sexta-feira, 28 de agosto de 2020

As águas em que nos banhávamos

Uma das melhores diversões, e privilégio da infância no campo, é tomar um bom banho em um açude ou em um rio. As águas em que nos banhávamos não só nos refrescavam no verão como ajudavam a transformar nossa energia uma calmaria, sobretudo, no final da tarde. A ida ao rio Jaguari ou um banho no grande açude do campo de cima era um prêmio pelo nosso bom comportamento e também uma recompensa pelo cumprimento das tarefas que as tias nos delegavam: varrer o pátio, ajudar colocar o lixo no carro de mão, auxiliar na faxina do galpão, colaborar com a limpeza do jardim. Na casa da vó Cinda a ida ao açude dependia da disposição da tia Nira, que se aventurava a levar uma turma de pirralhos para se banhar. A partir do meio da tarde, a cada meia hora, lá estávamos nós em volta dela que, pacientemente, nos ouvia e seguia pedalando na máquina de costura. Quando ela dava o sinal de que estava na hora, era uma corrida para colocar a roupa de banho, providenciar toalha e sabonete, roupa para trocar, pois já saíamos do açude com o banho do dia cumprido.

Lili sempre teve medo das águas barrentas do açude, principalmente, na temporada das sanguessugas. Muitas vezes saíamos do açude com as sanguessugas grudadas nas pernas e só conseguíamos tirar em casa, onde então alguém colocava algo quente para que elas se soltassem dos nossos pés e pernas. Lili se enojava com elas, não se aventurava muito para dentro do açude. Momento pior que esse só o das brincadeiras dos guris mais crescidinhos que me puxavam pelas pernas por baixo da água, para terem o prazer de assistir o meu desespero. O famoso caldinho era uma brincadeira típica dos guris, desafiando-se entre si. Para gerenciar a gurizada, a tia Nira colocava limites de horário para o retorno para casa e estipulava a distância até onde podíamos avançar na água, na maioria das vezes ela nem entrava no açude, sentava para fumar e nos cuidar. Na parte mais alta, antes da chegada à beirada do açude, havia um velho eucalipto onde deixávamos as roupas, e sempre tinha um cusco para vigiar as vacas e as roupas. Antes de voltar para casa, caminhávamos sobre a larga e alta taipa do açude, de lá podíamos apreciar um belo pôr do sol. 

Este grande açude, que muitos chamavam de barragem por causa do tamanho e da profundidade, servia para irrigar as lavouras e para matar a sede do gado. Porém, no início dos anos setenta, a finalidade mais importante que ele ganhou foi fornecer a água, que movida por uma roda vermelha de metal, era bombeada para os canos que chegavam até à casa da fazenda,  abastecendo, assim, uma caixa que possibilitava termos água nas torneiras e no chuveiro. A instalação deste sistema com uma roda mobilizou o pessoal da casa, dos grandes aos pequenos, uma engenharia pensada pelo tio Cláudio, sempre atento e disposto a ter alguma solução que melhorasse as condições da casa da fazenda. Minha vó Cinda não cabia em si de tão faceira, pois era um conforto do qual finalmente poderia usufruir.  

Lá na vó Xiruca este conforto ela nem desfrutou. O açude fornecia a água para quase tudo, ele se estendia ao longo da entrada da chácara, pela taipa se acessava à casa. Era bonita aquela estradinha da entrada contornando o açude, imprimia um ar bucólico que só a vida no campo nos permite vislumbrar. Era um açude que tinha formato de lago, com seus patos e marrecos nadando tranquilamente. Ali a família se banhava no verão e minha vó Xiruca lavava trouxas de roupas. Nunca tomei banho no açude dos patos, porque os medos de Lili não me deixavam arriscar.

Os dias de passeio no rio Jaguari, na altura do Passo dos Vidais, despertava nossa tagarelice e nossa alegria se espalhava pela casa. Lá íamos nós na kombi bicolor cinza-escuro e branca do tio Cláudio, cheia de crianças ansiosas por um mergulho no rio. Corríamos para preparar o passeio, roupas, toalhas, chinelos, um pão ou um bolo, bolachas, afinal a água nos deixava cansados e famintos, ou então levávamos umas melancias, que pegávamos no tabuleiro na beira da estrada onde meu pai as vendia. 

A estrada do Passo dos Vidais até rio Jaguari era de chão batido e com muita areia, ao longo do caminho se avistavam as moradas de alguns parentes, a escolinha, chácaras e lavouras até a entrada no mato. Já dentro do mato uma clareira onde haviam umas duas casas de veraneio e uns banheiros que a prefeitura construiu. Claro, na temporada de férias de verão, o balneário se enchia de acampamentos, acomodados debaixo de árvores frondosas. Para chegar até à água era preciso descer uma rampa, pois o barranco era muito alto pelo lado que acessávamos o rio. A melhor parte de ficar no rio era uma ilha de areia com uns poucos maricás, quase na margem oposta, por isso era preciso cruzá-lo, cuidando de tomar o caminho menos fundo do rio. Os pequenos atravessavam enganchados nos braços dos grandes ou no colo. Nas areias mornas brincávamos, jogávamos bola e podíamos entrar e sair da água na parte mais rasa. Dizem que quando Lili era muito pequena mergulhou toda cabeça em um buraco de água nas margens do rio e foi resgatada rapidamente pelo tio Cláudio, que não desviava o olho na vigilância sobre os pequenos. Meu pai e minha só nos autorizam a ir ao rio se ele fosse o responsável, tal era a confiança nos seus cuidados. 

 O banho no rio Jaguari era uma grande aventura, melhor que a ida nas tardes de domingo, era passar o dia todo no rio, com um churrasco, um carreteiro, milho assado e refrigerante para o almoço. No intervalo, entre os banhos da manhã e da tarde, aproveitávamos para explorar as imediações da mata e brincar com as crianças das famílias dos veranistas acampados no Passo dos Vidais. Depois de já estarmos com os dedos murchos de tanto tempo de molho nas águas do rio, nos reuníamos debaixo de uma árvore e partíamos as melancias. Ao entardecer, quando os mosquitos começavam a nos atacar, regressávamos felizes e exaustos do banho de rio.



sábado, 15 de agosto de 2020

Visitas na vida rural

As visitas no meio rural realizadas na vizinhança são carregadas de cordialidade e solidariedade. A distância dos centros urbanos torna a vizinhança uma comunidade de afetos, de trocas de gentilezas, de favores, de serviços e de participação nas celebrações familiares. A primeira lembrança de Lili de uma visita é a sensação difusa de uma viagem curta, sobre a qual tem como memória imagens entrecortadas, de que acompanhava o pai e um tio ao interior de Jaguari. Uma viagem na Kombi bicolor do Tio Cláudio, na busca de localizar um familiar da Dida, pois estava agoniada por notícias de um familiar. Ela vivia há muito tempo na Fazenda, auxiliava na lida da casa e na criação dos filhos da minha vó. Foi ela quem deu apelidos carinhosos a todos eles. 

As visitas nas redondezas eram rotineiras desde meu avô Alberto. Nas manhãs de domingo ele encilhava o cavalo, saia muito cedo, dependendo da distância, e retornava para o almoço. Visitava os compadres, os irmãos, os tios e os amigos que moravam nas redondezas. Não tardava muito nas suas visitas, mantinha o ritual domingueiro como uma prática fundamental da vida social no meio rural. Minha vó Cinda já deixava as visitas para os momentos mais necessários, sobretudo, para exercer sua solidariedade. Acudia uma vizinha recém parida, levando uma galinha para fazer um bom caldo, externalizava sua consternação com alguém enfermo, como na vez que visitamos o Tio Penin, trocava mudas e receitas com as comadres e também contribuía com as festas religiosas, doando um frango para assar ou fazer um risoto, ou um saco de batata doce, ou uma abóbora para preparar os doces que seriam vendidos nas festas.

Lili se esmerava em cuidar do vestido de organza na cor rosa antigo, bordado com bolinhas da mesma cor, exposto sobre a cama, já separado para o casamento da filha de um vizinho. Era o vestido mais bonito que já tinha usado. Minha mãe aconselhou que eu deixasse o vestido sobre a mesa onde estava o cobertor sobre qual ela passava as roupas com o ferro à brasa, enquanto rumava para o banho. A ansiedade tomava conta de mim, e lá fui eu me atrever a passar o vestido, eu mal alcançava na altura da mesa, larguei-o o ferro quente sobre o vestido, mas não consegui passar. O ferro quente grudou no tecido, sobrando apenas uma marca do ferro desenhada bem no meio do vestido, o delicado tecido havia derretido com o calor excessivo das brasas. Claro, minha mãe se desesperou porque precisou providenciar outro vestido para mim, depois de dar uns bons gritos comigo. Lá fomos rumo à casa do seu Nica na charrete amarela para o casamento da sua filha. Era uma festa ao ar livre, debaixo das árvores, onde estavam as mesas feitas com tábuas longas, dispostas sobre cavaletes, já preparadas para o churrasco do almoço: pratos e talheres, o famoso limão com palitos cravados e copos para as bebidas. Era uma casamento matinal, uma cerimônia simples e depois um festejo com muita música e comida. Já passando a metade da tarde, serviram a famosa torta de casamento. Eu corria pelo jardim e pelo pátio, entrando e saindo da casa, espiava o quarto dos pais da noiva onde sobre a cama estavam expostos os presentes dos convidados para os noivos. E claro não comi da famosa torta, ocupada em brincar com as outras crianças da festa. E me sentia feliz com vestido substituto, era lindo igual ao que havia sido queimado.

Outra visita que fiz com a Vó Cinda e minha mãe foi na casa dos vizinhos que moravam mais perto da fazenda, foi uma visita para desejar melhoras na saúde da dona Ilsa. Era uma chácara localizada logo depois que passava a ponte sobre o arroio da Divisa, à direita da antiga estrada intermunicipal, e fomos na charrete amarela como sempre fazíamos nas visitas. A casa por dentro se mostrava muito limpa e cuidada, muitos guardanapos de crochê sobre as mesas e armários. À esquerda da entrada da chácara um açude, com patos e creio que marrecos. Dona Ilsa parecia realmente adoentada, estava muito pálida e parecia muito fraca, tinha o cabelo liso e reto, na altura do queixo, usava um óculos de lentes grossas. Sentei-me de frente para uma das suas filhas, que deveria ser poucos anos mais velha do que eu. Sentada em uma cadeira de palha ela fazia crochê com muita destreza, fiquei observando e pensando que eu ainda não tinha toda aquela habilidade. Inquieta na cadeira só via a hora de sair pelo jardim, cheio de flores coloridas e chegar até o açude, queria fazer como na chácara da Vó Xiruca, correr aqueles patos em cima da taipa do açude pra dentro da água. Mas fui surpreendida por uma pergunta inusitada da dona Ilsa para minha mãe, olhou pra minha mãe questionando se ela já estava fazendo o meu enxoval. Aquela pergunta me torturou toda o caminho de volta pra casa. Mas fui salva pela minha mãe que respondeu à dona Ilsa que antes de pensar em casar eu precisa era estudar. Depois também entendi, que por força de uma saúde debilitada, dona Ilsa via no casamento um futuro para as filhas, pelo menos esta era a explicação da minha mãe cada vez que eu voltava no assunto. Afinal, fazer crochê com tanta destreza eu tinha tempo para aprender , mas naquele o que eu mais deslumbrava era a escola, meu sonho de Lili.        

Na vizinhança do vô Joãozinho e da vó Xiruca também se ia muito frequentemente à casa dos vizinhos, levar uma encomenda, um mimo para as comadres, pedir uma ferramenta emprestada. Naquelas redondezas, as chácaras eram mais perto uma das outras, porque a maioria dos que viviam naquelas terras eram famílias de imigrantes. A proximidade facilitava as trocas e as ajudas entre os moradores. Numa tarde, fomos visitar a Dona Cristina, vizinha e amiga da vó Xiruca. Minhas tias menores e eu atravessamos o campo em direção ao sul, era um campo coberto de carqueja, as pernas iam ficando arranhadas, cruzávamos a cerca da divisa do campo e depois a estradinha de chão e lá estava a casa no alto do terreno. Essa visita estão naquelas memórias difusas, são objetos e cores que me trazem as sensações do campo. Dona Cristina era uma senhora idosa como o cabelo bem grisalho preso na nuca, ela estava sentada em uma cadeira de balanço. Nas paredes, pintadas em tom verde claro, haviam fotos antigas dos familiares, a peça onde ela estava era uma sala longa, na parte dos fundos da casa, como se fosse uma varanda coberta cheia de folhagens. Minhas tias se orgulhavam de me apresentar como sobrinha, embora não tivessem grandes diferenças de idade comigo.

Outra vizinha da Vó Xiruca que visitávamos era dona Amélia, era a vizinha mais próxima. Para chegar mais rápido na casa dela, encurtávamos a distância passando pela cerca do lado oeste do arvoredo, ali tinham dois tocos de troncos de árvore para facilitar a gente cruzar sobre a cerca. Buscávamos alguma coisa, talvez um queijo, que Dona Amélia fazia para vender. Sempre víamos as filhas fazendo serviço da casa. Era uma mulher com um aspecto duro e parecia ser muito amarga. Gritava muito com as filhas e  me dava medo. 

Quando chegava o verão, apareciam muitas vistas na casa da Vó Cinda, primeiro eram netos e sobrinhos da minha bisavó Lídia. A casa ficava repleta de gente. As melhores camas eram destinadas aos vistantes e os da casa se acomodavam como podiam, hospitalidade da educação familiar. Mas o que mais incomodava as minhas tias era a quantidade de louça para lavar, especialmente a do jantar. Lavar louça e panelas de ferro em bacias grandes, com água quente e sabão e à luz de velas, era um serviço cansativo. As visitas na fazenda dobravam as tarefas domésticas das mulheres da casa. Contam que minha tia Jane chegou a apelidar as panelas de ferro de "vacas", por serem grandes e pesadas de limpar, enquanto chorava pelo excesso de louça que se amontoava para lavar. Minha vó Cinda sempre tinha de reserva muitas latas de bolachas, vidros de compotas, garrafas de licor e caixas de doces para dar conta de receber bem os visitantes na fazenda. Mesmo depois da morte da bisavô sempre a casa tinha muitas visitas, ou no fim de semana ou nas férias.

Para Lili as visitas mais esperadas eram das tias e dos primos e primas, que chegavam para as festas de fim de ano e as férias. Era o momento de ter mais meninas para brincar, mais gente para dividir as brincadeiras debaixo dos cinamomos em frente da casa, de caçar vaga-lumes de noite e, quem sabe, dar um passeio na kombi bicolor do Tio Cláudio até o rio Jaguari, no Passo dos Vidais, para um banho fresco em um dia de muito calor.  

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Sabedorias de um pai

O melhor colo do mundo é de uma mãe ou de um pai. Quando somos bebês o colo da mãe é nossa segurança, conforto e ninho de afeto, fortalecendo os laços incondicionais do amor maternal. Entretanto, para Lili, o colo que era seu ninho de aconchego sempre foi o do seu pai, pois já bem crescida seguia buscando um lugar de acolhida e mimo no colo paternal. Escrever sobre o meu pai é escrever sobre um modo de olhar o mundo e de compreendê-lo. 
Um dia eu estava no gramado em frente à casa da fazenda conversando sozinha. Eu criava muitas histórias e as verbalizava, assumia a palavra de cada personagem e ia desenvolvendo as minhas narrativas. Eram conversas imaginárias, uma forma de Lili inventar seu mundo na infância. Ele passou por mim e me disse: sonhando acordada? Esta sensibilidade traduz quem era meu pai. Na sua simplicidade captava a profundidade dos gestos e observava como tudo se passava ao seu redor. Para ele minhas histórias eram sonhos enquanto perspectivas.

Seus olhos azuis intensos, herdados do seu avô Antônio, às vezes se acinzentavam, outras vezes chegavam a um verde oliva meio desbotado. Dele Lili herdou esse tom na cor dos olhos e desconfia que uma certa resiliência diante do que a vida nos entrega para ser enfrentado.

Bilo, como todos conheciam meu pai, nasceu em uma família de vida simples e dura. Era o quarto filho de uma família numerosa e sendo um dos filhos mais velhos, logo meu avô o colocou para ajudar na lida dos afazeres domésticos da chácara e no serviço da lavoura. Durante o inverno, com apenas sete anos de idade, saia de madrugada para lavoura de arroz. O frio encarangava os dedos dos seus pequenos pés, pois usava um chinelo velho de borracha, era o que tinha para calçar. Nas famílias como a dele, os pequenos trabalhavam desde muito cedo, fizesse sol, chuva, frio ou calor, cedo da manhã já estavam se ocupando do serviço com os animais domésticos ou já se aprontavam para ir auxiliar na lavoura. Os pais contavam com os filhos para o trabalho no campo.
Estudou pouco, cursou só os anos iniciais, até o quarto ano. Primeiro frequentou a escola junto da Fazenda do vô Alberto, iam a cavalo ele e mais dois irmãos. Atravessavam o banhado da várzea e cruzavam o arroio da Divisa para chegar à escola, lá iniciaram a vida escolar. Tempos depois abriu uma escola mais perto da chácara do vô Joãozinho, e eles passaram a frequentar a escola que, na verdade, era uma sala na casa da dona Mariquinha, a professora. A escola recebia as crianças que viviam nas proximidades, misturavam-se alunos de todas as idades e de diferentes níveis de escolaridade. Meu pai ria ao relatar que ele refazia as contas da Dona Marquinha, que não era lá muito boa na matemática. 

De fato, meu pai tinha a matemática da vivência, da prática. Calculava as distâncias com o número de passos dados entre um ponto e outro. Cada canteiro da horta era milimetricamente alinhado e demarcado com uma linha de pesca. Corria os olhos pelo céu e se orientava com a hora do sol, seu relógio era a sensação da passagem do dia assim como analisava os sinais da natureza para fazer o prognóstico do tempo. Os saberes eram acumulados a partir do que havia aprendido ao longo da vida, mostrava uma inteligência intuitiva. Muito do que sabia fazer era artesanal, trançava caprichosamente réstias de cebola e alho, e trabalhava com as cordas com o mesmo cuidado de quem zelava pelos arreios como instrumento de trabalho e também de uso nos momentos de lazer, porque se orgulhava de ser bom laçador e disso fez seu gosto pelos rodeios. 

Aos doze anos já estava trabalhando na vizinhança. Ele contava que sua especialidade era fazer parvas na lavoura de arroz durante o período da colheita. As parvas eram os montes de palha de arroz na forma de cone. Esta tarefa rendia-lhe uns bons trocados. Nesta idade, diariamente ele e seu irmão mais velho tinham também a tarefa de entregar o leite para os clientes na cidade e no retorno trazer as compras encomendadas pela minha vó ou pelo meu avô.

Por volta dos 16 anos foi trabalhar na Fazenda do meu avô Alberto. Lá conheceu minha mãe, mas ele era o peão e ela filha do patrão. Dois anos mais tarde foi para exército,  permaneceu três anos. Retornou à fazenda para seguir trabalhando, meu vô Alberto, por quem ele tinha muito apreço, já havia falecido. Com o meu avô Alberto se transformou em um um homem campeiro e desenvolveu um olhar sobre o campo que deu-lhe uma imensa sabedoria. O retorno o reaproximou da minha mãe, queria cuidá-la, o romance com ela se concretizou e eu nasci pouco tempo depois. Dentro de quatro anos vieram mais dois filhos. Moramos em frente a casa da fazenda por muito tempo, assim ficamos perto da vó Cinda. Ele passou a se dedicar a criação de ovelhas, um pouco de gado e a plantar melancias. Aos domingos fazia um buraco na terra, enchia de lenha, armava um suporte com varas, espetava carne em espetos de galho de laranjeira, que ele mesmo falquejava, e fazia o seu melhor churrasco.
  
Lili sempre recorda dos gestos de agrado do pai, que vinham na forma de presentes singelos como balas de fruta ou de banana, rapadura ou uma caixa de isopor cheia de picolés, comprados na antiga lancheria do seu Nelson. Cada vez que meu pai ia à cidade fazer compras, era certo que trazia uma barra pequena de diamante negro nos bolsos da bombacha, meu chocolate predileto. Este hábito rendeu-lhe o apelido de tio bala, dado por seus sobrinhos. Um Natal eu tive sarampo, fiquei muito fraca e não conseguia comer, para me agradar ele trouxe da cidade uma garrafa de guaraná e biscoitinhos mignon. Com esse agrado especial, meus irmãos decidiram que ficar na cama comigo era uma boa forma de pegar sarampo e também ganhar guaraná e os famosos biscoitinhos mignon da padaria do seu Darci.

Na antiga casa que morávamos havia um pátio com muitos cinamomos. Meu pai escolhia a melhor sombra no verão para sentar e tomar chimarrão nas horas estabelecidas pelo seu ritual gauchesco. Junto à cerca das imediações da casa, havia um pé solitário de cinamomo onde ele deixava o cavalo encilhado, após retornar de uma campereada. Ali, naquele pé de cinamomo, nosso cachorro foguete deitava quase nas patas do cavalo para vigiá-lo. Mais para frente da casa, entre outros dois pés de cinamomos, ele colocou um balanço com uma tábua e um pelego, fez pra mim e depois todos usamos. Ocupava nossas noites de verão, depois da janta, com jogos de adivinhações. Ouvia as piadas e adivinhações no rádio em programas de humor e depois repetia as perguntas conosco. 

Era um homem pouco instruído, mas muito sociável. Preservava as amizades e as fortalecia com gestos de solidariedade, de auxílio a algum vizinho ou amigo na lida do campo. Cada vez que alguém vinha na nossa casa ajudar a carnear um porco, uma vaca, uma ovelha, levava consigo um pouco de carne, linguiça ou banha. Para as visitas sempre havia um chimarrão novo, uma prosa na sombra de um árvore e na saída uma porção de batata doce, um saco de laranja ou bergamota, uns pés alface ou um maço de couve ou uma dúzia de ovos.    

Ao longo da nossa infância tomou pra si a tarefa de ensinar a lida com gado a todos os guris da família. Leva-os para suas andanças na recolhida do gado, no serviço de curar, apartar ou banhar a gado. Primeiro dava voltas a cavalo com os pequenos, depois os ensinava a andarem a cavalo. Umas das minhas primeiras memórias que tenho é a da sensação de tocar as folhas dos pés de uva do Japão, quando numa volta a cavalo com ele percorremos o entorno da casa da fazenda. 

A vida não foi de todo boa com ele. Teve tristezas, desilusões e, sensível como era, tinha sempre votos de confiança nas pessoas. A palavra valia um contrato verbal mais que um de papel. As decepções as colocou no copo das bebidas que passou a tomar, se tornou um homem enfraquecido. No entanto, atento aos sinais do que era importante na vida, um dia decidiu se reerguer. Contou-me que vendo o neto mais velho, ainda muito pequeno, sentar-se em um banquinho bem junto dele, olhando fixamente nos seus olhos não soube o que responder quando foi indagado pelo neto sobre o que estava acontecendo com ele. Desde então compreendeu, sábio como era, que mudar era um gesto que dependia de não sentir mais vergonha. Sentiu-se muito menor que o neto. A sua grandeza o fez tomar outro caminho e esta sabedoria, como tantas outras que acumulou na vida, foi seu maior legado. 

sábado, 1 de agosto de 2020

Noites de diversão

Lili descobria o mundo nas coisas simples. A vida no campo possibilitava imaginar o que estava por vir, sem grandes expectativas, tudo era na medida de viver um dia de cada vez. Cada novidade era um horizonte que se alargava. Foi assim com primeira caixa de giz de cera que eu ganhei da tia Betty, com suas maravilhosas doze cores. Gostava de desenhar as pessoas: meu pai a cavalo, minha família, minha vó Cinda.
Na sala de visitas da casa da fazenda eu vasculhava os objetos sobre a cristaleira. Uma concha enorme em que se podia ouvir o som do mar, sem conhecer o mar; uma escultura de um velho, moldada na cerâmica e uma fruteira com um prato de vidro fosco e pé de metal. Podia-se avistar na prateleira de cima uma jarra rosada, com um medalhão oval branco, e dentro dele a figura de uma menina. A jarra rosada era da minha bisavó Lídia, muito bem guardada na cristaleira e inalcançável para Lili. Na parte de baixo da cristaleira se guardavam as louças melhores e, entre elas, uma das tias costumava esconder caixas de bombons. A descoberta deste esconderijo rendeu alguns roubos inocentes depois do meio-dia, na hora em que a casa silenciava. Distribuíamos os bombons entre nós e guardávamos o segredo a sete chaves.
A sala era a peça da casa menos usada, pois apenas se abria a porta da frente em dias de festa ou de visitas. Era um lugar de silêncio, nas paredes os retratos dos bisavós, quadros grandes e pesados com molduradas largas e douradas. Um único quadro na sala que não era um retrato, na parede oposta à cristaleira, era um quadro do coração Jesus, como se ele estivesse justo naquele local com o propósito de proteger a casa e zelar pelos antepassados. Sobre um tapete de couro de vaca, bem no centro da sala, uma mesa escura com seis cadeiras. Abaixo da janela, um sofá de espaldar e braços torneados, com assento de um couro plastificado de uma cor que lembrava a de uma gemada bem batida. Predominavam na casa as cores amarelo claro em alguns objetos e móveis, como as camas de ferro, e nas paredes, um tom de azul celeste. Acompanhava este sofá, que chamavam de namoradeira, duas cadeiras de braço. O que destoava daquela sala sóbria e clássica era um sofá-cama cor de cenoura. O sofá das dormidas coletivas das crianças da casa, quando havia muita gente para pernoitar, a sala se transformava em nosso quarto, cheio de nossas risadas e conversas até tarde da noite. A sala ganhava vida nas noites das crianças. Nos dias de chuva, deitávamos no piso da sala para jogar varetas. Os jogos eram novidade trazida pelos primos ou nos davam de presente de aniversário e serviam para nos aquietar e nos ocupar nos dias de inverno. Nesta sala também Lili começou sua aventura pela arte do desenho, desenhando sua tia Jane e o namorado.  

Do mesmo modo que na casa da vó Cinda eu me encantava pela jarra rosada, na cristaleira da sala de estar da casa da vó Xiruca eu me deslumbrava por uma miniatura, um conjunto de café, branco e dourado, feito de porcelana. Naquela sala ampla de uma casa simples de madeira, os móveis eram bonitos e bem distribuídos no ambiente. Logo na entrada da sala, à esquerda uma grande cristaleira, um conjunto com um sofá e duas poltronas de braços vergados, forrado em um tom de marrom claro. Ao fundo, estava a sala de jantar com uma mesa de pernas torneadas, um conjunto de cadeiras e um armário com que tinha nas portas vidros verdes, na forma de losangos, contrastando com a cor castanho claro da madeira do móvel, que ganhava mais beleza com os lindos puxadores de metal escuro. Era tão larga a sala para os olhos de Lili que nela podia dançar e bailar livremente naquele espaço entre sala de jantar e o corredor onde, sobre uma prateleira, o rádio tocava as músicas gauchescas preferidas das tias, alegrando os domingos.

O rádio portátil com botões na parte superior, forrado de couro era sempre permitido aos mais velhos, principalmente aos guris. Lili fica desapontada, era a única menina, a desvantagem de ser mulher vinha na hora da disputa pelo rádio. Da janela do quarto eu podia ouvir as risadas dos guris e som alto do rádio, me restava deitar ao lado da vó Cinda e esperar chegar o meio da tarde para, então, ter uma nova oportunidade de conseguir o rádio. Mas nada superou as expectativas de ter o rádio em mãos do que a chegada da televisão.
A primeira televisão que chegou à fazenda era movida à bateria. Uma televisão de tela pequena, a parte de trás na cor turquesa, imagem preto e branco que, para ficar mais nítida, dependia do vento batendo na antena externa, instalada logo na saída para o pátio, muitas vezes a imagem ficava com  chuviscos atravessados na tela. Vó Cinda gostava de futebol e a televisão chegou para que ela pudesse acompanhar a copa de 70. Sentávamos nas cadeiras da sala de jantar para olhar os jogos. Dali olhávamos a pequena televisão localizada na parede estreita entre as duas basculantes da sala de jantar. Acima da televisão havia um quadro oval de madeira, com uma pintura a óleo de uma pastora com suas ovelhas ao entardecer. Esse quadro minha vó Cinda ganhou de presente de uma vizinha que era dada às artes como a pintura de telas. 
Lili lembra pouco dos jogos da Copa, mas foi invadida de imaginação com as novelas. Acalantou o sonho de ser atriz, algo que nunca havia cogitado naquele seu mundo do campo. Eu acompanhava a vó Cinda no horário das novelas, para ver Mulheres de Areia e alimentar meu sonho de ser artista. Vergilino se aproximava pela porta lateral e se acomodava num canto, se encantava não sei se com as novelas ou com o aparelho de televisão. Era um mundo novo, trazido pela tela da televisão, as noites já não eram tão monótonas e nem estávamos tão distantes nem tão isolados na Fazenda.
Além da televisão, depois da janta, quando casa tinha mais netos, jogávamos víspora, um jogo de bingo. Para marcar os números no tabuleiro, que meu pai cantava a cada rodada, usávamos grão de milho ou feijão. Minha vó na cabeceira da mesa, meu pai em um dos lados e os netos que tomavam seus lugares na grande mesa de jantar, às vezes alguma tia se somava ao grupo. O jogo era uma aventura de risadas, choros, gritos e alegrias. Outros dias jogávamos memória com a Vó Cinda, que se divertia espiando os cartões para memorizar a localização ou para encontrar o par da peça que tinha nas mãos. Cada espiada dela em um cartão era um coro de netos gritando: "não vale, não vale". Mas era justamente essas risadas e gritarias que a divertia e criava laços de afetos inesquecíveis dela com seus netos. Lili estava sempre junto, encantada com as novidades, colorindo seus desenhos, aprendendo a vez de jogar e não desistir tão fácil de seus sonhos.
No verão, a diversão à noite ficava por conta de estender alguma colcha ou pelegos no gramado da frente da casa para olhar as estrelas, localizar o cruzeiro do sul entre a lenheira e o famoso pé de ipê rosa da Vó Cinda. Procurávamos estrelas cadentes e os sputniks, como chamávamos naquela época os satélites se movimentando no céu. Uma vez que outra inventávamos máscaras iluminadas com casca de melancia para dar sustos na Maria, a senhora que trabalhava na casa e era muito espantada, sempre se assustava com nossas traquinagens. Caçávamos vaga-lumes para fazer lanternas e assim seguíamos brincando, rindo e gritando no largo gramado além do portão do jardim da casa.    

sexta-feira, 24 de julho de 2020

A tapera e a ladeira

Cada vez que aos domingos cruzávamos o arroio da Divisa de carreta, rumo à casa do vô Joãozinho, passando pelo trecho úmido e alagado da várzea, de longe já se avistava uma coxilha. Lá no alto havia uma tapera, onde ele, minha vó e alguns dos filhos mais velhos viveram nos primeiros tempos, quando vieram morar em uma chácara abandonada perto do meu bisavô Antônio. Depois da morte da vó Carolina, ele se sentia muito sozinho e chamou então o filho João para morar nas redondezas. Todos os dias minha vó Xiruca enviava os filhos mais velhos meu tio Nito, tia Carolina, que ganhou nome em homenagem a sua vó, e meu pai para levar comida para o vô Antônio. Na antiga morada, hoje uma tapera, meus avós permaneceram vivendo em uma casa simples de telhado de capim, ali nasceram outros filhos e foram plantando e criando bichos domésticos para subsistência. Alguns anos depois, meu bisavô Antonio faleceu, seu corpo não aguentou as consequências dos tantos tragos que tomava e sua mente ia piorando com as intempéries do seu mau humor e do seu gênio difícil. A construção da tapera foi desmanchada e a família do vô Joãozinho se mudou para um local mais abaixo da coxilha, na casa onde meus bisavós haviam morado.
Na tapera não sobraram vestígios da existência daquela moradia precária e sem conforto, apenas o taquaral e o pomar resistiram ao tempo. Quando passávamos com a carreta na altura da coxilha era uma festa, apanhávamos bergamotas de cima da carreta, no alto das árvores. Sem dúvida eram as melhores e mais saborosas bergamotas que Lili havia provado na sua infância. Também naquele lugar abandonado se encontravam figueiras, macieiras, pereiras, laranjeiras. Dizem por aí que frutas de uma tapera são sempre as mais doces. 
Na família do meu pai, onde se erguia uma morada, plantava-se muitas árvores frutíferas no entorno da casa. A casa que morei, quando muito pequena, além de já ter um grande arvoredo, com muitas bergamoteiras, laranjeiras, limoeiros e pereiras, meu pai foi variando as árvores frutíferas do arvoredo, tínhamos maçãs, pêssegos, ameixas, figos, cáqui. Em todas as casas que Lili conheceu tinha sempre um parreiral. A tapera marcava um lugar deixado para trás, esvaziado pela saída dos filhos e a morte dos moradores, a tapera das bergamotas, no entanto, ficou para Lili como uma referência da chácara onde nasceu o pai.
Meus bisavós se instalaram naquelas terras assim como outros imigrantes, depois de atravessarem fronteira, vindos do Uruguai, junto com vô Francisco e vó Cristina, os primeiros do núcleo familiar do meu pai. Finalmente foram definindo um lugar para erguer sua morada, fechando o ciclo da sua jornada de migração, desde saída da região abrangida pelo antigo território do império austro-húngaro, antes da primeira guerra mundial, até aquele rincão atravessado pelo arroio do Salso e da Divisa, no interior do Rio Grande do Sul.
Lili ouvia as conversas da tias contando sobre dona Maria Augusta e o senhor Adolfo, irmãos austríacos dessa leva de imigrantes que viviam na vizinhança, conhecidos por suas produções de doces de frutas, passas e aguardente. Adolfo era um senhor curioso, instruído, algo raro para aquela época, produzia mudas de árvores, especialmente de frutíferas, fazia fermentos caseiros, vinagre e vinho. Era um homem inventivo e de muitas práticas agroindustriais. Já dona Maria Augusta se vestia no capricho, colocava roupa boa e sapato de salto e lá ia de charrete comercializar na cidade os quitutes e os produtos fabricados pelos irmãos.
A tapera permaneceu como um lugar cheio de lembranças dos tempos difíceis da família do meu pai, de lugar de nascimento dos tantos filhos do meus avós paternos e das frutas saborosas. Lá ainda se colhiam frutas entre as árvores que restaram e se brincava no taquaral que suportou os ventos e os tempos. Passar pela tapera era o primeiro anúncio de que lá, logo depois de um pequeno açude, represando um riacho, na descida da coxilha, estava a morada que eu conhecia muito bem, a da memória dos meus avós.

A fachada da casa da fazenda do vô Alberto e vó Cinda emoldurava, ao fundo, um dos lados do grande gramado em frente à morada. O gramado era nosso espaço livre de brincar, de correr, jogar futebol e caçador, rolar na grama quando chovia no verão e, à noite, caçar vaga-lumes. Imaginávamos lanternas com os vaga-lumes presos em saquinhos de papel transparente que retirávamos da parte externa das carteiras de cigarro do meu pai e das minhas tias. E as lanternas de vaga-lumes iluminavam nossas brincadeiras naquele vasto gramado, confundindo-se com a luz das estrelas, milhares delas surgiam no escuro da noite.
Quando se chegava na porteira de acesso às imediações da casa, via-se a lenheira à esquerda e, do outro lado, à direita, as mangueiras. A mangueira grande, com seu solitário coqueiro servia para  encerrar as vacas de leite para no outro dia bem cedinho se fazer a ordenha. Nela também se reunia o rebanho de ovelhas para, em uma mangueira menor, separá-las para cuidar dos machucados e dar remédios. Quando a mangueira grande estava vazia, dávamos um jeito de pular a cerca alta de tábuas ou abríamos a pesada porteira de madeira com ajuda de um dos maiores. Com uma longa taquara cutucávamos os coquinhos para que caíssem lá do alto do coqueiro solitário. Eram um cocos diferentes, meio ovalados, com uma fibra por fora, para abri-los, pegávamos uma martelo para golpear o coco e comer suas deliciosas amêndoas. Na família contavam que o coqueiro era proveniente de uma muda trazida por um mineiro que se casou com a tia Santinha, irmã do meu avô Alberto. Havia duas grandes porteiras na mangueira do coqueiro solitário, a do fundo dava para a ladeira. Na mesma linha da cerca da mangueira seguia uma cerca de arame, dividindo o espaço das redondezas da casa e o campo de baixo. Ali havia um conjunto de pés de uva do japão, que os animais adoravam comer, e uma porteira pequena por onde também se cruzava para o lado da ladeira.
A ladeira descia alguns metros em direção ao mato da Divisa, passando por um banhado coberto de caraguatá, ali ninguém entrava a pé, só a cavalo para rebanhar alguma vaca ou ovelha perdidas. Caraguatá é um tipo de bromélia do mato, cheia de espinhos nas folhas, lá a gente não se atrevia a chegar para não encher o corpo de arranhões por causa dos espinhos. A ladeira era um campo onde ficavam os animais que precisavam ser alimentados, como as ovelhas com cria e as vacas de leite. Era o campo do Tarugo, da Ruana e do Petiço, cavalos mansos da lida diária. Porém, a magia da ladeira era aproveitar o declive do terreno e descer escorregando o gramado roçado pelas ovelhas. Lili, os irmãos e os primos desciam a ladeira cuidando de não ultrapassar o limite do mato de maricás, para não se arriscarem e se meterem no meio dos caraguatás. Meu irmão ganhou um carro de madeira feito pelo meu tio Nito, um carrinho de quatro rodas, fechado nas laterais, que parecia mais a carroceria de um caminhão. Colocávamos os mais pequenos dentro e lá do alto empurrávamos e íamos correndo, gritando e dando risadas junto ao carrinho para testemunhar a cambota que ele dava no final, derrubando quem estava dentro. Posicionávamos o carro logo abaixo do grande cocho de alimentar as ovelhas, na parte mais alta do campo, onde o terreno era mais limpo e livre para dar impulso no carro e ver ele descer ladeira abaixo. Neste lugar, se avistava a estrada intermunicipal pela direita, seguida, até uma em certa altura, por uma linha de velhos eucaliptos, que davam para dentro do campo. Bem depois da longa curva da estrada, chegava-se a uma ponte de madeira sobre arroio da Divisa. Quando o ônibus apontava na saída da ponte, era preciso correr para chegar a tempo até a parada em frente à timbaúva, na porteira da fazenda.
Do outro lado do matinho de maricá, que floria sempre no mês de março, prenunciando a chegada do outono, podia-se sentir o perfume das flores e o zumbido das abelhas, dando-nos certeza de que o mel daquele ano seria com aroma da flor de maricá. Neste outro lado, o terreno era um tapete mantido pela ovelhas que pastavam e, ao mesmo tempo, roçavam o campinho. Ali a ladeira tinha uma descida mais abrupta e, na parte mais baixa, um pequeno poço de água. Por muito tempo existiu a sobra de uma armação coberta de santa fé nas imediações do poço e, bem à direita, na curva do poço, uma cacimba de água cristalina. Uma água limpa e fresca que podíamos beber sem restrição e que minha vó Cinda mandava buscar para lavar os cabelos, tal era sua pureza e efeitos na saúde dos cabelos. O medo maior era o de cair nas águas fundas da cacimba, medo que sempre me rondava. Por muito tempo minha mãe lavou roupa naquele poço da ladeira. Trouxas de roupa eram esfregadas e lavadas ali desde da época da Dida, que lavava toda a roupa da casa da vó Cinda naquele poço. Levava-se manhãs lavando roupa, estendia-se sobre uma parte plana as roupas que precisavam ser alvejadas, para o que o sol fizesse o trabalho de desencardi-las. Nosso cachorro Titinho acompanhava minha mãe e ficava na vigília das vacas e ovelhas que se aproximavam para que não pisoteassem nas roupas, quarando no sol quente do meio da manhã.
Outra diversão na ladeira incluía pescar lambari no poço. Sobre a tábua de lavar roupas um dos maiores se apoiava na espreita de que os lambaris viessem beliscar as minhocas que usávamos como isca, assim ocupávamos algumas tardes na pescaria. Desde a parte mais baixa da ladeira, entre o poço e a várzea tomada de caraguatá, eu olhava para linha de pinheiros araucárias que meu pai havia plantado na divisa do arvoredo novo com campo da ladeira, mudas feitas pela vó Cinda. Intercalados entre as araucárias, pés de goiabeira e, mais adiante, seguindo a cerca, na mesma linha divisória um mato com muitas pitangueiras. Naquele alto da ladeira, no entardecer vislumbra-se o pôr do sol entre os pinheiros e também se avistava, lá muito distante, o imponente cerro do Loreto.
A tapera e a ladeira são lugares de memória, de sabores frutados, adocicados e frescos. Lugares nos quais Lili aprendeu o significado dos espaços, enquanto comia bergamotas da tapera e deslizava pela maciez do gramado no declive da ladeira. 

sábado, 18 de julho de 2020

Lili e os verbos do trabalho feminino


Uma noite Lili acordou assustada debaixo da mesa da sala de jantar. Não sabia porque estava estirada naquele piso frio. Estava com nariz colado na cerâmica de cor vermelho escuro, decoradas com delicadas linhas brancas. O desenho de cada lajota resultava em formas que lembravam favos de mel, como os construídos pelas abelhas, perfeitamente encaixados. Eu havia caído do banco de madeira que se usava junto à mesa da cozinha e, às vezes, na grande mesa da sala de jantar. Acima, na viga que separava a sala de estar da do jantar, descia o liquinho pendurado por um gancho, que o suspendia e ajudava a dar ao lampião à gás um ar de lustre, iluminando os dois ambientes. Quando havia poucas pessoas na casa, ficávamos na cabeceira da longa mesa de madeira natural aguardando a hora da janta. Todos os dias, ao anoitecer, meu pai vinha acender o liquinho para minha vó. Quando nos mudamos para cidade, meu pai continuava vivendo no campo, então, quando a noite chegava, ele vinha da nossa casa, do outro lado da estrada, acender o lampião à gás e jantar com minha avó. Trazia com ele uma lanterna para iluminar o caminho na volta, já na noite escura.
Sentada na ponta da mesa, vó Cinda fazia crochê com a luz que nos dava o lampião à gás, muito mais potente que a do Aladin, o lampião à querosene que ficava na mesa da cozinha. A luz elétrica chegou naquela região no final dos anos setenta, assim como a estrada asfaltada que cruzava o campo da fazenda, dividindo-o em duas grandes partes. O progresso custou a chegar na fazenda, embora já tivesse existido, no grande galpão da charrete, um quarto, uma separação em madeira onde havia um gerador e um velho motor a óleo desativados, dos tempos em que existia na fazenda um sistema de iluminação alimentado por uma pequena de usina a óleo.
Nos meus dias de Lili, esses dois lampiões, além das velas, eram as fontes de luz que tínhamos para as noites e os seu serões. Lili adorava esta palavra pronunciada por aqueles que iam até mais tarde terminando algum afazer inacabado, os serões ocorriam nas noites de jantas de aniversário ou de trabalho. Eram noites mais prolongadas, para finalizar uma costura ou mais uma carreira de crochê, escolher o feijão catando as sujeiras, colocando-o de molho para o almoço do outro dia ou aguardar o bolo terminar de assar para café da manhã seguinte.
Eu gostava de fazer de cama o velho banco de pintura descascada, já desgastada pelo anos de uso, o que lhe dava um ar de arte decoupage, parecia ter sido pintado com sobra da mesma tinta amarela da cor da charrete. Eu cabia exatamente no comprimento do banco, mas a toalha de plástico, de fundo branco, decorada com figuras de peras, figos e bananas encostava na altura do banco. Coberta pela toalha, fiquei um bom tempo ali enquanto a vó Cinda dava cabo de mais uma longa carreira do seu crochê. Pela grande volta, a tal carreira deveria ser a da pontilha de mais uma colcha, ou mais um crochê no acabamento dos quadrados da colcha de retalhos que há dias ela vinha trabalhando e combinando, ajustando os quadrados com cores e estampas. Uma colcha de retalhos nascia do  aproveitamento de sobras de tecido e serviam para cobrir as camas ou ainda de cobertas leves.
Minha vó Lucinda era uma mulher de muitos afazeres e de muitas habilidades, como era natural no papel assumido pelas mulheres que viviam no campo ao se encarregarem de suprir as necessidades e  o conforto da família. As suas rotinas se dividiam no criar e cuidar, desde os filhos até os animais domésticos. Minha mãe tinha sempre na sua lista de cuidados cordeiros e terneiros órfãos. Ela os alimentava, dava-lhes nomes e mimos, uma ocupação herdada da minha vó. Lili observava e aprendia a respeito da vida das mulheres nessas rotinas domésticas, que também incluíam atender ao protocolo de acolher e receber bem os membros da família e os parentes que traziam suas queixas e suas mazelas. Para esses dias de visitas, a despensa precisava estar abastecida com bolachas, doces de frutas como  peradas, goiabadas, figadas e pessegadas, algum licor de fruta, passas de pera, pêssego e figo em calda, doces de abóbora e batata doce. E uma galinha ou um pernil assados, de véspera, no grande forno localizado na área contígua à despensa, para o almoço do domingo. Semanas de trabalho e de preparo para ter sempre algo a oferecer às visitas. A etiqueta do bem receber na vida do campo abundava de produtos da fazenda, um orgulho pela fartura de comida a oferecer.
Eu havia dormido e caído do banco. Naquele estado de sonolência a vó Cinda deu um jeito de me erguer do chão frio e tomamos o rumo do quarto. Compartilhávamos o quarto que dava para o jardim, localizado bem no canto esquerdo da construção. Havia no quarto três camas de ferro pintadas de um amarelo claro contrastando com a pintura azul celeste das paredes. Entre elas havia uma mesinha de ferro onde colocávamos os castiçais com as velas, o livro de reza da vó e um rosário, no outro espaço entre as camas, a cadeira de madeira com uma almofada bordada que se usava para sentar junto à máquina de costura. Nessa cadeira eu sentava para a longa tarefa de fazer intermináveis tiras de correntinhas de crochê, por dias as fazia até aperfeiçoá-las. Era o modo que a Vó Cinda havia encontrado de me ocupar para que eu não fugisse para a área do galpão, território masculino pouco permitido a meninas inquietas como Lili. A cama do meio era dela e ficava em uma posição privilegiada, já que em certas noites, deitada na cama, podia-se apreciar a lua cheia bem em frente à janela e acompanhá-la subindo no céu. E também localizar, no céu estrelado, as três marias que no verão se erguiam no alto do jardim. As outras duas camas eram usadas por duas das tias solteiras que ainda moravam na casa. As duas tias trabalhavam na cidade e durante os fins de semana voltavam à fazenda, por isso que nos intervalos entre os fins de semana eu me adonava de uma das camas, dormia sempre ao lado da minha vó e a observava antes de dormir, rezando e contemplando um quadro com uma ilustração da via crucis, acima da cama que eu dormia. O quarto tinha um guarda-roupa com um espelho na porta do meio, onde eu gostava de me olhar cada vez que experimentava uma roupa feita pela vó. Lembro que na porta da direita, na última prateleira, entre algumas caixas, tinha um livro de ervas medicinais. Minha vó era precavida como toda mãe e avó que cuida, consultava o livro para tratar de algumas dores comuns que uma vez e outra atacava alguém da casa. Logo à direita, passando a porta cinza de duas folhas, na entrada do quarto, estava uma penteadeira. Na parte superior três espelhos, um central grande e dois laterais que permitiam as tias verificarem como os cabelos estavam penteados atrás da nuca. Os espelhos laterais se moviam e facilitavam para ver os rabos de cavalo, os coques e ajeitar as vestimentas na parte detrás. Na parte inferior do armário, duas portas e duas prateleiras onde eu guardava minhas roupas. A parte mais bonita do móvel era a dos desenhos de flores nos azulejos, que pareciam trombetas de anjos, localizados entre o conjunto de espelhos e o tampo de mármore. Aquela barra decorada com azulejos dava requinte à penteadeira, por coincidência, as flores se pareciam com as de um arbusto que ficava logo abaixo da janela lateral do quarto, que minha vó Cinda chamava de cartucho. Na altura dessa janela, atrás da cama, encostada na parede, havia uma máquina de costura, sob o olhar do retrato da minha trisavó Amélia, um quadro oval com uma fotografia com apresentava retoques de pintura. Me sentia incomodada com o seu ar severo e carrancudo, tinha cabelo muito curto, feições duras, vestida com roupa preta de luto e uma corrente com um medalhão. Dali ela podia ver sua neta Lucinda costurando durante algumas tardes. Ora fazendo suas roupas íntimas como camisolas, calcinhas, pijamas, ora fazendo remendos e pequenos consertos.
A hora mais divertida neste quarto era o momento de costurar as roupas para as minhas bonecas. Os dias de costura da vó Cinda eram meus dias de criação. Naquela oficina de remendos e também de confecção de lençóis, toalhas, guardanapos, minha mãe batia o pedal da máquina fazendo remendos nas bombachas do meu pai ou improvisando joelheiras para calças dos meus irmãos. Em frente ao guarda-roupa eu brincava sobre o tapete de couro de vaca já gasto pelo tempo, e recolhia retalhos dos tecidos, juntava os botões perdidos no chão e as sobras de fitas, galões e vieses coloridos para criar as roupas das bonecas. Confeccionava as vestimentas da Luci, dei-lhe o nome da tia que me presenteou, Karen, minha sorridente boneca negra e Nina, a boneca de plástico simples, a maior das minhas bonecas, que ganhou um vestido de festa da Vó Cinda: uma saia de organza azul claro com uma blusa de um tecido azul bordado com fios dourados. Minha boneca de plástico simples era glamuorosa por causa da minha vó.
Enquanto estavam na máquina de costura, minha vó e minha mãe deixavam espalhadas sobre a cama caixas com sobras de tecidos e acabamentos e vidros com botões variados. Em uma tarde de costura, Lili se encantou por uma argola verde limão com bordas onduladas, provavelmente detalhe usado em alguma roupa das tias. Lili viu nela um lindo anel, colocou-o no dedo anular, porém ao querer retirá-lo ele não saia do dedo. Lili então buscou socorro com Marlene, uma jovem que desde menina foi trabalhar na casa da Fazenda e ajudava a cuidar os pequenos. Ela providenciou água e sabão e fez massagens no meu dedo anular para facilitar que a argola se soltasse. Uma das tias zombava de que a argola iria ficar pra sempre no meu dedo e vendo meu choro compulsivo, minha mãe resolveu então apelar para meu pai para resolver o problema. Em seguida, vi meu pai aparecer na porta da cozinha com um alicate na mão. Desesperada, com medo e já imaginando que fosse necessário cortar o dedo, para se ver livre da argola verde limão, Lili se desesperou e escapou. Corri umas duas voltas no enorme gramado em frente à casa até meu pai me alcançar e quebrar o meu anel verde com o alicante. A argola verde limão se foi e o meu dedo saiu ileso.
Em umas férias de verão fui passar uns dias na casa da minha vó Xiruca. Lá minhas tardes se dividiam em comer queijo com mel ou frutas do arvoredo, tão bem cuidado do meu avô Joãozinho, e correr os patos para dentro do açude, para ver como colocavam a cabeça para debaixo da água bicando os lambaris para se alimentarem. Pelas manhãs, via minha avó e tias mais velhas lavando uma grande quantidade de roupas da casa no açude, lavavam sobre tábuas improvisadas. Na beira do açude esfregavam, batiam e torciam as roupas de toda família. Com muitos filhos minha vó se desdobrava entre os afazeres do dia a dia, assava pão em um forno pequeno na forma de iglu, localizado logo na saída da grande cozinha da casa. E fabricava bolachas, bolos e doces. A família do meu pai, descendentes de imigrantes, não tinha empregados, desde muito pequenos os filhos se ocupavam de auxiliar na lavoura e na criação dos animais. De madrugada, meu pai e meu tio mais velho, desde guris se encarregavam da entrega do leite fresquinho para os fregueses da cidade e, no retorno pra casa, traziam as encomendas do meu avô como rolo de tabaco e erva.
A entrada na chácara era por cima da taipa do açude, logo na chegada à taipa havia um pontilhão por onde corria um canal de água para abastecer os animais, fazendo a volta no entorno do terreno próximo à casa. Um taquaral contornava o açude do outro lado, fazendo um quebra vento que protegia o arvoredo. Entre as raízes daquele imenso taquaral, uma quantidade inacreditável de patos se reproduziam e se criavam livremente. Os patos e marrecos nadavam nas águas do açude e davam beleza àquela entrada nas imediações da casa. E alimentavam a grande família do meu pai assim como a variedade de plantas na horta, as frutas no pomar e as plantações das pequenas lavouras, caprichosamente cultivadas pelo meu avô.
Igual que minha vó Cinda, minha vó Xiruca precisava dar conta das tarefas domésticas e ainda ter tempo para bordar, costurar e remendar. Era uma rotina intensa de trabalho para suprir as necessidades de todos e ainda sobreviver às dificuldades da vida no campo. Era a ultima a se recolher, depois de arrumar a cozinha, fechava a porta e carregava o lampião à querosene para chegar até o quarto. Deitava tarde e exausta, logo cedo era a primeira a levantar. Ela madrugava para tirar leite e bem cedinho enviar os filhos mais velhos para cidade entregar as garrafas e os tarros de leite. A venda de leite era uma das fontes de renda da família e a primeira obrigação do dia para minha avó, mesmo nas madrugadas frias de inverno, normalmente com a barriga crescida de mais uma gravidez.
Os verbos do feminino assim se apresentavam para Lili como sinônimos de trabalho e cuidado. A dedicação resignada das mulheres mais maduras apontava um esforço para viver no campo, meu primeiro mundo. Mas havia ali um modo de resistir. Resistir pelo amor, pelo zelo, pelos remendos e consertos, pelo alimento que se produzia a cada dia. Enquanto observava o movimento das mulheres, Lili criava as roupas para as bonecas e desenhava futuros.

domingo, 5 de julho de 2020

Vergilino, o guardião da infância

Quando somos pequenos os mais velhos costumam dizer que existem anjos que nos acompanham e os protegem. Nosso guardião na casa da Vó Cinda era o Vergilino. A história da chegada dele na fazenda sempre foi contada como consequência de uma fuga. Nos dias de vida no campo, Lili arregalava os olhos e ficava na escuta cada vez que contavam a versão trágica sobre a vida do Vergilino, muito antes dele viver nos aposentos modestos do quarto dos arreios.
O laço familiar que se conhecia dele era um tal de cabo Chico, um tio que o havia criado desde muito pequeno. Um dia Cabo Chico apareceu com o menino a tira colo na fazenda, um negrinho com cerca dez anos, muito assustado, de olhos arregalados e de poucas falas, pois na chegada já se notava seus traços de gagueira e um pouco de sua dificuldade mental. Nas conversas da família davam conta de explicar que essas limitações foram causadas por um incidente entre pai e filho. O pai do Vergilino teria ameaçado e golpeado com um facão aquele frágil corpo de menino, ferindo-lhe a alma mortalmente. Daí em diante, Vergilino carregaria as marcas de um grande trauma. Era uma estória que camuflava o fato de que talvez ele tivesse um tipo de afasia, certamente, com um significativa conexão com sua lentidão mental.
O encontro da Lili com as debilidades da mente não era novidade. Tia Terezinha, irmã mais velha do meu pai, era uma moça alta, bonita, embora muita branca e frágil. Seu corpo mal suportava ficar em pé, precisava de apoio para andar. Dizem que seu estado era sequela de uma meningite que lhe havia enfraquecido o corpo e perturbado a cabeça. Lembro-me de suas feições delicadas, da pele alva e de seus cabelos lisos e finos, aparados na altura do ombro. Durante o dia, minha vó Xiruca a colocava sentada na cozinha, ao lado do fogão à lenha. Sentava em um cadeira grande de madeira, com assento e espaldar de palha, com umas almofadas para deixá-la mais confortável e, sobre as pernas, uma manta para aquecê-la. Naquele canto minha vó a mantinha aquecida, porque ela parecia sempre estar com frio. Durante a noite, quando tinha dificuldade de dormir, costumava balbuciar sons, repetindo os que os demais da casa usavam para chamar galinhas, pintos e os cachorros. Era só o que tia Terezinha conseguia pronunciar.     
Acolhido pelo meu avô Alberto, o menino Vergilino foi crescendo e tornou-se um empregado da casa, principalmente para os serviços mais domésticos, dadas às suas dificuldades cognitivas. Ocupou-se a vida toda dos afazeres do pátio, das imediações da casa: tirar água de balde, várias vezes ao dia, do poço que ficava debaixo da parreira, e assim manter abastecida a tália de barro; cortar lenha para o fogão da cozinha da casa; preparar toda sexta-feira o forno para assar os pães e adivinhar qual era resmungo da vez que afligia minha vó, comum nos dias de fazer pão; cuidar e limpar a horta; dar comida para os bichos domésticos; capinar as carquejas, guanxumas e urtigas do pátio; varrer os galpões e o pátio dos cavalos, entre tantas tarefas de manutenção e limpeza do entorno da casa.
Mas a tarefa mais importante e imprescindível era a de manter o fogo do chão aceso. E na peça onde o fogo mantinha-se vivo, Vergilino passava suas horas de folga, tomando seu mate, de quando em quando aquecendo água na chaleira preta sobre uma trempe de ferro, ou aquecendo-a em uma cambona de lata de azeite, com uma alça de arame, feita por ele. O fogo do chão era mais do que o círculo de ferro que circundava o local exato onde se colocavam as lenhas para o fogo, era uma peça grande com espaço para bancos mochos, para hora do chimarrão dos empregados, e para uma cadeira escura e lustrosa, feita de um tronco de árvore que era a poltrona do Vergilino. Em um dos cantos da peça, contra a parede do galinheiro havia um pequeno depósito, uma meia parede atravessada de modo diagonal, onde se guardava toda a lenha que abastecia o fogo do chão. Na parede que dava para o pátio interno coberto pela parreira, na parte superior, havia uma longa janela com vidros opacos e amarelados pela mistura de fuligem e gordura do ambiente, causada pelos assados que também se fazia no fogo do chão para alimentar os peões nas madrugadas que antecediam a saída para o campo, em dia de longa jornada campeira. 
Uma tarde de inverno auxiliei a vó Cinda e minha mãe na fabricação de velas. Enquanto a mistura de sebo com cera de abelha fumegava no fogo de chão me cabia a tarefa mais segura e simples, pelo pouco tamanho que eu deveria ter, a de enfileirar as formas feitas de canos de taquara para receber o líquido quente, cuidando para que o pavio feito de barbante se mantivesse centralizado nos canos e a vela não ficasse torta depois de esfriar a mistura. O fogo do chão era usado para muitas outras lidas da casa. Ali naquela peça lúgubre, de paredes tingidas pela fuligem acumulada de anos, de pouca luz e ventilação, durante as tardes de verão saiam tachadas de doce e, à tardinha, lotes de espigas de milho assado em espetos de ferro improvisados pelo Vergilino.
Mas o que eu mais gostava de fazer era de descobrir os esconderijos secretos do Vergilino para os pinhões, que ele juntava debaixo dos galhos. Os pinheiros ficavam entre o chiqueiro dos porcos e o poço do Arvoredo, um poço de água barrenta e fedida, coberta por um limo verde onde, claro, os porcos se banhavam. Os pinhões se espalhavam pelo chão, caídos das pinhas que estouravam lá do alto dos pinheiros. Um achado ter pinhões já guardados pelo Vergilino, porque evidente ele sabia que as crianças da casa conheciam seus dois lugares secretos: uma caixa de madeira com um furo no meio na parte superior, onde ele apoiava a cuia, e com uma única abertura, na qual ele enfiava um punhado de pinhões. Outro esconderijo ficava em um longo vão, uma canaleta localizada na divisão entre a parte de tijolo e a de madeira da parede que separava a área do fogo do chão do corredor do banco de carpinteiro. No vão, bem ao lado do radinho de pilha, sempre havia pinhões. Colocávamos os pinhões no meio das brasas para assar e o cheiro de pinho invadia o lugar, confundindo-se com a fumaça que se podia ver melhor, quando uma fresta de sol atravessava um vão do telhado e trazia um facho de luz para dentro da peça. Lili gostava de procurar de onde vinha aquele facho de luz que cruzava sobre o fogo e batia nas latas de banha, acomodadas sobre uma bancada de madeira logo abaixo daquelas janelas de vidro, sujas e ensebadas.  
Vergilino sempre tinha um guaipeca de estimação, que andava no encalço dele por todos lugares onde ia fazer suas pequenas lidas da rotina. E o carro de mão era usado pra tudo, facilitava carregar, além da lenha, sacos de mandioca, batata, alguma comida para os porcos e também os montes de ciscos das suas varridas de pátio. O mais prazeroso e divertido carregamento do Vergilino era levar os pequenos para dar uma volta no carro de mão. E os cuidava com zelo e um sorriso inocente de quem também se sentia um pouco criança.
Logo que nasci fiquei morando com meus pais na casa da fazenda. Dois anos depois, com a chegada do meu irmão, meus pais se mudaram para casa do outro lado da estrada. Foram morar lá assim que meu tio Alfredo, irmão mais velho da minha mãe, mudou-se com a família para a cidade. Mas eu não me acostumava com o afastamento da minha vó, então alguns finais de tarde minha mãe me banhava, me ajeitava e o Vergilino me buscava para dormir com a Vó Cinda e vinha com seu carro de mão. Lili era a princesa que ele carregava no seu carro de trabalho, transformado em uma carruagem campeira, eu era tão pequena que nem conseguia pronunciar todo seu nome, chamava-o de Lino. 
À noite ele sentava na cabeceira da mesa da cozinha, perto da entrada da porta, aguardando a hora da janta. Quando a cozinha estava cheia, sentava na caixa de lenha em frente, no lado de fora. Ali ficava ouvindo as conversas, ouvindo minhas tagarelices enquanto a vó Cinda fazia algum crochê e aguardávamos a comida ficar pronta. Antes de comer, tomava sua dose de biotônico, guardado na primeira prateleira externa do armário aéreo azul turquesa da cozinha. Jantava um prato fundo alto de comida, o que nos deixou uma referência familiar de comer muito: um prato muito cheio era comer como o Vergilino. E ele ria meigamente do que se passava naquelas noites na cozinha, talvez não entendesse muito bem, mas era a presença dele que dava calor e aconchego àqueles momentos.  
Pouco adiante do Jardim, do lado direito da casa, havia uma grande lenheira, junto à cerca que separava o largo gramado da frente da casa e o campo das vacas mansas. Este nome do campo supunha-se por ser aquele campo onde pastavam as vacas de leite. A lenheira se organizava em armações com moirões para cercas, tábuas velhas e troncos já aparados para o uso. Essas armações tinham um formato como aqueles das casas suíças, como telhados que descem até o chão. Ali o Vergilino passava algumas tardes cortando lenha para abastecer a casa do forno e o depósito do fogo do chão. As lenhas ajeitadas verticalmente permitiam formar um espaço interno, onde nasciam pés de hortelã que cheiravam forte por causa das nossas pisadas, cada vez que nas brincadeiras nos escondíamos dentro daquelas armações. 
Vergilino criou também seus lugares especiais, que ele cuidava e zelava. Ao lado das bananeiras preparou um terreno e fez sua horta, ali plantava tudo que traziam de mudas de ervas e frutas. Era o único lugar da casa que tinha amora, que a gente chamava de framboesa e um lindo pé de grinalda. Naquele terreno cercado ele cultivava os chás que muitas vezes nos socorria dos pequenos males. Vergilino foi assim organizando seu mundo na sua medida.    
Não me era permitido andar pelas acomodações do galpão, sobretudo as ocupadas pelos peões. Esperava a hora em que eles estavam nos seus afazeres para circular pela casa dos arreios, também chamado quarto dos arreios. Nem sempre aquela peça do galpão foi a casa dos arreios, que metade funcionava como uma selaria, outra metade como quarto do Vergilino. 
Esta parte das acomodações da fazenda era a mais antiga de todas, foi um bolicho de campanha. Meu avô Alberto nasceu na velha casa que ficava mais ao fundo, onde restava uma enorme figueira, uma bergamoteira, um cinamomo caído e uma parreira esparramada sobre as outras árvores . Mais a frente um pé de laranja azeda e, no chão, os restos do alicerce da antiga casa da família. Na aquela época, na parte mais da frente, só havia este bolicho, as portas de duas folhas da casa dos arreios eram vestígios de que aquele era um lugar aberto aos que chegavam. Pelo lado de dentro ainda existiam as velhas prateleiras de expor as mercadorias, construídas pelo meu bisavô Antônio, o carpinteiro que morava do outro lado do arroio da Divisa, mostrando como meu bisavô Alfredo se servia das habilidades de carpinteiro do meu bisavô Antônio, o germânico fortão de olhos azuis. Logo após a saída da porta,  dois cinamomos resistindo ao tempo. Em um deles havia ganchos de ferro para amarrar as cordas dos freios dos cavalos dos visitantes do bolicho. A herança desta época ficou simbolizada em um banco de ferro, com uns furos na forma de pequenos círculos, cravado no tronco da árvore. Quando criança a gente tentava puxar, mas ele não se movia, pois se encontrava fixado definitivamente no tronco do velho cinamomo, bem na altura onde conseguíamos sentar. Neste banco o Vergilino sentava para ouvir seu radinho de pilha e ficar à espreita das crianças. A vigilância dele sobre nós obedecia o princípio instituído por ele, de que os grandes não podiam bater nos pequenos.
Anos mais tarde, com fim do bolicho, a peça se destinou à casa dos arreios, com seus cavaletes com as selas e os pelegos. Cada cavalete continha um conjunto de arreios de alguém da casa, freios e cordas eram pendurados em ganchos de arame que desciam desde o teto, passando em certa altura por uma garrafa. Esta técnica da garrafa evitava a descida desenfreada dos ratos e evitava que cordas e freios não fossem devorados pelas ratazanas. E as prateleiras fabricadas pelo meu bisavô Antônio passaram a ser o lugar de colocar medicamentos para o gado.
Na outra metade ficava os aposentos do Vergilino. Havia um baú para suas roupas, uma prateleira na parede e uma cama de madeira. Tomava banho no açude, embora fosse hábito duro para ele, administrava mal a necessidade de tomar banho, muitos resmungos com minhas tias toda vez que elas sugeriam que era preciso tomar banho. Lá no poço da ladeira banhava-se e lavava suas roupas. Muitos anos dormiu ali, com pouca privacidade, sob a luz fraca de um lampião à querosene. No lado oposto da sua cama, perto da janela, havia outra cama, era uma maca de couro, usada para sesta de alguns empregados ou mesmo para dormirem à noite, sobretudo no verão, por causa da janela que dava para frente da casa, por onde entrava a brisa da noite e se ouvia o vento balançando as folhas dos velhos pés de cinamomos.
Em uma reforma realizada na área dos galpões, muitos anos depois que minha vó faleceu, Vergilino finalmente teve seu próprio quarto. Foi ficando sozinho, os cabelos grisalhos denunciavam a idade avançada e, cansado, foi deixando sua lidas mais pesadas. Nos domingos, depois do almoço ia buscar a sobremesa que minha mãe separava pra ele, sorria feliz com um prato de arroz de leite. Mas a saúde foi se debilitando, sozinho já não tinha condições de cuidar de si mesmo. Morreu em um asilo de idosos.
  

    

Carapé

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