolhidos para dançar com o rei e a rainha. Lili se envolvia com os preparos, dias de planejamento com as amigas sobre as roupas típicas que desenhávamos, a prova nas costureiras, os encontros na casa de alguém antes do baile e a entrada coletiva e triunfal no salão do clube. Na madrugada, uma volta na praça, uma lavada na cabeça na torneira atrás do banco em frente ao coreto, para eliminar o cheiro de suor misturado com o de cerveja e muitas risadas. A adolescência era assim, meio ranço, meio revolta e muita amizade e festa. A vida na adolescência era como a espera por um baile: expectativa constante

domingo, 20 de novembro de 2022

A tormenta


O ano começou com ares de tristeza. Meu avô Joãozinho havia falecido em fevereiro, depois de dias internado em um hospital em São Francisco. Ele andava com olhar perdido, seus belos olhos azuis ficaram opacos e expressavam um desalento que não se conseguia saber qual era a razão. O coração não resistiu.

Em março iniciamos a sétima série, com mudanças importantes, passamos ao outro corredor da escola, na ala dos maiores e a turma agora era mesclada, com meninas e meninos. A sala era grande e nos acomodamos agrupados. Quase todos os meninos, a exceção do Fabrício, amontoaram-se no fundo da sala, na chamada cozinha. As meninas se localizaram nas primeiras classe de cada fila. Eu escolhi a classe logo atrás da do Fabrício, na esperança que ele me auxiliasse em matemática, além das ajudas que a Jussi costumava me dar. Eles eram bons nas contas, aliás eles gostavam das aulas de matemática e de resolver aquelas infindáveis equações. 

Lili se garantia no inglês decorando os textos do livro "New English " que o professor Eugênio adotou para as aulas. Também gostava de ouvir o professor Darci divagando na aula de história, falando do Império e da República. E claro, a aula de português era minha preferida, especialmente se precisasse fazer redação. As longas unhas da professora Conceição se destacavam cada vez que ela gesticulava enquanto explicava uma regra gramatical, enquanto eu tentava acompanhar o seu raciocínio. De vez em quando, lá ia o Vito para secretaria levar uma chamada do diretor. Ele tinha as respostas na ponta da língua e bom humor para burlar dos colegas e dos professores. Era outro bom na matemática.

Em meados de Outubro, já estávamos na expectativa de aprovar de ano, fazendo as contas para ver se as notas somadas alcançavam a média final para passar de ano. Mas aquele foi um Outubro diferente, fomos pegos por uma tormenta violenta. 

Minha mãe andava por toda casa trancando portas e janelas e, a cada tanto, revisava se estava tudo bem fechado. Dava um espiada pela janela do quarto e se desesperava só de pensar nos animais na fazenda e no pai. Nós pulávamos nas camas, ansiosos e assustados, estávamos apenas com a luz das velas. Tia Jane havia voltado da escola mais cedo, pois havia faltado luz em toda cidade. Nereu, um veterinário amigo dela, veio acompanhando. Eles jantaram e ficamos todos na expectativa da tormenta diminuir, assim que calmou o vento, veio muita chuva, então preparamos uma cama no sofá para o Nereu dormir. Ele percebeu o quanto estávamos nervosos e o convencemos de ficar. Na manhã seguinte, ele saiu cedo para ver os estragos da tormenta pela cidade.    

A força do vento foi devastadora, a cidade amanheceu com casas destelhadas e árvores caídas. No meio da praça encontraram um telhado inteiro de uma casa. As notícias que vinham da fazenda era de muito estrago. Muitos eucaliptos antigos e imensos se foram ao chão na avenida em frente à entrada da fazenda. A estrada foi obstruída, tiveram de cortar muitas árvores e arrastá-las para liberar a passagem de carros e ônibus.

Encontraram ovelhas mortas embaixo dos troncos. Os homens saíram recorrendo animais na inundação da várzea, as partes baixas do campo eram cheias de água. Depois que parou o vento, a chuva veio volumosa, havia enchente em várias partes do campo. 

A tormenta trouxe a enchente de Santa Rosa, vento norte quente, muito calor e temporais. Levaram dias para limpar a cidade. Na fazenda morreram muitos bichos, galhos e troncos de eucaliptos foram sendo amontoados ao longo da avenida. Aquelas árvores imensas não resistiram à fúria do tempo. Logo, vieram dias calmos, dias de bonança, dias de recomeçar.    

sábado, 29 de outubro de 2022

Otacílio

Há muitas vantagens em se viver em uma cidade pequena. As distâncias são apenas pontos de vistas do que é longe e do que é perto, facilmente se atravessa a cidade com uma boa caminhada. As lonjuras, neste caso, são entre a cidade e as moradas localizadas no interior, no campo. Nestes pequenos municípios a vida tem outro ritmo, os vizinhos te socorrem, te auxiliam e te cuidam. Todo acontecimento inusitado se espalha logo como grande notícia. Metade das pessoas se encontram em festas familiares, porque casamentos acontecem ao longo de gerações entre famílias conhecidas, às vezes, primas casam com primos. E há, claro, as fofoqueiras de plantão, como de costume, espiando nas frestas das janelas ou disfarçadas por trás das cortinas das suas casas, quando não fofocam ali mesmo, no meio da praça em encontros furtivos. Espiam do alto das janelas os jovens retornando dos bailes do Clube Vicentino durante a madrugada.

Lili cruzava a cidade para provar as roupas na costureira. Gostava de olhar os modelos das revistas Manequim e Figurino, inspirava-se para desenhar seus próprios modelos. Desenhar era uma distração a que me dedicava durante à tarde, além de ler e estudar. Meus cadernos eram repletos de desenhos, minha preferência recaia sobre o desenho de pessoas. Minha mãe dizia que eu tinha mania de fazer desenhos de rostos, em especial, de mulheres. Não sei bem o que ela queria dizer nem o que exatamente pensava sobre minha obsessão.

De tempos em tempos, Lili rumava para lado oeste da cidade, para bem depois do cemitério. Levava tecidos, linhas e botões para dona Ursulina confeccionar as roupas planejadas nos esboços feitos em folhas arrancadas do caderno de desenho. A casa ficava para os lados da cooperativa,  junto ao bolicho do seu marido, seu Athos. Eu a conhecia por ser sogra de uma das minhas tantas tias, a Lena. A sala da casa tinha móveis escuros, paredes rosadas e uma porção de pássaros azuis de porcelana presos na parede e que me encantavam. Em um quarto junto ao espaço onde ela costurava, havia o dormitório de uma senhora muito idosa, quase centenária, tia do seu marido. Dona Ursulina dava corda para minhas invenções de estilista, fazia sugestões e ajustava a costura na prova. Na volta para casa, eu levava alguma costura pronta da minha mãe.

No bolicho, eu sempre pegava uma rapadura. Meu pai nos acostumou com as rapaduras de caldo de cana que comprava em Jaguari, pegamos muito gosto por elas. O balcão para atender os clientes era alto e atravessava toda a peça, dividindo as prateleiras das mercadorias de quem chegava para comprar, sobre ele uma balança com pesos de metal.  Comercializavam grãos à granel, depositados em tulhas e descascavam arroz para vender por quilo, além de enlatados, temperos, refrigerantes e cachaça. Encostados nas portas ou sentados em cadeiras de palha, os borrachos de sempre. Eu conhecia de longe o tio Vito, irmão do meu avô, com seus olhos azuis profundos, era  freguês habitual do bolicho. Mas havia outra figura que rondava o estabelecimento, para beber um trago oferecido pelos borrachos habituais. Ele também recolhia sobras e ganhava algo para comer. Andava pela cidade, atravessava distâncias com seu jeito de desnorteado: o Otacílio

O Otacílio vestia-se de roupas velhas, sempre desbotadas e gastas. Em volta da cabeça uma faixa clara já amarelada de sujeira e gordura. Amarrava as calças na cintura com um cordão. Lili o conhecia porque passava por ele na volta da escola. O almoço, ele tinha garantido pela dona Amélia, que morava na esquina, no lado oposto da farmácia da tia Ivoly. Ali ele esperava junto ao portão lateral pelo seu prato de comida, todo santo dia. Falava pouco, parecia constantemente perturbado, não gostava de provocações. Cada vez que alguém dizia algo a ele ou ria, saia esbravejando. Otacílio era meu relógio, eu calculava a hora que estava chegando em casa pela presença dele sentado na calçada na sombra das ameixeiras da casa à espera de um prato de comida. Dona Amélia não falhava no seu cuidado e ele parecia demonstrar um grande respeito por aquela senhora miúda, de cabelos brancos e um coque no altura do pescoço, que lhe oferecia o almoço diariamente.

Na cidade pequena as pessoas vão se encontrando nas poucas ruas que existem. Se cruzam no cemitério, na única agência bancária, na frente dos correios ou em algum mercadinho mais afastado, onde tem a farinha de milho mais saborosa ou onde tem o feijão que cozinha muito bem, como o do seu Augusto. A gente sabia que ele comprava feijão na Mata para revender e encomendava uns quilos. No meio do caminho, invariavelmente, dona Bibiana me parava na calçada e me segurava pelo braço, queria notícias da família. Ela me chamava carinhosamente de parentinha. De fato, eles tinham algum parentesco com minha mãe. Há uma corrente de afetos, de conversas, de encontros cotidianos que tornava a cidade de Lili um lugar de pequenas grandes histórias de vida. 



domingo, 2 de outubro de 2022

Dia de eleição

Lili seguia trajetos diferentes para ir à padaria. Em uma cidade pequena não existem tantos caminhos a percorrer, mas se pode andar cortando terrenos, mudando a direção por onde se vai, ainda que pelas mesmas quadras, ainda que fosse apenas trocar de calçada. A gente sempre acabava no mesmo lugar, pois todo o caminho que se tomava, tinha a praça como ponto de referência. Passar pela praça era inevitável. E ali onde a rua Carapé se encontrava com a sete de Setembro, fixada sobre pedras grandes e escuras, inscrita em letras de metal sobre uma placa de mármore, repousava e resistia a carta de Getúlio Vargas, eternamente aberta para leitura de quaisquer transeuntes. Diziam, à época, que toda cidade tinha aquela carta monumento. A nossa se localizava atrás de um banco de cimento, entre os muitos bancos que se distribuíam no contorno da praça. A famosa carta ficava na sombra rala de umas espirradeiras que na primavera se cobriam de flores cor de rosa, logo a espirradeira conhecida por ter folhas venenosas. Aquela carta, congelada no tempo e no mármore, era a despedida da nação feita pelo presidente antes do seu marcante suicídio.

Cada vez que eu lia a carta, quase a decorei, recordava da minha situação particular e dos que nasceram entre a década de 40 até meados dos anos 60 naquela terra fundada por índios e jesuítas. Na verdade, nasci em General Vargas, a cidade havia mudado de nome para homenagear o pai do Getúlio Vargas. Eram coisas da política local e que durou pelo menos umas duas décadas.. Eu não me via cidadã de uma cidade inexistente, gostava da origem jesuítica do nome do meu lugar de pertencimento. Aquele presidente me era familiar muito antes de começar minha experiência na vida urbana, ela fazia parte do meu universo, um velho conhecido por causa do seu retrato imponente pendurado na parede da sala da nossa casa no campo. Coisas políticas da minha mãe.

A fase de adolescente despertou em Lili novos interesses. Aguçou seu senso de observação para os acontecimentos da cidade: as festas, as comemorações, as rodas de conversas dos adultos, o comportamento das mulheres, o cotidiano morno e inalterável de quem vive no interior, os poucos fatos importantes da vida na minha cidade. Lili ampliou as leituras, migrou dos livros da série Vagalume para o jornal que lia no escritório do tio Ruco. Havia tardes que eu ficava em volta dele, até que me davam alguma tarefa, como organizar cronologicamente as notas fiscais e faturas de alguns estabelecimentos comerciais dos quais ele fazia a contabilidade. Passei a perceber os movimentos políticos da cidade e suas facetas acompanhando meu tio em algumas visitas com fins eleitorais, pois ele havia se candidatado para uma vaga de vereador. 

Naqueles anos finais da década de 70, pela primeira vez acompanhei minhas tias até a sessão eleitoral, testemunhando aquele grande acontecimento que eram as eleições. Elas se aprontavam cedo, dia de usar roupa de domingo. As que moravam longe faziam questão de votar no município, embora há muito tempo tivessem saído da cidade. Minha mãe deixava todo serviço da casa, porque votar era sagrado. Polemizava com minhas tias e tios, bradava suas ideias e votava cheia de convicção no que acreditava. Tia Cisa desde aquela eleição não perdeu mais seu posto de apuradora de votos. Relatava o que os eleitores escreviam nas cédulas, recados desaforados, desabafos inusitados e se divertia contando o que testemunhava nas horas intermináveis da sessão de conferência dos votos marcados nas cédulas. Ela era assim, vibrava com uma eleição. 

Lili ficava no corredor do Grupo Escolar aguardando elas votarem. Era dia movimentado, pequenas filas em frente às salas, fiscais dos dois únicos partidos na observação do processo. Muita conversa ao pé de ouvido nos grupos espalhados nas esquinas. Bandeiras e papéis dos santinhos voavam pelos pátios e se acumulavam nas sarjetas, fotos preto e branco de candidatos misturadas com algumas coloridas. Na praça, gente comentado seus votos, encontros com parentes e muita celebração. Via-se a correria de camionetes de cabo eleitorais e táxis trazendo e levando eleitores. Ao final da tarde muita gente se amontoava na porta do Clube Vicentino, onde se instalava a grande sala de apuração. As urnas de lona chegavam do interior assim como as que continham os votos das duas sessões eleitorais do centro, as do Grupo Escolar e as do Colégio São Vicente.  

Fui aos poucos entendendo a importância daquele dia em que brotava gente de todos lados, tinha-se a impressão de que população local duplicava. As pessoas chegavam vestidas de uma maneira quase solene: os homens de calça e camisa, no modo alfaiataria, retiravam educadamente seus chapéus ao entrar nas salas de votação; as mulheres reforçavam o batom nos tons mais fortes e usavam leques para aliviar o calor que se anunciava forte em meados de novembro.

Sentada no banco nas imediações da carta do Getúlio Vargas, Lili fotografava mentalmente a agitação do dia, as pessoas que passavam voltando para casa e as que aguardavam ansiosas o resultado da eleição, aglomeradas no entorno da banca de revistas na esquina da praça, de olho no anúncio que o juiz faria do resultado das eleições lá de dentro do Clube, do outro lado da rua. Algo de muito grande fazia aquele dia ter um ar de esperança. Lili não conseguia ainda compreender todo aquela demonstração de compromisso e fé do povo em depositar seu votos nas urnas, em dia que a cidade se avolumava e um espírito de celebração pairava no ar; ela não sabia bem se tanto alvoroço era sinal de mudança. Estávamos em meados dos anos 70.   


 

 




  

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O coreto

Toda vez que marcávamos um encontro, fosse para ver um jogo na quadra da praça, fosse para tomar um sorvete ou ficar na espreita de algum guri que a gente paquerava, era o coreto nosso ponto de referência e de encontro. Sentávamos nas escadas e ali ficávamos no final da tarde jogando conversa ao vento, comentando sobre a vida de quem passava. Às vezes nos debruçávamos sobre as muretas vazadas com suas pequenas colunas torneadas e espiávamos quem cruzava de um lado a outro da praça: os que voltavam do trabalho, os que traziam compras do mercado Encantado, as senhorinhas que se aproximavam da igreja para a missa das seis. 

Quando não tínhamos a vigilância do Tunico, até sobre as bacias em forma de conchas nós nos sentávamos, imaginando a água que deveria jorrar da boca dos leões, esculpidos logo acima daquelas grandes conchas distribuídas em volta de toda a construção. Lili não tinha memórias deste chafariz que as bocas dos leões pareciam formar, porque já não havia água correndo por ali. Na parte superior, lá no alto, as pombas faziam seus acasalamentos e ninhos de amor.

O coreto foi construído para comemorar o centenário da independência. Sua arquitetura é uma obra de arte, especialmente, pelos seus detalhes neoclássicos. Eu gostava de passar o dedo sobre os relevos, pensar sobre o desenho de suas colunas suntuosas e todo o trabalho do artista que o planejou. Contam que ele não foi apenas idealizado como um capricho do intendente da época, para enfeitar a praça, ele serviria de estrutura para uma grande caixa de água com objetivo de abastecer a cidade. Certamente o poço, logo ali entre a igreja e ele, já não comportava fornecer água à população que crescia. Sem contar, que o poço também concorria com o coreto como ponto de encontro.

Para Lili, o coreto era referência de tudo que acontecia entorno da vida dela. A posição central do coreto, de onde partiam todos os acessos calçados da praça em direção às ruas, eram raios que direcionavam a lugares importantes da cidade: a prefeitura, o cinema, o correio, o clube, a igreja, a rodoviária, o hotel e a sorveteria do seu Nelson. E a esquina da banca de revista, atraindo os compradores de cigarro, revistas, gibis e jornal. O coreto irradiava, desde sua imponência e beleza, tudo que movimentava a vida da cidade.

Duas cores eram combinadas a cada nova pintura do coreto. Um tom claro para o fundo da construção e uma cor de destaque, mais escura e vibrante, para os detalhes. Ele foi bege e marrom, ocre e azul, salmão e branco, amarelo claro e azul céu, creme e ocre. Nem sempre as cores caiam no gosto do povo. Logo se formava uma discussão nos grupos que se reuniam na esquina da banca e na do clube para debater sobre as cores escolhidas. Mas a curiosidade de Lili era sobre as cores originais, o coreto era como uma grande escultura, nada se comparava na cidade à riqueza da sua construção. Ele marcava aquela pequena cidade no mundo. Um cenário perfeito para muitos encontros românticos, namoros escondidos e palco de noitadas sem fim depois da saída dos bailes do Clube Vicentino. Em dia de céu azul e muito sol, ele se iluminava ainda mais com as flores exuberantes dos canteiros triangulares, que completavam o círculo calçado de pedras em sua volta.  

Quando sai do campo, o coreto era meu ponto de referência na cidade, tudo partia ou chegava nele. Lá estava ele, na sua beleza clássica me desafiando. Ele nos dava orgulho de viver onde vivíamos. Contemplá-lo me invadia de alegria, me ensinava a beleza, a mesma de quando eu podia ver o sol se por atrás daquela linha de cinamomos que atravessava um parte do campo das vacas mansas. As belezas tocavam Lili e provocavam sensações que o tempo ia produzindo nela enquanto crescia, e a criança dava lugar à adolescente. 


domingo, 28 de agosto de 2022

A grande perda

Agosto chegou. Metade do ano havia passado e com tantas comemorações pelo centenário do município, não tínhamos nos dado conta de que novamente voltaríamos aos longos ensaios com a banda, agora para o dia da independência. Mal folgamos nas curtas férias de inverno e lá estávamos nós formando pelotões, acertando o passo para mais um desfile. Em sala de aula preparávamos os jograis relatando o momento histórico do grito do Ipiranga, eles seriam apresentados no dia destinado à nossa turma na programação da semana da pátria no palanque construído em frente à prefeitura. 

Com toda força que o pulmão permitia cantávamos os hinos da independência e do Brasil, decorando a letra e melodia até ficarmos exaustos e entediados. Agosto sempre foi mês de clima devastador: frio, geada, calor e vento norte, e ficávamos expostos ao mal humor do tempo, enquanto nos atribuíam horas de preparação para o sete de setembro. Lili andava em círculos, envolvida com atividades da escola mas o pensamento em outro lugar. Vó Cinda tinha voltado para Santa Maria porque não andava bem. A ausência dela e a delicada situação da sua saúde desnorteava ainda mais os dias agitados de Lili, tal como aqueles primeiros ventos quentes de agosto.

Nesta época, do nada minha mãe me dava umas tarefas no período da tarde, quando eu não tinha aula de educação física, como a de comprar rendas, linhas e botões na loja da dona Nena e seu Braúlio. Era um teste de paciência aguardar dona Nena encontrar um pedido, tudo era no ritmo da sua mansidão. Seu Braúlio nem se movia da cadeira de palha entre o balcão e a grande prateleira coberta de variedades de tecidos, apenas gritava para dona Nena atender os clientes que chegavam. As encomendas da minha mãe eram para me ocupar, do contrário eu passava as tardes na casa das amigas, ou estudando ou jogando conversa fora. 

Entre as tarefas dadas pela minha mãe, teve a do dia que ela me colocou de acompanhante da Ivaldina. Uma mulher miúda, toda vestida de preto, saia longa e camisa de manga, usava a tradicional roupa de viúva, e desde que a conheci parecia estar sempre vestida com a mesma roupa. Tinha cabelo alvos, bem puxados e amarrados no alto da cabeça na forma de um coque. Já levava muitas rugas no rosto miúdo e oval, nariz adunco e foi primeira mulher com bigode que Lili conheceu. Saí com a Ivaldina enganchada no meu braço, caminhávamos devagar pela rua Brasil, a terra solta levantava pó a cada pisada. O passo dela era lento e eu tentava ir no mesmo compasso. Eu já a conhecia das suas visitas à minha avó na fazenda. Aparecia do nada, contavam que ela ia à pé, depois ficava mais de semana hospedada. Era daquelas muitas comadres que a vó Cinda fez na vida. Dizem que era muito perguntadeira, no entanto falou muito pouco durante nosso trajeto até sua casa. Embora contrariada com meu papel de acompanhante, levei a comadre Ivaldina até a porta da sua casa. Mostrou gentileza comigo, queria que eu entrasse, eu tinha a pressa de adolescente na ponta dos pés, não me permitia demoras. Apenas espiei pela porta, sobre a pequena mesa da sala, uma almofada onde ela fazia rendas de bilro. Trabalho delicado daquela mulher tão rara com bigode.

A casa da fazenda andava vazia, apenas o velho pé de camélia abundava em flores no jardim. Nos fins de semana Lili ficava algumas horas no quarto da vó Cinda. Deitava na sua cama para sentir o calor de um abraço imaginário. Eu sempre dormia nos seus braços antes de ir para cama à noite, não importava que eu já tivesse o tamanho de uma garota de doze anos. Em uma destas tardes, com o calor da primavera fazendo explodir as orquídeas do toco da laranjeira, tia Tânea e tia Ivoloy entraram apressadas abrindo as janelas do quarto, eu as tinha fechado para tirar uma soneca. Olhei para elas assustada e algo palpitou no meu peito, só pude perguntar: o que houve? Então o mundo de Lili se desmanchou entre as lágrimas e o desespero: vó Cinda se foi e eu me perdi vagando entre as peças vazias e silenciosas da casa. Minhas tias preparavam a casa para o velório. 

Setembro iniciou triste e cinzento. As festas de sete de setembro não entusiasmavam Lili. Minha mãe e minhas tias se cobriram de uma enorme tristeza. Os dias iam passando mais devagar. A primeira perda de Lili foi brutal. As tardes passaram a ser de leitura e desenhos, voltar para campo se tornou uma batalha constante com meu pai. Eu não queria passar mais os fins de semana na fazenda, havia silêncios insuportáveis na casa, no jardim, na casa do forno, na despensa, tudo se esvaziou. A cidade era agora um refúgio. 

visita da Ivaldina tinha sido um gesto de apreço pela comadre Lucinda, era para prestar suas condolências à minha mãe. 


   


domingo, 7 de agosto de 2022

Treme Terra, o propagandista do cinema

A cidade da Lili tinha encantos que iam sendo descobertos por ela como novidades típicas da vida urbana, sempre em contradição com a vida silenciosa e lenta que os tempos vividos no campo haviam impregnado na sua alma. Aos doze anos meus interesses voltavam-se para diversões que só a cidade podiam me proporcionar. Eu vivia conflitos constantes, dividida entre o campo e a cidade. Eu sabia que o campo não sairia de mim, e a cidade eu precisava ainda descobrir. 

Toda sexta-feira minha mãe arrumava sacolas com roupas para lavar com a água límpida e doce tirada de balde do poço da nossa casa lá nas terras da fazenda. Ela juntava as roupas da casa em um saco de viagem e nos carregava para rodoviária depois do almoço. No sábado era roupa estendida por todos lados, debaixo da parreira, nos arames do varal no pátio, onde podia ela distribuía as roupas para secar. Queria aproveitar o sol, o vento e água doce do poço.

A água que corria nas torneiras da casa do chalé era salobra, como a de todas as outras casas da cidade. Quando se fervia, na superfície boiava uma película embranquecida criando, ao longo do tempo, crostas brancas dentro das chaleiras. Além disso, a água salobra não ajudava o sabão fazer espuma suficiente para uma lavada eficiente de louças, menos ainda das roupas, tarefa que minha mãe se dedicava ao extremo, nossos uniformes precisavam ficar alvos para a segunda-feira. Mas a ida para o campo nas sextas-feiras à tarde me tirava de certas diversões, como ir ao cinema, ver os jogos na quadra da praça à noite, comprar sorvete de creme e morango sábado de tarde no bar do seu Nelson ao lado da rodoviária e depois conversar com as amigas nas escadas do coreto.

O cinema da cidade era mais frequentado por guris e homens, não muito recomendado para as meninas, talvez porque lá dentro ficava escuro demais quando iniciava o filme. As meninas entravam sempre acompanhadas dos pais, irmãos ou em grupo. Um vez e outra vinha uma peça de teatro para cidade e se apresentavam no palco do cinema. Então, a escola nos levava, foi assim que entrei pela primeira vez no cine teatro Carlos Gomes, situado em frente à praça, quase ao lado do correio. A cor do prédio tornava impossível não reconhecê-lo de longe, era pintado também naquela cor azul calipso dos armários da cozinha da casa da fazenda. 

Nada superava assistir uma peça de teatro ou ver um filme quando se abriam aquelas cortinas de cetim vermelho escuro. Elas iam abrindo lentamente assim que começava a tocar uma música, e nos enchia de expectativas, fosse pela peça, fosse pela sessão do filme.

O funcionário do cinema fazia todo serviço, trabalhava na bilheteria, vendia os doces, andava com a lanterna procurando poltronas vazias para nos acomodar quando as luzes se apagavam. Quando algum filme entrava em cartaz, ele saia pelas ruas da cidade carregando sobre o corpo um cavalete com cartazes de filmes pendurados. Cada vez que a gente cruzava por ele ficávamos tentando ler o nome do filme. Divulgava-os na parte da frente e nas costas, aproveitando para fazer dois anúncios ao mesmo tempo. 

João Treme Terra cruzava a praça em todas as direções, ou andava várias vezes na quadra da rodoviária, parando de vez em quando para descansar na banca de revistas, na esquina da praça, no cruzamento da rua 7 de Setembro com a General João Antônio. Treme Terra tinha este apelido porque tinha a língua presa, o que dificultava clareza na sua fala, se atrapalhava com a dificuldade que tinha para que o entendessem, se tremia todo. Era muito magro, queixo proeminente, olhos espantados. Algumas crianças temiam sua presença. Lili desde pequena se fascinava com a função que o Treme Terra cumpria. Para ela, ele era nada mais nada menos que o grande propagandista do cinema. Foi assim que o identificou aos sete anos, tentando explicar quem ele era para o irmão menor que se assustou com a sua figura.

Certo dia, Lili foi autorizada a ir ao cinema assistir um filme do Teixerinha, chamado "Ela tornou-se Freira", pois os filmes dele faziam muito sucesso. No cine teatro Carlos Gomes passavam só filmes de faroeste ou filmes do Teixerinha. A tela do cinema me fascinou do mesmo jeito que a tela da televisão em preto e branco que a vó Cinda ganhou de aniversário, pois juntas descobrimos as novelas. As telas e palcos despertaram em Lili o desejo de ser artista. A cidade então começava a me colocar no mundo de outro jeito.

sábado, 16 de julho de 2022

O centenário

Quando março chegou, logo entramos em um intenso preparo para as festividades do centenário do município no final de abril. Era o mês do santo padroeiro e também da data de emancipação da antiga vila São José, que foi rebatizada com nome do santo. Em 1876, a vila de São Vicente deixou de pertencer ao município de São Gabriel. A cidade estava movimentada e com muitas expectativas para os festejos. Lili ansiava pelo dia da festa 

Os ensaios com a banda e os das apresentações da escola para a celebração da data tomavam conta de todos. Todo dia fazíamos trajetos diferentes acompanhando o compasso da banda. Percorríamos toda a chamada avenida Cipriano D'Avila até alcançar o Alto da Bronze, campo de futebol bem em frente ao hospital, e retornávamos pela 7 de setembro. Muita gente saía para fora das suas casas para nos saudar. Lili se entusiasmava com tanta preparação, pois as festividades eram anunciadas para marcar o dia histórico, por esta razão nossa dedicação nos ensaios era enorme e muito cobrada, não podíamos fazer feio. Lá íamos nós aperfeiçoando o ritmo da marcha e o alinhamento dos pelotões. O Negro Vieira, famoso entregador de jornal e mercadorias, já nos aguardava nas imediações da rodoviária, onde costumava passar grande parte do seu tempo. Dali para frente ele nos acompanhava, e ao lado da banda, como se também estivesse nos guiando, marchava forte e concentrado, até chegarmos de volta ao portão da escola.

Sob os cuidados especiais do Tunico, o jardineiro mais boa gente e educado daquelas paragens, tudo estava impecável na praça central, tal como as camisas de tergal que ele usava e lhe davam tanta elegância. Os canteiros no entorno do coreto ja estavam cobertos de amor-perfeito, cada dia com mais flores, mostrando que à medida que a temperatura diminuía, sentia-se os sinais da mudança do clima. Estávamos chegando ao outono, estação que eles desabrocham com vivacidade. As roseiras podadas e vigorosas realçavam a pintura nova do coreto. Os ares da cidade eram de glória. Todos andavam ansiosos a espera da visita do governador que havia anunciado sua presença nas comemorações. 

Em casa nos ocupamos todos com os preparativos. Tia Jane assoberbada com as atividades da escola, na expectativa da organização do desfile, que deveria sair sem atropelos e imprevistos. Minha mãe mandou fazer uniforme novo, renovar os aventais do Borges do Canto para meus irmãos, uma nova saia e blusa pra mim. Tudo com monogramas da escola bordados por ela na cor azul-marinho. Meu irmão menor ganhou um papel para representar as profissões importantes no desfile do dia 29 de abril: uniformizou-se de padeiro. Lili havia sido escolhida como representante da turma para concorrer, por meio de votos, à rainha da escola do ano do centenário. E isso fez o sexto ano ser inesquecível.

Os dias eram aulas nos primeiros períodos e depois ensaio com a banda até a hora do almoço. Pela tarde minha ocupação era pedir votos para os vizinhos, parentes e conhecidos. Vó Cinda estava de volta na casa da fazenda, e me comprou uma boa quantidade de votos. Eu me sentia vibrante com ela por perto. Planejava estar presente no ato de comemorativo com o governador, ia usar seu terninho preto e a blusa com gola de renda guipir branca. Sua roupa mais chique, usava sempre em dias importantes. 

O clima estava agradável e o sol radiante. Nas primeiras horas da manhã já estávamos organizando nossas filas. Os pelotões temáticos contavam a história do municipio, suas origens jesuítica e missioneira. As professoras corriam entre as fileiras de cada ano escolar, revisando uniforme, ajustando vestimentas e sempre nos lembrando do bom comportamento durante a passagem em frente ao palanque montado nas escadarias da igreja matriz para receber o governador.

Aquela manhã de 29 de abril de 1976 foi longa. Iniciamos nossa caminhada para nos posicionarmos e seguirmos no acompanhamento dado pelo ritmo da banda que, primeiro puxou os pelotões do Grupo Escolar Borges do Canto, depois as demais escolas. Somaram-se ainda as escolas do interior do municipio e as que ficavam nos arrabaldes da cidade. Naquele dia a população cresceu lotando a praça e as calçadas no entorno. A espera foi longa, ficamos horas no mesmo lugar sem poder sair, para não desmanchar a formação do pelotão e desorganizar o desfile. Quando não se podia mais segurar, íamos rapidamente ao banheiro da casa paroquial. Os pequenos pareciam inquietos e cansados. E nada do governador

Lili ficou na ponta dos pés sem sair da fila para melhorar o ângulo de visão e ver que cara tinha o governador. No alto do tablado improvisado sobre as escadas da igreja, um palanque oficial, com as bandeiras do município, do estado e do Brasil. Logo aquele pequeno espaço se avolumou de autoridades. Bem passado do meio-dia, iniciou-se uma chuva de luzes dos flashes das câmaras fotográficas do seu Olívio e do Arvei, registravam o momento histórico. O governador era alto, dali onde Lili estava podia ver sua careca reluzente e o terno azul marinho que usava. Nada entendeu do discurso do governador Synval Guazelli, pois como para todos ali, o cansaço se abatia sobre ela e toda a gurizada. O pessoal da banda resistia, apoiados nos instrumentos. 

O povo se amontoava para além das calçadas invadindo o espaço dos canteiros da avenida, com seus pés de extremosas ainda em fase de crescimento. Foram muitas horas de espera e de ansiedade por aquele famoso ato comemorativo. Vi a vó Cinda acompanhada das minhas tias no fio da calçada, bem posicionada para assistir a cerimônia, claro impecável e altiva no seu terninho preto e cabelos bem afofados, no estilo da moda dos penteados daqueles anos. 

A fome chegava com passar das horas. Meu irmão menor, que levava um pão d água da padaria do seu Darci na sua caracterização de padeiro, já havia devorado o pão no desespero da fome. Passou em frente ao governador um padeiro sem pão na cesta. O dia de festa havido sido longo e intenso. O governador fez sua passagem relâmpago na cidade. Lili se decepcionou com a brevidade daquele festejo, afinal eram cem anos da sua cidade, era a festa do centenário. Também não alcançou votos para ser a rainha da escola do ano do centenário, mas sabia que o dia tinha sido marcado na sua memória, afinal foi o grande momento histórico dos seus doze anos.

Carapé

O senso de localização de quem vive em uma cidade pequena segue indicações personalizadas, as zonas urbanas não são identificadas pelos pont...